Jornalistas mineiros denunciam “ação golpista e antinacional” da imprensa conservadora

censura375

do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, enviado por Eliara Santana

Os ares da liberdade não estão circulando de forma desimpedida no Brasil.

Há pouco fôlego para o debate de ideias e menos espaço para o exercício meticuloso, criativo e responsável da busca da verdade.

O jornalismo, com sua tarefa civilizadora de consagrar o direito à informação, vem perdendo sua força em razão do domínio empresarial de um negócio em profunda crise de identidade por razões tecnológicas, econômicas e morais.

O setor deixou de lado suas bases históricas para se definir por meio de alianças cada vez mais incontestáveis com projetos econômicos liberais e de poder político conservador. O resultado tem sido uma perda de relevância do jornalismo. De fiador da liberdade a ator interessado, com visão particular de mundo, sociedade e política, a indústria da notícia ocupa hoje um lugar estranho à sua origem e razão de ser.

A realidade da divisão social foi transformada pela mídia em ambiente de doentia confrontação, que alimenta o golpismo contra a democracia real e estimula o ódio entre as pessoas.

A imprensa, nesse contexto, vem cumprindo a triste missão de desinformar para manipular melhor.

Os jornalistas, nessa hora nebulosa, precisam trazer seu raio ordenador: o sentido da verdade, a crença na pluralidade, a força do argumento contra o nivelamento rasteiro do pensamento único. O teste vigoroso da investigação jornalística, do conhecimento fundado nos fatos, do alimento à reflexão, da sensibilidade humana aos personagens da vida real.

É urgente a defesa das conquistas democráticas, com sua pletora de ideias dissonantes em livre e saudável embate, em lugar do autoritarismo dos colunistas orgânicos, homens e mulheres servis aos patrões, das repetições acríticas das análises prontas, e do silêncio constrangido. Ações deletérias que se armam a partir das mais torpes estratégias, como a mentira, o cinismo, a venalidade e a censura.

É hora do jornalismo responsável. Contra a lógica destrutiva do quanto pior melhor; em confronto com as simplificações que personalizam os problemas estruturais; em franco embate com a defesa do privilégio, do preconceito e da exclusão.

Um jornalismo feito com força moral para combater a corrupção em toda sua extensão. Com apuro técnico que desvele as antecâmaras de uma sociedade desigual e concentradora. Com ligações com o sentimento popular e as verdadeiras expressões de aprimoramento social e humano. Uma trincheira ética que todos reconheçam.

Para isso é preciso que se enfrentem grandes inimigos e estruturas seculares que construíram um dos mais lucrativos mercados do planeta que, se hoje claudica, não é por falta de privilégios, mas pela incapacidade de competir de forma honesta, já que foi nutrido em ambiente protegido. Uma flor de estufa que apodrece em praça pública. Mais que um sistema de ampliação de vozes, a imprensa brasileira confunde a voz do dono com o dono da voz.

Um setor que defende o mercado, mas que quer se eximir de seus controles. Que não aceita regulações nem mesmo quando exerce uma concessão pública por natureza precária e sujeita a renovações. Incapaz de compreender a dimensão pública do direito à informação. Que se arvora em cantar loas à competição enquanto luta ferozmente para manter privilégios na distribuição das verbas publicitárias públicas. Que, em ato repetido de má fé, confunde regulamentação com censura.

Uma indústria eivada de estereótipos, que não gosta do povo, que criminaliza a miséria, que promove o racismo e a violência contra minorias. Que parte de noções preconcebidas, que transforma ideologias em fatos, que vai ao mundo apenas para validar sua visão menor de realidade e seu desprazer em conviver com a diferença.

E nesse quadro de capitulação da imprensa conservadora diante dos poderosos, os jornalões e as cadeias de tevê e rádio lançam-se à mais implacável campanha de descrédito e desestabilização do governo da República. Não pelos seus possíveis erros, mas pelos seus muitos acertos. Os jornalistas denunciam mais essa ação golpista e antinacional da imprensa conservadora, explorando problemas conjunturais que o Brasil enfrenta (como de resto, tantos outros países), para a defesa de seus interesses e dos setores que representam.

É contra tudo isso que os jornalistas se unem em coro com a população brasileira. Pela liberdade de expressão, pela liberdade de informação, pela defesa da riqueza brasileira, na figura de sua maior e mais valiosa empresa, a Petrobras; pelos valores democráticos, pelos direitos humanos, contra todas as formas de golpe e de fascismo.

Um jornalismo de combate.

Um jornalismo de afirmação.

Jornalistas pela verdade.

Jornalistas por uma nova narrativa pública.

Jornalistas pela igualdade.

Jornalistas por um mundo mais humano.

