Papa Francisco: humanidade repudie para sempre a guerra

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Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco recordou, no Angelus deste domingo, que 70 anos atrás, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, se verificaram os “terríveis bombardeios atômicos” sobre Hiroshima e Nagasaki. Repropomos as palavras do Santo Padre:

“À distância de tanto tempo, esse trágico evento ainda suscita horror e repulsão. Ele tornou-se o símbolo do desmedido poder destrutivo do homem quando faz uso destorcido dos progressos da ciência e da técnica, e constitui uma advertência perene para a humanidade, a fim de que repudie para sempre a guerra e proíba as armas nucleares e toda arma de destruição em massa. Essa triste data nos chama, sobretudo, a rezar e a empenhar-nos pela paz, para difundir no mundo uma ética de fraternidade e um clima de serena convivência entre os povos. De toda a terra se eleve uma única voz: não à guerra, não à violência, sim ao diálogo, sim à paz! Com a guerra sempre se perde! O único modo de vencer uma guerra é não fazê-la!”

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Entrevistado pela Rádio Vaticano, o presidente do Instituto de Pesquisas Internacionais de Arquivo Desarmamento, Fabrizio Battistelli, traça um quadro sobre a situação da não-proliferação e sobre o objetivo do desarmamento:

Fabrizio Battistelli:- “Em alguns aspectos, a situação neste momento é positiva. O acordo entre os 5+1 (EUA, China, Rússia, França, Inglaterra e Alemanha) e o Irã representou um passo importante no tema do controle dos armamentos nucleares e, sobretudo, na prevenção de uma possível proliferação, ou seja, daquele processo mediante o qual países que não são autorizados a desenvolver tecnologias militares em campo nuclear, ao invés, violando as normas internacionais, fazem-no. Tivemos a Coreia do Norte; Índia e Paquistão já são potências nucleares e tudo leva a crer que também Israel disponha de uma cota de ogivas nucleares.”

RV: Dias atrás, por ocasião do aniversário do lançamento da primeira bomba – a que foi jogada sobre Hiroshima –, John Kerry reiterou a importância do acordo recentemente alcançado com o Irã sobre sua produção de energia nuclear, a fim de que certos fatos não se repitam…

Fabrizio Battistelli:- “Não se pode deixar de concordar com o secretário de Estado norte-americano. Todos concordam em considerar o acordo com o Irã um grande passo avante. Surpreendem algumas críticas que foram feitas: parece-me, sobretudo, um importantíssimo passo avante na direção de uma prevenção da proliferação nuclear.”

RV: As armas atômicas ainda são uma ameaça para o mundo?

Fabrizio Battistelli:- “São absolutamente uma ameaça para o mundo. O Tratado de não-proliferação prevê um dúplice processo: de um lado, a contenção da proliferação; ao mesmo tempo, o Tratado oferece a esses países a possibilidade e o compromisso que os países nucleares adotem medidas de desarmamento nuclear, no sentido de uma redução das ogivas nucleares disponíveis. Portanto, a renúncia a ampliar seus arsenais. Potencialmente, o mundo é sempre vulnerável.”

RV: Recentemente, causou perplexidade a discussão de uma proposta de lei sobre a diminuição das restrições às forças armadas no Japão, onde a paz é um valor defendido na Constituição…

Fabrizio Battistelli:- “É um precedente inquietante. É uma triste notícia o ato de o próprio Japão, que tinha uma linha muito rigorosa de desarmamento e de rejeição em relação à corrida armamentista, inclusive por muitos motivos de política internacional a nível regional – leia-se a competição com a China, país cada vez mais emergente –, renuncie essa sua posição pacifista que seguiu tradicionalmente durante 70 anos.”

RV: Segundo algumas interpretações, as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki serviram para decretar o fim da II Guerra Mundial, mas a um preço altíssimo de vidas humanas…

Fabrizio Battistelli:- “O lançamento das duas bombas sobre Hiroshima e Nagasaki foi o último ato da II Guerra Mundial, mas foi também o início da III Guerra Mundial: a Guerra Fria. Essa é uma interpretação trágica, mas não totalmente infundada.”

