Fernando Henrique e as aventuras de José Carlos Gratz, o bicheiro e deputado apontado como líder do crime organizado no Espírito Santo

Gratz

Não existe harmonia entre os três poderes. Um fiscaliza o outro. No Espírito Santo os três poderes tocavam a mesma música. Veja só no que deu:

Reportagem de ANDREI MEIRELES E CLÓVIS SAINT-CLAIR

Filho de pequenos agricultores que migraram para a capital na década de 50, o capixaba José Carlos Gratz foi salvo da pobreza quando descobriu os jogos de azar. Começou tomando conta de carteados em clubes freqüentados por endinheirados. Embolsava 5% das apostas nas rodadas de pife-pafe e pôquer. Raciocínio rápido, bem-humorado, falastrão, aos 28 anos caiu nas graças do bicheiro Luiz Cachoeirense, que o convidou para sócio em uma banca em Vila Velha. Anos depois, Gratz transformou-se em grande banqueiro do bicho, encantou-se pelo mundo da política e se elegeu deputado estadual. Presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo com ambições de um dia ser senador, hoje é um estranho caso de político que saiu do crime – e não nega que ainda tem ligações com ele. Como acontece nos romances sobre mafiosos de Mario Puzo, autor de O Poderoso Chefão, Gratz usou o submundo para comprar seu lugar na legalidade.

(…) ele se tornou também estopim de uma crise política no governo Fernando Henrique Cardoso. ‘Por todas as informações que recebemos, o deputado Gratz é quem realmente comanda o crime organizado que transformou o governador do Espírito Santo, José Ignácio, em refém da bandidagem’, declarou Miguel Reale Jr., pouco depois de deixar o Ministério da Justiça.

(…) Reale e outros cinco funcionários do alto escalão – entre eles o diretor-geral da Polícia Federal, Itanor Carneiro – pediram demissão depois que o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, engavetou pedido de intervenção federal no Espírito Santo. Dias antes, o mesmo Brindeiro estivera entre os integrantes do conselho que aprovaram a medida como tentativa de conter a crise institucional que se espalha[va] pelo Estado. Mas mudou de idéia após uma reunião com FHC.

Reale reagiu ao engavetamento dizendo-se traído pelo presidente. Declarou que FHC lhe dera sinal verde para a operação. Em nota oficial, o presidente negou. Afirmou que não fora informado dos detalhes do pedido de intervenção. Também se declarou traído e (…) nomeou uma força-tarefa formada por procuradores e 56 policiais para investigar as denúncias no Espírito Santo.

Em sua cobertura na Praia do Canto, bairro de classe média alta em Vitória, Gratz definiu o episódio por meio de uma de suas costumeiras frases provocativas. ‘Ninguém mesmo tem minha força aqui no Espírito Santo. Nem o governador, nem os senadores, nem o prefeito. Eu tenho o poder. Nasci para mandar, não para obedecer’, disse em entrevista a Época. De 1991 a 2001, Vitória foi a capital brasileira com o maior número de homicídios. Foram 63,2 mortes para cada 100 mil pessoas. O governador José Ignácio Ferreira (…) sofreu um processo de impeachment por acusações de corrupção. E o Executivo, o Legislativo e o Judiciário locais estão sob a suspeita de ser dominados pelo crime organizado. De acordo com relatórios produzidos pelo Ministério da Justiça, boa parte desse pandemônio é operado por Gratz.