Jornalistas pelo Brasil.

Casa do Jornalista, 8 de abril de 2015.

censor censura2

UJS rechaça comportamento da mídia brasileira no caso Charlie Hebdo

A UJS emitiu uma nota, na tarde desta quinta-feira (8) em solidariedade ao jornal francês Charlie Hebdo e em rechaço à imprensa brasileira que tenta, a todo custo, distorcer o fato e usar uma tragédia em benefícios próprios, ao manipular informações de modo a direcionar a opinião pública contra a democratização dos meios de comunicação no Brasil.

Crítica ao sistema bancário, em  2011, com a mensagem %22A Europa é governada pela banca%22 como título e Hitler a exclamar %22Que idiota, eu devia era trabalhar no BNP%22 (o BNP é um banco francês com sede em Paris, um dos maiores da Europa)
Crítica ao sistema bancário, em 2011, com a mensagem “A Europa é governada pela banca”, como título, e Hitler a exclamar “Que idiota, eu devia era trabalhar no BNP” (o BNP é um banco francês com sede em Paris, um dos maiores da Europa)
Quando se soube do escândalo sexual de François Hollande, que teria uma amante há vários anos, o jornal resolveu mostrar os genitais do líder do país
Quando se soube do escândalo sexual de François Hollande, que teria uma amante há vários anos, o jornal resolveu mostrar os genitais do líder do país

 

Je suis Charlie 

 

A União da Juventude Socialista manifesta publicamente o seu rechaço ao ataque a sede e ao assassinato dos membros do jornal francês Charlie Hebdo. Consideramos este um ataque a pluralidade de opiniões que o periódico representa de maneira altiva desde os anos 70.

Tais ataques servem somente para reforçar os sentimentos de intolerância quanto às diferenças políticas e ideológicas presentes na nossa sociedade em especial a ultra direita francesa e européia.

Ao mesmo tempo condenamos também, a utilização da tragédia por parte dos setores conservadores e de direita para reforçar seu discurso anti-semita, xenófobo e anti-imigrante. É importante frisar que este é um ataque, sobretudo à esquerda francesa e européia que tinha no Charlie Hebdo um instrumento de debate e luta junto à sociedade contrapondo visões conservadoras sempre em defesa da democracia.

Da mesma forma a mídia brasileira responde a esse ato ao seu velho estilo: a manipulação! Aqui os grandes meios de comunicação, controlados por oito famílias, se apresentam como paladinos da liberdade e caracterizam os atos como um ataque a uma etérea e vaga liberdade de imprensa.

Diante disso buscam associar movimentos que lutam, aqui, por uma imprensa livre e democrática, tal qual o Charlie Hebdo na França, a ações extremistas contrárias à liberdade de imprensa. Porém, a fachada democrática construída pelo PIG esconde o medo de movimentos e ações democratizadoras nos meios de comunicação brasileiros.

A União da juventude Socialista defende uma sociedade plenamente democrática, socialmente justa, desenvolvida e soberana. Por isso, defendemos o fim do monopólio midiático e a possibilidade de que as vozes do povo brasileiro manifestem-se em igualdade de condições.

Realizamos o ato na Editora Abril [às vésperas das eleições presidenciais, contra a capa da revista Veja] para revelar o caráter golpista desse e dos grandes veículos de comunicação deste país. Realizamos o ato na Editora Abril para revelar o seu compromisso histórico com os regimes autoritários que impuseram as mais cruéis formas de opressão ao povo brasileiro.

Que o exemplo de luta dos companheiros do Charlie Hebdo inspire a juventude, os movimentos sociais, as forças democráticas, todos os cidadãos honestos do Brasil e do mundo a lutar pela democracia e pela paz.

Por nossos mortos nenhum minuto de silêncio, toda uma vida de combate!

Je Suis Charlie! [Eu sou Charlie, em francês]

 

jornalaismo baroes midia

PAPA É CHAMADO DE MARXISTA APÓS LANÇAR DOCUMENTO CONTRA A TIRANIA DO CAPITALISMO

PALAVRAS ENLOUQUECIDAS

As «palavras cristãs» sem a presença de Cristo são como enlouquecidas, sem sentido e enganadoras que acabam no orgulho e no «poder pelo poder». Foi um convite a um «exame de consciência» sobre a coerência entre o dizer e o fazer que o Papa Francisco propôs na missa celebrada na manhã de 5 de Dezembro na capela da Casa de Santa Marta.