RV: Passaram-se 70 anos desde então. Qual advertência resta, hoje, da tragédia de Hiroshima e Nagasaki?

Fabrizio Battistelli:- “A advertência sobre os limites da ação humana. Toda vez que o homem esquece seus deveres em relação aos outros homens e em relação à natureza, pode esquecer todo o mais; pode esquecer a sua natureza humana, os limites à própria ação que nós homens, diferentemente de outras espécies, podemos encontrar somente em nós mesmos.” (RL)

(from Vatican Radio)

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Japão. 200 mil escravas sexuais para o “conforto” dos soldados

Papa Francisco consola ex-escravas sexuais da II Guerra Mundial

 

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Num momento comovente, no início da Missa pela Paz e a Reconciliação, nesta segunda-feira, 18, o Papa Francisco ajoelhou-se e cumprimentou sete mulheres que foram forçadas à escravidão sexual pelos militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial.

O Papa passou vários minutos segurando a mão de Kim Bok-dong, de 89 anos, que foi à missa em cadeira de rodas, e era uma das sete “escravas sexuais” que participaram da cerimónia. Kim, conhecida ativista pelos direitos deste grupo, entregou um ‘pin’ com uma borboleta a Francisco, que o colocou na sua lapela.

A borboleta é o símbolo das meninas e adolescentes que o Império Japonês recrutou nos países colonizados na Ásia como escravas sexuais para os seus soldados durante a Segunda Guerra Mundial, conhecidas eufemisticamente como “mulheres de conforto”.

Estima-se que até 200 mil mulheres, na sua maioria coreanas, foram vítimas da escravidão sexual do Japão, embora pouco mais de meia centena delas permaneçam vivas e todas têm mais de 80 anos. Estas, juntamente com outros seguidores da causa, se manifestam todas as quartas-feiras há 24 anos para exigir de Tóquio desculpas “sinceras”.

O Japão dominou a península coreana desde 1910 até 1945, quando perdeu a Segunda Guerra Mundial.

Estupro coletivo de meninas

Em 1992, o historiador Yoshiaki Yoshimi publicou matéria baseada em pesquisa nos arquivos do Instituto Nacional para Estudos de Defesa japonês, afirmando que havia um vínculo direto entre instituições imperiais como o Kôa-in e os “postos de conforto”. Quando foi publicada na imprensa japonesa em 12 de janeiro de 1993, causou sensação e forçou o governo a reconhecer alguns dos fatos no mesmo dia.

A controvérsia reacendeu em 1º de março de 2007, quando o primeiro ministro Shinzo Abe mencionou sugestões da Câmara dos Representantes do Estados Unidos no sentido de que o governo japonês “se desculpasse e reconhecesse” o papel dos militares do Japão Imperial na escravidão sexual durante a guerra. Abe negou que isso se aplicasse aos postos de conforto. Porém, um editorial do jornal The New York Times de 6 de março, dizia:

Não se tratava de bordéis comerciais. A força, explícita e implícita, era usada no recrutamento destas mulheres. O que acontecia lá dentro era estupro em série, não prostituição. O envolvimento do Exército Japonês está documentado nos próprios arquivos governamentais do Ministério da Defesa.

Foto para fins de propaganda registrada por Kumazaki Tamaki, correspondente do Asahi Shimbum em 10 de novembro de 1937, era publicada com a seguinte legenda: “Os japoneses arrebanhavam milhares de mulheres. A maioria delas era estuprada em massa ou forçada a entrar para a prostituição militar.”

No mesmo dia, o veterano de guerra Yasuji Kaneko admitiu ao The Washington Post que as mulheres “gritavam, mas não nos importava se elas viviam ou morriam. Éramos os soldados do imperador. Fosse nos bordéis militares ou nas aldeias, nós estuprávamos sem hesitação.”

