O inteligente brasileiro funk & Ariano Suassuna “um velho burro, burro e burro”

RS

 

O que sei de Alex Antunes? Nadinha de nada. Li na internet: “Jornalista, escritor e produtor musical, escreve ou já escreveu para a Rolling Stone, Veja, Folha Ilustrada, Bravo! e outras publicações. Foi diretor de redação das revistas Bizz e Set. Seu livro a Estratégia de Lilith foi adaptado para o cinema, no filme Augustas (em finalização). É estudioso de xamanismo e de rituais de transe”.

Produtor musical sempre usa dinheiro dos governos da União, estados, municípios e empresas estatais e privatizadas. Mais ainda quando faz cinema. Também não sei se é o caso de Alex Antunes.

A abertura de um filme parece mais uma lista de classificados de empresas multinacionais. Todo filme lava mais branco as faturas frias do mecenato brasileiro para desconto no imposto de renda. O Brasil produz assim uma cultura de esquentar faturas numa verdadeira feira e queima de dinheiro público, notadamente de impostos sonegados e vaidades e vaidades.

Passei muitas tardes de domingo, na tranquilidade da Várzea, no Recife, conversando com Francisco Julião, fundador das Ligas Camponesas, no seu velho casarão colonial de senhor de engenho. E questionei suas imunidades, isso antes de 64. E ele me respondeu: “Um líder só deve ser preso quando convém ao movimento”.

Aqui lembro a sabedoria de João Grilo. Graciliano Ramos saiu da cadeia de Vargas para trabalhar no DIP, convidado por Lourival Fontesque, o Goebbels de Getúlio Vargas.

Prestes, o líder máximo do comunismo no Brasil, também saiu da prisão para apoiar a volta de seu carcereiro à presidência.

No Brasil, da última ditadura militar, valeu o ame-o ou deixe-o. E muita gente brincou de exílio como Fernando Henrique. Saia e voltava quando queria. Milhares foram mortos. Principalmente camponeses, operários, negros e índios. E continuam sendo trucidados, principalmente os negros e os índios. Nunca se faz a contagem dos anônimos. Vide lista de desaparecidos, hojemente, no Brasil da ditadura judicial-policial nos Estados.

Os que tentaram a luta armada foram mortos. Escaparam os julgados pela justiça militar. Caso de Dilma Rousseff.

Os que deram uma de João Grilo foram salvos. Nem todos os funcionários do governo de Hitler eram nazistas. Nem todos os funcionários do governo de Stalin eram comunistas. Nem todos os soldados de Israel defendem o genocídio de Gaza.

E para completar, a contribuição do negro escravo na cultura do Brasil foi pequena, e está sendo destruída pela imposição da cultura estadunidense, via gêneros afro-culturais como rock and roll, blues, country, rhythm and blues, jazz, pop, techno, hip hop, soul, funk, inclusive a música religiosa (gospel) divulgada por igrejas Neopentecostais, apoiadas pela CIA e pela ditadura militar, como revide à Teologia da Libertação, apesar de seu criador ser um presbiteriano, o esquecido Rubem Alves, que também faleceu neste fatídico mês de julho de 2014.

“Jornalista e poeta, João Suassuna, pai de Ariano, escrevia para jornais do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Compunha versos e tocava violão, executando música do cancioneiro popular. Apaixonado pelas coisas do Sertão, mesmo quando presidente do Estado, costumava realizar festivais de violeiros em sua residência ou no palácio do governo. Estimulou a publicação de livros, entre os quais o romance A Bagaceira, de José Américo de Almeida, que teve repercussão imediatamente ao seu lançamento”.

Nair de Tefé von Hoonholtz1 (Petrópolis, 10 de junho de 1886 — Rio de Janeiro, 10 de junho de 1981), mais conhecida como Nair de Tefé, foi uma pintora, cantora, atriz e pianista brasileira. Considerada, por Hermes Lima e por artistas e intelectuais, a primeira caricaturista mulher do mundo. Wikipédia Além disso, Nair de Tefé foi a primeira-dama do Brasil de 1913 a 1914.
Nair de Tefé von Hoonholtz1 (Petrópolis, 10 de junho de 1886 — Rio de Janeiro, 10 de junho de 1981), mais conhecida como Nair de Tefé, foi uma pintora, cantora, atriz e pianista brasileira. Considerada, por Hermes Lima e por artistas e intelectuais, a primeira caricaturista mulher do mundo.
Além disso, Nair de Tefé foi a primeira-dama do Brasil de 1913 a 1914 (Wikipédia)

Também de pele branca, Nair de Tefé, filha de barão e esposa do marechal presidente Hermes da Fonseca, “promovia saraus noutro palácio, o do Catete – o palácio presidencial da época -, que ficaram famosos por introduzir o violão nos salões da sociedade. Sua paixão por música popular reunia amigos para recitais de modinhas.

