Jornalista Chiqui Ávalos estaria exilado no Brasil, para se livrar das máfias de contrabando e tráfico de Cartes

La cara de HC

Transcreverei trechos de entrevista de Chiqui Ávalos a Lucas Rohãn, quando anunciou seu exílio no Brasil, depois da eleição de Horacio Cartes presidente de Paraguai.

Chiqui escreveu o livro La otra cara de HC (Horacio Cartes), uma biografia não autorizada, que revela a vida do presidente e os nomes dos seus parceiros de crimes, notadamente, evasão de divisas e tráfico.

Talvez Chiqui esteja noutro país. Que o Brasil passou a ser local de risco. Que começou este ano com dois jornalistas exilados. Um ainda está no exterior, Mauri König, ameaçado por uma máfia de delegados do Paraná, que tem ligação com o Paraguai.

No mais, Horacio Cartes possui fortes ligações com o crime organizado no Brasil e nos meios políticos da direita.

Eis o texto de Lucas Rohãn: Poucas semanas antes das eleições presidenciais no Paraguai, o jornalista Chiqui Ávalos lançou um livro polêmico. La outra cara de HC fala sobre o passado obscuro de (…) Horacio Cartes. Empresário do ramo de cigarros e dirigente esportivo, ele já foi condenado por evasão de divisas e convive com a eterna suspeita de envolvimento com o contrabando de cigarros para o Brasil. Além disso, no livro, Ávalos apresenta documentos e depoimentos que comprovariam a ligação de Cartes não só com o contrabando, mas também com o tráfico de drogas.

Em entrevista exclusiva ao Terra, o escritor confirma que “fontes diplomáticas” brasileiras ajudaram na construção do livro. Ele também conta que se refugiará na casa de amigos no Brasil (…) porque teme por sua segurança. Após o lançamento da obra, Ávalos recebeu ameaças anônimas e convive com o que chama de “histórias folclóricas que circulam na fronteira sobre vinganças contra alguns adversários”. Confira a entrevista na íntegra:

Terra – Por que o senhor resolveu lançar o livro, perto das eleições?
Chiqui Ávalos – É uma tendência mundial, assim como acontece nos Estados Unidos, no Brasil ou na Argentina, que a oportunidade para conhecer os candidatos faz com que a indústria editorial insista nessas datas como as mais importantes nas edições. Seis meses atrás ou seis meses depois, teria menos valor para que o leitor faça suas avaliações.

Terra – Quanto tempo o senhor trabalhou para juntar todo o material? Como foi essa pesquisa?
Chiqui Ávalos – A primeira investigação que fiz foi para um jornal (Hoy) em 1985 sobre a evasão de divisas do Banco Central, nas quais para dinamizar a produção agrícola foi habilitada uma cotização especial para quem importava insumos por um valor abaixo do dólar nas ruas. Inventaram operações, houve cumplicidades dos controles, das empresas e do próprio banco, além das financeiras que compravam os dólares a 240 guaranis (câmbio da época) oficialmente e se beneficiavam com a diferença de câmbio ao vender a 400. O que em 35 milhões de dólares representou o início de muitas fortunas. Horacio Cartes trabalhava na Cambios Humaitá nessa época, empresa dos filhos do chefe de polícia do Stroessner (Alfredo Stroessner, general que governou o Paraguai de 1954 a 1989), e depositavam os fundos em uma conta especial em Nova York.

Terra – O senhor tem medo das reações que essas denúncias podem causar? Teme por sua segurança?
Chiqui Ávalos – Dizer que não tenho medo seria uma irresponsabilidade. De fato, por histórias que circulam e o relacionam com a máfia, com narcotraficantes conhecidos do Brasil (Fahd Yamil, que está na lista da DEA [agência norte-americana que combate o tráfico de drogas], doleiros como Dario Messer) o fazem temível, além das histórias folclóricas que circulam na fronteira sobre vinganças contra alguns adversários. Tenho o apoio e a ajuda não só em alguns documentos, mas também na discreta proteção de algumas embaixadas (…). Mas tudo “off the record” para não comprometer ninguém diplomaticamente.

Terra – Qual o motivo de sua viagem ao Brasil?
Chiqui Ávalos – Vou visitar alguns amigos, jornalistas e diplomatas que me recomendaram não ficar no Paraguai. [Que] eu correria perigo, tanto se ganham os colorados, quanto se perdem, poderiam procurar um bode expiatório e não quero ser o pato do casamento.