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Vítimas da violência sexual sistemática, as "mulheres de conforto" eram obrigadas a manter cerca de 50 relações sexuais todos os dias
Vítimas da violência sexual sistemática, as “mulheres de conforto” eram obrigadas a manter cerca de 50 relações sexuais todos os dias

Quero que me ajude a aliviar a dor

Uma destas vítimas é Lee Yong-soo, uma fiel católica que recorda com dor os momentos sofridos nas mãos dos soldados japoneses quando tinha 15 anos. “Se tivermos a oportunidade de falar com ele, quero me aproximar chorando e pedir que nos ajude a aliviar a nossa dor”, disse em uma entrevista telefônica difundida pela agência AP. “Quero lhe pedir que nos ajude a colocar fim a este problema de maneira pacífica”, expressou.

Por sua parte, Kang Il-chul, de 87 anos, recordou que “os coreanos, homens e mulheres, foram arrebatados pelos militares japoneses”.

Nesse sentido, durante a entrevista difundida antes da Missa, disse que “embora esteja no meu leito de morte, estarei feliz sabendo que me encontrarei com este grande homem”.

Durante anos as autoridades japonesas negaram estes abusos, até que devido à contundência das provas teve que reconhecê-losm e desculpar-se em 1993. Entretanto, para Seul estas desculpas não foram sinceras e reclama indenizações para as vítimas. Atualmente há 54 mulheres sobreviventes maiores de 80 anos.

Toru Hashimoto, presidente da Câmara da cidade japonesa de Osaka, disse hoje que a prostituição forçada de milhares de mulheres asiáticas durante a II Guerra Mundial foi necessária para manter a disciplina no exército japonês. Para o autarca, o tempo passado com estas mulheres eram uma oportunidade de descanso para os soldados.

“Para soldados que arriscaram a vida quando as balas caíam como chuva, de modo a terem algum descanso era necessário arranjar uma ‘mulher de conforto’. Isto está claro para todo mundo”, defende Hashimoto, citado pelo “The Independent”.

O jovem autarca, que também é um dos líderes do conservador e emergente Partido Nacionalista da Restauração, disse ainda não haver evidências de que estas mulheres, eufemisticamente chamadas de ‘mulheres de conforto’, tenham sido forçadas a prostituírem-se. Afirmação que também já tinha sido feita na semana passada pelo primeiro-ministro Yoshei Kono.

Faltou essa alma sebosa considerar que a bomba de Hiroxima também foi necessária.

“Muitas meninas cometiam suicídio”, relata ex-escrava sexual na 2ª Guerra
Lee Ok-Seon passou três anos em um bordel militar japonês na China durante a 2ª Guerra Mundial, onde foi forçada à prostituição. Quase 70 anos após a rendição japonesa, ela visitou a Alemanha para divulgar seu segredo.

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Ela fala com coragem sobre o dia em que foi capturada nas ruas da cidade de Busan, no sudeste da Coreia do Sul, por um grupo de homens. Lee Ok-Seon, então com 14 anos de idade, foi jogada dentro de um carro e acabou indo parar em um bordel para militares japoneses na China, chamado de “posto de consolo”. Ali, sofreu estupros diários até o fim da guerra.
Lee Ok-Seon não tinha ideia de que jamais veria sua família novamente ou que sequer iria pisar em seu próprio país nos 60 anos seguintes. Ela também ignorava as torturas que teria de aguentar.
A senhora de 86 anos não fornece detalhes específicos de suas experiências. Apenas resume tudo em poucas palavras: “Não era um lugar para seres humanos; era um matadouro”. Sua voz fica mais exaltada quando diz a frase. Aqueles três anos a marcaram pelo resto de sua vida. “Quando a guerra acabou, outros foram libertados, mas eu não.”

Um outro nome para escravas sexuais

O caso de Lee Ok-Seon não é isolado, porém não se sabe exatamente quantas outras mulheres tiveram o mesmo destino. “De acordo com estimativas, devem ter sido em torno de 200 mil mulheres, mas esse total nunca foi confirmado”, explica Bernd Stöver, um historiador da Universidade de Potsdam, na Alemanha. Elas eram chamadas de “mulheres de alívio” ou de “conforto”, o que o pesquisador considera “um absurdo”. Trata-se de um eufemismo para o que elas realmente eram: escravas sexuais, diz Stöver.