Inspirando-se na liturgia hodierna, o Pontífice recordou que «muitas vezes o Senhor falou desta atitude», a de conhecer a Palavra sem a pôr em prática. Como diz o Evangelho, Jesus «repreendia também os fariseus» que «conheciam tudo, mas não o faziam». E dizia ao povo: «fazei o que eles dizem mas não o que eles fazem, porque não fazem o que dizem!». É a questão das palavras «separadas da prática», palavras que ao contrário devem ser vividas. No entanto «estas palavras são boas» advertiu o Papa «são palavras bonitas». Por exemplo, «também os Mandamentos e as bem-aventuranças» fazem parte destas «palavras boas» e também «muitas coisas que Jesus disse. Não as podemos repetir mas se não nos leva à vida não só não servem mas fazem mal, enganam-nos, fazem-nos crer que temos uma linda casa, mas sem alicerces».

No tercho evangélico de Mateus (7, 21.24-27), prosseguiu o Papa, o Senhor diz que precisamente aquele «que escuta a Palavra e a põe em prática será semelhante ao homem sábio que construiu a casa sobre a rocha». Trata-se enfim, explicou, de «uma equação matemática: conheço a Palavra – ponho-a em prática – edifiquei-me sobre a rocha». A questão essencial, contudo, frisou o Santo padre, é «de que modo a ponho em prática?». E evidenciou que «consiste precisamente nisto a mensagem de Jesus: pô-la em prática como se constrói uma casa sobre a rocha». E «esta figura da rocha refere-se ao Senhor».

A este propósito o Papa Francisco evocou o profeta Isaías que, na primeira leitura (26, 1-6), diz: «Confiai no Senhor sempre porque Ele é uma rocha eterna». Portanto, explicou o Pontífice, «a rocha é Jesus Cristo, a rocha é o Senhor. Uma palavra é forte, dá vida, pode ir em frente, pode suportar todos os ataques se tiver as suas raízes em Jesus Cristo». Ao contrário, «uma palavra cristã que não tem as suas raízes vitais, na vida de uma pessoa, em Jesus Cristo, é uma palavra cristã sem Cristo. E as palavras cristãs sem Cristo enganam, fazem mal».

Depois o Papa recordou o escritor inglês Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) que «falando sobre as heresias» disse «que uma heresia é uma verdade, uma palavra, uma verdade que enlouqueceu». É um facto, evidenciou o Pontífice, que «quando as palavras cristãs são sem Cristo começam a empreender o caminho da loucura». Isaías, prosseguiu, «é claro e indica-nos qual é esta loucura». De facto, lê-se no trecho bíblico: «O Senhor é uma rocha eterna, porque ele abateu quantos habitavam no alto, inverteu a cidade excelsa». Sim «quantos habitavam no alto. Uma palavra cristã sem Cristo – acrescentou o Pontífice – leva-nos à vaidade, à segurança de nós mesmos, ao orgulho, ao poder pelo poder. E o Senhor abate estas pessoas».

Esta verdade, explicou, «é uma constante na história da salvação. Diz Ana, a mãe de Samuel; e Maria no Magnificat: o Senhor abate a vaidade, o orgulho daquelas pessoas que acreditam que são rocha». São «pessoas que só seguem uma palavra, sem Jesus Cristo». Fazem própria uma palavra que é cristã «mas sem Jesus Cristo: sem a relação com Jesus Cristo; sem a oração com Jesus Cristo; sem o serviço a Jesus Cristo; sem o amor a Jesus Cristo».

Para o Papa Francisco «o que o Senhor nos diz hoje» é um convite a «construir a nossa vida sobre esta rocha. E a rocha é Ele. Paulo diz-nos explicitamente – frisou – quando se refere àquele momento no qual Moisés bateu na rocha com o bastão. E diz: a rocha era Cristo. Cristo é a rocha». Esta meditação exige, sugeriu o Pontífice, «um exame de consciência» que «nos fará bem». Um «exame de consciência» que podemos fazer respondendo a uma série de perguntas essenciais. O próprio Papa as explicitou: «Mas como são as nossas palavras? São palavras suficientes em si mesmas? São palavras que se consideram poderosas? São palavras que pensam que nos dão a salvação? São palavras com Jesus Cristo? É sempre Jesus Cristo quando dizemos uma palavra cristã?». O Pontífice quis frisar de novo que se refere expressamente «às palavras cristãs. Porque quando não há Jesus Cristo – disse – também isto nos divide entre nós e provoca a divisão na Igreja».

O Papa Francisco concluiu a homilia pedindo «ao Senhor a graça de nos ajudar nesta humildade que devemos ter: dizer sempre palavras cristãs em Jesus Cristo, não sem Jesus Cristo». E pediu ao Senhor que nos ajude também «nesta humildade a ser discípulos, salvos, a ir em frente não com palavras que, pensando que somos poderosos, acabam na loucura da vaidade e do orgulho». Que «o Senhor – concluiu – nos dê esta graça da humildade de dizer palavras com Jesus Cristo. Fundadas em Jesus Cristo».


