Os jornalistas e a crise portuguesa

pensão Espanha
José Luís Seixas: Confesso os nebulosos pensamentos que me dominaram quando ouvi notícias sobre o “corte das pensões de sobrevivência” (…). Foram muitos os sacrifícios dos maridos para assegurarem uma velhice com dignidade e autonomia às suas mulheres. E vice-versa. Isto, claro, no tempo em que havia maridos, mulheres e, espantoso, filhos. No tempo em que não havia apenas ricos e pobres. Mas existia uma classe média que lutava para ter mínimos de segurança e conforto. No tempo em que as famílias não eram disfuncionais, os filhos respeitavam os pais, os pais se preocupavam um com o outro, este núcleo fundava a sociedade e disseminava solidariedade pela vizinhança.
banco crise indignados Itália Espanha
João Malheiro: Estou doente, doente consumado. Num vasto cosmos de amizade, não há dia em que não receba, de forma pessoal, por contacto telefónico, nas redes sociais, por correspondência, em múltiplas circunstâncias, pedidos de dinheiro, solicitações várias, visos explícitos de socorro. Até de gente desconhecida, anónima, enigmática. Martelam-me a cabeça, tantas vezes em desespero absoluto, com chagas, desagrados, constrições.Eu, socialmente deprimido, acuso aqueles que nos têm governado nos últimos tempos. Um Presidente da República que assobia para o lado, um líder da governação que assobia mal assobiado, uma oposição rosa que assobia baixinho, uma laia de políticos que afundaram o país no assobio da incompetência. Tenho direito a ser ressarcido, ainda que pareça não ter a quem apelar. Cresci no Portugal de abril, adoeci no Portugal de novembro. Amo a primavera, maldigo o outono. Sofro por culpa de outrem, assobio desesperadamente por justiça, por solidariedade, por bem-estar.

indignados distância entre pobres ricos

 

Luís Osório: Num jantar de amigos perguntei a Frei Fernando Ventura sobre as dúvidas dos crentes – o dinheiro acima de todas, claro. «Por que raio tantas pessoas ignóbeis, mesquinhas e pequenas têm tanto dinheiro?

E por que raio de desígnio, Deus condena gente cumpridora e generosa a ter tão pouco?»… De todos os assuntos práticos, apostei que esse era o mais inquietante. Desarmante e certeiro, o franciscano desconstruiu: «Se as pessoas vissem o dinheiro como uma provação, a pior de todas as que Deus nos pode colocar no caminho, talvez pensassem de outra maneira».

Kalvellido
Kalvellido

Fernando Santos: A tendência para esconder, sobretudo as más notícias, dá muitas vezes a impressão de considerar cada um de nós como atrasados mentais.

Entre a tentativa de ocultar e a pura modernice, abundam os exemplos da comunicação falaciosa da parte de quem tem responsabilidades no país.

Tratar a recessão como crescimento negativo é, já de si, um sintoma de tontice. Junte-se-lhe, por exemplo, as insolvências como modo simpático de referenciar falências e eis-nos num cadinho de fantasia. Dispensável.

Os mais bem-aventurados espíritos considerarão inexistir algum mal no artifício comunicacional. Há, porém, situações nas quais o objetivo é puramente, à falta de coragem, a de substituir a originalidade da comunicação por outra capciosa. E esse é o ponto.

Os últimos dias são paradigmáticos da tentativa de driblar o impacto de decisões governamentais tão controversas quanto punitivas de alguns setores da sociedade.

O caso dos cortes nas pensões de sobrevivência introduziu um novo linguajar: o da condição de recurso. Blá,blá, o plafonamento obedece a regras, referenciou o criativo Paulo Portas, aludindo de seguida à tal condição de recurso como salvadora do condicionamento de pensões. Eufemismo, puro e duro!, destinado a confundir a opinião pública. A condição de recurso, em certa medida, não é mais do que um atestado de pobreza, igualzinho ao exigido para efeitos de RSI e outros subsídios. Simplesmente falta coragem ao Governo para agarrar o boi pelos cornos!