Não eram apenas as mulheres da península coreana – sob domínio colonial japonês entre 1910 e 1945 – que eram forçadas a se prostituir. Elas também vinham, entre outras regiões, da China, Malásia e das Filipinas.
Os bordéis, que se espalhavam por toda a área de ocupação japonesa, tinham como objetivo manter elevado o ânimo dos soldados e de evitar que as mulheres locais fossem estupradas.

Muitas das escravas sexuais, em sua maioria menores de idade, não sobreviveram aos tormentos. Estima-se que dois terços dessas mulheres morreram antes do fim da guerra.

Vergonha avassaladora

“Nós éramos frequentemente agredidas, ameaçadas e atacadas com facas”, relembra Lee Ok-Seon. “Tínhamos 11, 12, 13 ou 14 anos de idade e não acreditávamos que ninguém nos salvaria daquele inferno.” Ela explica que estava completamente isolada do mundo exterior e que não confiava em ninguém. Era um constante estado de desespero.

“Muitas meninas se suicidavam. Elas se afogavam ou se enforcavam”, conta. Lee afirma que também chegou a pensar que essa seria sua única saída. Mas não teve coragem. “É fácil dizer ‘eu preferia estar morta’. Mas é muito difícil fazê-lo”, explicou.

Lee Ok-Seon optou pela vida e acabou sobrevivendo à guerra. Após a capitulação japonesa em 1945, o dono do bordel desapareceu. As mulheres, de repente, estavam livres, porém confusas e desorientadas. “Não sabia para onde ir. Não tinha dinheiro. Estava sem casa, tive que dormir nas ruas.”

Ela sequer sabia como voltar para a Coreia, também não tinha certeza se de fato queria. O sentimento de vergonha era grande demais. “Decidi que preferia passar o resto dos meus dias na China. Como podia ir para casa? Estava escrito no meu rosto que eu era uma mulher de alívio. Jamais poderia olhar minha mãe nos olhos novamente.”

Vida nova na China

Lee Ok-Seon acabou conhecendo um homem de descendência coreana, com quem se casou e passou a cuidar de suas crianças. “Senti que era meu dever tomar conta daquelas crianças, cuja mãe tinha morrido. Eu não podia ter meus próprios filhos.”
Enquanto estava no bordel, ela quase morreu em decorrência de doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis. Para aumentar suas chances de sobrevivência, os médicos retiraram seu útero.

Na China, ela viveu na cidade de Yanji. Manteve seu passado em segredo e tentou se recuperar, sempre por conta própria. Ela permaneceu assim durante décadas. Seu marido a tratava bem. “Se não, não teria ficado tanto tempo com ele”, comenta Lee, bem-humorada.

Muitas “mulheres de alívio” tiveram vida semelhantes às do cativeiro após o tempo em que viveram nos bordéis, sempre mantendo o silêncio sobre os horrores que tiveram que passar – na maioria dos casos, por medo de sofrer recriminações.
Segundo o historiador Stöver, o tema da prostituição forçada é um tabu absoluto. “Não havia apoio algum na sociedade a essas mulheres”, explica. Apenas décadas após o fim da guerra, começaram a surgir as histórias sobre as “mulheres de conforto” na Ásia.

O historiador Stöver conta que apenas em 1991 a primeira “mulher de alívio” divulgou sua história. Ela acabou por encorajar 250 outras mulheres, que finalmente falaram sobre suas experiências como escravas sexuais dos soldados japoneses, e exigiram o reconhecimento e as desculpas do governo do Japão.
Desde então, as mulheres e seus apoiadores se reúnem todas as quartas-feiras em frente à embaixada japonesa em Seul. Elas levam cartazes e gritam slogans, mas ainda não tiveram suas exigências atendidas.

De volta para casa, mas solitária

Lee Ok-Seon vive hoje na Coreia do Sul. Em 2000, após a morte de seu marido, ela sentiu que tinha que voltar para o seu país de origem e tornar pública a sua história. Ela mora próximo a Seul, nas chamadas “casas compartilhadas”, que dão assistência a ex-escravas sexuais. Foi lá que recebeu pela primeira vez cuidados psicológicos, e finalmente, um novo passaporte.

