As revoltas de 27 de outubro: Paris 2005 e São Paulo 2013

br_folha_spaulo. facção criminosa

INFELIZ COINCIDÊNCIA: 27 DE OUTUBRO

 

por Marcelo Araújo/ Vírus Planetário

2005 dois jovens do gueto parisiense morrem fugindo de uma abordagem policial ao se esconderem em um prédio abandonado.

2013 um jovem do gueto paulista morre por um disparo “acidental” em uma abordagem abordagem policial.

Ambos geraram a revolta popular. Mais de 100 carros queimaram na França, e não diferente daqui, os negros e pobres foram taxados de vândalos.

Como escreveu Oswaldo Giacoia Jr: “O insuportável não é só a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido.”

Cartoon - French Youth Riots - 2005 - no mention of family

Os subúrbios de parisienses não são diferentes no nossos: ausência da educação, saúde e outros serviços e aumento da presença da polícia, postos de controle, remoções de invasões de imóveis e outros níveis de opressão em geral. Algo muito parecido com as UPPs do Rio de Janeiro, mas hoje vamos falar de São Paulo.

Em 27 de outubro de 2005, 10 jovens jogavam futebol em um subúrbio parisiense quando a polícia chegou para uma abordagem de rotina, muitos correram para se esconder. O que também era rotina. Porém, nesse dia algo trágico aconteceu decorrente dessa abordagem. Três dos jovens foram perseguidos e entraram em um prédio abandonado, onde havia instalações elétricas soltas. Bouna Traoré(17) e Zyed Benna(15) morreram eletrocutados. Um terceiro, Muhittin Altun (21), sofreu queimaduras graves. E aqueles que dizem que os jovens não deveriam ter corrido da policia, se esquecem o que é ser perseguido e taxado de bandido por morar nos subúrbios:

De acordo com declarações do Muhittin Altun, que permanece internado com ferimentos, (…) Todos eles fugiram em direções diferentes para evitar o longo interrogatório que os jovens nos conjuntos habitacionais enfrentam muitas vezes da polícia. Eles dizem que são obrigados a apresentar documentos e pode ser realizada até quatro horas de dentenção na delegacia, e às vezes os pais devem tem de vir buscar antes da polícia liberá-los.” – NY Times

Les_Evenements_de_2005

De volta para o Brasil, 27 de outubro de 2013, a amarga coincidência. Uma abordagem policial em São Paulo resulta na morte acidental do Douglas (17). Um acidente tão bizarro que até mesmo a corporação tem suas dúvidas. Uma arma que dispara acidentalmente no peito do jovem, que ainda questiona seu algoz: “Por que? Por que o senhor atirou em mim?”. Tudo presenciado pelo seu irmão de 13 anos, que nega a versão de disparo acidental. Como escreveu Oswaldo Giacoia Jr: “O insuportável não é só a dor, mas a falta de sentido da dor, mais ainda, a dor da falta de sentido.” Como se não bastasse: no mesmo dia a polícia aumentou o policiamento e viaturas passam constante à porta da mãe de Douglas,  que dava entrevistas e acusava a polícia de assassinato com a veemência e certeza de quem já deve ter visto outros casos de disparos acidentais.

No mesmo e no dia em que se segue, o povo se levanta. Como em Paris, revoltado com repressão do Estado e seus resultados fatais. Aqui, os protestos que se estendem desde junho deste mesmo ano em todo o país, deu coragem à população perdeu o medo de gritar contra os absurdos. A revolta burguesa, que em poucos meses vem sentindo uma pequena parcela da repressão policial que assola os subúrbios com décadas de abusos policiais. Violência física, psicológica e abuso de autoridade. Também como lá, na França, o Estado quer abafar as revoltas evocando um estado de emergência, o Marco Civil – que é basicamente o poder público acuado com o aumento das demonstrações de descontentamento popular. Vai aumentar a violência e abuso de poder policial contra as manifestações. O é objetivo claro de calar na força a população.

Genildo
Genildo

A mídia grande, por sua vez, criminaliza as revoltas populares. E tal qual a polícia, ataca com mais ferocidade à medida que os revoltados se afastam dos grandes centros, da burguesia. Diariamente é reforçado a ideia de que existe um inimigo público e que não há uma solução para esse problema das revoltas populares. Criaram os atos de vandalismo e os tem relacionado aos poucos com atos de terrorismo – que é uma falácia. Deixa óbvia a sua posição, que é a mesma há 40 anos, e defende os interesses econômicos das classes dominantes e criminaliza as revoltas populares. Dizem que não existe um motivo para tanta violência e depredação. A grande mídia não consegue ver uma solução. O Estado não consegue ver uma solução. E eles nunca vão vê-la, por que aqueles que não conseguem enxergar uma solução, é parte integrante do problema.
Não se engane. Esta não é uma revolta popular do Brasil, nem de um levante popular de julho de 2013. Esta é uma revolta mundial contra o sistema capitalista que explora muitos em favorecimento de poucos. Não vai acabar hoje, no final do ano ou depois da Copa do mundo. O povo não quer mais esperar por políticos que há anos fazem suas negociatas demagogas atendendo aos interesses dos grandes grupos financeiros. O povo quer ver resultados, o fim da corrupção, que é inerente a esse sistema desigual. Eclodiu uma consciência popular de que as mudanças estão longes de uma classe política, ausente e ineficiente.

As manifestações devem acabar quando o problema acabar.

E se você não consegue ver a solução…

A guerra da imprensa brasileira

Os jornalões brasileiros vibram com a queda de Kaddafi.
Quando o povo brasileiro está em outra guerra.

A guerra contra a fome, o desemprego, a justiça PPV, a inflação, a moradia degradante, a falta de serviços essenciais, a corrupção lá em cima, e a violência cá, em baixo, nas ruas.

Exibo as capas dos jornais de hoje dos países que invadiram a Líbia. Comparem.