O coronel Ustra: herói de si mesmo e dos torturadores

Helio Fernandes

 

 

Bessinha
Bessinha

O coronel Brilhante Ustra (muito mais ustra do que brilhante) torturava por prazer. Guardadas as proporções, era como Pinochet (Chile) e o general Videla (Argentina), que gostavam de assistir torturas. Ustra torturava com as próprias mãos, no seu acervo de terrorista, mais de 50 mortos.

Agora se julga um “herói da Pátria”, queria defender o Brasil do pavor do comunismo. O Brasil nunca esteve perto disso, nem mesmo em 1935, quando Prestes veio da União Soviética (com Olga, a terrorista que invadiu uma prisão de segurança máxima, na Alemanha, para libertar o marido) para a revolução, um fracasso total.

Nunca estive preso com o coronel Ustra, ele só atuava em São Paulo. Mas seu “terrorismo” e o prazer pela tortura chegavam ao Doi-Dodi da Barão de Mesquita. Fui para lá, várias vezes, a ordem era cumprida: “Não podem torturar o jornalista, intimidação, ameaças, tortura física de jeito algum”.

Não pretendiam me preservar. Como eu era um nome nacional, se eu morresse, o que podia acontecer facilmente, tinham certeza de que a repercussão nacional e internacional derrubaria a ditadura.

Estive quatro vezes com o coronel Fiuza de Castro como comandante. Era filho do general Fiuza de Castro, que nomeado ministro da Guerra pelo presidente Café Filho, não tomou posse, o general Lott não deixou. Isso em 1955, nove anos antes do golpe.

CORONEL USTRA, HERÓI
DOS TORTURADORES

Demoravam me fazendo perguntas tolas, eram uns idiotas, mas não deixavam de lembrar, em tom de ameaça: “Se o coronel Brilhante Ustra estivesse aqui, as coisas seriam diferentes”. Enquanto eu era interrogado, ouvia os gritos dos jovens entre 20 e 22 anos, que sofriam.

Eram todos de classe média alta, sabiam que chegariam os “pistolões”, teriam que soltá-los. Uma noite, o próprio ministro Orlando Geisel (que nominalmente era o chefe de tudo) chegou lá com o general Cordeiro de Farias. Este, quando foi governador eleito de Pernambuco, fez muitos amigos. O filho de um advogado tinha sido preso, ele telefonou para o ministro, que foi ao Doi-Codi. O menino já havia sido torturado, foi levado embora.

Estive lá mais duas vezes, o comandante era o coronel Ariel Paca. Foi diferente. De uma tradicional família de militares, estava constrangido no cargo. Nas duas vezes conseguiu me transferir para o HCE (Hospital Central do Exército).

O ambiente era de terror mesmo. Os policiais que me levavam, diziam: “Sofremos quando somos escalados para trazer alguém”. Parávamos numa pracinha enorme, os oficiais que estavam esperando, diziam às gargalhadas: “Então, doutor, o senhor escreve contra nós, mas acaba sempre aqui”. O que fazer? Eu tinha medo, mas não deixava que eles soubessem ou percebessem.

Esse é o retrato simplíssimo de um regime autoritário, arbitrário e atrabiliário, que durou 21 anos. E que agora o coronel Ustra quer transformar em lição de heroísmo.

 Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra1

O Ministério Público tem que denunciar o chefe da Casa Civil, e lógico, Sergio Cabral [As safadezas rolam no tapete verde do Maracanã]

por Helio Fernandes

 

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O chefe da Casa Civil de Sergio Cabral (naturalmente com autorização dele) afirmou publicamente: “Estamos entregando todo o estádio do Maracanã (que chama de Mário Filho, denominação oficial, mostra que sabe o que está falando) para utilização pela Fifa”.

Confissão pública pela qual deve ser responsabilizado pelo Ministério Público. Entregou TODO o Maracanã à Fifa, embora o Estado seja proprietário de apenas 94 por cento do Estádio.

E os outros 6 por cento? São propriedade de 5 mil cidadãos, que agora são contabilizados como 4 mil e 968. Ninguém deu procuração ao chefe da Casa Civil para representá-los.

Esse senhor Firchtner é advogado militante, seguindo o pai, que é muito mais conhecido do que gostaria. Esses 5 mil iam sendo prejudicados quando Sinatra veio ao Brasil, fez show no Maracanã. No Panamericano, tiveram seus direitos surripiados. Cesar Maia era o prefeito, o que fazer?