Terra – O seu livro contou com a ajuda de fontes diplomáticas e de meios de comunicação do Brasil. O que o senhor conseguiu com esses contatos? Essas “fontes diplomáticas” demonstram preocupação pelo futuro do Paraguai?
Chiqui Ávalos – Sim. Apesar de não poder revelar as fontes, tive acesso a alguns documentos graças a “mãos amigas”. Pessoalmente acredito que depois de ter falado com referências importantes, não é do agrado do governo brasileiro ter Cartes como presidente do Paraguai, com todas as acusações de lavagem de dinheiro, narcotráfico, contrabando de cigarros e etc. Inclusive, já fiz contatos com editoras brasileiras para lançar o livro [ no BRasil] com o título O perigo mora ao lado.

Terra – O senhor já teve alguma conversa com Cartes sobre essas acusações?
Chiqui Ávalos – Não, nenhuma. O comuniquei que estava escrevendo o livro, seus amigos e seus companheiros políticos de rua sabiam que eu estava fazendo, mas jamais falamos sobre o assunto.

Terra – Se tudo é verdade, por que Cartes não está preso?
Chiqui Ávalos – Ele já esteve na prisão por evasão de divisas em 1985. Foi condenado em três oportunidades e finalmente, em uma das mais estranhas decisões da Corte Suprema, foi absolvido em… 2008! Vinte anos depois.

Terra – Desde o dia do lançamento do livro até agora, como o senhor avalia a repercussão em seu país?
Chiqui Ávalos – Um amigo me disse que vender a quantidade de livros como La otra cara de HC no Paraguai, um país que não lê, é como vender picolés aos pinguins. Tive dificuldades? Claro. Três editoras rechaçaram o material, outras duas não se animaram a publicar e tive que arcar com todos os custos. Os dois maiores jornais “independentes” do país não quiseram publicar um anúncio pago adiantado e vários hotéis negaram abrigar a apresentação do livro, além do silêncio de outros meios aliados ou temerosos a Cartes.

Houve ameaças, pressões nos meus colaboradores, mas, sobretudo, há um ambiente rarefeito de […] que, infelizmente, nos faz voltar no tempo em que vivíamos no “stronismo” (período no qual o Paraguai foi governado pelo general Stroessner), do qual Cartes é admirador, quando o medo era o pão nosso de cada dia, aniquilando a liberdade de várias gerações. Esse é o pior dano.

 

As relações do senador Perrella com o presidente do Paraguai, que responde processo no Brasil

O senador Zezé Perrella (PDT-MG) saudou o presidente do Paraguai, Horacio Cartes, em sua visita ao Senado (30 de setembro passado) e afirmou que, no que depender dos senadores brasileiros, “o Paraguai já é do Mercosul.”

Perrella esteve com Cartes pouco antes de sua eleição, e em rápidas palavras no Salão Nobre do Senado destacou suas qualidades de empresário e homem público, salientando ter ele condições de realizar um governo de promoção do desenvolvimento econômico e de inclusão social no país vizinho.

Horácio Cartes também dirigiu um clube de futebol paraguaio, o Libertad, surgindo daí a amizade com o senador mineiro, então presidente do Cruzeiro.

 Diferente de Perrella, Cartes nasceu em berço de ouro.O pai de Cartes era o proprietário de uma companhia de franquia da Cessna Aircraft. Horacio Cartes estudou engenharia aeronáutica nos Estados Unidos. Com dezenove anos começou um negócio de câmbio de moeda que cresceu no atual Banco Amambay. Nos anos seguintes, Cartes adquiriu ou ajudou a criar 25 empresas, incluindo Tabesa, a maior fabricante de cigarros do país, e uma grande empresa de engarrafamento de suco de frutas. 
Magnata do tabaco, preside desde 2001 o Club Libertad, equipe de futebol do Paraguai.
Em 2000, a polícia antidrogas apreendeu um avião que transportava cocaína e maconha em seu rancho. Cartes alegou que o avião fez um pouso de emergência em seu complexo e que não tinha envolvimento com o tráfico de drogas e era contra a legalização das drogas.

Conforme dados de 2010 revelados pelo Wikileaks, Cartes é investigado por lavagem de dinheiro.

Direitista e conservador, Cartes declarou que “atiraria nos próprios testículos” caso tivesse um filho gay. Comparou os gays a macacos e considera o apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo  “o fim do mundo”.