As interpretações de Catulo da Paixão Cearense fizeram sucesso e, em 1914, incentivaram Nair de Teffé a organizar um recital de lançamento do Corta Jaca, um maxixe composto por Chiquinha Gonzaga (sua amiga). Foram feitos críticas ao governo e retumbantes comentários sobre os ‘escândalos’ no palácio, pela promoção e divulgação de músicas cujas origens estavam nas danças lascivas e vulgares, segundo a concepção da elite social. Levar para o palácio presidencial do Brasil a música popular foi considerado, na época, uma quebra de protocolo, causando polêmica nas altas esferas da sociedade e entre políticos. Rui Barbosa chegou a pronunciar o seguinte discurso no Senado Federal a 7.11.1914:

‘Uma das folhas de ontem estampou em fac-símile o programa de recepção presidencial em que, diante do corpo diplomático, da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o Corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o Corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o Corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!”

O que a mulata tem para oferecer no Globeleza e nas escolas de samba?
O que a mulata tem para oferecer no Globeleza e nas escolas de samba?

Não vejo nativismo (os índios eram chamados de negros da terra), negritude, nem brasilidade na Globeleza, nas escolas de samba da TV Globo, na música brega, no funk, nas revistas Rolling Stone, Veja, em Lilith, no monarquista e escravocrata Zambi.

Transcrevo o transe:

Suassuna, velho burro

por Alex Antunes

 

João Grilo e Nossa Senhora
João Grilo e Nossa Senhora

Me perguntei algumas vezes se deveria escrever este texto. Porque o principal que tenho a dizer sobre Ariano Suassuna é que ele era um velho burro e chato. E o homem, como se sabe, acabou de morrer – o que o eleva automaticamente aos píncaros da genialidade e da infalibilidade nos textos que se espalham pela imprensa.

Mau momento para lembrar o seu principal defeito: a profunda e total incompreensão da natureza da cultura pop. Eu tinha desistido de escrever. Mas eis que a televisão de domingo o mostra numa entrevista, atacando, com volúpia e deboche, Michael Jackson e Madonna, além da réplica da estátua da Liberdade na Barra da Tijuca.

Ora, é fácil concordar com ele que a réplica da estátua é um monumento à imbecilidade playba. E que Michael Jackson (esse trecho não passou no domingo) é digno de pena, pela forma como foi explorado e depois massacrado pela mesma indústria cultural.

Mas Suassuna os atacava pelas razões erradas. Não há “superioridade” da cultura brasileira, e em particular da nordestina, sobre a cultura pop internacional. Por uma razão muito simples: o sistema arquetípico sobre o qual elas se constroem é exatamente o mesmo.

A mesma graça que há nos modos e sotaques regionais pode ser vista em expressões culturais globais. A cultura pop é simplesmente o “folclore sintético”. O que está por trás do Batman, do Super Homem, dos filmes policiais negros da blaxploitation ou da Madonna são os mesmíssimos arquétipos que animam os mitos gregos do Monte Olimpo, as lendas dos orixás das religiões africanas ou os arcanos do Tarô.

Não é à toa que Suassuna implicou tanto com os tropicalistas (de maioria baiana) quanto com o manguebeat que surgiu no seu estado de adoção, Pernambuco. Dizia que falaria com Chico se ele tirasse o Science do nome, e que a música da Nação Zumbi era “de quarta categoria”.

Suassuna se irritava porque esses nordestinos decifraram as matrizes em comum que existem na cultura popular brasileira e em qualquer expressão cultural. Ao mesmo tempo em que escapavam do purismo elitista e castrador, propunham uma forma nacional, desinibida e não-colonizada de cultura pop.

Diz uma letra do Mundo Livre SA, “O Ariano e o Africano”, de 1998:
“Há quatro séculos a alma africana tem sido um motor
Da inquietação, da resistência, da transgressão
O negro sempre quis sair do gueto
Fugir da opressão fazendo história
Ganhando o mundo com estilo
E é assim que a alma africana sobrevive com brilho e vigor
Em todo o novo continente o africano foi levado para sofrer no norte e gerou,
entre outras coisas, o jazz, o blues, gospel, soul,
r&b, funk, rock’n’roll
No centro, o suor africano fomentou o mambo, o ska,
o calipso, a rumba, o reggae, dub, ragga,
o merengue e a lambada, dancehall e muito mais
Mas é o ariano que ignora o africano ou
é o africano que ignora o ariano?
E ao sul a inquietude negra fez nascer,
entre outros beats, o bumba, o maracatu, o afoxé,
o xote, o choro, o samba, o baião, o coco, a embolada
Entre outros, os Jacksons e os Ferreiras,
os Pixinguinhas e os Gonzagas,
as Lias, os Silvas e os Moreiras
A alma africana sempre esteve no olho do furacão
Dendê no bacalhau, legítima e generosa transgressão
É Dr. Dre e é maracatu
É hip hop e é Mestre Salu
Mas é o ariano que ignora o africano ou é o
africano que ignora o ariano?”