O Ministério Público tem que cumprir seu dever, restabelecer os direitos individuais, denunciar o governador Cabral e o chefe da Casa Civil. Confissão pública deles, que serve de prova para o Ministério Público: entregou ou entregaram à Fifa uma propriedade que não pertencia ao governo ou ao Estado do Rio.

E mais: o chefe da Casa Civil mentiu: “As pessoas compraram as cadeiras do Maracanã SÓ PARA VER a Copa de 50”. Como é que ele sabe?

PS – Por que se chamavam e se chamam de PERPÉTUAS ou CADEIRAS CATIVAS?

PS2 – Como escreveu ontem o jornalista Ricardo Noblat: “Autoridade que MENTE tem que se demitir ou ser demitido”. Ora, Noblat, não vai acontecer nada. Tua matéria é verdadeira, mas em se tratando de Brasil, é ficção.


PS – Depois de 27 anos como presidente poderoso da Conmebol, Nicolás Leoz ficou com a saúde péssima de um dia para outro. Como por coincidência, pura coincidência, estava sendo investigado pela Fifa, preferiu cuidar da saúde e abandonar os cargos.

PS2 – Os cargos ultrapassavam os ares da América Latina. Leoz tinha a mesma “identidade” executiva de Ricardo Teixeira, pertencia ao mais alto órgão (gangue) do ex da CBF. Mora em Boca Raton, riquíssimo. (Injustiça não aparecer entre 100 da lista financeira da Forbes).

PS3 – Blatter é ético e elegante. Mandou avisar ao seu amigo da Conmebol que o inquérito da ISL terminara, não podia livrá-lo da expulsão, “a não ser que você peça demissão”.

PS4 – Leoz agradeceu, telefonou para Marin (servidor da ditadura e subserviente da CBF), e para Del Nero, que “herdou” a vaga de Teixeira na Fifa. Os dois pegaram o primeiro avião, foram “chorar” junto com Leoz. Del Nero, antes de viajar, telefonou para Blatter: “O presidente da Conmebol vai renunciar, quer que eu esteja lá. Algum problema?”

PS5 – Blatter disse que não, “é até melhor, ficamos sabendo de tudo, sem intermediários”. Que maravilha viver.

PS6 – Na operação que destruiu Dona Rosemary (chefe do Gabinete da Presidência da República em São Paulo, os policiais invadiram a casa de Del Nero, levaram seu computador. Ele explicou correndo: “Tenho uma namorada, desconfiava dela, mandei um detetive segui-la”. Se livrou.

Ps7 – Del Nero quer ser presidente da CBF, agora ou em 2015. Tirar Teixeira para colocar Marin, jogar ao mar esse Marin para Del Nero sair navegando em alto mar, querem tripudiar com todo o povo brasileiro.

PS8 – O Maracanã será reaberto hoje, de forma medíocre, com um jogo (?) entre “amigos” de Bebeto e “amigos” de Ronaldo. Devia recomeçar com um espetáculo verdadeiro, num jogo entre um grande time da Europa e outro do Brasil.

PS9 – Mas examinando bem, essa denominação de “amigos” domina a nova fase do Maracanã. Custou mais de um bilhão, boa parte para AMIGOS. Será entregue a Eike Batista, que executou o plano do leilão da administração, ganhou, é um grande AMIGO.

PS10 – Quem são esses AMIGOS de Bebeto e de Ronaldo, quem vai pagar para vê-los? Na verdade, não é apenas o Maracanã, o Brasil está entregue a uma comunidade de AMIGOS.

Transcrevi trechos da Tribuna da Imprensa

Tribuna da Imprensa jornal censurado. Virou blogue, sofreu apagão

tribuna prédio

 

Para fechar um jornal, basta as agências de publicidade determinarem um boicote. Isso sempre é feito a mando dos poderes ditatoriais. Aconteceu no Rio de Janeiro com o Correio da Manhã. Fui chefe de redação de 1967 a 1970 da sucursal no Recife/Nordeste. O boicote das agências de publicidade foi ordenado pela ditadura militar.

A ação terrorista pode ser realizada a mando de qualquer poder. Em uma democracia, a corrupção infiltrada no executivo, no legislativo, no judiciário, e/ou ditadura econômica.

