Menina de 12 anos, que vivia nas ruas, pergunta ao Papa: – “Por que é que Deus permite estas coisas?”

Perante uma plateia de 30 mil jovens numa universidade de Manila, antes da missa no parque Rizal, Francisco pediu-lhes compaixão pelo sofrimento das crianças da rua, vítimas da prostituição e da droga.

Glyzelle Aries Palomar, 12 anos, que foi salva das ruas por uma associação humanitária desfez-se em lágrimas quando falou com o Papa e lhe perguntou “por que é que Deus permite estas coisas? E por que é que há tão poucas pessoas a ajudar”. A resposta foi dada em forma de um abraço sentido que marcou um dos pontos mais emocionantes da viagem de Francisco. O apelo veio a seguir: “O mundo tem que chorar pelas crianças que se drogam e que que se prostituem. Se nós não aprendermos a chorar, nunca poderemos ser bons cristãos”. Não basta, disse Francisco, a existência de uma “compaixão mundana” que faz com que “muitos se limitem a levar a mão ao bolso para dar uma moedinha”.

O abraço de Francisco à jovem Glyzelle GIUSEPPE CACACE:AFP
O abraço de Francisco à jovem Glyzelle GIUSEPPE CACACE/ AFP
Papa com os jovens em Manila - REUTERS
Papa com os jovens em Manila – REUTERS

Muito animado o encontro com os milhares de jovens, em que o Papa Francisco pôs de lado o discurso que tinha preparado em inglês e improvisou em espanhol, respondendo às perguntas que três deles lhe dirigiram. Antes de mais a jovenzinha Shon que, chorando quis saber “porque é que as crianças sofrem”.

Antes de responder a esta pergunta, o Papa aproveitou para realçar essa pequena representação das mulheres, poucas – disse – chamando a atenção para o machismo que muitas vezes não deixa lugar às mulheres que, no entanto, têm um olhar diferente dos homens sobre a realidade.

“Assim, quando vier o próximo Papa que haja mais mulheres” – disse, suscitando aplausos dos presentes.

O Papa colheu o fato de Shon ter feito essa pergunta chorando para dizer que ao mundo de hoje falta a capacidade de chorar, falta sobretudo aos que levam uma vida folgada. Mas certas realidades da vida só podem ser vistas como olhos lavados pelas lágrimas – disse.

A pergunta de Shon quase que não tem resposta, mas lança um desafio – frisou o Papa – lançando, por sua vez, uma pergunta aos jovens: “Eu aprendi a chorar?” perante os sofrimentos do mundo (fome, droga, crianças abandonadas, abusos, escravatura) “ou o meu pranto é um pranto caprichoso só para ter algo mais?”.

“Aprendamos a chorar” – exortou o Papa aos jovens, recordando que também Jesus chorou em diversas ocasiões. “Se não aprendeis a chorar não sois bons cristãos”.

E à pergunta “porque as crianças sofrem” o Papa convidou a responder com o silêncio.

“Que a nossa resposta seja o silêncio ou a palavra que nasce das lágrimas. Sêde valentes, não tenhais medo de chorar” .

Por sua vez, o jovem Leandro Santos, fazendo notar que vivemos num mundo, onde abunda a informação, perguntou se isto é um mal. “Não” – respondeu o Santo Padre, sublinhando que o importante é saber o que fazer dessa informação e não correr o risco de ser “jovens museus” que só acumulam informação, mas não saber o que fazer dela. É preciso ser, pelo contrário, “jovens sábios” . E como ser sábios? – perguntou o Papa, respondendo que este é outro desafio, o desafio do amor. “Aprender a amar” e “através do amor fazer com que a informação seja fecunda”.

Para isso o Evangelho nos propõe um caminho tranquilo baseado em três elementos, harmoniosamente articulados: a linguagem da mente, do coração e das mãos, ou seja, pensar, sentir, realizar – frisou o Papa convidando os jovens a repetir em voz alta as três linguagens … E depois disse:

“O verdadeiro amor é amar e deixar-se amar. É mais difícil deixar-se amar do que amar.