Ariano Suassuana
Ariano Suassuana

É um flagra perfeito da condição elitista de Suassuna, branco cristão e filho do governador assassinado da Paraíba em 1930, que abraçou concepções culturais marxistas, não para libertar a cultura popular mas, pelo contrário, para mantê-la sob controle.

.
Suassuna era um artista inspirado. Surpreendentemente pop, a se julgar, por exemplo, pelo filme e microssérie da Globo “O Auto da Compadecida”. E o seu Movimento Armorial teve grande impacto na cultura pernambucana. Mas fazia sempre a trajetória inversa do tropicalismo, do manguebeat e do modernismo antropofágico – as mais generosas e brasileiras das expressões, exatamente pelo não-purismo.

.
Suassuna não aceitava os aspectos bastardos da cultura popular; pelo contrário, queria adensá-la e refiná-la numa expressão erudita. Ou seja, como pensador cultural, era um conservador odioso. Declarava-se “inimigo da colonização e do poder do dinheiro”, mas ele mesmo um colonizador de consciências e um guardião do status quo.

.
Não é de se estranhar que Ariano tenha sido membro-fundador, um dos “cardeais” do Conselho Nacional de Cultura. Uma estranha convergência entre intelectuais (inclusive de esquerda) e a ditadura militar entre 1967 e o anos 70, baseada na busca de uma identidade de Brasil com um sentido cívico, tradicionalista e otimista. Foi a experiência no Conselho que impulsionou Suassuna na organização do movimento Armorial em Recife.

.
Acontece que o negro, ou qualquer oprimido que busca sua libertação na lida cultural, como bem explica a letra do Mundo Livre, é amigo da eletricidade, da cultura em movimento e reinvenção, da provocação bastarda e dessacralizada, da incorporação e inversão de termos pejorativos (funk, punk, junky, nigga etc) – e não do reconhecimento institucional.

.
O momento mais memético de Suassuna na internet é um fruto, bastante humorístico, de seus equívocos. Em suas aulas-espetáculo gostava de contar o causo de um músico punk ou funk que cantou-lhe uma letra. Ela falava de modelos atômicos, dos físicos Rutherford e Bohr, de um cavalo morto e que “fora do buraco tudo é beira”. Naturalmente sua “interpretação” jocosa da tal letra virou um vídeo viral, o “Funk do Suassuna”.

.
Reza a lenda que Suassuna se divertiu com a adaptação (parece que com o trocadilho no nome do bloco carnavalesco Arriano Sua Sunga ele já não lidou tão bem). E, mesmo brigado com o manguebeat, chorou copiosamente no velório de Chico Science. Seria essa sua dimensão humana e generosa.

.
Mas sua teoria cultural elitista e (anti) popular continua inaceitável. O pior de dois mundos, a convergência da culpa cristã com a marxista. Se Michael Jackson e Madonna são meramente “lixo cultural”, como gostava de dizer de boca cheia, Ariano Suassuna era um velho burro, burro e burro.

 

Os selvagens brasileiros e a Copa

Causa espanto no mundo inteiro os mandamentos da Fifa para a Copa. Ou melhor: o que é pecado nos países civilizados, no Brasil é costumeiro.  A atitude senhorial e colonizadora da Fifa vem sendo criticada pela imprensa internacional, mas os jornais brasileiros, passiva e covardemente, nada reclamam. Estão acostumados a dizer amém para os cartolas ingleses, desde que o futebol começou a ser divulgado no Brasil.

Na América do Sul, quem defende os brasileiros, sãos os hermanos argentinos.

CONTROVÉRSIA
Os polêmicos conselhos da FIFA para os que viajam para a Copa

 

Alex Falco Chang
Alex Falco Chang

 

por Eleonora Gosman/ Clarín/ Argentina

“Abstinência sexual” e “fidelidade” são duas recomendações da Fifa para esta Copa 2014 no Brasil. O reboliço que a publicação causou obrigou a Fifa a retirar essa edição da revista eletrônica.

O conselho é parte de uma cartilha que começou a circular em fevereiro nas doze cidades sede do mega evento futebolístico. O objetivo seria evitar que tanto os locais quanto os visitantes estrangeiros contraiam AIDS durante os 30 dias da competição.
Mas a Federação Internacional de Futebol não se limitou ao sexo, publicou sua própria tabela de 10 “mandamentos” para os 600.000 torcedores e turistas que virão do exterior. Com o título de “Brasil para os principiantes”, recomenda-se às mulheres que não façam topless nas praias, já que podem terminar na prisão. E também que os pedestres tenham cuidado ao atravessar as ruas, inclusive se atravessarem pelas linhas brancas, pois no Brasil não há cultura britânica.
O artigo em questão, publicado no Weekly Fifa, com o suposto objetivo de assessorar os europeus que desembarcarão no Brasil, é uma notável coleção de clichês, que pretende descrever o comportamento médio em um país onde há tantas culturas como estados (27 no total). O reboliço que a publicação causou obrigou a Fifa a retirar essa edição da revista eletrônica.