Publica a Wikipédia: Em 26 de março de 1981, uma bomba explodiu na sede do jornal na Rua do Lavradio, 98, um ato creditado a defensores radicais da ditadura militar, com o objetivo de culpar os militantes da esquerda.

tribuna atentado bomba

Em 2011, a sede do jornal chegou a ter a sua falência decretada e seu acesso lacrado, em razão do pedido feito pelo desembargador Paulo César Salomão, pelo não pagamento de uma indenização por danos morais decorrente de uma ação que impetrara contra o jornal. Ele se sentira atingido por um artigo assinado pelo economista Romero da Costa Machado – que não pertencia aos quadros da Tribuna – publicado em 1994, sob o título ‘O crime ao amparo da lei’, no qual era chamado de ‘PC Salomão’.

O atual editor da Tribuna da Imprensa é Hélio Fernandes Filho.

A Tribuna da Imprensa tem como colaboradores os jornalistas Carlos Chagas, Argemiro Ferreira, Roberto Monteiro de Pinho e Sebastião Nery, dentre outros, e atualmente, somente é editado em versão via internet online, sem mais a versão impressa, que publica hoje:

Tribuna interrompe circulação

Blog da Tribuna sai do ar, com ‘problemas técnicos’ altamente suspeitos. É o mínimo que podemos informar.

  

tribuna charge

por Carlos Newton

 

O blog da Tribuna da Imprensa saiu do ar ontem (quarta-feira, 24 de abril), por volta das 11 horas da manhã, mas desde cedo já estava inacessível para ser editado. Ou seja, não podíamos inserir novas matérias, artigos ou charges, nem liberar os comentários.

Para entender o que aconteceu, é preciso saber como se monta um blog ou site. Primeiro, é preciso adquirir o “registro e o domínio” dos nomes com os quais se queira trabalhar. Depois, pagar a “hospedagem” a um servidor (o nosso é o UOL, excelente, pois em cinco anos jamais houve problemas, salvo no dia em que São Paulo sofreu um apagão de energia e todo mundo saiu do ar, inclusive a Folha de São Paulo).

Depois de adquirir registro/domínio, cria-se a estrutura do blog sobre uma “plataforma” já existente. No nosso caso, a plataforma foi o conhecido serviço norte-americano “WorldPress”. Depois, usa-se a hospedagem (servidor UOL) para colocar o site/blog no ar e ir alimentando de matérias, fotos e ilustrações, através do WorldPress.

CONEXÃO FALHANDO

Há 25 dias estávamos com “problemas técnicos”, mas os especialistas do UOL não conseguiam identificar. Supunha-se que fossem problemas de falta de renovação do domínio do nome heliofernandes.com.br, mas o próprio UOL tinha dúvidas, nossa conta aparecia sem pendências e só haveria renovação de domínio em junho. Mesmo assim, tentamos fazer a “renovação” desse domínio, mas a operação estranhamente não se completava. Houve comentaristas que também tentaram, sem sucesso. Tudo muito estranho.

O blog então começou a sair do ar e voltar. Os técnicos do UOL melhoravam a conexão, depois desconectava tudo de novo. Os comentaristas e leitores às vezes perdiam acesso. Mesmo assim mantivemos o blog e seguimos negociando apoio técnico do UOL, várias vezes ao dia, por internet e por telefone.

Até que, a atendente do UOL Daniela Couto, no último dia 19, garantiu que dia 22 tudo estaria normalizado. E isso aconteceu. Tudo certo, o blog decolou de vez. Mas a normalidade só durou dois dias.

AÇÃO DE HACKER?

Nesta quarta-feira, dia 24, desde cedo não havia como editar o blog. Ligamos para o UOL, o atendente Sidnei percorreu conosco os caminhos internos até que se surpreendeu ao verificar que nosso acesso ao WorldPress havia sido desativado. Ficou surpreso porque só quem poderia fazer isso seria eu, único detentor da senha.

O próprio funcionário do UOL aventou a possibilidade de interferência externa por hacker, como vários comentaristas já haviam sugerido. Ontem à noite, enquanto a seleção brasileira tentava jogar, conseguimos identificamos uma presença estranha em ações de “configuração” interna do nosso blog, sob o nome de jdimaree, que vem a ser uma empresa metalurgia norte-americana.

