A imprensa bate panelas

por Luciano Martins Costa

 

 

Os jornais desta segunda-feira (9/3) fornecem um material precioso para a análise do processo que vimos observando, cuja principal característica é uma ruptura entre o chamado ecossistema midiático e o mundo real.

O noticiário e os penduricalhos de opiniões que tentam lhe dar sustentação têm como fato gerador o pronunciamento da presidente da República em rede nacional da TV, mas o que sai nos jornais com maior destaque é a reação de protesto que partiu das janelas de apartamentos nos bairros onde se encastelam as classes de renda média e alta das grandes cidades.

A presidente tenta seguir o protocolo que recomenda informar a população sobre as medidas econômicas que o governo está adotando – boa parte das quais foi insistentemente defendida pela imprensa antes de se tornar decisão de governo.

No entanto, não há uma conexão entre o conteúdo do ato oficial e as manifestações de ódio e intolerância que se ouviram na noite de domingo.

Mesmo que a presidente estivesse anunciando, por exemplo, que o custo das mensalidades nas escolas privadas poderia ser debitado integralmente do imposto de renda, ela seria vaiada e xingada com a mesma intensidade.

Há uma forte simbologia na imagem do cidadão que dá as costas para a tela da televisão, no momento em que a mensagem é endereçada, e põe a cabeça para fora da janela ou sai à sacada do apartamento para dizer que é contra.

Contra o que?

Contra as medidas anunciadas?

Não se pode responder que sim, porque quem estava protestando não podia ouvir o que anunciava a presidente.

Essa simbologia mostra que nesses apartamentos, curiosamente, a realidade estava falando sozinha na tela da TV, enquanto a perturbação emocional, diligentemente cultivada pela mídia nos últimos meses, produzia um novo fato político.

O fato é a radicalização das camadas da sociedade mais expostas ao discurso da mídia, com base num conteúdo jornalístico construído para produzir exatamente esse estado de espírito.

Não há como contar o número de pessoas que bateram panelas e gritaram palavrões, e os jornais são obrigados a admitir que não houve protestos nos bairros onde moram os menos afortunados.

 

Meme panela

choro água sao paulo

água torneira bico cano

panelaço 5 minutos fama panela dilma

“En las favelas estamos organizados para parar la privatización del espacio”

Ali Sargent

Niños jugando a fútbol en una de las favelas de Rio de Janeiro
Niños jugando a fútbol en una de las favelas de Rio de Janeiro

 

Julio Condaque | Miembro del Movimento Luta Popular en Rio de Janeiro.

¿Cuál es la historia del Movimento Luta Popular?

Hay una falta grande de vivienda en Brasil. En los años 70 y 80 movimientos populares lucharon solamente por la vivienda, pero nosotros tenemos varios enfoques. Comenzamos en los 90 no solamente con las ocupaciones, sino que también empezamos a articular un movimiento en que pudiéramos estar juntos con la clase obrera en sus manifestaciones culturales. Por eso, el Movimento Luta Popular (MLP) se organiza dentro de las comunidades, las favelas. Muchos son trabajadores fluctuantes; vienen del norte y nordeste y trabajan en la construcción civil. Después se quedan en paro y muchas veces se quedan en las favelas. Nuestra política se concentra en áreas como salud, luz y agua que el estado no gestiona en las comunidades. La infraestructura de las ciudades está cada vez más elitizada y todo se centra en el mercado.

¿Cuál es la experiencia del MLP en relación a la Copa del Mundo?

Rio de Janeiro es la punta de lanza en el proceso de la Copa. Hay un política de “embellecimiento” de la ciudad; el diseño de la ciudad está cambiando, pero solamente para la Copa. No tiene nada que ver con que la población tenga derecho a la vivienda que necesita. De hecho trasladan a la población del centro de la ciudad a la periferia.