Falar é crime. Juízes e promotores estão entre testemunhas ameaçadas

O crime organizado no Espírito Santo começa a ser radiografado. É o resultado dos relatos de pessoas que resolveram contar o que sabem. Mas quem ousa denunciar, investigar ou punir os comandantes do submundo capixaba passa a viver sob ameaça de morte. De acordo com um relatório da Organização Não-Governamental Justiça Global, 14 pessoas – entre elas três juízes, um promotor e um advogado – integram a lista dos marcados para morrer. É o caso dos delegados André Luiz Cunha Pereira e Danilo Bahiense Moreira, da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Espírito Santo. Eles entraram na mira dos criminosos depois de ter começado a investigar o coronel Walter Gomes Ferreira, da Polícia Militar do Espírito Santo, apontado pela CPI do Narcotráfico como o comandante do Esquadrão da Morte capixaba. Em depoimentos à Polícia Federal e à Justiça, testemunhas disseram que o coronel costuma prestar serviços para o deputado José Carlos Gratz.

(…) O juiz Marco Antônio de Souza Basílio (…) foi a Brasília pedir socorro e foi incluído no programa federal de proteção à testemunha. Em depoimento de horas, afirmou ter escapado de uma perseguição feita por viaturas da polícia nas ruas de Vitória após ter feito denúncias contra desembargadores do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Segundo declarou o juiz ao Ministério Público Federal, os desembargadores integram uma rede formada para proteger Gratz na Justiça. Oficialmente, Gomes Ferreira está detido num batalhão da PM capixaba. Mas, segundo informações das organizações ligadas aos direitos humanos no Estado, tem liberdade para sair da prisão quando quer.

O documento usado para pedir a intervenção no Estado relaciona 14 ações e inquéritos policiais contra o deputado. No calhamaço de 61 páginas, ele é acusado de homicídio, corrupção, sonegação fiscal e crime eleitoral. O caso que mais chocou os conselheiros foi o do assassinato do banqueiro do jogo do bicho Jonathas Bulamarques, em dezembro de 1982. Denúncia do promotor Gilberto Fabiano Toscano de Mattos resultou em processo que tramita na 2a Vara Criminal de Vila Velha – e conta detalhes de uma história escabrosa.

Dono de um pequeno cassino, Jonathas começou a brigar com outros bicheiros da cidade pelo controle das bancas. No dia 5 de agosto de 1982, almoçou com o delegado Cláudio Guerra – apontado pela CPI do Narcotráfico como um dos comandantes do Esquadrão da Morte no Espírito Santo. Pouco depois, uma bomba explodiu dentro de seu carro. O bicheiro teve a perna esquerda amputada, perdeu dedos da mão esquerda e ficou praticamente cego. Mesmo mutilado, jurou vingança. Quatro meses depois, três homens mascarados invadiram sua casa e o fuzilaram. De acordo com a denúncia do Ministério Público, o assassinato foi decidido em reunião de banqueiros de bicho com o delegado Guerra. ‘No inquérito policial há indícios veementes de que José Carlos Gratz participou do encontro’, escreveu o promotor. Em 1990, Gratz se elegeu deputado estadual e a denúncia foi arquivada pelo procurador de Justiça Wellington Citty por insuficiência de provas. Hoje desembargador, Citty é amigo do peito do deputado. ‘Com Gratz eu tenho uma relação especial. Gosto dele mesmo. Se houver necessidade, estou pronto para estar ao lado dele’, declarou em entrevista. Ouvido por Época, Gratz negou relação com o homicídio. E disse que Jonathas não era banqueiro do bicho. ‘Acho que ele não sabia nem qual era o grupo do macaco, o 17.’

Investigações da Polícia Federal mostram que as relações de Gratz ultrapassam os limites do Espírito Santo – e por conta disso podem ajudar a financiar o crime organizado em outros lugares do país. Entre eles, Rio de Janeiro e São Paulo. O deputado admite ter negócios com sócios de fora. Revela, por exemplo, que no início dos anos 80 tornou-se porta-voz dos bicheiros capixabas e resolveu voar mais alto. Aproximou-se dos banqueiros cariocas Capitão Guimarães, Antônio Turco e Abrahão David. Juntos, abriram um cassino em Guarapari e outro em Vitória, no hotel Porta do Sol. ‘Isso aconteceu durante o governo do Gerson Camata. Eu tinha a vista grossa do governo para bancar o jogo na alta temporada e trazia grupos do Rio para jogar’, afirma.