Os cortes dos ordenados dos funcionários públicos são também exemplificativos de uma tendência para o não uso da franqueza. Sabendo-se do risco de o Tribunal Constitucional chumbar a proposta no caso de não haver razões substantivas que provem tratar-se de uma decisão provisória, que disse Maria Luís Albuquerque, a ministra das Finanças? Em vez de repetir o episódio de Gaspar e o célebre “não há dinheiro”, enveredou por uma dialética intragável. Os cortes “são transitórios” mas “não são anuais”, disse ela. A fórmula só pode dirigir-se a quem a ministra julga ser estúpido, a começar pelos juízes do Palácio Ratton. Assim como assim, do alto de qualquer cátedra é sempre possível dizer que a vida de Maria Luís, como a de qualquer um de nós, é provisória; não se sabe é até quando…

 Pavel Constantin
Pavel Constantin

Manuel Tavares: Um dos pilares irremovíveis do regime democrático é seguramente o do respeito pela lei. Diria mesmo que a fronteira entre o que é legal ou ilegal não pode ser transposta por nenhuma ordem de razões, ainda que algumas delas possam ser consideradas morais.

Um pai que rouba pão para dar de comer a um filho a seu cargo pode ter boas razões morais para o fazer, mas elas não o abrigam da ilegalidade e de ter de vir a pagar por essa ilegalidade. Robin dos Bosques, que roubava aos nobres ricos para dar aos plebeus pobres, numa espécie de versão primitiva da luta de classes, poderia ser o personagem ideal para encarnar o justicialismo de que todos estamos sedentos para pôr cobro a escândalos como o do BPN, mas permitir esse tipo de justiça seria deixar a moral à solta pelas ruas e às mãos da espada mais diligente.

Não, em democracia o que possa, ou não, ser legal tem de estar antes do que possa, ou não, ser ilegal.

Eis o que torna chocante o esforço feito por Paulo Portas para nos confortar com a moralidade dos cortes nas pensões de viuvez acima dos dois mil euros.

Simplesmente porque, tratando-se de pensões resultantes do dinheiro que cada cidadão desconta, a questão não se coloca sequer entre ricos e pobres. Porque cada qual descontou segundo o valor relativo do seu salário e assim sendo adquiriu a pensão como poderia ter adquirido qualquer outra propriedade. E o direito à propriedade individual, seja ela qual for, não pode ser confiscado pela métrica da moralidade relativa.

cuestion-criminal- palavras morto memória indignados

Jorge Fiel: Retardado, preguiçoso, ignorante, imbecil, imaturo, bebedor compulsivo de cerveja e um viciado em donuts, Homer Simpson é o exemplo mais que perfeito de um ser disfuncional. Mas um dia deu folga à sua irresponsabilidade e equipou o filho Bart com dois sábios conselhos para a vida: nunca se cansar de repetir a frase “Boa ideia, chefe!” e responder “Quando cá cheguei já era assim” sempre que inquirido por um superior a propósito de algo que está a correr mal (…)

Mas a sabedoria dos conselhos de Homer atinge a excelência com a frase “Quando cá cheguei já era assim”, um hino celestial à irresponsabilidade e desresponsabilização, a síntese feliz de uma doutrina doentia que se tornou a marca de água da nossa sociedade, contaminando-a a todos os níveis, da política às relações sociais e laborais, passando pela justiça.

Ando arrepiado com duas sentenças de tribunais – de Gaia e Coimbra, não na ficcional Springfield -, ditadas este mês e impregnadas da cultura da desresponsabilização, no seu estado mais pornograficamente puro.

Em Coimbra, após ter ficado provado que um gestor do Banco Privado cometera doze crimes de burla qualificada mais doze de falsificação, ele safou-se sem ter de ir para a cadeia, com apenas cinco anos de pena suspensa. Porquê a mão leve (e mais uma confirmação de que a maneira mais segura e eficaz de assaltar um banco é a partir da Administração)? A juíza explicou candidamente que atendeu ao facto do burlão ser “filho de uma boa família, de pessoas de bem”.

Em Gaia, após ter ficado provado que a mãe afogou premeditadamente o filho nas águas do Douro, ela safou-se sem ter de ir para a cadeia, com apenas cinco anos de pena suspensa. Porquê a mão leve? Porque o tribunal considerou que quando matou o filho a mãe estava num “estado depressivo, perturbada psicologicamente e frágil no plano emocional”.

Se calhar, foi ao saber destas sentenças que José Eduardo dos Santos decidiu congelar a tal parceria estratégica. É que Ângelo João, um angolano de 25 anos, que estudava Urbanismo com uma bolsa da Sonangol, foi condenado, pelo Tribunal de Sintra, a 18 anos de prisão efetiva por ser o cabecilha de um gangue que roubava cheques e vales postais.

A nossa justiça está seriamente descalibrada. Por que é que o tribunal de Sintra não despachou o angolano com cinco anos de pena suspensa? Pode não ser filho de boas famílias, mas tem a atenuante de ter nascido num clima de guerra civil, o que só o pode ter fragilizado emocionalmente ao ponto de ser incapaz de distinguir o bem do mal. Não acham?