É tudo muito estranho e vamos investigar com mais calma. No momento, estamos lutando para refazer o blog sem perder o Banco de Dados, ou seja, o arquivo todo. É a segunda vez que isso acontece com a Tribuna da Imprensa. Todo o arquivo do jornal “sumiu” da internet, de uma hora para hora, cinco anos atrás. Ou seja, parece que o Helio Fernandes tem mania de ser censurado, não é mesmo?

O importante é que vamos em frente, pois graças a dois amigos (Antonio Caetano e Marcio Lordelo, especialistas em informática) o arquivo já está salvo, mas há problemas para inseri-lo no novo blog, que estamos criando do zero.

Como diz o Helio Fernandes, a gente não desiste nunca.

Helio Fernandes, a força de um nome que faz História
Helio Fernandes, a força de um nome que faz História

 

FHC, construtor de uma ‘realidade irreal’, enganou a opinião pública por mais de 40 anos. Fingiu ter sido preso e cassado. Na última entrevista de 2012, mais falsidade.

por Helio Fernandes

Sobre alguns desses fatos escrevi fartamente nos 8 anos em que FHC foi presidente. Outros são inteiramente novos, extraídos dessa entrevista falsa, absurda, ridícula, indigna de um ex-presidente, mesmo sendo ele.

Durante toda a ditadura, FHC foi complacente com ela, complacente e envergonhado, constrangido, fervoroso participante da condição de “cassado que se manteve com todos os direitos”. Por várias vezes, com ele no Poder, desafiei-o a exibir o ato de cassação. O ato e a data.

Viajava para o Chile onde estavam amigos verdadeiramente cassados. Quando o Chile foi vítima do ditador-perseguidor-torturador Pinochet, passou a ir para Paris, ficando na casa de um amigo intelectual, verdadeiramente exilado.

Fui conselheiro da ABI (a pedido de Barbosa Lima Sobrinho) por 18 anos. Quando o grande jornalista foi embora, saí também. Um dia, o secretário-geral da ABI, jornalista Mauricio Azedo (hoje, excelente presidente), lia um ofício que seria enviado ao presidente FHC, pedi um aparte e contestei o ofício, dizendo que a ABI não podia se dirigir a FHC naqueles termos. Justifiquei as restrições. Democraticamente, Azedo colocou em votação o envio do ofício, foi amplamente recusado, a história da ABI ficou imune e intocável.

FHC, o único cassado que
disputou eleição na ditadura

O tempo correu, em 1978 o próprio FHC se encarregou de comprovar os fatos, desmoralizar a sua “verdade” sem corroboração (termo policial) e sem constrangimento. Em plena ditadura, se lançou candidato a senador, em chapa com Franco Montoro. Este teve 3 milhões de votos, FHC não chegou a 10 por cento. Mas por falha da legislação, ficou como suplente, começando a carreira política, surpreendentemente chegando a presidente.

Nesse mesmo 1978, dois episódios que provam a falsidade e a falsificação de FHC. José Serra, com quem só falei uma vez, num momento doloroso, se lançou candidato a deputado estadual, por SP. Foi vetado, a explicação: “Ainda estava cassado”. E a aprovação de FHC, tinha que base e justificativa?

Nesse mesmo 1978, o meu partido (MDB) tentou lançar minha candidatura ao Senado. Em 1966 fui cassado por 10 anos, o que deveria terminar logicamente em 1976. Resposta do ministro Gama e Silva: “Agora a cassação não é mais por 10 anos, é para toda a vida”.

Quase no fim da ditadura, apavorado, Gama e Silva enganou também os generais ditadores, pediu para ser embaixador. Como era monoglota, foi para Portugal.

O suplente que chegou a presidente

Em 1982, Montoro se elegeu governador, FHC assumiu a suplência, se transformou em titular. Em 1986 acaba o mandato (?), precisava se reeleger. Fez então todas as patifarias político-eleitorais. Apoiou Maluf, candidato a governador, e Antonio Ermírio de Moraes (também candidato), desde que não lançassem nomes para o Senado. O de Maluf era esse José Maria Marin (que já fora governador), o de Ermírio era o maior amigo de FHC, retirado. Ficaram então só ele e Covas, eleitos cada um com 8 milhões de votos. Mas não elegeram o governador. Orestes Quércia, que não tinha relações com eles, era invencível, ganhou.