As advertências têm um tom jocoso, mas terminam por soar como um resumo discriminatório dos costumes que os europeus atribuem aos “sudacas”. Para começar, a foto que ilustra essa lista é a habitual: duas lindas garotas com uma poderosa anatomia em exibição. A poucos metros, um grupo de rapazes joga uma pelada.
O manual da Fifa continua com as seguintes observações: se você for a um restaurante para comer churrasco evite ingerir alimentos até 12 horas antes e quando já estiver sentado mastigue lentamente porque a boa carne “só é servida no fim”.
No mesmo estilo irônico, afirma que no Brasil existe pouco respeito pelo espaço mínimo que cada pessoa requer. E diz isso nestes termos: “Brasileiras e brasileiros não estão familiarizados com o costume europeu de manter a distância um do outro como uma norma de cortesia”. Dá muitos exemplos do significado do “beijo”, que não deve causar confusão: “É uma forma de comunicação não verbal que não implica compromissos”.
Afirma que “nas ruas, os pedestres são ignorados, e mesmo quando se atravessa pelas linhas brancas nenhum motorista vai parar voluntariamente”. De acordo com o decálogo, “o espanhol não serve. Os visitantes que tentarem se comunicar em espanhol terão a sensação de estar falando com as paredes”.

Por último lança uma forte advertência: “As imagens de mulheres com pouca roupa, típicas do carnaval, são enganosas e diferem consideravelmente da realidade”. Portanto não pense em “tomar sol na praia em topless”. Está absolutamente proibido e quem o fizer terminará na cadeia. Leia mais 

A carta de Pêro Vaz de Caminha e os relatórios da Fifa

Carta de Pêro Vaz de Caminha
Carta de Pêro Vaz de Caminha

O Brasil programou gastar 2 bilhões em segurança na Copa do Mundo. Nos cinco séculos de presença branca e colonial, inimagináveis mudanças no comportamento e costumes dos habitantes da Ilha de Vera Cruz.

Escreveu Pêro Vaz de Caminha:

E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio, já ali havia dezoito ou vinte homens.

Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. (…)

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. (…)

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata.

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora.

Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora. (…)

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.

Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha, que se não entendia nem ouvia ninguém. (…)

E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. (…)

Os outros dois, que o Capitão teve nas naus, a que deu o que já disse, nunca mais aqui apareceram – do que tiro ser gente bestial, de pouco saber e por isso tão esquiva. Porém e com tudo isso andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser.

Isto me faz presumir que não têm casas nem moradas a que se acolham, e o ar, a que se criam, os faz tais. Nem nós ainda até agora vimos nenhuma casa ou maneira delas. (…)

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados, que fossem lá andar entre eles; e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. Aos degredados mandou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos, e andaram entre eles. E, segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitânia. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas duma só peça, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro.

Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra há e eles comem. Mas, quando se fez tarde fizeram-nos logo tornar a todos e não quiseram que lá ficasse nenhum. (…)

Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença.

E portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa. (…)

Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

Neste dia, enquanto ali andaram, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som dum tamboril dos nossos, em maneira que são muito mais nossos amigos que nós seus. (…)

Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem. (…)

O soldado da Copa
O soldado da Copa

Pêro exaltou a mansidão do índio.

Qual a visão de um cartola da Fifa do brasileiro hoje, para exigir um gasto de 2 bilhões em segurança?

O índio era mais sadio que o brasileiro atualmente, porque comia bem. Alimentos não mais vistos na mesa do trabalhador, e proibidos nas luxuosas praças de alimentação das arenas da Copa.

Os evangélicos do asfalto e a eterna presença da irmãzinha Genoveva

Genoveva, irmãzinha de Jesus
Genoveva, irmãzinha de Jesus

 

Vou transcrever trechos de pesquisa de Júlia Adão Bernardes – Modernização: A Lógica do Capital e  o Direito dos Excluídos – para a louvação da irmã, irmãzinha Veva, Genoveva que, no Mato Grosso, fez crescer e multiplicar pessoas, enfrentando o apartheid indígena.

Introdução

Mato Grosso constitui um laboratório onde as experiências de ino- vações, vinculadas a mudanças no atual paradigma técnico-científico, indicam determinado rumo. Contudo, tais experiências não podem ser consideradas como um modelo acabado, porque isso significaria ignorar as especificidades históricas, econômicas, culturais e espaciais que não podem ser transplantadas para outra realidade.