Outro provável parceiro de Gratz fora do Espírito Santo segue a tradição dos apelidos dignos de filmes de gângster – e fica em São Paulo. Trata-se do banqueiro do bicho Casemiro Alves da Silva, conhecido como Pingüim, indiciado 29 vezes por envolvimento com o jogo do bicho e condenado a um ano de prisão. Em 1999, Gratz disse na CPI do Narcotráfico que era um dos donos de um bingo em Campinas. A suspeita da CPI é que ele seria sócio de Pingüim no Bingo Vilac. Ouvido por Época, Pingüim diz que apenas emprestou dinheiro para um afilhado montar o negócio e Gratz financiou a compra de computadores e mesas de controle. O combinado era que, se o empréstimo não fosse pago, aí sim eles teriam participação no bingo. ‘Mas o empréstimo foi quitado’, assegura. O Ministério Público Federal desconfia da versão. ‘Nossas investigações mostraram que Gratz mantém uma rede de jogatina no Espírito Santo e em outros Estados, mas não aparece formalmente como dono. Ele controla bingos por meio de laranjas e contratos de gaveta’, diz o procurador da República Ronaldo Albo.

Casado, pai de dois filhos – uma moça de 22 anos e um rapaz de 18 –, Gratz rebate as acusações com explicações que mostram a curiosa trajetória de um político que não nega as origens – e os eventuais vínculos – com o crime. Vestido com discrição, sem sinais daqueles penduricalhos que costumam enfeitar os bicheiros, ele conta como ganha a vida. ‘Tenho bingos, máquinas caça-níqueis, o bastante para sobreviver sem precisar dos R$ 3.100 que recebo como deputado.’ A Polícia Federal, no entanto, apura denúncias de que o deputado possuiria outras fontes de renda não-declaradas e usaria os bingos apenas para lavar dinheiro. Em outra frente, uma fiscalização da Receita Federal apurou que o patrimônio de Gratz cresceu mais que as receitas que declarou ao Fisco. Por causa disso, ele foi multado e responde a processo por crime fiscal, um dos itens elencados no relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.

Jogador inveterado, Gratz participa toda semana – e não nega – de mesas de carteado em Vitória. Também é um assíduo freqüentador de cassinos no Exterior. A Polícia Federal desconfia de que as viagens não se destinam apenas a, como dizem os bicheiros, fazer uma fezinha. Um relatório enviado pela Divisão de Crimes Financeiros ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) elaborado com ajuda da divisão de crimes financeiros do Departamento do Tesouro americano traz registros segundo os quais, nos últimos oito anos, Gratz movimentou US$ 489 mil em cassinos em Las Vegas, Nevada, Atlantic City e New Jersey. A Polícia Federal investiga se o deputado está, outra vez, lavando dinheiro.

Gratz movimentou US$ 489 mil em cassinos em Las Vegas, Nevada, Atlantic City e New Jersey
Gratz movimentou US$ 489 mil em cassinos em Las Vegas, Nevada, Atlantic City e New Jersey