Nota do redator do blogue: A imprensa capitalista brasileira vem censurando o Papa Francisco. Dá muito mais destaque para o pastor Feliciano, que acaba de condenar Mandela, no dia da morte do grande líder negro, que condenou o apartheid. Talvez Feliciano também não aprove as palavras do Pastor Martin Luther King Jr que, em 1968 organizou uma campanha por justiça sócio-econômica, contra a pobreza (a “Campanha dos Pobres”), que tinha por objetivo principal garantir ajuda para as comunidades mais pobres dos Estados Unidos.

Que campanha pelos pobres realizam os que acusam o Papa Francisco de comunista?

UMA IGREJA PARA OS POBRES OU PARA OS RICOS?

Reuters/ Postado por Philip Pullella

foice cruz

O papa Francisco, em resposta às críticas de conservadores de que suas ideias econômicas e sociais respingam no comunismo, disse para um jornal italiano neste domingo (15) que não é marxista, mas mesmo marxistas podem ser boas pessoas.

Francisco também negou que pretende nomear uma cardeal feminina, disse que está fazendo um bom progresso para sanear as finanças do Vaticano e confirmou que vai visitar Israel e a Palestina no ano que vem, segundo o La Stampa.

Mês passado, um programa de rádio ancorado por Rush Limbaugh, que tem muitos fãs nos Estados Unidos, criticou o papa por comentários sobre a economia mundial.

Limbaugh, que não é católico, disse que partes do documento eram “marxismo puro saindo da boca de um papa” e sugeriu que alguém escreveu o documento papal por ele. Também acusou o papa de passar dos limites do catolicismo e ser “puramente político”.

Em resposta às acusações, que iniciaram um debate na mídia e nos blogs mês passado, Francisco, membro da ordem dos jesuítas, associada a políticas sociais progressistas, disse que “a ideologia marxista é errada, mas, na minha vida, conheci muitos marxistas que são boas pessoas, então não me sinto ofendido”.

Ele também foi criticado por outros conservadores. No documento do mês passado, considerado uma plataforma do seu papado, Francisco atacou o capitalismo como “uma nova tirania” e disse que “a economia de exclusão e desigualdade” matou pessoas ao redor do mundo.

Na sua resposta aos críticos, Francisco disse que não estava falando como um “técnico, mas de acordo com a doutrina social da Igreja Católica Romana, e isso não o transforma em um marxista”. Ele disse que estava apenas tentando mostrar “um recorte do que estava acontecendo” no mundo.

Em outro documento semana passada, Francisco disse que salários enormes e bônus eram sinstomas de uma economia baseada na ganância e pediu que as nações diminuíssem a desigualdade econômica.

Preocupações conservadoras

Conservadores estão preocupados e decepcionados com pronunciamentos do papa, como quando ele disse que não estava em posição de julgar homossexuais, que são pessoas de bem, sinceramente procurando Deus.

Sobre as especulações de que estaria pensando em nomear uma cardeal feminina ano que vem, disse: “Eu não sei da onde essa ideia saiu. As mulheres na Igreja deveriam ser valorizadas, mas não virarem clérigos”.

Ele disse que as reformas financeiras estão “no caminho certo”, mas ainda não decidiu o que fazer com o Banco do Vaticano, envolto em escândalos nas últimas décadas. No passado, não descartou fechá-lo.

Francisco disse que está “ficando pronto” para visitar a Terra Sagrada ano que vem, no 50° aniversário de quando o papa Paulo VI se tornou o primeiro papa nos tempos modernos a visitar o local.

Ele foi convidado por Israel e pela Autoridade Palestina para fazer uma visita, que deve ser realizada em maio ou junho.

Como é a vida, a censura e a autocensura dentro de uma redação

por Paulo Nogueira

Ela não está segurando um rottweiler
Ela não está segurando um rottweiler

Leitores gostam de saber como são as entranhas das redações. Muitas vezes, eles têm uma ideia distante da realidade.

Então vou escrever mais um texto sobre isso, baseado numa troca de tuítes que tive hoje com Barbara Gancia, colunista da Folha e integrante do grupo do programa Saia Justa.

Barbara disse algo mais ou menos assim: “A pergunta não é por que Dirceu está preso, mas por que Palocci não está.”

Eu retruquei: “A pergunta é por que a Folha não cobre a sonegação da Globo.”

Falei isso, mas poderia ter dito centenas de coisas.

Para lembrar, fiz a mesma pergunta para o editor executivo da Folha, Sérgio Dávila, pelo Facebook. A Globo acabara de admitir, em nota, um problema extraordinário com a Receita Federal, depois que o site Cafezinho publicou documentos vazados que mostravam que a empresa fora flagrada ao trapacear na compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002.