Podemos amar a Deus, mas o mais importante é deixar-se amar por Ele: “O verdadeiro amor é abrir-se a esse amor primordial e que nos provoca surpresa.”

Se estivermos sempre concentrados no computador que parece ter respostas para tudo, não nos abrimos a essa surpresa, porque isso supõe um diálogo a dois: entre quem ama e quem é amado – afirmou o Papa, exortando:

“Deixemo-nos surpreender por Deus. E não tenhamos a psicologia do computador de querer saber tudo”.

E dando o exemplo de São Mateus que se deixou surpreender e convencer pelo amor de Jesus, acabando por segui-Lo, o Papa exclamou: “Deixa-te surpreender por Deus. Não tenhas medo das surpresas que movem o chão debaixo dos teus pés, que te fazem sentir inseguro, mas que nos põem a caminho. O verdadeiro amor leva a queimar a vida, embora com o risco de ficar com as mãos vazias” – disse mencionando São Francisco de Assis que deixou tudo e morreu de mãos vazias, mas de coração cheio.

“De acordo? Não jovens de museu, mas jovens sábios. Para ser sábios usar as três linguagens: pensar bem, sentir bem e fazer bem, e deixar-se surpreender pelo amor de Deus e andar e queimar a vida”.

Finalmente a terceira pergunta colocada pelo jovem Riqui que ilustrou ao Papa as actividades que ele e o seu grupo levam avante.

O Papa apreciou esse serviço aos outros mas desafiou-os imediatamente a pensarem se se deixam que os pobres lhes dêem a riqueza que eles também têm, se se deixam evangelizar pelos pobres

A este respeito evocou a leitura do Evangelho que tinham feito pouco antes e que mostra que o que nos falta muitas vezes é “aprender a mendigar daqueles a quem damos”, “aprender a receber da humildade daqueles a quem ajudamos. As pessoas a quem ajudamos, pobres enfermos, órfãos têm muito para nos dar. Mas me faço mendigo e peço também isto, ou sou suficiente e vou só dar” .

“Vos que viveis dando sempre e pensais que não tendes necessidade de nada, sabeis que sois um pobre tipo, sabeis que tendes muita pobreza e precisais que te (vos) dêem?

E perguntando mais uma vez aos jovens se se deixam amar por aqueles a quem ajudam, o Papa rematou:

“É isto que ajuda a amadurecer jovens comprometidos como Riqui no trabalho de dar, aprender a estender a mão a partir da própria miséria”.

Aprender a amar e a deixar-se amar. E o Papa concluiu referindo, em inglês, a um aspecto que tinha previsto no seu texto escrito: o desafio da integridade. Recordando que os bispos das Filipinas declararam 2015 “Ano do Pobre” convidou ao amor aos pobres, sempre interrogando os jovens se pensam nos pobres, se lhes pedem que lhes transmitam a sua sabedoria, se se deixam evangelizar pelos pobres…e por fim pediu desculpas por não ter lido o discurso que tinha preparado, mas disse sentir-se consolado pelo facto que “a realidade é superior à ideia” e a realidade que vocês apresentaram e a vossas realidade é superior a todas as respostas que eu tinha preparado. Obrigado!”

Seis milhões para ouvirem a missa do Papa em Manila

O papa bate récord de multidão em Manila, celebrando missa para seis milhões de católicos. Pope draws record crowd é uma das manchetes do Manila Standard Today

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Ao quarto dia da visita a este bastião católico da Ásia, milhões de fiéis começaram a chegar bem cedo ao parque Rizal, situado junto ao mar. Tal como na véspera, por causa de uma tempestade tropical que se abateu sobre a região, o mar de gente coloriu-se com impermeáveis de plástico coloridos para se proteger da chuva. Principalmente amarelo, a cor do Vaticano.