Ao pesquisar seu passado, ela soube que seus pais haviam morrido, mas que seu irmão mais novo ainda vivia. Ele inicialmente a ajudou, mas com o tempo o relacionamento se deteriorou. Foi exatamente o que ela temia: ele tinha vergonha de ser irmão de uma “mulher de alívio”, e não queria ter nenhuma ligação com ela.

Mulheres levadas na carroceria de um caminhão para um bordel oficial
Mulheres levadas na carroceria de um caminhão para um bordel oficial

Homens que desistem das mulheres

“Herbívoros”, uma nova categoria social no Japão do século XXI

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(EFE) – A crise, o pessimismo e a falta de comunicação são os motivos que levam cada vez mais rapazes japoneses a mostrarem indiferença com relação ao sexo e se dedicarem ao cuidado pessoal, algo que deu lugar a uma nova categoria social batizada de “herbívoros”.

Segundo uma pesquisa do Ministério de Saúde japonês divulgada este ano, 21,5% dos homens entre 20 e 25 anos expressa indiferença ou aversão ao sexo, embora o número seja maior entre os adolescentes de 16 a 18 anos, grupo em que 36,1% não estão interessados em relações sexuais.

Os considerados “herbívoros” geralmente se interessam por moda, são menos competitivos em seus ambientes de trabalho, são mais apegados a suas mães e têm sempre problemas nos respectivos orçamentos.

Mas, sobretudo, não estão interessados em sair com mulheres, de acordo com Megumi Ushikubo, autora do livro “Soshokukei Danshi Olho-man Ga Nippon wo Kaeru” (“Os refinados homens herbívoros estão mudando o Japão”).

Em um país com uma das taxas de natalidade mais baixas do planeta (1,3 filho por mulher) e que, além disso, envelhece rapidamente, este fenômeno social é preocupante frente a um futuro no qual os jovens não encontram as condições para desenvolver uma família.

De acordo com dados oficiais, em 2009, em meio à crise financeira, 1,78 milhão de japoneses – principalmente jovens – tinham empregos apenas em período parcial, número que parece seguir aumentando.
Estes jovens, que vivem uma situação de instabilidade trabalhista, ganham em torno de 2 milhões de ienes anualmente (17.656 euros), menos que a renda per capita de 31.414 euros que o país registrou em 2010.

Por outro lado, apenas 68,8% dos estudantes universitários que vão se formar em março tinham emprego assegurado no final do ano passado, um número alarmante em um país onde há pouco o cidadão podia assegurar o futuro de sua carreira com tranquilidade.

Diante deste panorama, os jovens “não têm a mesma confiança” que seus antecessores, que graças à sua estabilidade podiam comprar casas ou automóveis com vistas a formar uma família, disse à Agência EFE Renato Rivera, sociólogo especializado em estudos japoneses.

Atualmente, parte dos jovens não pode convidar as mulheres do país a um bom restaurante ou ao cinema, nem adquirir automóveis caros em um país tradicionalmente caracterizado pelo luxo. Sem deixar de ser consumidores, os “herbívoros” preferem comprar artigos de moda e cuidado pessoal.

Ainda fazem parte deste panorama as redes sociais virtuais e a proliferação dos telefones celulares, utilizados por quase todos os adolescentes para trocar mensagens de texto, em detrimento de uma comunicação direta verbal.

Para os especialistas, uma parte dos jovens japoneses parece ter entrado em um círculo vicioso e não socializa com mulheres por falta de recursos e por incapacidade de comunicar-se, portanto tornam-se mais introvertidos e se desinteressam pelo sexo.

“É como estar em uma dieta: de tanto deixar de comer, o apetite se reduz”, avalia Rivera, professor da Universidade de Meiji, em Tóquio.

Para o sociólogo, os “herbívoros” se parecem um pouco com os “otakus” (fanáticos por mangás e animações), que passam a maior parte do tempo conectados a computadores e videogames.

A diferença, segundo Rivera, é que em geral os “otakus” são mais anti-sociais, têm interesse pelo sexo mas não pelas relações permanentes, e contam com maior poder aquisitivo, já que são eternos consumidores das novidades tecnológicas.