Manobrou e manipulou o ingênuo Itamar, que ficara no lugar de Collor. Ganhou 2 ministérios, foi lançado presidenciável contra Lula em 1994. Mas não acreditava que fosse eleito, reduziu para 4 anos o mandato que era de 5. Lógico, quem acreditava na vitória não reduziria o mandato. Principalmente FHC, que na primeira oportunidade rasgou a Constituição (perdão, comprou) para se reeleger, fato único na História republicana.

Tentando se comparar com Marx, teve um filho com uma doméstica (hoje funcionária do Senado), mas Marx era Marx, único e indiscutível. FHC deveria ter sido julgado pelo Supremo ou investigado por CPI. Em dois episódios gravíssimos: 1 – Toda a Comissão de Desestatização, barbaramente enriquecida. 2 – O mensalão que possibilitou a reeleição de FHC. O dinheiro era entregue de uma vez só, imaginem quanto custou o voto de 513 deputados e 81 senadores, pelo menos a maioria.

A “compra” da Vale e dezenas de empresas se deu pelo “valor de face”. Que geralmente era de 5 cruzeiros, mas no mercado “valiam” míseros 10 centavos.

As duas últimas entrevistas

Uma para jornal impresso, outra para televisão. Na primeira, perguntaram se “estava namorando”, hesitou. O repórter insistiu, respondeu: “Estou, mas é ridículo estar namorando aos 82 anos”. Nada a contestar, FHC se definiu com inteira propriedade.

Quem FHC levaria, homem e
mulher, para uma ilha deserta

Na segunda entrevista, na televisão, novamente ridículo, com aquelas perguntas tolas e idiotas, com mais de 50 anos de existência e repetição. Por exemplo:

Com quem o senhor gostaria de ir para uma ilha deserta?”. A resposta deveria ser logicamente uma mulher. A bobagem da pergunta, exatamente igual à bobagem da resposta.

Seguindo no mesmo rumo, qual o “intelectual” que levaria para conversar também numa ilha deserta. Escolheu e indicou José Sarney, tentou explicar mas nem precisava.

Ivan Lessa e Millôr Fernandes

Na televisão, um dos entrevistadores arriscou ou afirmou: “Nesse ano de 2012, o senhor perdeu dois grandes amigos, Ivan Lessa e Millôr Fernandes. Como senhor se sentiu?”

Estavam mortos, FHC não teve a menor hesitação, “chutou” para valer. Sobre Ivan: “Não era amigo dele, o relacionamento não era profundo, mas estive com ele várias vezes”.

A verdade indiscutível e indestrutível: nunca esteve com Ivan Lessa. Nos tempos do Pasquim, Ivan não ia a Brasília, FHC não vinha ao Rio. E quando vinha ficava bem longe do Pasquim, amaldiçoado pela ditadura.

Depois do Pasquim, enojado, Lessa foi para Londres, onde morou e trabalhou na BBC, mantendo a colaboração com o Pasquim. Veio uma vez ao Brasil, mas não foi para conversar com FHC. Alguém me diz que foram duas viagens, não confirmei, mas publico.

Com Millôr Fernandes, a mesma pergunta, e a resposta de FHC: “Estive com o Millôr várias vezes, entendia e respeitava suas críticas ao meu governo”. Impressionante a capacidade de inventar ou falsear fatos.

A verdade: jamais falou com o Millôr, frustração total. Um dia, pediu ao jornalista Rodolfo Fernandes, com quem mantinha relacionamento jornalístico: “Pergunte ao seu tio Millôr se ele aceita almoçar ou jantar comigo no Alvorada. Se ele aceitar, telefone para ele”.

Rodolfo perguntou ao Millôr, este nem hesitou: “Não, Rodolfo, como presidente, de jeito algum. Quando ele deixar o governo, podemos examinar novamente a questão”. O Millôr era assim e não mudava.

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PS – Tudo o que está escrito aqui é rigorosamente verdadeiro. Os fatos políticos são públicos e notórios, as datas, conhecidíssimas. O resto, conto como personagem e como o maior opositor, por 8 anos seguidos, do precário e medíocre (e também corrupto) governo FHC.