En Rio no hay dialogo entre gobierno y movimientos sociales. Solo existen formas de lucha directa para evitar desahucios –el MLP es parte de estas luchas y fue así como evitamos algunos desahucios. Ellos inventan varias excusas; como por ejemplo que es una “área no ecológica”, pero no ofrecen nada para compensar a las comunidades. El mensaje es: te vas o vamos a echarte por la fuerza. A través de programas como Minha Casa, Minha Vida (Mi Casa, Mi Vida) los movimientos sociales se organizan para intentar parar este proceso violento de privatización del espacio.

¿Cómo se lleva a cabo esa represión en las favelas?

unidade-de-policia-pacificadora UPP polícia favela

 

En las favelas se ha desarrollado una forma de control militar. En Rio de Janeiro por ejemplo tenemos 32 Unidades de Policía Pacificadora (UPP) y va creciendo. El proyecto original era colocar centros de la UPP dentro de las favelas controladas por el narcotráfico y después construir servicios públicos. Pero no ocurrió eso. Ahora llega más dinero pero es para la seguridad de la Copa y que podrían haber usado de otra manera. Las UPPs construyeron una guerra interna dentro las comunidades, acelerando los conflictos con el narcotráfico. La población se ha queda en medio y hoy en día hay un aumento de homicidios que son verdaderamente números de exterminio, de genocidio.

Ahora se han dado un serie de casos bárbaros vinculados a las UPP. El caso de Amarildo, que fue torturado y asesinado por las UPP. O el de Claudia, una mujer negra, trabajadora y muy pobre, que fue disparada por las UPP y después tirada desde el coche militar. Fue arrastrada por la calle todavía viva hasta que murió. El MLP apoyamos a su familia para luchar para que se haga justicia.
De hecho, el laboratorio del proyecto de las UPP tiene como telón de fondo la ocupación militar brasileña de Haití, que es usado como el lugar para fortalecer a las fuerzas armas brasileras. En Brasil no necesitamos más programas para que se lleven el dinero del país a mercados internacionales. Y es lo que hace la FIFA a cambio de la sobreexplotacion del pueblo pobre y negro.

 

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Florianópolis. Por tras de cada incêndio sempre existe um Nero
Florianópolis. Por tras de cada incêndio sempre existe um Nero
Santos
Santos

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Polícia de salto alto e calça colante

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Talis Andrade: Policial de calça apertada. Tanto que se vê o vinco da calcinha. Onde ela porta a pistola que carrega na mão? Na cintura? Não há como introduzir a arma na calça mais do que apertada e sem bolsos. Ela, loura, ameaça os jovens negros… Em nome de quem?

Fernando Muniz: Essa mulher está mais para madame ou dondoca que qualquer outra coisa!

Pernas roliças em calça muito apertada, e usando sapato com salto alto e fino. Que perigo! Bastava a ponta desse calçado se quebrar para haver um acidente, um disparo e possivelmente uma morte!

Talis Andrade: É a nova polícia de salto alto e fino

Alyson Fonseca: Se ela morre, de uma coisa teríamos a certeza, não estava no exercício de sua atribuição. Pois a loira em tela é uma major, que estava a caminho do trabalho.

Fábio José de Mello: Kate Mahoney tapuia.

André Falavigna: Por que diabos a cor do cabelo dela – se é que é essa mesmo – seria relevante?

Fernando Muniz: Parece mentira uma “coisa” dessa!

 

policial de salto alto

Advogados Ativistas: “Uma cena chamou a atenção de quem passava pela Avenida Leopoldo Bulhões, na altura da Favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, na manhã desta sexta-feira, logo após o tumulto em que se transformou a desocupação de um terreno da Oi no Engenho Novo, também na Zona Norte. Depois de passar por um trecho da via onde havia um ônibus em chamas, uma loira saltou de um carro, arma em punho, para conter um grupo que saía da comunidade. Ela se identificou como policial e impediu, sozinha, que os jovens seguissem caminho, pois suspeitava que fossem realizar depredações.
Logo depois, alguns policiais militares se aproximaram da mulher – que vestia camiseta, calça branca e sapatos vermelhos de salto alto. Ela, então, passou a conversar com eles e determinar onde deveriam ficar posicionados. Perto dali, eram ouvidas explosões de bombas e barulhos semelhantes ao de tiros. A loira deixou o local sem se identificar.”