O presente trabalho está voltado para a compreensão de algumas dessas experiências que resultam na constituição dos novos espaços pro- dutivos, buscando apreender as novas formas de organização da sociedade e as relações emergentes, onde vão se instituindo processos que envolvem a implantação e a articulação de atividades modernas, impulsionados pela dinâmica de reprodução do capital, significando novas possibilidades de uso do território no cerrado.

Trata da expansão da empresa capitalista na área de influência da BR- 158, de como se constituiu nos anos 70 uma nova fronteira da agricultura moderna na porção sul desse corredor de exportação e, na parte norte, de como se deu a implantação dos grandes projetos agropecuários, procuran- do identificar as contradições que essa expansão envolvia, assim como as distintas visões de modernidade e os valores subjacentes às mesmas.

Aborda, também, o movimento de disseminação recente da empresa capitalista na parte norte do eixo da BR-158, favorecida por uma nova logística de escoamento da produção na direção sul/norte, buscando analisar como o capital avança sempre associado à propriedade da terra, identificando as possibilidades e dificuldades dos pequenos produtores agrícolas, assentados, posseiros e trabalhadores rurais face ao novo pro- cesso de imposição de novos usos ao território usado.

Captar o fenômeno de expansão da agricultura moderna significa perceber a substituição de atividades menos rentáveis por outras mais lucrativas, a concentração e a centralização da terra e do capital e, conse- qüentemente, do poder, o agravamento da inviabilidade dos pequenos pro- dutores agrícolas sobreviventes na área, o aumento do trabalho temporário e da precarização do mesmo, os problemas de ordem ambiental, significa ver o território para a ação política, o que exige lê-lo como totalidade.

A irmã Genoveva na Amazônia
A irmã Genoveva na Amazônia

Progresso e atraso, moderno e tradicional

Comecemos com a exposição de três fatos importantes percebidos no trabalho de campo, no Vale do Araguaia, em julho de 2007. Em nos- sas incursões na BR-158 mato-grossense um dos aspectos que primeiro atraiu a atenção dos pesquisadores foi a diversidade de situações no que concerne ao uso do território e à organização dos grupos sociais, os quais apresentavam distintos níveis de complexidade, combinando processo histórico, exploração da terra e organização social de diferentes formas, em sua face visível.

Enquanto na parte sul domina o modelo sócio-econômico agroin- dustrial moderno, na porção norte esse estágio ainda não foi alcançado, predominando a pecuária extensiva e formas tradicionais de uso da terra. Foi exatamente nesta última que aconteceram as lutas populares no campo nos anos 70, no contexto da ditadura militar, lideradas pela igreja católica que atuava na linha da teologia da libertação, irradiados a partir da prelazia de São Félix do Araguaia, onde se destacava a figura do bispo Dom Pedro Casaldáliga. Tais movimentos eclodiram para apoiar os posseiros expulsos de suas terras devido à implantação de grandes projetos agropecuários na região. No processo de resistência, lideranças locais emergiram e novas foram forjadas nas lutas, deixando marcas que permanecem de distintas formas até os dias atuais. Este constituiu o primeiro aspecto marcante da pesquisa de campo.

Um segundo fato diz respeito à entrevista realizada no município de Santa Terezinha, na tribo Tapirapé, um povo do grupo tupi que vive às margens do rio Tapirapé, com uma Irmãzinha de Jesus, a qual, juntamente com outras duas Irmãzinhas, desde 1952 vive na região do Araguaia, junto desse grupo indígena. A irmã Genoveva nos contou que escolheram os Tapirapé porque na época estavam doentes e desnutridos, perdendo as terras, eram apenas cinquenta e se encontravam ameaçados de extinção face às incursões dos Kayapó. Permaneceram com eles não para catequizá- los, mas para ficar ao seu lado, simplesmente para mostrar-lhes que eles eram importantes, que tinham valor.

Nesses quase 50 anos de permanência, trataram de suas doenças, já que uma Irmãzinha era enfermeira, os Tapirapé recuperaram suas terras, a auto estima, muitos estudaram fora, e hoje são aproximadamente oito- centos. No livro “O renascer do Povo Tapirapé”, diário das Irmãzinhas de Jesus, Beozzo (2002, p.13) assinala que o que há de singular na ida das Irmãzinhas ao Tapirapé é “sua atitude de aprendizado e convivência”, é “a escolha dos meios pobres”, passando a morar como eles, aprendendo com as crianças e jovens o idioma e as formas de sobrevivência na mata.

