AS ARMAS, DE ONDE VIERAM?

por Carlos Chagas

Para não dizer que as lambanças se restringem ao Brasil, vale olhar para fora e verificar o que acontece na Líbia. As telinhas estão repletas de imagens mostrando o avanço e a vitoria dos rebeldes. Não dá para ignorar o armamento sofisticado que eles utilizam. Obuses, quer dizer, canhões, de útima geração, podem ser vistos vomitando petardos sucessivos. Manobrando-os estao cidadãos sem farda, mas armados com submetralhadoras modernas. Mesmo ficando em terra, abstraindo-se os mísseis e foguetes lançados pela Otan, a pergunta que se faz é como esses dissidentes conseguiram recursos para adquirir armamento de primeira linha? E de onde vieram os canhões, as metralhadoras e os veículos de transporte, se na Líbia não há produção nem indústria bélica?

Claro que tudo provém dos países empenhados em afastar o ditador Kadaffi. Se forem examinadas com lupa, as fotografias mostrarão, entre os amotinados, certas figuras também em trajes civís, mas sem semelhança com com a massa rebelada. São os instrutores, eufemismo para designar oficiais e técnicos americanos, ingleses, italianos e franceses, encarregados de conduzir a guerra. No fundo, os contratos de petróleo.

Líbia. A luta pelo petróleo começou ainda antes de a guerra pelo país acabar

Itália, França, Reino Unido e Qatar partem em vantagem devido ao apoio explícito aos rebeldes

 

por Sara Sanz Pinto

Muammar Kadhafi está em fuga, a cidade natal do líder líbio ainda não foi tomada, mas as potências internacionais já estão no terreno para garantir o seu quinhão das riquezas do país. E quem mais ganha é quem mais próximo está do Conselho Nacional de Transição (CNT) para a Líbia. Itália, França e Reino Unido – países que mais ajudaram os rebeldes a derrubar o regime do coronel e os primeiros a reconhecer o CNT (braço político da oposição) como governo legítimo do país – apresentam já claras vantagens no terreno, bem como o Qatar que, além da Al-Jazeera, muito contribuiu para o sucesso da revolta.

Na semana passada, segundo a Euronews, os rebeldes falaram em dar 35% dos novos contratos de exploração aos franceses. À espera de proveitos estão também as gigantes britânicas BP e Shell e a italiana Eni. De acordo com a agência Reuters, o director-executivo da Eni, Paolo Scaroni, esteve ontem reunido com o CNT no Leste da Líbia, sendo o primeiro empresário a visitar o país desde que a oposição assumiu o controlo da capital, Trípoli. “Ele está em Benghazi num encontro com o director da Empresa Nacional de Petróleo. Estão a discutir os interesses da Eni na Líbia”, afirmou o porta-voz do governo, Shamsiddin Abdulmolah. Horas mais tarde, o acordo que “reforça a cooperação na Líbia” era anunciado pela empresa italiana, que detém um terço da Galp.

Quanto ao Qatar, diga-se que o número dois do CNT, Mahmoud Jibril, passou grande parte do conflito na capital do pequeno emirado árabe, Doha, a gerir o lado político e diplomático da ofensiva contra Muammar Kadhafi, no poder há 42 anos. “Isto mostrou quão rapidamente a política do Qatar pode mudar – num minuto apoiava o líder líbio, no minuto a seguir estava a liderar a acusação árabe contra Kadhafi”, afirmou um antigo diplomata sedeado em Doha ao “Financial Times”. Além do petróleo, as empresas qatarenses estão de olho nos milhões que se podem ganhar com a reconstrução do país. Leia mais