A prisão sequestro de Lula um espetáculo deprimente. O prazer de humilhar

por Fabio José de Mello

 

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Minha página, minhas regras, minha opinião.

Aviso: vou escrever um texto defendendo o Lula.

Ninguém é obrigado a ler o que eu vou escrever abaixo. Tampouco opinar, caso queira discordar do que eu escrevo. Portanto, por favor, não perca tempo.

Isto posto, vamos em frente.

A prisão (ou sequestro, como preferem alguns) do ex-presidente Lula foi um espetáculo deprimente.

Satisfez, parcialmente, aqueles que o querem não apenas atrás das grades, mas humilhado. Digo parcialmente porque a desnecessária e violenta condução coercitiva, na visão dos oposicionistas, não foi o suficiente. Era preciso muito mais. As panelas aguardavam, nervosas, nas prateleiras, o ato final — que afinal não veio.

Sinto e sei o que o Lula está passando.

Sei porque sou filho de mãe nordestina, falecida quando eu era um bebê. Passei a minha infância sendo chamado por certas pessoas de “nortistinha-cabeça-chata” por causa da minha origem. Sim, nortistinha. Afinal, para alguns, NO e NE são a mesma merda.

Caí cedo no mundão. Em meados dos anos 80, consegui frequentar o curso de Rádio e TV, que me deu o devido registro profissional que permitiu o meu ingresso na Rede Globo de Televisão.

Aos 21 anos de idade comecei a trabalhar na, então, 4ª maior emissora de TV do mundo.

Naquela época eu morava sozinho em Marília. Foram tempos de frio, fome, solidão, humilhações e outras privações.

Vaso ruim não quebra e segui em frente.

Abracei o Jornalismo, porque via, na profissão, um instrumento para ao menos minimizar as injustiças sociais, e com ele ajudar na construção de uma sociedade mais justa, solidária e fraterna. Tolinho, não?

De injustiças sociais e de preconceitos conheço um pouco. Não falo como aquela parteira que sabe que dói, mas que nunca teve um filho. Eu manjo bem como a banda toca. Sei o quanto machuca ser alvo de preconceito, do qual o Lula desde sempre foi.

O ex-presidente Lula está sendo acusado pelo MP de ter um sítio mequetrefe em Atibaia e um apê no Guarujá. Quer dizer, o cara teria roubado milhões para ter duas propriedades em lugares que nem se comparam, por exemplo, à Barcelona ou Paris. (Se bem que tais lugares são reservados para ex-presidentes bem nascidos, não para um ex-operário pernambucano).

Não adianta nada tentar provar, veja só!, que nenhuma dessas propriedades é dele. Mesmo que tivesse condições financeiras para tanto. Os Lula da Silva não podem ter posses. Portanto, mesmo se fossem da família, seriam fruto de alguma maracutaia.
“Conseguiu dinheiro dando palestras? Ainda mais caras que as do FHC? Ah!, conta outra”. Para o MP isso não cola.

O Lula é nordestino. Ou, como queiram, um “nortistinha-cabeça-chata”.
Cabra marcado para servir o andar de cima, sem maiores questionamentos. Essa era, até então, a parte que lhe cabia nesse latifúndio exclusivo do clube do 1%.
Até que o pobre ex-metalúrgico nordestino “de merda” ousou tentar colocar os seus no Grande Baile, para ver se, finalmente, poderíamos comer um naco do saboroso bolo que sempre esteve crescendo, mas que nunca nos fora servido. Ledo engano do apedeuta, do nove dedos, do monoglota, do bebum desgraçado.

A trajetória de Lula no mundo da política teve início nos tempos em que um operário-padrão era bem visto e incensado, mas um operário-patrão era uma ameaça à ordem pública. Uma liderança tão ameaçadora que foi encarcerada em nome da Segurança Nacional.

De lá para cá, queiram ou não, tornou-se um símbolo reconhecido mundialmente. Criou um partido poderoso. Ajudou a criar a CUT. Foi presidente da República duas vezes, saiu do Planalto com aprovação popular recorde. É visto como o melhor presidente que esse país já teve. Acumulou títulos honoríficos. Portanto, olha aí o perigo. A possível volta dele à Presidência da República é uma ameaça intolerável para os que sempre deram as cartas. Pois, como sabemos, há os cavalcanti e os cavalgados. E assim deve continuar.

Lula é adorado por aqueles que já nasceram perdendo da vida de 7 a 1. É querido pela choldra, pela patuleia, pelo andar de baixo, pela escumalha. E isso cala fundo em certas almas sebosas.

Por tudo o que representa, Lula foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento sobre propriedades que não são dele. Não são e ponto final.
O espetáculo midiático precisava ser garantido. Por uma concessão da Casa Grande, ele não foi algemado e nem teve (ainda) a imagem do momento da prisão divulgado. Um ato de condescendência por parte dos seus algozes. Um lapso dos leguleios.

Ontem mais um recado foi dado, para o líder e liderados: “não ousem! O poder é nosso e ninguém tasca”. Tal aviso me causa uma certa apreensão. Afinal, sou petista, de origem nordestina, tenho uma casa e um carro e de vez em quando frequento sítios e praias. Amanhã ou depois posso acordar e dar de cara com o japa da Federal.

Sobre o que aconteceu na minha vida, e que eu relatei acima, não guardo mágoa. Porque não caminho mais sozinho. Olho à frente e vejo uma liderança. Ao lado, outros milhões de companheiras e companheiros de luta e que também passaram por poucas e boas. Já não me sinto tão só.