Um terceiro fato relaciona-se à entrevista realizada com o colonizador da região, ao fim daquela viagem, o pastor luterano alemão Ênio Schwantes, um dos responsáveis pela expansão do agronegócio nos anos 80. Após relatos sobre como se deu o processo de colonização da área, o avanço da agricultura moderna, as dificuldades e os desafios, o pastor Schwantes finalizou, afirmando: “Aqui nós trouxemos o progresso, trouxemos asfalto, técnica, máquinas, soja, cidades modernas. Aquele lá em cima, o Pedro Casaldáliga, o que trouxe? Nada. Lá tudo continua no mesmo”. Essas são as três narrativas das quais fui testemunha. Leia mais

 

Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus e Pedro
Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus e Pedro Casaldáliga

 

Memoria de un genocidio

El Relatorio Figueiredo es un informe de 1968 que recoge la sistemática violación de derechos humanos sufrida por las poblaciones indígenas de Brasil. Durante decenios estuvo perdido. Su reciente descubrimiento ha vuelto a poner de actualidad una realidad trágica con más de quinientos años de historia.

foto massacre índio

por Juanma COSTOYA

Alo largo de cuarenta años se habló en Brasil del Relatorio Figueiredo como de una leyenda. Se le consideraba perdido o censurado y la versión más difundida estimaba que toda la comprometida documentación agrupada bajo este nombre se había quemado en un incendio ocurrido hace decenios en el Ministerio de Agricultura brasileño. La incomodidad de su contenido y el destino había determinado que las cincuenta cajas que contenían las más de siete mil páginas del Relatorio Figueiredo hubieran permanecido simplemente ignoradas, acumulando polvo en un oscuro almacén gubernamental. La donación por parte del organismo gubernamental FUNAI (Fundación de Ayuda al Indio) del conjunto de cajas sin catalogar y su traslado al Museo del Indio de Río de Janeiro permitieron, hace escasas semanas, su localización por uno de los abogados que trabajan para la Comisión Nacional de la Verdad, creada en 2012, a fin de esclarecer los crímenes cometidos contra la población indígena del país carioca entre los años 1946 y 1988.

Como hace siglos, la realidad de los indígenas americanos sigue en el centro del huracán. La prensa brasileña habla del auge del lobby ruralista, compuesto, en una parte importante por terratenientes y compañías mineras. Su influencia es grande en el Congreso y Dilma Rousseff, la actual presidenta del país, no puede desdeñar casi ningún apoyo.

Jader de Figueiredo

El Relatorio Figueiredo lleva el nombre de su autor, el procurador Jader de Figueiredo Correia. Siguiendo los dictados del Ministerio de Interior brasileño, el funcionario Figueiredo inició a comienzos de 1967 un viaje de 14.000 kilómetros por el interior de su inmenso país, visitando 18 estados y contactando con 130 puestos indígenas. En su transcurso fueron entrevistados docenas de miembros del SPI (Servicio de Protección al Indio) y se tomaron gran número de fotografías. Las conclusiones del colosal informe fueron espeluznantes.

En esas páginas, que se muestran amarillentas a día de hoy, redactadas a máquina y a doble espacio y presididas por el escudo del Ministerio del Interior brasileño, se habla de desvío de recursos, de la venta ilegítima de tierras indígenas, de asesinatos masivos y torturas, de envenenamientos y secuestros, de prostitución de las jóvenes indígenas, de esclavitud y de todo un catálogo de horrores coronados por la impunidad más absoluta.

Medios internacionales como «The New York Times» o «Der Spiegel» se hicieron en su día eco del informe poniendo a la dictadura brasileña del presidente Emilio Garrastazu (1969-74) en una situación incómoda. Jader de Figueiredo, por su parte, fue amenazado de muerte en repetidas ocasiones, sufrió atentados, y su familia en Fortaleza precisó de escolta durante varios años.

El propio Figueiredo se reveló como un verso suelto en la polarizada sociedad brasileña de la época. Tenaz e incorruptible, denostado por la derecha y, sobre todo, por los representantes de estancieros, empresas mineras y terratenientes, tampoco se hizo querer por la izquierda debido a su condición de funcionario de la dictadura.

Figueiredo moriría en 1976, a los 53 años, en un accidente de autobús. La última etapa de su existencia fue amarga. El colosal esfuerzo invertido en su Relatorio y los riesgos corridos se saldaron únicamente con unas cuantas dimisiones y algún cese. Ningún responsable de las matanzas y de los terribles abusos cometidos conoció la prisión. El siniestro Servicio de Protección al Indio fue refundado y se convertiría en el FUNAI.

En el fondo, nada trascendente había sucedido y los abusos simplemente se enmascararon para poder continuar.

Norman Lewis

A pesar de todo, el Relatorio Figueiredo cayó como una bomba en determinados ambientes. Lo que era un secreto a voces acabó por tener confirmación oficial. Un decenio antes de que se hiciera público el informe, el antropólogo francés Claude Lévi-Strauss ya había denunciado en su obra «Tristes Trópicos» (1955) prácticas criminales al servicio de intereses especuladores, los grao fino de la sociedad brasileña de 1930. De los hospitales, por ejemplo, se recolectaba ropa de enfermos infectados por la viruela. Estas prendas envenenadas eran después donadas a tribus o abandonadas, en forma de presentes, en los caminos frecuentados por los indígenas. Se buscaba una mortandad inmediata y devastadora. Strauss también recoge que los mismos que toleraban y hasta fomentaban estas prácticas mantenían una doctrina oficial de lamento y escándalo por las matanzas perpetradas por los exploradores europeos del XVI en su país.