(Transcrito da Tribuna da Imprensa)

 

Em pleno Natal de 2012, a única data imaginada e desejada é 2014

Helio Fernandes
Helio Fernandes

por Helio Fernandes

A República nasceu militar, militarista e militarizada, praticamente sem oportunidade para os civis. Deodoro e Floriano, que vieram brigados da estranha Guerra do Paraguai, apaixonados por Dom Pedro II, traíram o Imperador e a República. Ficaram com o Poder para eles.
Os dois altamente ambiciosos e dominados pela mais destruidora egolatria, brigaram rapidamente. Deodoro era o número 1 e Floriano o número 2, mas este, além de vice era Ministro da Guerra e a superioridade das armas transformou-o de número 2 para número 1, não respeitada nem a Constituição.

Floriano ficou no Poder inconstitucionalmente, ameaçou Rui Barbosa (que não se rendeu), intimidou o Supremo (que se ocultou no silêncio e na subserviência), só tratou dele mesmo e da permanência na presidência. (Ainda não no Catete e sim no belíssimo Palácio Itamaraty, então na Rua Larga, perto da Central do Brasil e do Ministério da Guerra.

O tempo passou, os políticos se entenderam, decidiram: o substituto de Floriano seria o presidente do Senado, Prudente de Moraes. Naquela época, a eleição era em março, a posse em novembro. Mesmo com Prudente já eleito, Floriano se julgava eterno, não providenciou coisa alguma para transmissão do cargo (o que Figueiredo repetiria com Sarney).

A posse ocorreu no dia 15, em pleno verão. Prudente (e os ministros) de casaca, num tilbury (Ford lançou seu primeiro carro nesse mesmo 1894, o que fazer?), suava desesperadamente, Floriano nem apareceu. Mas houve a transmissão do cargo, coisa que não haveria com muita frequência.


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2012 E 2014

Cortemos rapidamente, deixemos de lado as eleições fraudadas e a “nenhuma” eleição (nas duas ou três ditaduras), passemos para hoje, 2012, com toda cara de amanhã, 2014 ou até 2018. Cronologicamente, faltam dois anos. Para alguns, muito menos, por causa da desincompatibilização.

Excluindo Lula e Dona Dilma, muitos precisam deixar os cargos que ocupam, um problema. Só que problemão mesmo é a existência e o domínio de um partido. Candidatos praticamente deles mesmos, são vários, como também são vários os candidatos dentro de um mesmo partido. E outros, que pela pouca idade, pretendem se lançar em 2014, mas tendo 2018 como objetivo.

Examinemos os candidatos, pela ordem de entrada (no Poder), por já terem partido garantido, não precisarem de desincompatibilização, e por terem apreço e consideração pelo Poder. Só quem tem tudo isso é Dona Dilma, e pela soma dos fatores é colocada aparentemente como favorita.

Não faz um grande governo, mas quem é que faz, procurando estado por estado, e até no Congresso? Na República, os presidentes (exatamente como nos EUA) vinham do Senado. Hoje, senadores brigam pelo 14º e 15º salário, e aceitam até a vice-presidência da “casa”, por causa dos holofotes.

Dona Dilma não pode garantir a permanência por mais 4 anos, por causa da imprevisibilidade do tempo. Que aconteceu a favor dela com o câncer de Lula. Se este, mesmo doente, não se define, o que dizer se não tivesse tido o obstáculo médico?

Dona Dilma já entrou, como os economistas, no caminho das adivinhações. Estes, em janeiro, falam sobre inflação, crescimento, consumo, mas vão se desdizendo com o passar do tempo. Vejam o que aconteceu em 2012. A inflação muito mais alta do que a prevista, o desenvolvimento (PIB) tão pequeno, Nossa Senhora.

Dona Dilma já saiu na frente dos economistas oficiais: “Em 2013 teremos um PIBÃO GRANDÃO”. Depende da sua definição de “Pibão”. Repetir o “Pibinho”, tragédia nacional. E pessoal.

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OS OUTROS

Eduardo Campos vem a seguir, não pelo excesso de credenciais, mas pela coincidência de fatores positivos, não para ganhar, mas para concorrer. Moço, com o partido garantido, só tem dois objetivos para 2014. A vice com a própria Dilma (tipo megasena) ou a presidência contra a presidente Dilma. A vice, só passando pelo cadáver do PMDB, que detesta a presidência, tem paixão pela vice.