 

Eufemismos e estereótipos

por Pedro J. Bondaczuk

 

cart. premiados duas caras

Os homens que ocupam o poder, em qualquer de suas instâncias, seja em que parte do mundo (ou em que época) for, via de regra, salvo raras exceções, lançam mão, em seus contatos com as pessoas sobre as quais exercem domínio – caracterizadas genericamente como “povo” –, de eufemismos e de estereótipos para “explicar”, ou no mais das vezes “justificar”, ações (ou omissões). Acabam, por conseqüência, não explicando e nem justificando nada. Certamente não é essa sua verdadeira intenção.

Alguns jargões utilizados já se tornaram até motivos de anedota entre os politicamente esclarecidos (minoria em termos mundiais e mais ainda no Brasil), de tão cínicos que são. Tal manifestação de esperteza seria, de fato, risível, não fosse lamentável, por se tratar de uma forma de burla, de fuga à responsabilidade da prestação de contas àqueles que esses poderosos (teoricamente) representam.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira define assim o termo “eufemismo”, em seu popular dicionário da língua portuguesa: “sm. Ato de suavizar a expressão duma idéia substituindo a palavra própria por outra mais polida”. Já estereótipo é uma expressão emprestada das artes gráficas e usada como metáfora para clichê, para chavão, para a maneira geralmente distorcida e inalterável de caracterizar pessoas, grupos, objetos, conceitos etc.

Estereotipia, de acordo com o dicionarista, é o “processo pelo qual se duplica uma composição tipográfica, transformando-a em fôrma compacta, mediante moldagem de uma matriz sobre a qual se vaza metal-tipo”. O jornalista Jânio de Freitas, em artigo publicado na “Folha de S. Paulo” no dia 23 de novembro de 1998, intitulado “País Submergente”, alinha alguns eufemismos muito comuns, utilizados, sem nenhuma parcimônia, especialmente por economistas e sociólogos.

O articulista cita, por exemplo, que a caracterização (até pouco tempo atrás muito em voga) para país pobre, atrasado e/ou mal administrado, ou seja, “subdesenvolvido”, foi substituída pelo termo “emergente”. Mas o Brasil não “emergiu” do buraco onde está metido há quase cinco séculos. Pode estar a caminho de fazê-lo (e na minha opinião, está), mas ainda permanece “submerso”, se atentarmos para o seu potencial. Destaque-se que está nessa situação não por ausência de recursos naturais e de material humano, mas por falta de verdadeira consciência social, que não privilegie pessoas ou grupos, mas proporcione oportunidades relativamente iguais para todos.

O conceito de cidadania no Brasil (se é que de fato existe) está muito longe do real significado. Não passa de retórica, face à realidade cruel com a qual convivemos da infância à velhice e que por isso já nos acostumamos. Se “país emergente” é um eufemismo, o mito do “brasileiro cordial” é estereótipo. Nenhum dos dois condiz com a realidade dos fatos. Não, pelo menos, de toda ela.

O sociólogo alemão Ralf Dahrendorf, em discurso que proferiu em 20 de outubro de 1990 no Saint Anthony’s College, em Oxford, Inglaterra, na cerimônia de entrega do Prêmio Toynbee (texto inserido em seu livro “Após 1989 – Moral, Revolução e Sociedade Civil”), destacou: “…A cidadania visa a dar a pessoas que são diferentes em idade e sexo, em suas crenças e na cor de sua pele, em seus interesses sociais e em suas preferências políticas, os mesmos direitos básicos. Esses direitos incluem o que veio a ser denominado de direitos humanos, como a integridade da pessoa e a liberdade de expressão; eles incluem também os direitos civis de participação na comunidade política, no mercado de trabalho, na sociedade, incluindo também o direito de seguir as próprias preferências culturais”.

Por essa conceituação, se pode dizer, mesmo “forçando a barra”, que a maioria dos brasileiros exerce minimamente a cidadania? Claro que não! E as esperanças de mudança estão se exaurindo. O “passaporte” para a liberdade – a educação – ainda é muito precário no Brasil (uma parcela considerável da população não tem acesso a ele) e requer ajustes. Verdade seja dita que, nesse aspecto, houve ligeira evolução nos quatro últimos governos: o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os dois mandatos de Luís Inácio Lula da Silva e a atual gestão de Dilma Roussef. Mas há ainda longo, longuíssimo caminho, de se perder de vista, a percorrer.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) classificou, há quinze anos, o ensino brasileiro como um dos mais deficientes do mundo. E ele já foi pior, conforme frisei em várias oportunidades! Mas para poder ser considerado pelo menos “regular”, terá que evoluir muito, mas muito mesmo. Progredimos nesse campo, mas o progresso foi muito pequeno, diria irrisório, diante das necessidades e do tempo que já foi perdido.