Repito: trapaça. Golpe. A Receita viu que a Globo tentara passar por investimentos no exterior – num paraíso fiscal, aliás – a compra para sonegar o imposto devido.

A multa da Receita, em dinheiro de 2006, era de 615 milhões de reais. São, apenas para efeitos de comparações, seis Mensalões. Em dinheiro de hoje, seria mais ou menos 1 billhão, ou 10 M, se adotarmos a moeda do mensalão como equivalente a 100 milhões.

Vi que o UOL fora atrás da Globo e extraíra uma admissão do caso. E perguntei a Dávila se aquilo não era assunto para Folha, “um jornal a serviço do Brasil”.

Não me lembro o teor de sua resposta precisamente, mas, como bom jornalista, ele reconheceu que sim. Um ou dois dias depois, saiu uma nota na Folha, motivada pela minha pergunta, provavelmente.

E depois não saiu mais nada. Nem mesmo quando se soube que uma funcionária da Receita fora presa – e liberada por Gilmar Mendes, por coincidência – por tentar destruir fisicamente as evidências da dívida.

Veja: só a Globo lucrava com a destruição. (Fora, é verdade, a destruidora, que dificilmente estaria agindo por amor irrestrito à família Marinho.)

Tudo isso não bastou para convencer a Folha – ou a Veja, ou outras mídias amigas – a investigar um caso de enorme interesse nacional.

Na internet, depois que a Globo alegou ter pagado a dívida, algo que a fonte da Receita negou perempetoriamente, surgiu uma campanha: “Mostra a Darf”. Mostre o recibo, em linguagem corrente.

A Globo jamais mostrou.

O que aconteceu? Dávila – que por alguns anos foi colega meu de Abril – provavelmente recebeu um aviso de seu chefe, Frias. Que, muito provavelmente, recebeu um aviso de seus sócios, os Marinhos. (Eles dividem a propriedade do jornal Valor Econômico.)

Melhor não pedir a Dávila que fale da sonegação da Globo
Melhor não pedir a Dávila que fale da sonegação da Globo

É assim que as coisas funcionam, e é por isso que a sociedade tem que abençoar a aparição da internet, como forma de ter acesso a informações que os amigos proprietários das empresas de jornalismo não querem que se tornem públicas.
Na troca de tuítes de hoje, perguntei a Barbara Gancia por que ela, sendo uma colunista tão destemida, jamais falara no caso.
E então ela se saiu com essa: “Em 30 anos de coluna JAMAIS fui censurada.”
Pausa para rir.
Jamais é censurado quem jamais escreve alguma coisa que incomode o patrão. No próprio Twitter, alguém fez a analogia: “Reinaldo Azevedo diz que jamais foi censurado na Veja. É porque ele jamais escreveu algo que os Civitas não queriam que fosse escrito.”
Disse a Barbara que sabia como eram as coisas, uma vez que trabalhara anos na Abril e na Globo. “Deve ter sido no almoxarifado”, disse ela.
Bem, no almoxarifado que me coube como diretor de redação da Exame, nos anos 1990, encomendei a um excelente repórter, José Fucs, uma capa sobre os Safras.
Era uma capa estritamente jornalística. Falava dos bastidores de um dos bancos mais falados – para o bem ou para o mal – do mundo.
Fucs realizou um trabalho brilhante. Entrevistou, ao longo de meses, dezenas de executivos e ex-executivos do Safra.
A matéria já estava pronta para ir para a gráfica quando Roberto Civita pediu para lê-la. Era algo que ele nunca fazia, na Exame.
O texto jamais retornou. Os Safras eram credores da Abril, e um deles ligou para Roberto Civita pedindo que a matéria não saísse.
Não saiu.
Na Globo, onde trabalhei no almoxarifado da diretoria editorial das revistas, encomendei certa vez uma matéria sobre Jorge Paulo Lemann para a revista Época Negócios.
O repórter estava fazendo as entrevistas quando João Roberto Marinho, que cuida da parte editorial das Organizações Globo, me procurou. Ele recebera um telefonema de Lemann, que queria garantias de que a reportagem seria positiva.
É assim que funcionam as coisas nas empresas de mídia. Você só não é censurado quando não escreve nada que incomode.
Barbara Gancia terminou a conversa avisando que iria fazer massagem. Me acusou, antes, de ser “esquerdista radical”.
Fora Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, e agora Barbara Gancia, ninguém me chamou de “esquerdista radical” em minha carreira.
Sou radical na defesa de um Brasil Escandinavo, sabem os que me conhecem.

Mas vinda a acusação de onde vem, tomo-a com alegria: estou combatendo o bom combate.