Concorrendo ao grande prêmio agora, Campos sabe que não ganha, mas acha que fica na vez para 2018. Ora se é difícil uma análise para 2014, o que dizer para 2018? Nas duas hipóteses, campos terá que deixar o cargo em março de 2014, perde enormes possibilidades de eleger o sucessor. Frase nada enigmática, mas esdrúxula do governador de Pernambuco: “Estou firme com a presidente Dilma para 2014, mas depende de 2013”. Que República.

O PSDB tem ambições, faltam candidatos. Muito antes dos 50 anos, Aécio Neves era favoritíssimo. Presidente da Câmara, duas vezes governador, senador, foi deixando pelo caminho as certezas e esperanças.

Tem o apoio de FHC, quase nada, e a inimizade de Serra, quase tudo. Este articula (ou sonha articular) a segunda campanha presidencial de Alckmin. Não é por amor ao atual governador, mas sim pela vontade de ser novamente governador. Em se tratando de Serra, tudo é possível ou impossível. FHC suspira entre amigos: “Se eu tivesse menos 6 ou 7 anos, voltaria triunfante”. Ha!Ha!Ha!

Dona Marina não tem partido, diz: “Vou fundar o meu”. Mas quando? E como? Com que apoios? A ex-ministra baseia todo o otimismo num passado, presente e futuro, rigorosamente equivocado. No finalzinho da eleição de 2010, entre Dilma e Serra, os descrentes, desanimados e desesperançados despejaram os votos obrigatórios em Dona Marina.

Chegaram a quase 20 milhões, que ela registrou em seu nome. De 2010 até agora, passa regularmente pelo cartório eleitoral. Os votos, segundo ela, continuam e são facilmente transferíveis. Uma pena que não sejam, nem o partido conseguirá fundar.

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PS – Deixei Joaquim Barbosa e Lula para o fim, pelo tamanho das impossibilidades. Acho que Joaquim Barbosa não cometerá o ato insensato de trocar tudo pelo quase nada. Tenho a impressão de que, além da passagem pelo STF, gostará de atravessar a História como “o homem que não quis a presidência”. Quem irá desmenti-lo?

PS2 – Lula é o contrário, quer praticamente tudo. Teve o obstáculo não previsível da doença, que abalou seus alicerces. Mas sua carreira não está encerrada, longe disso.

PS3 – Como elegeu o poste Fernando Haddad, se olha no espelho, vê um poste crescendo diante de si mesmo. E como mora em São Paulo, desenha na imaginação uma eleição que lhe daria um cargo altamente cobiçado: governador de São Paulo. Com isso, mais a prefeitura e a reeleição de Dona Dilma, começará a pensar em 2018.

PS4 – Afinal, estará apenas com 72 anos, nenhum adversário dentro do PT. E pode proclamar: “Meu nome é Luiz Inácio Lula da Silva, e quem impõe meus limites sou eu mesmo”. Podem não acreditar, mas como desacreditar?

(Transcrito da Tribuna da Imprensa)

 

Oscar Niemeyer, o arquiteto da Liberdade, Igualdade e Fraternidade

Helio Fernandes

 

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Ele morreu ontem, às 21,55, e às 22 horas as televisões já haviam mudado toda a programação. Avançaram na noite como Niemeyer avançou na genialidade. Niemeyer não era apenas o gênio do traço e da criação, era um extraordinário ser humano, daí a razão de eu ter colocado como título as três palavras-chave da Revolução Francesa.

O AMIGO DE PRESTES

Nos anos 50, antes de Brasília, almoçávamos muito num restaurante de comida caseira, na Avenida Atlântica de antigamente. Nesse tempo, Oscar tinha escritório na Lapa, na rua que fica atrás da Sala Cecília Meirelles (uma das paixões de Carlos Lacerda, a poetisa e a Sala em homenagem a ela).

Quando o Partido Comunista ganhou a legalidade, Prestes voltou para o Brasil, Mas não tinha onde morar. Niemeyer, sem a menor hesitação, deu para ele o escritório da Rua Joaquim Silva. Já morava na Estrada das Canoas, numa casa que construiu para ele mesmo. Belíssima, metade subterrânea, metade admirada por que passava por ali.

Mais tarde foi morar no duplex do fim da Avenida Atlântica, construído em frente onde ficava o antigo Cassino Atlântico. Muitos anos depois, fundiu o escritório com a residência. Era enorme, mas impossível de agregar as dezenas de amigos que estavam presentes diariamente.