Lavagem de dinheiro
Lavagem de dinheiro

Horacio Cartes alvo de processo no Rio de Janeiro

Reportagem publicada no jornal Página/12, Argentina. Tradução do Cepat

Tabacalera del Este S. A. (Tabesa), empresa de propriedade do presidente eleito do Paraguai, Horacio Cartes, figura como acusada num processo aberto na Justiça brasileira. A denúncia judicial, apresentada pela gigante do setor tabaqueiro, Souza Cruz, tramita na Quarta Jurisdição Empresarial do Rio de Janeiro. O juiz Mauro Pereira Martins já emitiu uma sentença preliminar em que afirma que há “prova documental robusta” da prática de atos de concorrência desleal, diante do notório fornecimento ao mercado brasileiro de “massa volumosa de produtos fabricados pela (empresa) acusada”.

O magistrado espera, atualmente, que a defesa dos executivos da Tabesa, de Assunção, apresente seus argumentos através de uma carta enviada à capital paraguaia. Segundo uma reportagem publicada ontem, pelo jornal brasileiro “O Globo”, o presidente eleito do Paraguai também teria sido mencionado no relatório de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), da Câmara baixa brasileira, que, em 2003, atuou sobre supostos fatos vinculados com o crime de pirataria.

O documento da Justiça brasileira afirma que a Tabesa – controlada por Cartes e por José María Cases Ribalta – “é considerada a empresa mais profissionalizada do Paraguai e seus produtos tem como destino as regiões sul e sudeste do Brasil”. O relatório afirma que as vendas ao mercado brasileiro são operadas por Fahd Yamil, investigado pela suspeita de ligações com o crime organizado. A reportagem, realizada pelo jornalista brasileiro José Casado, afirma que Cartes é alvo de uma investigação sobre lavagem de dinheiro, iniciada pelos Estados Unidos, em 2009, e que é dirigida para entidades financeiras reais, seus executivos e facilitadores da lavagem de dinheiro na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai).

Segundo Casado, um relatório elaborado em janeiro de 2010, por Douglas W. Poole, chefe de Inteligência da Agência Norte-Americana Antidrogas (DEA), destaca que seus agentes se infiltraram na empresa de lavagem de dinheiro de Cartes, uma organização que, segundo se acredita, “lava grandes quantidades de moeda (dólares) obtidas por meios ilegais, incluindo a venda de entorpecentes” da Tríplice Fronteira para os Estados Unidos.

La cara de HC

A empresa investigada pelo operativo – supostamente batizado “Coração de Pedra” – seria o Banco Amambay, principal financiador da Tabesa, acrescenta a nota. As suspeitas sobre Cartes também foram tema do livro “La outra cara de HC”, uma investigação que demandou vários anos e cujo objetivo seria revelar a personalidade do agora presidente eleito do país. O livro foi lançado no dia 2 de abril, pelo jornalista paraguaio César “Chiqui” Avalos, que, desde então, permanece supostamente refugiado no Brasil, por sugestão de seus amigos, diante do risco de alguma represália, segundo declarou, recentemente, aos meios de comunicação locais. Este texto conta com três edições esgotadas e “é vendido como pão fresco”, pelo menos em Assunção, segundo apontou o empregado de uma livraria do centro da cidade.

Nas 268 páginas, inclui-se a documentação sobre os processos judiciais e as denúncias feitas contra Cartes, desde 1985, quando se descobriu um escândalo com divisas, que teria prejudicado o Estado paraguaio em cerca de cem milhões de dólares. O então principiante empresário teria se favorecido com a compra de dólares a preços preferenciais, destinados à importação de maquinaria agrícola e industrial e que, presumivelmente, colocava novamente no mercado a quase o dobro de seu preço. Foi julgado e preso, durante alguns meses, por “acumulação de autos na evasão de divisas”, e quando recuperou a liberdade foi viver, durante quatro anos, numa uma cidade brasileira fronteiriça com o Paraguai, até retornar ao país guarani, em 1989.

Em 2008, foi absolvido após seus advogados ganharem um pleito iniciado contra o Banco Central (BCP), que havia qualificado de inconstitucional a sentença de descumprimento do caso. Diante do questionamento sobre o motivo da absolvição de Cartes pela Justiça, Avalos denuncia a conivência de políticos, empresários e funcionários de diferentes repartições do Estado, que contribuíram com o desaparecimento de expedientes e provas para eliminar rastros. Contudo, além disso, diz respeito àquilo que seu compatriota Helio Vera, certa vez, definiu como “Paraguayología”, conceito cunhado em tom de humor para retratar o espírito de uma nação em que “existe corrupção como em todos os países do mundo, mas tanta impunidade como em nenhum outro”.