Mesmo dono de curiosa biografia recheada de episódios que coincidem com o mundo fora da lei, Gratz é visto por funcionários do alto escalão de Brasília como homem perigoso por conta de suas conexões políticas. Como presidente da Assembléia Legislativa, tem apoio de 27 dos 30 deputados estaduais e aprova o quer. A maioria foi suficiente para fazê-lo dar as cartas nos governos Albuíno Azeredo e Victor Buaiz. Também aproveitou as enrascadas em que se meteu José Ignácio para adotar uma espécie de parlamentarismo capixaba. O governador se enrolou em problemas ainda nas eleições. Misturou contas pessoais com o caixa de campanha e teve de pagar multa de R$ 580 mil ao Fisco. O mais grave, porém, está em ofício que o delegado da Receita Federal em Vitória, Caio Marcos Cândido, enviou no mês passado ao Ministério Público. O documento traz a confissão de Hilário Maximiano Gurjão, dono da empresa HMG, de que participou de uma fraude na prestação de contas de José Ignácio à Justiça Eleitoral. ‘Isso é crime suficiente para que o governador seja denunciado (…). Na verdade, o governador está na corda bamba, quando houve a comprovação da existência de um esquema de propinas com a participação da primeira-dama, Maria Helena Ferreira, e de seu irmão Gentil Ruy, caixa de campanha e secretário de governo. Uma investigação policial descobriu o caixa dois da campanha municipal de 2000. Época teve acesso a uma papelada apreendida na casa de Gentil Ruy que registra os pagamentos a candidatos a prefeito e a deputados estaduais governistas. Uma auditoria do Banco do Estado do Espírito Santo e a investigação do Ministério Público concluíram que o dinheiro distribuído por Gentil Ruy foi desviado da conta da Fundação Augusto Ruschi. Com acusações desse calibre, José Ignácio precisou se render à maioria controlada por Gratz na Assembléia para se livrar do impeachment (…).

com Solange Azevedo

O governador e o assassinato do juiz

Por Laerte Braga
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Juiz Alexandre Martins de Castro Filho
O extinto estado do Espírito Santo serve de exemplo para definir um lugar onde tudo o que acontece em Minas, São Paulo, Maranhão, etc, acontece por ali em termos quase absolutos.
O ex-governador Paulo Hartung é a soma de toda a podridão que se possa imaginar possível. Passou oito anos servindo aos donos do estado (ARACRUZ, SAMARCO, CST e outros menores). Qualquer ato de corrupção ou de barbárie imaginável ou inimaginável o ex-governador praticou.
O juiz federal Alexandre Martins investigava no extinto Espírito Santo o crime organizado. Começa no Palácio do governo, o que já é complicado, passa pelo Tribunal de Justiça e tem ramificações profundas na Assembléia Legislativa e bancada federal.
Um estado que foi governado por Gérson Camata, não sei quantas vezes senador, sócio em negócios familiares de Aécio Neves, não pode imaginar nada positivo. A não ser que seja para ele e seus “negócios”.
Como no estado do Rio o último governador decente foi Leonel Brizola, de lá para cá só bandido. No Espírito Santo a exceção de Max Mauro e Vítor Buaiz, o resto – resto mesmo – dá nó em pingo d’água e desentorta banana em matéria de banditismo.
O juiz Alexandre Martins foi assassinado. Na manhã de 24 de março de 2003 foi executado numa rua da cidade de Vila Velha, Grande Vitória. Alexandre Martins de Castro Filho. Estava levantando fatos e dados incômodos a Paulo Hartung e seus cúmplices – os donos do estado –. Decidiram executar o juiz, contrataram o ou os assassinos e pronto. Pagamento feito, tarefa cumprida, missa de sétimo dia marcada.
Uma história de horror contada por veículos independentes de mídia como o jornal on line Século Diário, mas mantida dentro de um cofre de atrocidades guardado a sete chaves por Paulo Hartung e sua quadrilha. Nisso daí, inclusive, o silêncio covarde do pai do juiz. Diga-se de passagem também magistrado, digamos assim. É muita esculhambação com a palavra, mas vá lá.
O coronel PM Carlos Augusto de Oliveira Ribeiro, presidente da Associação da PM e do Corpo de Bombeiros no extinto Espírito Santo, denunciou, sem meias palavras, que o ex-governador Paulo Hartung (…) foi o mandante do crime.
A Justiça essa então! Metade do Tribunal de Justiça do extinto estado foi presa numa operação da Polícia Federal. A turma da venda de sentenças e outras fraudes, como sentar em cima de processos, etc, etc. A Assembléia? Olhe, onde existe um Carlos Verezza, ou um Genivaldo Lievori não vai a lugar nenhum que não show. Leia mais