Pode-se dizer que mesmo tendo ultrapassado os 100 anos, não deixava de trabalhar. Sua fascinação era o traço, que mais do que uma criação, parecia obsessão, mas na verdade era obstinação.

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P S – Nada mais sensato e até obrigatório, que o velório de Niemeyer fosse no Planalto. Assim, centenas de milhares de pessoas pudessem se despedir dele.

PS 2 – Logicamente não pude ir. Mas aqui no meu escritório, uma criação dele, de 1978, e a dedicatória do próprio punho: “Um dia o povo ouvirá o que tem de ouvir, e terá respeitada a Liberdade e os direitos humanos”. Num quadro, uma foto do repórter saudado o gênio, no Tribunal de Justiça. Mas na verdade, o espanto geral foi com os 20 minutos, sem interrupção, de reminiscências do próprio Oscar.

PS 3 – Niemeyer foi preso pela ditadura, não ficou um dia. Começaram a interrogá-lo: “O senhor é comunista?”. Oscar disse um palavrão imortal, respondendo: “Vocês sabe, então por que a idiotice da pergunta?”. Saíram da sala, logo depois era solto.

PS 4 – Se Niemeyer fosse torturado e morto, a ditadura teria acabado ali, não sobreviveria à repercussão nacional e internacional. Muito não conheciam o episódio, incluindo o palavrão. No Tribunal de Justiça, nunca um palavrão foi tão retumbantemente ovacionado.

Transcrevi trechos

Uma justiça com a cara do povo. Isso é possível

Justiça Justiça! clama o jornalista Helio Fernandes.
Uma definição que pressupõe: a justiça pode ser dupla.

O ministro Edson Vidigal revelou, quando presidente do Superior Tribunal de Justiça, a existência de uma justiça PPV.

Acrescento: contra o preto pobre, a puta pobre, o veado pobre.

Durante a escravidão legal garantiam para o escravo os três pês: pão, pano e pau.
Com a Lei Áurea tomaram o pão e o pano. Restou o pau no lombo. A polícia que chega derrubando portas e atirando nos morros murados do Rio de Janeiro.

Quando a Justiça tem fins: a) a felicidade, b) a utilidade, c) a liberdade, d) a paz.

No mundo inteiro existem marchas dos indignados.

Em 1971, o Papa Paulo VI demonstrou sua preocupação com a Justiça no mundo:

“As antigas divisões entre nações e impérios, entre raças e classes, possuem agora instrumentos técnicos novos de destruição; a corrida veloz aos armamentos ameaça o maior de todos os bens do homem, que é a vida; torna os povos e os homens pobres, mais miseráveis, enriquecendo, por outro lado, os que já são poderosos; gera continuamente o perigo de uma conflagração e, se se trata de armas nucleares, ameaça mesmo destruir totalmente a vida da face da terra. Ao mesmo tempo, nascem novas divisões para separar o homem do seu próximo. O influxo da nova organização industrial e tecnológica, se não for combatido e superado por adequada acção social e política, favorece a concentração das riquezas, do poder e da capacidade de decidir num pequeno grupo de directores, seja ele público, seja privado. A injustiça económica e a falta de participação social impedem o homem de desfrutar dos direitos fundamentais humanos e civis.

(…) Os processos judiciais dêem ao acusado o direito de conhecer os seus acusadores, bem como o direito a uma defesa conveniente. A justiça, para ser completa, deve incluir rapidez nos processos.

A esperança do Reino futuro mostra insofrimento por habitar nos espíritos humanos. A transformação radical do mundo, na Páscoa do Senhor, confere a plenitude de significado aos esforços humanos, e especialmente dos jovens, no sentido de minorar a injustiça, a violência e o ódio, e de se verificar um progresso de todos e simultâneamente, na justiça, na liberdade, na fraternidade e no amor”.

O POVO ELEGE A JUSTIÇA

Na Bolívia existia uma justiça branca e racista, que legalizava o apartheid indígena de 91 por cento da população, incluindo a maioria dos 30 por cento de crioulos.

Era a justiça de uma minoria de nove por cento. Mas isso mudou. Eleita nas urnas democráticas, pelo voto direto e secreto de cada cidadão livre, a Justiça tem nova cara: a do povo.