Brasileiros que estudam no Japão relatam perseguições de colegas e professores

A palavra japonesa “ijime”, o mesmo que “bullying” em inglês, é uma das primeiras a entrar para o vocabulário dos brasileiros que chegam ao Japão para trabalhar. As histórias de maus-tratos contra estrangeiros nas escolas, oriundas da rejeição à diferença, correm a comunidade, que hoje tem cerca de 200 mil pessoas, mas já chegou a picos de quase 400 mil. Nos casos mais comuns, as crianças ouvem ofensas como “Caia fora do Japão! Vá embora pro Brasil!”. Qualquer coisa pode ser motivo para gozação – desde falar japonês com sotaque até ter hábitos alimentares diferentes.

Alunos na escola primária de Honkawa: cerca de dez mil estudantes brasileiros estão matriculados nas escolas públicas japonesas
Alunos na escola primária de Honkawa: cerca de dez mil estudantes brasileiros estão matriculados nas escolas públicas japonesas

por Thiago Minami

 

Era uma data especial na escola de Akiko Uehara, 12, em Kiryu, interior do Japão. Os pais visitavam seus filhos no 5º ano do ensino fundamental para acompanhar o dia a dia da sala de aula, numa das atividades mais esperadas pelos alunos japoneses de todo o país. Até que entrou a mãe de Akiko e o burburinho começou: “olha só, uma ””gaijin””!”. A palavra pejorativa, que significa “estrangeiro”, marcava a origem filipina da mãe de Akiko. Começava ali uma série de perseguições e ofensas contra a menina por alguns dos colegas.

Cerca de um ano depois, no dia 23 de outubro de 2010, Akiko enforcou-se. Os pais decidiram levar o caso a público para evidenciar uma falha grave de um sistema educacional conhecido mundo afora justamente pela competência. A inabilidade para lidar com a diferença gera rejeição aos estudantes estrangeiros por parte dos colegas e, muitas vezes, pressão dos próprios educadores em relação aos alunos imigrantes.

Problema comum
Este é um problema frequente na vida dos cerca de dez mil estudantes brasileiros matriculados nas escolas públicas do país (o maior grupo, seguido por chineses e filipinos). “Quando eu era criança, o diretor chamou meu pai na escola para falar sobre o meu cabelo cacheado. Ele queria que eu alisasse para ficar igual ao das outras crianças”, conta Daiane Oshiro, 25, que cursou o ensino básico e universitário no Japão. Nos países do leste asiático, que incluem também Coreia e China, a sociedade costuma colocar o grupo à frente do indivíduo – de acordo com o pensamento confucionista, trata-se de uma garantia de harmonia social. O lado negativo é que há pouco espaço para o diferente, atitude que acaba corroborada pelo sistema educacional.

Alunos japoneses com algum traço diferente também sofrem. Estar acima do peso ou ter algum problema de saúde evidente são causas comuns para o bullying. Em 2012, o Ministério da Educação registrou 70 mil casos em todo o país. Muitas histórias, no entanto, são mantidas em silêncio por vergonha ou medo de retaliação. Em geral, os nipônicos evitam a exposição pública a qualquer custo, o que leva muitos jovens a sofrerem calados. Outros casos, como o de Akiko, tornam-se públicos pelo fim trágico.  Em 2009, um estudante de 14 anos, que sofria de problemas alérgicos, suicidou-se ateando fogo ao próprio corpo após ser perseguido pelos colegas.

Violência “educativa”
Há ocasiões em que os próprios educadores causam a humilhação – o que foge à esfera do bullying ou ijime, referente apenas à agressão entre pares. Em 2012, na antevéspera do Natal, um garoto de 17 anos, em Osaka, enforcou-se após levar tapas na cara do treinador de basquete. Muitas agressões assim por parte de professores ainda hoje não são associadas pelos educadores a atos de violência, consideradas medidas de caráter educativo – em outras palavras, acredita-se estar fazendo um bem para o aluno. Continue lendo

 

 

Os que devem morrer

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por Mauro Santayana

A ciência prolonga a vida dos homens; a economia liberal recomenda que morram a tempo de salvar os orçamentos. O Ministro das Finanças do Japão, Taso Aro, deu um conselho aos idosos: tratem logo de morrer, a fim de resolver o problema da previdência social.