“A Internet pode ajudar o jornalismo a ser mais profundo e mais sério”

press-and-money jornalista imprensa

 

O objectivo é mesmo provocar – diz o jornalista do PÚBLICO Paulo Moura, coordenador da conferência internacional, que pretende levar centenas de estudantes, jornalistas e “todos que acreditam no jornalismo” à Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. “Há quem pense que o jornalismo está superficial e vai desaparecer por causa da Internet, nós queremos justamente mostrar o contrário que o jornalismo pode ser ainda mais profundo e mais sério com as ferramentas que a tecnologia trouxe”.

Estarão em Lisboa, desta sexta-feira até domingo, além de jornalistas e directores dos media portugueses, jornalistas e especialistas de vários países, principalmente dos EUA onde há mais novas experiências envolvendo os jornalismos narrativo e literário na Internet, que, segundo Paulo Moura, “quando aplicados ao formato digital, podem abrir enormes possibilidades”.

Mark Kramer – que fundou o programa para jornalismo narrativo da Fundação Nieman, na Universidade de Harvard – vem a Lisboa falar sobre jornalismo literário e não tem dúvidas de que o género tem um importante papel a desempenhar na realidade digital. Agora e no futuro. “Não importa qual é a tecnologia”, diz ao PÚBLICO. “O jornalismo literário pode ser muito, muito preciso e até mais informativo [do que o jornalismo comum], mantendo a integridade e a autenticidade.”

“A brevidade [dos artigos] não importa”, continua. “Quando se diz que o jornalismo online deve ser feito com textos curtos, é com base na ideia de que é desconfortável ler textos longos no computador. Mas já é mais confortável no iPad. E ainda mais no Kindle.” Para o escritor residente na Universidade de Boston, a tecnologia está a ajudar a esbater as diferenças entre os diferentes suportes em que se tem feito jornalismo – e assim vai continuar.

Kramer já publicou no New York Times, na National Geographicou na Atlantic Monthly, mas sublinha que é dos títulos mais pequenos e independentes que tem vindo muita da inovação. “É simplesmente impressionante” a quantidade de novos títulos a fazê-lo, juntamente com alguns dos maiores e mais importantes jornais do mundo. É também por isso que acredita que o jornalismo literário, sobretudo o que é feito através de narrativas multimédia, será lucrativo.

Amy O’Leary, do The New York Times, é outro dos nomes internacionais da conferência, que conta com 36 oradores e se divide sete mesas redondas e 14 conferências. O tema de abertura são as novas fronteiras do jornalismo digital.

“Quando havia escassez de boa informação no mundo (e um vasto público sedento dela), o jornalismo parecia ser uma indústria muito segura, com um futuro risonho”, diz Amy, em declarações ao PÚBLICO. “Chegados a este ponto da história humana, estamos a consumir mais media do que alguma vez aconteceu. Agora, o jornalismo tem de competir com muitas outras formas de entretenimento e informação pela atenção e pelo tempo do público. A surpresa pode ser uma excelente maneira de captar a atenção de alguém e de a manter”, adianta a jornalista, que vai também encerrar os três dias de debate respondendo à pergunta de como tornar o jornalismo viciante.

 Hugo Torres
 
 

Aécio Neves e a imprensa direitista defendem Roger Pinto

bo_tiempos.750

br_diario_comercio.750

O senador corrupto foragido da Justiça

Aécio Neves denuncia que o Brasil se curvou ao governo da Bolívia. A imprensa direitista da Bolívia usa o mesmo discurso: acusa Evo Morales de ter se curvado ao Brasil.

Compare os dois discursos:

“É deplorável, sob todos os aspectos, a atitude tomada pelo governo da presidente Dilma Rousseff no episódio envolvendo a transferência do senador boliviano Roger Pinto Molina para o País. Ao expor à execração pública o diplomata Eduardo Saboia, o governo brasileiro se curva, mais uma vez, a conveniências ideológicas. Mais grave ainda, abandona as melhores tradições da nossa diplomacia”, afirma Aécio em nota oficial.

O jornal conservador Los Tiempos exige:  “Buscar cómo deslindar responsabilidades en los diferentes niveles del Estado central boliviano. Fijación que, salvo la ineludible declaración de Ministro de Relaciones Exteriores exigiendo una explicación a Brasil por su acción, hace olvidar el agravio inferido por esa nación a Bolivia.

No se trata sólo de hacer el reclamo al Gobierno de Brasil y exigir las satisfacciones del caso, sino iniciar una campaña internacional de información sobre el agravio recibido y exigir de gobiernos que se considera amigos un claro pronunciamiento al respecto”.