Matéria publicada originalmente por: Extra – Fotos:Bruno Gonzalez/Extra

Comentário AA: Não é possível reconhecer se esta mulher é realmente uma policial, pois não apresentou a sua identificação. Supondo que ela seja policial militar, visto que deu ordens à outros policiais militares, ela deveria ter obrigatoriamente apresentado a sua identificação funcional quando realizou abordagens sem o devido fardamento. Não é permitido à coorporação militar realizar e coordenar missões sem farda, na figura de policial infiltrado, cabendo essa possibilidade apenas à Polícia Civil. A figura do agente militar infiltrado é inconstitucional. É completamente desmedida a ação da mulher que se identificou como policial e apontou uma arma para a população apenas por suposição de que determinado grupo iria realizar depredações.

 

time. pezão

Macroeventos deportivos: nueva forma de control social y territorial en Brasil

Por José Manuel Rambia

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Negocios y deporte se fusionan así  para desatar un tsunami de emociones en el que los números de la contabilidad son tanto o más asombrosos que las gestas de los atletas. Un tsunami que con su elección para la organización del Mundial de Fútbol en 2014 y las Olimpiadas en Rio para 2016, viene azotando a un Brasil que ve ambas fechas como la reválida definitiva a su entrada en el selecto club de los ricos. Las cifras previstas parecen justificar por sí solas las ilusiones.  Según un estudio realizado por la consultora Ernest & Young  en colaboración con la Fundación Getúlio Vargas,  la organización de la Copa implicará para Brasil un gasto de unos 29.600 millones de reales (11.000 millones de euros), una cantidad compensada por 3,6 millones de empleos anuales por los preparativos, que a su vez distribuirán una renta entre la población de 63.480 millones de reales (24.100 millones de euros), además de generar una recaudación tributaria adicional de 18.130 millones(6.886 millones de euros). Así mismo, se espera un incremento del flujo turístico del 74%.

No obstante, los tsunamis no son solo dignos de admiración por su manifestación de naturaleza desbordada. La devastación que dejan a su paso alcanza niveles sin duda no menos espectaculares. Sin embargo, los medios de comunicación, que suelen centrar sus focos en esta letal irrupción de la calamidad en las vidas humanas cuando se trata de fenómenos sismológicos, normalmente optan por apartar del daño colateral el objetivo de las cámaras cuando se trata de estos modernos tsunamis deportivos. Y, como no podía ser de otro modo, daños colaterales no faltan en las olas gigantes proyectadas sobre la tierra brasileña por la Copa del Mundo y los juegos Olímpicos. Un informe elaborado por los Comités Populares de la Copa enumera algunos. Así, por ejemplo, unas 170.000 personas – según las estimaciones  más conservadores – se verán desplazados de sus casas como consecuencia de las obras de infraestructuras ligadas a las competiciones. Para la mayoría de ellos las alternativas recibidas son limitadas, cuando no, sencillamente inexistentes.

El listado es interminable y está compuesto en su mayoría por favelas y ocupaciones irregulares que, en muchos casos, tienen más de medio siglo de historia. En Curitiba, por ejemplo, la ampliación del aeropuerto y las obras del estadio Joaquim Américo Guimarães amenaza a más de 2.000 familias. Otras 6.900 serán desalojadas en Belo Horizonte a causa de la construcción de carreteras, hoteles, centros comerciales y otras infraestructuras. La resistencia ha sido duraLa represión también. Los vecinos de la comunidad Dandarafueron desalojados por la policía sin orden judicial, utilizando gases y destruyendo las endebles barracas con el vuelo rasante de los helicópteros. Mientras tanto, en Fortaleza 5.000 familias pierden sus casas por distintos proyectos de transporte público y 15.000 más por otras actuaciones urbanísticas ligadas al Mundial. En Rio otras 3.000 viviendas se verán impactadas, mientras que en São Paulo se estima que solo las conexiones entre el futuro estadio del Corinthians y el aeropuerto internacional de Guarulhos afectaron a unos 4.000 hogares y amenazan a otros 6.000.