El Relatorio tampoco pasaría desapercibido en Europa. El escritor Norman Lewis (1908-2003) redactó, en 1969, para «The Sunday Times», un largo reportaje en el que reflejaba sus experiencias viajeras por América del Sur contrastándolas con las conclusiones del informe Figueiredo al que consideraba verídico hasta en sus últimos detalles. El reportaje provocó tal conmoción en Europa que fue el detonante de la formación de Survival International, la organización no gubernamental que nació con la vocación de velar por los derechos indígenas en el mundo.

El encabezamiento del reportaje de Lewis ha quedado como una lección de historia resumida en dos líneas. «Del fuego a la espada al arsénico y las balas, la civilización condenó a seis millones de indios a la extinción». En su largo artículo, Lewis incluía al padre Las Casas, el dominico sevillano autor de la celebérrima «Brevísima relación de la destrucción de las Indias» (1552) y a Lévi Strauss como autoridades intelectuales que habían denunciado el silencioso genocidio indígena con casi cinco siglos de diferencia. Lewis incluía en su escrito una reveladora declaración literal del antropólogo francés: «Los indígenas no son gente del pasado o retrasados, por el contrario atesoran un genio para la acción y la invención que se sitúa muy lejos de muchos logros de la gente llamada civilizada».

«Dios contra los indios»

Norman Lewis, al que el Graham Greene calificó como uno de los mejores escritores del siglo XX, fue, al igual que Jader de Figueiredo, otro verso suelto. A diferencia de los grandes escritores británicos de viajes no vino al mundo en el seno de una familia de aristócratas o funcionarios coloniales. Desde muy joven hubo de trabajar para ganarse la vida y lo hizo en los más variados oficios, desde paragüero hasta fotógrafo o vendedor comercial. Ni rastro en su biografía de la elitista camaradería de los happy few, los educados a caballo entre Eton y Oxford o Cambridge. En una entrevista dejó clara su visión del mundo al afirmar que en sus viajes a alguna de las regiones más remotas del mundo nunca se había sentido superior a la gente a la que trataba.

Las sociedades indígenas de América del Sur le causaron honda conmoción. En sus largos y continuos viajes a esta zona del mundo pronto descubrió que el genocidio indígena no era solo cosa del pasado. Una nueva hecatombe se estaba produciendo en esos mismos momentos y por obra de aquellos a quienes la sociedad consideraba como garantes de los derechos de los más débiles: los misioneros. De Guatemala a Paraguay y de Bolivia a la cuenca amazónica las sectas evangelistas norteamericanas actuaban con inmunidad y letal eficacia. Arrastrados por un celo fanático e ignorante y en connivencia en muchas ocasiones con intereses económicos y estratégicos por completo ajenos a las sociedades indígenas, los misioneros lograban en tiempo récord la aculturización de los nativos, paso previo a una desorientación vital y a una apatía generalizadas, lo que, más temprano que tarde, desembocaba en patologías que segaban la vida de sociedades enteras.

Testigo impotente de esta situación, Norman Lewis escribió un libro memorable «Misioneros. Dios contra los indios» (1988). Esta obra, publicada en su día por la editorial Herder y hoy descatalogada y a la que solo es posible acceder por medio de librerías cuyos fondos se exhiban en la red, destila humanidad y sentido común frente al cerrilismo criminal y obtuso de los misioneros evangelistas norteamericanos.

Como si no hubieran pasado cinco siglos desde que Las Casas advirtiera de las tropelías de la colonización española en América, volvían a repetirse a finales del siglo XX la esclavitud encubierta, el tráfico de seres humanos, las indagaciones en busca de materias primas y minerales estratégicos y los trapicheos con plumas de aves y pieles de jaguares, todo ello mezclado y encubierto con una teología medievalizante, mercantilizadora y puritana que sería cómica de no ser tan trágica.

Claude Lévi-Strauss

Lévi-Strauss (1908-2009) pasa por ser uno de los intelectuales de referencia del siglo XX. Fundador de la antropología estructural y de la Asociación Internacional de Lingüística, su público más amplio le conoce por su obra «Tristes Trópicos». Es célebre y polémica la frase que da origen a esta obra: «Odio los viajes y los exploradores». De forma paradójica, en este ensayo novelado reflexiona sobre las expediciones científicas que llevó a cabo en algunas de las áreas más apartadas del Brasil de finales de los años 30. El jurado del Premio Goncourt dijo lamentar no poder premiarlo ya que, en rigor, no era una obra de ficción.