Confira os dois discursos pretensiosamente nacionalistas, mas que têm a mesma finalidade: atacar os governos do Brasil e da Bolívia que, conjuntamente, com os governos do Equador, Argentina e Venezuela são considerados inimigos do imperialismo.

De acordo com o presidente do PSDB, maior partido de oposição a Dilma, a posição do governo manchou a “tradição centenária” do Itamaraty, que “sempre se pautou no respeito aos direitos humanos, na defesa intransigente da liberdade, na obediência estrita ao Estado democrático de direito”. “Infelizmente, porém, nos últimos anos tais valores deixaram de orientar nossa diplomacia, suplantados por uma visão apequenada, míope e distorcida acerca do papel do Brasil no mundo. O peso da ideologia tem vergado a atuação da nossa chancelaria”, acusou o senador mineiro.

Para Aécio, o governo “jamais atuou efetivamente para solucionar o impasse diplomático e garantir ao senador Molina a concessão do salvo-conduto que as boas normas do direito internacional recomendam e impõem em situações assim”, preferindo submeter-se às imposições de Evo Morales.

Editorial do jornal boliviano Los Tiempos:

EL PROBLEMA NO ES PINTO

El Presidente del Estado debería exigir públicamente cuentas a los dignatarios responsables de este caso y que asuman, como en Brasil, el costo de su negligencia

El traslado del asilado senador Roger Pinto a Brasil sin que obtenga el respectivo salvoconducto boliviano ha provocado un terremoto político en el vecino país, pues, de acuerdo a las informaciones que se van conociendo, hubo un evidente rompimiento de la cadena de mando interno. Una vez comprobada esta situación, se ha exigido renuncias, anulado nombramientos e instruido procesos administrativos a los funcionarios involucrados, más allá de simples cambios de fusible.

Así, ha renunciado el Ministro de Relaciones Exteriores y se ha anulado el nombramiento en un nuevo destino del aún Embajador de Brasil en Bolivia, acciones que, de acuerdo a algunos entendidos, significaría la recuperación de la responsabilidad de la Cancillería de ese país sobre las relaciones con Bolivia (y probablemente algunos otros países con similar ideología a la del Partido de los Trabajadores), hasta este hecho asignadas a un equipo eminentemente político.

En cambio y lamentablemente, en el país, tanto en el Gobierno como en muchos sectores de la oposición política y regional, nuevamente se actúa con miras cortas tratando de fijar como objetivo del problema al senador Roger Pinto y, además, de buscar cómo deslindar responsabilidades en los diferentes niveles del Estado central boliviano. Fijación que, salvo la ineludible declaración de Ministro de Relaciones Exteriores exigiendo una explicación a Brasil por su acción, hace olvidar el agravio inferido por esa nación a Bolivia.

De hecho, pese a que luego de un momento de ofuscación parecía que sería reasumido por la Cancillería, lo cierto es que ya no sólo que otros dignatarios comentan sobre el tema, sino ahora hasta un ministro del Tribunal Supremo y la Fiscalía General lo hacen.

Así, se puede observar que mientras en Brasil se ha tomado en serio el escándalo, en Bolivia, hay que insistir, se trata de aprovechar el tema con fines sectarios, cuando lo correcto sería que los funcionarios del Ministerio de Relaciones Exteriores se despabilen y asuman las funciones que la Constitución les asigna. No se trata sólo de hacer el reclamo al Gobierno de Brasil y exigir las satisfacciones del caso, sino iniciar una campaña internacional de información sobre el agravio recibido y exigir de gobiernos que se considera amigos un claro pronunciamiento al respecto.

En el plano interno, el Presidente del Estado debería exigir públicamente cuentas a los dignatarios que por sus atribuciones o por gestiones oficiosas estaban responsabilizados de este caso y que asuman, como en Brasil, el costo de su negligencia y comisión de sucesivos errores.

Seguir insistiendo en culpar al senador Pinto de todo el entuerto, como parece ser la política oficial, apoyada insensatamente por algunos de sus escribidores, hace perder las esperanzas en que de una experiencia tan dura como la que estamos viviendo, se aprenda algo y se rectifiquen errores, como sostener aún que el meollo de este caso es el senador Pinto, cuando es nuestra errática política internacional en la que muchos dignatarios quieren influir, rompiendo en forma recurrente toda cadena de mando con absoluta impunidad.

O pós-jornalismo entra em cena nas manifestações

por Carlos Castilho

A geração com menos de 30 anos comandou os protestos de rua mas não ficou só nisso. Ela mostrou a cara também na complicada arena da comunicação introduzindo formas inovadoras de trocar ideias e disseminar notícias.