Getúlio suicidou-se.

Juscelino foi execrado e morreu (pobre) em circunstâncias suspeitas.

Jango foi deposto e morreu no exílio, uma morte também em circunstâncias duvidosas.

Eles estão aí até hoje no imaginário dos desvalidos. Seus feitos persistem. Suas ideias vicejam.

Com o Lula será assim também. Podem prendê-lo, podem humilhá-lo, podem matá-lo (como desejam alguns sádicos). Mas, lembrem-se: o Lula é uma árvore frondosa que já espalhou suas sementes ao vento. Não há mais como recolhê-las. Digo isso porque sou uma delas.

É isso.

PS: Escolhi essa foto manjada para ilustrar essas mal traçadas porque nela não vejo ninguém triste. Estamos todos sorrindo. E vamos continuar assim, “sem medo de ser feliz”.

A briga entre golpistas e democratas

Nos três principais jornais do País, Globo, Folha e Estado de S. Paulo, a imagem de destaque é a briga entre militantes do PT e um simpatizante do impeachment; tumulto ocorreu no Rio de Janeiro, antes do ato em defesa da Petrobras e do modelo de partilha no pré-sal; no mesmo dia, foi divulgado o vídeo dos insultos ao ex-ministro Guido Mantega, que foi expulso do hospital Albert Einstein; clima de radicalização política, com a criminalização do PT estimulada por meios de comunicação, intoxica o ambiente e cria condições para novas agressões; dia 15 de março, data em que estão agendados protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, promete mais violência

sem paz

Léo Bueno: Qual é a diferença entre isso e as brigas de torcidas organizadas? É a hipocrisia. A grande imprensa critica as absurdinhas torcidas, porque elas são, oh, tão más, ao passo que fomenta essa intolerância dizendo “a culpa não é minha”.

Fábio José de Mello: É, Léo Bueno, nós estamos no trecho há alguns anos. Não sei quanto ao amigo, mas não me lembro de um momento político tão violento.

Léo Bueno: Não, também não lembro. Meus pais viveram um momento ainda pior, mas eu ainda não tinha nascido. O que me apavora é não sentir que as pessoas que têm o papel de zelar pelo estado de direito estejam apegadas a ele.

Fábio José de Mello: Sim, tudo muito tímido. Mas tem também uma maioria silenciosa que está só de olho no movimento. Quero só ver a hora em que o ovo da serpente eclodir. E ele vai eclodir.

Léo Bueno: Mas é uma luta contra gente de muito, muito dinheiro.

Fábio José de Mello: E contra interesses transnacionais… Lembrando: no blood for oil!

Isaías Gomes de Lima: COISA FEIA! O PIOR É QUE AS PESSOAS VÃO SE ACOSTUMANDO A VER COMO ALGO NATURAL!!! JÁ VI ESSE FILME… HÁ MAIS DE 30 ANOS VI COISAS ASSIM…

INTOLERÂNCIA POLÍTICA PODE ATIRAR O BRASIL NO ABISMO

247 – Nos três principais jornais do País, Folha de S. Paulo, Globo e Estado de S. Paulo, a cena de destaque é a mesma: o confronto, ocorrido na tarde de ontem, entre militantes do PT e simpatizantes do impeachment da presidente Dilma Rousseff.

O episódio ocorreu no Rio de Janeiro, pouco antes do ato em defesa da Petrobras e do modelo de partilha do pré-sal, em que o ex-presidente Lula afirmou: “Eu quero paz e democracia, mas se eles querem guerra, eu sei lutar também” (saiba mais aqui).

As imagens estampadas nos três jornais prometem acirrar ainda mais os ânimos.

Eis a legenda da Folha: BRUTALIDADE – Em ato da CUT e do PT em defesa da Petrobras perto da Associação Brasileira de Imprensa, no Rio, petista agride homem que pedia o impeachment de Dilma.

Legenda do Estado: Pancadaria no Rio – Em ato de petroleiros no Rio, que teve agressões entre manifestantes, o ex-presidente Lula disse que Dilma Rousseff ‘não pode ficar dando trela’ sobre as investigações na Petrobras e ‘tem de levantar a cabeça’.

Legenda do Globo: Intolerância – Homens com camisa do PT partem para a briga com manifestantes que pedem a saída de Dilma em frente à ABI, no Rio, onde aliados do governo fizeram ato.

A intolerância denunciada pelo Globo tem sido estimulada pela política de criminalização do PT, estimulada pelos meios de comunicação – em especial pelos veículos da família Marinho.

Resultado disso foi a agressão sofrida pelo ministro Guido Mantega, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, de onde foi expulso aos gritos de ‘vai pra Cuba’ e ‘filho da puta’ (leia mais aqui).

Aonde isso vai parar, ninguém sabe. Mas as imagens de ontem, estampadas nos jornais de hoje, certamente elevarão a temperatura do dia 15 de março, dia em que estão previstos protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

“É como se vivêssemos numa sociedade completamente polarizada, na Espanha da Guerra Civil”, avalia Milton Lahuerta, professor da Unesp, em declaração ao jornal Estado de S. Paulo. “Estamos vivendo um momento de acirramento do debate político, decorrente de um processo eleitoral que terminou mas parece continuar”, afirmou Marco Antonio Teixeira, professor da FGV.