Este é um dos paradoxos da vida moderna. Estamos vivendo mais, e, é claro, com menos saúde nos anos finais da existência. Mas, nem por isso, temos que ser levados à morte. Para resolver esse e outros desajustes da vida moderna, teríamos que partir para outra forma de sociedade, e substituir a razão do “êxito” e da riqueza pela ética da solidariedade.

Ocorre que nem era necessário que esse senhor Taso Aro – que, em outra ocasião, ofereceu o Japão como território seguro para os judeus ricos do mundo inteiro – expusesse essa apologia da morte. A civilização de nosso tempo, baseada no egoísmo, com a economia servidora dos lucros e dos ricos, e, sobretudo, dos banqueiros, é, em si mesma, suicida.

É claro que, ao convidar os velhos japoneses a que morram, Aro não se refere aos milionários e multimilionários de seu país. Esses dispensam, no dispendioso custeio de sua longevidade, os recursos da Previdência Social e dos serviços oficiais de saúde de seu país. Todos eles têm a sua velhice assegurada pelos infindáveis rendimentos de seu patrimônio.

HOMENS-MÁQUINAS

Os que devem morrer são os outros, os que passaram a vida inteira trabalhando para o enriquecimento das grandes empresas japonesas e multinacionais. Na mentalidade dos poderosos e dos políticos ao seu serviço, os homens não passam de máquinas, que só devem ser mantidos enquanto produzem, de acordo com os manuais de desempenho ótimo. Aso, em outra ocasião, disse que os idosos são senis, e que devem, eles mesmos, de cuidar de sua saúde.

Não podemos, no entanto, ver esse desatino apenas no comportamento do ministro japonês, nem em alguns de seus colegas, que têm espantado o mundo com declarações estapafúrdias. O nível intelectual e ético dos dirigentes do mundo moderno vem decaindo velozmente nas últimas décadas. Não há mistério nisso. Os verdadeiros donos do mundo sabem escolher seus serviçais e coloca-los no comando dos estados nacionais.

São eles, que, mediante o Clube de Bielderbeg e outros centros internacionais desse mesmo poder, decidem como estabelecer suas feitorias em todos os continentes, promovendo a ascensão dos melhores vassalos, aos quais premiam, não só com o governo, mas, também, com as sobras de seu banquete, em que são servidos, além do caviar e do champanhe, o petróleo e os minérios, as concessões ferroviárias e nos modernos e mais rendosos negócios, como os das telecomunicações.

A civilização que conhecemos tem seus dias contados, se não escapar desses cem tiranos que se revezam no domínio do mundo.

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Aposentados contribuíram durante toda a vida para a Previdência

Infelizes pais de Taro Aso, mortos ou vivos, conheciam ou conhecem o desprezo do filho: frio, desumano e lacaio do FMI e do capitalismo selvagem.

Existiram governos (e vão sempre existir) que matam os velhos, os aleijados, os cegos, os mudos, os loucos, os mendigos, os moradores de rua, os favelados, os párias, os miseráveis sem terra e sem teto. 

No caso do Japão, que tinha um imperador (ou tem?) divino, filho do Deus Sol, persiste o racismo, um brutal assassino. Tão cruel quanto um fanático religioso ou político.

Escreve Pedro do Coutto: A declaração incrivelmente infeliz do ministro das Finanças do Japão, Taro Aso, que considerou a morte dos idosos como uma forma de redução das despesas médicas e previdenciárias em seu país, tornou-se um fato tão forte, de repercussão mundial, que seu autor, no dia seguinte, primeiro afirmou ter sido mal interpretado. Em seguida, reconheceu que sua expressão pessoal foi inapropriada para a ocasião, um encontro do Conselho Nacional para reformas na seguridade social.

Eticamente não há como deixar de reconhecer o desastre causado pelo ministro, colidindo com o objetivo maior de qualquer sociedade ou governo, o de prolongar a vida humana e reduzir as desigualdades, a exemplo do que afirmou presidente Barack Obama no seu discurso de posse no segundo mandato. Mas não é essa a questão essencial. O fato é que os idosos, no Japão, Brasil e no mundo todo contribuiram a vida inteira para a seguridade social.

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