El autor afirma haber conocido a muchos misioneros y sentir aprecio por la labor humana y científica de muchos de ellos. Hace, sin embargo, una salvedad clara, la de los misioneros norteamericanos que trataban de introducirse en su área de estudio entonces, el Mato Grosso central. Asegura de ellos que provenían de familias campesinas educadas en los ambientes rurales de Nebraska o Dakota, creyentes en la literalidad del infierno bíblico y los calderos de aceite hirviendo; convencidos de su salvación «como se contrata un seguro». Dueños de un fanatismo y una ignorancia proporcionales, Lévi-Strauss les acusaba también de una crueldad y de una falta de humanidad escandalosa en el trato con los indígenas.

Quanto o Brasil gasta com armas não letais de mentirinha?

Conquista do Império Inca
Conquista do Império Inca

 

Informam os governos estaduais que, seguindo determinação de protocolos internacionais, as secretarias da Segurança Pública (SSP) e as Polícias Militares continuarão utilizando os armamentos não-letais necessários para coibir atos de violência durante manifestações populares.

Os governadores, notadamente nos Estados que construíram estádios inacabados para a Copa das Confederações, mentem quando afirmam que tais armas somente são usadas com o objetivo de garantir a ordem pública, depois de esgotadas exaustivamente todas as tentativas de negociação, e apenas em situações de extrema necessidade. Terceira mentira: Acrescentam que todos os excessos serão punidos.

A primeira mentira: canhão sônico, gás lacrimogêneo, bala de borracha e taser são armas que matam.

E mais: nas guerras de conquista das Américas, as armas mais temidas pelos índios, nos confrontos com os brancos europeus, eram os cavalos, treinados para pisotear pessoas; e os cachorros, para comer carne humana. Isso ainda acontece. Basta relembrar o caso do goleiro Bruno.

 

Desenho do grande cronista índio Felipe Huaman Poma de Ayala
Desenho do grande cronista índio Felipe Huaman Poma de Ayala

Nenhum dos governadores revelam o gasto secreto para adquirir tais armamentos. E, principalmente, as negociatas realizadas no comércio e no tráfico de armas.

Garanto que gastam mais com canis, baias e cocheiras do que com creches. E muito com armas, do que com livros.

indignados polícia livro

A corrupção na Funai e o “selvagem” índio brasileiro

Mapa do Século XVI
Mapa do Século XVI

 

Por que o índio brasileiro tem que ser diferente do índio boliviano? Mais de 50% da população da Bolívia é indígena; menos de 40 % mestiços dos povos originários; 9 % brancos. Não esquecer que Evo Morales é o primeiro presidente índio depois da invasão e conquista européia.

A política de tratar o índio como selvagem, bugre, negro da terra, um colonialismo disfarçado de bondade ou negação de tudo que a Bolívia oferece, depois do fim do apartheid indígena. (T.A.)

 

índio

Governo precisa fazer uma limpeza na Funai

por Nélio Jacob

Em recente comentário, Valmor Stédile tocou num fato intrigante, que merece atenção. Nem otimismo, nem pessimismo, apenas realismo. Pelos caminhos tomados pela carruagem, tem-se ideia aonde se quer chegar.

Acordo assinado na ONU dando as tribos indígenas autonomia
política e administrativa, logo depois juntando as diversas tribos que fazem fronteira com outros países, numa área contínua com o nome de Nação Ianomami, agora a movimentação dos índios querendo mais terras, com apoio da Funai, de setores religiosos e principalmente ONGs estrangeiras.

Tendo em vista os acontecimentos no mundo atual, em que vale tudo para um país roubar a riqueza de outro, não custa nada ter cautela. As grandes potências, não precisam tomar as riquezas do Brasil à força, enquanto conseguirem isso devagar, mas sem custo, na base da conversa, aproveitando-se da falta de nacionalismo de nossos governantes.

Também o comentarista Jorge Jerônimo está certíssimo. Se o governo defendesse os interesses nacionais, expulsaria essas dezenas de milhares de ONGS estrangeiras, que são na verdade eficientes espiãs, e proibiria o acesso de pregadores religiosos às tribos indígenas.

São essas organizações civis e religiosas que fazem a cabeça das tribos, levando-as a crer que quanto maior a área que possuírem, melhor será sua vida. Qual a necessidade de uma tribo indígena, com uma população ínfima, ter áreas quilométricas, não faz sentido.

O desejo de todo ser humano é melhorar de vida, ter acesso a modernidade etc., e é isso que os índios querem e precisam, só que para conseguir isso, influenciados, estão tomando um
um caminho que vai de encontro à soberania nacional.

Cabe ao governo tomar providências, começando por uma limpeza profunda na Funai.

(Transcrito da Tribuna da Imprensa)

índio 3