La maquinaria del evento no respeta nada. El proyecto inmobiliario Granja Werneck prevé ocupar en Belo Horizonte unos 10 millones de metros cuadrados para construir 75.000 apartamentos destinados a turistas, delegaciones deportivas y periodistas que acudan a cubrir los partidos del Mundial programados en la capital minera. Como una apisonadora, estos planes amenazan con llevarse por delante el Quilombo de Mangueiras, una comunidad creada en la segunda mitad del siglo XIX por descendientes de esclavos negros, de los que hoy apenas quedan 35 familias. Igualmente, el pasado 22 de marzo unidades de la policía de choque entraron en las instalaciones del antiguo Museo del Indio en Rio de Janeiro. Aunque el museo estaba inactivo, colectivos indígenas de distintas etnias mantenían ocupado el espacio como referente cultural. El edificio fue demolido dentro de las obras del nuevo Maracanã.

La contundencia en la ejecución de estos proyectos adquiere en ocasiones tintes absurdos. Los habitantes de Vila Harmonia y Metrô Mangueira, por ejemplo, recibieron un buen día y por sorpresa una notificación judicial con la orden de desalojo y el plazo fijado para dejar sus casas: cero días. Los casos se repiten por las distintas sedes del campeonato de fútbol, en ocasiones alegando problemas geotécnicos obviados durante décadas. Adriano Evangelista, vecino de Itaquera, en São Paulo, recuerda cuando le notificaron que debía dejar su vivienda. “Vinieron y me entregaron un documento que decía que la casa iba a ser clausurada. No me dijeron si iba a tener derecho a algo o si nos iban a trasladar a otro lugar”. Situaciones, en suma, que no han dejado de provocar denuncias y quejas como las de  José Renato, uno de los afectados por las obras en Porto Alegre: “no sabemos cuándo comenzarán la obras, ni quién se verá afectado, o hacia dónde serán realojadas las familias. Queremos tener el derecho a discutir nuestro futuro. Defendemos la realización de la Copa, pero con respeto a los derechos de la población”.

La opacidad se ha convertido en moneda corrienteLa urgencia en el cumplimiento de los plazos o el argumento de un pretendido interés general hace que la falta de transparencia sea la norma en la tramitación de estos grandes proyectos. Ello a pesar de la cascada de instituciones creadas, entre otras cuestiones, precisamente para encauzar la participación, como el Comité Gestor da Copa 2014, el Grupo Executivo da Copa, el Comité de Responsabilidad de las ciudades sede o la Autoridad Pública Olímpica. Sin embargo, en la práctica la supuesta participación se ha limitado a lo que algunos han denominado irónicamente como “democracia directa del capital”, donde lo que cuenta son las conversaciones a puerta cerrada entre instituciones y empresas privadas.

No es extraño pues que en este contexto entidades como Amnistía Intenacional o la Plataforma Brasileña de Derechos Humanos, Económicos, Sociales, Culturales y Ambientales, hayan criticado el impacto negativo de estas prácticas. Sus denuncias  fueron oídas por el grupo de trabajo de Naciones Unidas sobre derechos humanos, especialmente las relativas a los procedimientos utilizados en algunos desalojos. Incluso, la ministra brasileña de Derechos Humanos, María do Rosario Nunes, tuvo que admitir, durante un encuentro con miembros del grupo de trabajo de la ONU en mayo de 2012, la necesidad de prestar una atención especial a los derechos humanos en el marco de los proyectos vinculados a la Copa y el Mundial. Finalmente, en julio del pasado año,  la comisión recomendó a Brasil – a propuesta de Canadá – que se tomaran medidas que “eviten los desplazamientos y los desalojos forzosos. Además, se reclamaba la necesidad de que los afectados tengan acceso a la información, incluyendo plazos, se realizaran negociaciones con los vecinos implicados para buscar alternativas o, en su caso, se fijaran indemnizaciones adecuadas”.