Mas o subdesenvolvimento brasileiro, ao contrário da maioria dos outros povos da África, Ásia e América Latina, não decorre da falta de riquezas naturais ou das geradas com o trabalho da sua população. O País ostenta ora a quinta, ora a sexta maior economia do mundo, o que, convenhamos, não é pouco. No papel, a renda per capita anual (crescente) não é nada desprezível se, na realidade, fosse corretamente distribuída. Qualquer pessoa minimamente bem informada sabe que não é. Os números relativos à renda per capita do brasileiro são mentirosos. Oitenta por cento dos cerca de 200 milhões de brasileiros – que ou não têm nenhum rendimento, ou sobrevivem (ou vegetam) com entre meio e um salário mínimo mensal –, só podem rir desses dados estatísticos, longe de condizerem com sua verdadeira condição de quase indigência.

O pecado do Brasil, portanto, reside (reitero) na “repartição do bolo”, prometida por sucessivos governos – quer ditatoriais, quer os livremente eleitos pelo voto – mas jamais cumprida. Não, pelo menos, de forma sistemática e contínua. Nesse aspecto, o da distribuição de renda, estatísticas precisas, de entidades internacionais confiáveis, demonstram, de sobejo, que somos a sociedade nacional mais injusta do Planeta (ou pelo menos entre elas). O fosso que divide ricos de miseráveis, apesar de se estreitar, ainda é muito profundo.

O Brasil, portanto, ainda não emergiu, a despeito dos progressos sociais que obteve que apenas impediram que a situação se agravasse. Outro eufemismo muito difundido é o de caracterizar o “retrocesso econômico” como sendo “crescimento negativo”, evidente paradoxo, gritante contradição até mesmo semântica. “Favela” mudou de nome e é freqüentemente denominada pela tecnoburocracia de plantão de “assentamento urbano de baixa renda”, como se a elegância da expressão apagasse, ou pelo menos atenuasse, a miserabilidade dessa forma subumana de “morar” (ou de se “esconder”).

Em política, “infidelidade” para com partidos, aliados e principalmente com eleitores; “oportunismo” e “egoísmo” transformaram-se em “fisiologismo”. O miserável e excluído, vítima do “apartheid” social que atinge a dois terços dos mais de sete bilhões de habitantes do Planeta, é chamado de “carente” (e põe carência nisso!). “Mão de obra ociosa” é o conjunto dos “desempregados”.

O diplomata Josué de Castro, no livro “Geografia da Fome”, advertiu que “dois terços da humanidade não comem e um terço não dorme com medo da revolta daqueles que não comem”, que é fatal, mera questão de tempo e do grau de desespero desses famintos. A todo o instante, nos discursos e declarações de políticos, ou nos artigos e ensaios de economistas, cientistas políticos e sociólogos, topamos com desnecessários e cínicos eufemismos e estereótipos. São tantos que se torna redundante e, portanto, desnecessário, relacionar e repetir sequer os mais comuns.

Um deles, além do que diz respeito à suposta “cordialidade” do brasileiro (desmentida pelos crescentes e assustadores índices de violência e criminalidade), é o do “país do futuro” (infelizmente “deitado eternamente em berço esplêndido”). Outro desses estereótipos é o da “alegria” espontânea do povo. Outro, ainda, é a afirmação de que o Brasil “fatalmente se tornará superpotência” um dia. Neste último caso, até pode ser, já que dispõe de potencial para isso. Mas quando?

Para acontecer, será necessário vencer desafios imensos, nos campos da educação (principalmente), da saúde pública (em petição de miséria), da habitação (que apresenta déficits escandalosos), do bem-estar social e da distribuição de renda, entre outros. Não serão eufemismos e estereótipos que irão mudar a situação do brasileiro. O saudoso presidente eleito (e nunca empossado) Tancredo Neves destacou, em discurso proferido em 1985, que “enquanto houver nesse país um só homem sem trabalho, sem pão, sem teto e sem letras, toda a prosperidade será falsa”. Quanto tempo ainda vai levar para que haja consciência consensual sobre essa cristalina realidade? Um ano? Os quatro da gestão da presidente Dilma Roussef? Cinco anos? Dez? Cinqüenta? Cem? Nunca?… Todas essas possibilidades, em maior ou menor grau, permanecem em aberto.

mapa