O fenômeno Pós TV, analisado neste Observatório no excelente artigo de Elizabeth Lorenzotti, marca a expansão para a TV dos projetos alternativos de comunicação baseados na Web. O projeto já existia antes da onda de protestos, mas foi a partir deles que a Pós TV ganhou visibilidade pública ao se transformar na fonte de acesso direto ao movimento iniciado com a campanha dos estudantes pelo passe livre nos transportes públicos.

Pela primeira vez em muitos anos, os usuários da internet puderam comparar o que a imprensa convencional disponibilizava para as audiências e a informação direta sem edição, tanto em texto como em áudio e vídeo, produzida por jovens praticando o jornalismo direto das ruas, manifestações e assembleias.

Foi interessante verificar como a geração com menos de 30 anos dá pouca importância aos cuidados editoriais de jornais, revistas e emissoras de televisão e sentem-se muito mais atraídos pela espontaneidade amadorística, e em muitos casos até tosca, de programas transmitidos ao vivo pela Pós TV ou dos textos publicados nas redes sociais e Twitter.

A Pós TV, por exemplo, vem transmitindo ao vivo das ruas onde ocorrem protestos criando um contato direto dos telespectadores com o desenrolar dos acontecimentos. A cobertura está longe de ser tecnicamente perfeita. Imagens fora de foco, iluminação deficiente, câmera instável e narrativa geralmente testemunhal criaram um contraste radical com o noticiário transmitido geralmente de helicópteros ou do alto de edifícios pelas grandes redes.

Enquanto a televisão dos estudantes transmitia emoção e participação, a Globo, Record e Bandeirantes oscilavam entre a preocupação com a assepsia informativa e o proselitismo escancarado. Os defeitos e problemas nas transmissões feitas a partir de telefones celulares e câmeras amadoras portáteis acabaram sendo pouco notados pelo público jovem mais interessado em compartilhar o que acontecia nos quatro cantos do país.

Nas transmissões pela Pós TV de debates, assembleias e reuniões de estudantes foi marcante a ausência do estilo panfletário e ideologizado típico das lideranças estudantis, até a década de 1990.  O material divulgado pelo canal com acesso exclusivo através da internet tornou possível conhecer o comportamento, ideias e projetos dos movimentos contestadores numa intensidade e profundidade jamais vistos pelo público brasileiro.

A Pós TV é produzida por um grupo de adeptos do jornalismo de participação chamado Narrativas Independentes Jornalismo e Ação (NINJA) e integra o conjunto de iniciativas abrigadas no portal Fora do Eixo, criado em 2009 por  ativistas e intelectuais em Cuiabá (Mato Grosso), Rio Branco (Acre), Uberlândia (Minas Gerais) e Londrina (Paraná).  A meta é tentar aglutinar movimentos, projetos e iniciativas no interior do Brasil, entre elas a ambiciosa proposta de criar uma Universidade Fora do Eixo.

Os NINJAs (responsáveis pela Pós TV) conseguiram diferenciar-se dos demais órgãos da imprensa alternativa brasileira por terem aderido à descentralização informativa, o que permitiu que eles desenvolvessem uma cobertura baseada em contribuições de qualquer pessoa portadora de um celular ou smartphone com câmera digital. Como numa cidade como São Paulo este é o tipo de equipamento quase obrigatório na maioria da população, o problema não foi a escassez, mas sim o excesso de material para transmissão — tanto que no auge dos protestos, na segunda quinzena de junho, os NINJAs tiveram que pedir socorro aos seus simpatizantes.

A grande maioria das publicações alternativas no Brasil atual é produzida segundos moldes clássicos do jornalismo, com centralização e hierarquização das funções. A política editorial é contestadora da ordem vigente, mas a estrutura de produção é baseada nos mesmo princípios da mídia convencional.

O jornalismo móvel praticado por autônomos e amadores, chamado pelos americanos de MOJOs e por outros como jornalismo-cidadão, permitiu que boa parte dos participantes das manifestações pudesse enviar fotos e vídeos para a Pós TV. A capilaridade informativa foi muito superior a das TVs comerciais, onde havia total ausência de fatos. O polêmico Marcelo Rezende, da TV Record, pediu  várias vezes ao vivo: “Alguém me diga o que está acontecendo, tenho a imagem do helicóptero mas não sei o que está ocorrendo na rua”.

Ainda é cedo para avaliar se o projeto dos NINJAs vai ter uma longa duração ou não. No contexto atual da internet, iniciativas como a Pós TV mostram uma alta taxa de mortalidade porque os seus autores acabam atropelados pela mudança acelerada de contextos e de expectativas, aqui e também no resto do mundo. Mas no seu conjunto, a cada projeto que entra em crise surgem pelo menos três outros, conforme mostrou uma pesquisa feita pela Oriella, uma rede de relações públicas nos Estados Unidos.

(Transcrito do Observatório da Imprensa)