Pero además, en la práctica, al amparo de estos proyectos se está  promoviendo un modelo urbanístico basado en la exclusión social y la criminalización de la pobreza. Es así como en los últimos meses se han puesto en marcha auténticos cordones sanitarios para aislar de la pobreza las zonas deportivas y turísticas potenciadas por los eventos. El exponente más directo ha sido, sin duda, las Unidades de Policía Pacificadora (UPP) puestas en marcha en Rio con el objetivo declarado de controlar la violencia y el crimen organizado en las favelas. Sin embargo, para Cleonice Dias, líder comunitario en la favela de Cidade de Deus, la realidad tiene otra cara. “Nosotros, que somos de la comunidad, sabemos que la UPP busca satisfacer a la opinión pública mostrando que el Estado tiene el control de  las comunidades. Quieren destacar que habrá seguridad porque nosotros, los pobres, estaremos controlados y que pueden venir las inversiones para los macroeventos”. El coronel de la Policía Militar Robson Rodrigues confirmaba las sospechas de las comunidades: “realmente son las Olimpiadas las que dictan nuestra selección. Yo diría incluso que sin este evento la pacificación nunca habría ocurrido”.

El modelo, exportado a otras ciudades como São PauloSalvador de Bahía o Curitiba, supone a menudo una auténtica militarización de la sociedad, implicando incluso al ejército en estas labores de “pacificación”. En total, Rio tiene previsto desplegar 40 UPP en la ciudad, con un despliegue de 8.ooo policías y un coste anual estimado en 408 millones de reales (156 millones de euros). Paradójicamente, las favelas y barrios situados en la zona oeste de la ciudad, controlados por milicias criminales en las que a menudo están implicados agentes públicos, han sido excluidas del programa de pacificación. Leer más 

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Crime. Quem combate lambaris não pega tubarão

Por que o crime está vencendo a polícia

por Luiz Flávio Gomes

 

O governo do Estado de São Paulo fez uma aposta: enfrentar o crime organizado por meio do combate violento conduzido pela Rota. O tiro saiu pela culatra, visto que 63% dos paulistanos reprova a política de segurança adotada (Datafolha). E o governador perdeu 11 pontos em sua avaliação ótimo/bom, na passagem de setembro para outubro deste ano (de 40% caiu para 29%).

São Paulo não está sabendo distinguir o crime organizado das organizações criminosas ostensivas, que atuam em nome do primeiro (a distinção é bem feita por Ricardo Balestreri). O crime organizado – diz o autor citado – não se confunde com as organizações criminosas ostensivas que atuam nas ruas, nas estradas e nas favelas, por meio de milhares de “soldados”.

O crime organizado é camuflado, clandestino, pouco ou nada visível; as organizações criminosas são ostensivas, servis, fragmentos operativos dos interesses daquele. As organizações criminosas são poderosas e normalmente violentas, ou seja, precisam ser combatidas (não há dúvida sobre isso), mas é necessário ter consciência que esse combate está sendo feito ao varejo, não ao atacado (não à inteligência do grupo). Enquanto se ataca somente o grupo ostensivo, o crime organizado nunca termina. Atacar os criminosos do Paraisópolis (SP) não significa atingir o crime organizado, que não reside aí.

Combater a filial não significa atacar a matriz. Guerrear com os lambaris não significa que serão alcançados os tubarões. As organizações criminosas são as longa manus dos verdadeiros crimes organizados, cujos integrantes raramente aparecem. Claro que devem ser investigadas e punidas, mas nunca se pode perder de vista que elas são apenas a linha de frente. Que o escritório (e a cabeça) de tudo está por trás. O colarinho branco não frequenta as favelas.