Jorge Bergoglio fez a sua entrada no papamóvel, circulando por entre a multidão sob fortes aplausos. Na missa, falada em inglês e tagalog, exortou os filipinos a serem “missionários” em toda a Ásia. “É um dom de Deus, uma bênção! Mas também é uma vocação.”

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O cardeal de Manila, Luis Antonio Tagle, respondeu ao desafio do Papa, dizendo que “todos os filipinos gostariam de partir amanhã com a Sua Santidade, mas não para Roma! Partiriam para as periferias, os bairros de lata, as prisões, os hospitais. Iriam também evangelizar o mundo da política, das finanças, das artes, das ciências, da cultura, da educação e das comunicações.”

Depois da missa, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, explicou que “o Papa quis nesta viagem dar um impulso a uma via concreta para uma sociedade filipina mais coerente com os valores cristãos”, justificando assim a insistência do Papa nas desigualdades que persistem nesta sociedade muito católica.

Durante a sua visita de quatro dias, Francisco denunciou as profundas desigualdades e a corrupção. Também lançou apelos em defesa da família tradicional, denunciando o “relativismo”, as “ameaças insidiosas”, a “confusão” sobre o casamento.

“A grande ameaça ao plano de Deus, segundo a Bíblia, é a mentira”, afirmou o Papa, acrescentando que “o diabo é o pai da mentira e esconde seus embustes sob a aparência da sofisticação e do fascínio por ser moderno como todo mundo”. Segundo o pontífice argentino, o diabo “distrai com o chamariz dos prazeres efêmeros, de passatempos superficiais”. “Esbanjamos os dons que Deus nos deu brincando com artefatos banais, esbanjamos nosso dinheiro no jogo e na bebida, encerramo-nos em nós mesmos e não nos centramos nas coisas que realmente importam”, afirmou. Além disso, Francisco ressaltou o papel da mulher na sociedade, salientando que elas “têm muito a dizer”. “Muitas vezes somos machistas, mas uma mulher é capaz de ver as coisas com outros olhos, com um olhar diferente”, afirmou.

papa francisco fora do procolo

“Não é possível uma família sem sonhar”

 

O seu discurso às famílias iniciou-se com o verbo sonhar. Falando em espanhol e recorrendo a um tradutor, o Santo Padre proferiu as afirmações que marcaram a sua intervenção:

“Não é possível uma família sem sonhar.”

“Sem sonhar perde-se a capacidade de amar.”

“Hoje sonhei com o futuro dos meus filhos e da minha esposa e também com os meus pais e avós.”

“Não percam a capacidade de sonhar.”

“Nunca deixem de ser noivos”

Foram três os aspetos que o Papa Francisco apresentou sobre a figura de S. José: repousar no Senhor, levantar-se com Jesus e Maria e ser voz profética. E, desde logo, o Papa Francisco contou uma pequena história referindo o facto de ter na sua escrivaninha uma imagem de S. José que dorme: sempre que algo o preocupa o Santo Padre escreve num pequeno papel o seu problema e coloca-o debaixo da imagem para que S. José repouse sobre o problema e o ajude a solucionar.

Para ouvir o chamamento de Deus é preciso pois rezar em família:

“Para ouvir e aceitar o chamamento de Deus, para construir uma casa para Jesus, deveis ser capazes de repousar no Senhor. Deveis encontrar em cada dia o tempo para rezar.”

O Santo Padre referiu de seguida o segundo aspeto: levantar-se com Jesus e Maria. Ou seja, enfrentar a vida, aprender a amar, a perdoar, a ser generosos e não egoístas. Mas também a saber dizer não às colonizações ideológicas da família – declarou o Papa Francisco que citou o Papa Paulo VI pela defesa da vida durante o seu pontificado.

Finalmente, o terceiro aspeto: S. José é uma voz profética e também nós devemos ser – disse o Papa – exortando os cristãos a não terem medo de afirmar a sua fé em Jesus Cristo:

“Não escondais a vossa fé, não escondais Jesus, mas colocai-O no mundo e oferecei o testemunho da vossa vida familiar.”