Aliás, o crime organizado não habita as favelas, não transporta drogas, não vai para dentro dos presídios (normalmente). Do crime organizado faz parte a elite, que quase nunca aparece. É ela que lava o dinheiro sujo, que faz negócios com os bancos “lavadores” (HSBC e Bank of America, recentemente flagrados), que abre contas internacionais, que gerencia os narcodólares, que se relaciona com os paraísos fiscais. É ela que abre também negócios lícitos, fazendo a mesclagem (lavagem) dos dinheiros (limpo e sujo), por meio do processo chamado mimetização.

O crime organizado é transversal, não paralelo, ou seja, ele atravessa os poderes constituídos, por meio da corrupção, tendo poder econômico para comprar políticos, policiais, juízes, fiscais, ministros etc. As organizações criminosas, distintamente, são prioritariamente paralelas, porque se colocam à margem do poder central (do comando). São mais operacionais que dominiais, ou seja, não possuem o domínio do fato, apenas operam, dentro dos territórios e da área delimitados.

Sua transversalidade é pequena, geralmente com policiais (que passam a fazer parte da organização ou dos benefícios dela). O crime organizado é difícil de ser combatido porque ele frequenta a cozinha do governante, o gabinete dos parlamentares, as salas dos ministérios, as representações da presidência da república etc.

As organizações criminosas ficam sempre encarregadas do “serviço” sujo, sanguinário, arrecadatório (arriscado). Por trás de tudo está o crime organizado. Que age em função do lucro, logo, normalmente com astúcia. Mas que conta, ademais, com enorme poder de fogo (e de ameaça), suficiente para intimidar quem apareça em sua frente.

O crime organizado tem alto poder de infiltração nas mais elevadas instituições públicas e privadas. Seu escopo é o lucro. Não existe crime organizado para fins benemerentes. Rapinar o dinheiro alheio, sobretudo o dinheiro público, é o esporte predileto do crime organizado, que é o que mais financia as campanhas dos políticos. Normalmente não aparece, tendo gente que executa para ele as atividades arriscadas e ostensivas. O crime organizado é o agente de trás.

Quando a polícia invade as favelas, promovendo espetáculos hollywoodianos, operações de “saturação” etc., está atrás das organizações criminosas, não do crime organizado. Muitos policiais acham que estão buscando o crime organizado (nessas operações). Nada mais equivocado. O criminoso organizado não está nas favelas.

Se compararmos as operações inteligentes da polícia federal com as operações pedestres das polícias estaduais (normalmente militares) vemos nitidamente a diferença. A polícia federal vai sempre atrás do crime organizado, que frequenta ministérios, parlamentos, gabinetes da presidência, palácios, grandes construtoras etc. A polícia estadual só consegue atacar, no máximo, as organizações criminosas filiais (os lambaris). Que não são desprezíveis (se sabe).

A polícia federal não fica “pedalando” portas em favelas, tiroteando. Não se trata de uma polícia sanguinária, nisso se distinguindo com clareza das demais polícias. Nas favelas e ruas das cidades não está o crime organizado, sim, as organizações criminosas. O crime organizado está oculto: sua forma de investigação e combate, portanto, é bem diferenciada.

Precisamos de muitas polícias federais para debelar o crime organizado. Enquanto isso não acontece, a população e a mídia vão se divertindo (ou se intimidando) com as operações de guerra pedestres contra as organizações criminosas ostensivas. O crime organizado está agradecido, enquanto não é devidamente investigado (com inteligência, neurônios e muita tecnologia de ponta).

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Uma justiça absolutista e medieval

Cobrar a melhoria do sistema carcerário sim. Cobrar também a melhoria dos sistemas de ensino, de saúde, de moradia, de todos os serviços essenciais. Colocar os corruptos na cadeia. Não apenas os envolvidos no Mensalão.

O sistema carcerário medieval, com as chacinas, os massacres, sinaliza um Brasil cruel das moradias em áreas de risco, das favelas incendiadas, “pacificadas”, marcadas por deslocamentos involuntários – neologismo para despejos judiciais.

Nada mais medieval que uma justiça absolutista.

A guerra interna
A guerra interna