NESTE NECRÓFILO MUNDO 

por Talis Andrade

Tupac Amaru e filho e pai da América Independente

Neste necrófilo mundo
cadáveres são esquartejados
pendurados como carniça
como punição e exemplo
para atemorizar os inimigos

Cadáveres são abandonados
nos campos desertos
Cadáveres são atirados dos navios
nas águas profundas do mar
Cadáveres são jogados
do alto das nuvens
nos macabros vôos
das ditaduras

Neste mundo de veneração
e profanação dos cadáveres
recebe-se a morte com festança
bebidas afrodisíacas música danças
Recebe-se a morte com choro
ranger de dentes
Parentes cobrem os cabelos
com terra e cinza
rasgam a roupa
vestem-se de branco
vestem-se de preto
como indicação de luto

 

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Do livro inédito O Judeu Errante

Ilustração: Execução de Tupac Amaru II:

As palavras de Tupac Catari a seus verdugos na hora de sua morte: “Hoje me matam… mas amanhã voltarei, e serei milhões!”

NESTE MUNDO DE CADÁVERES

por Talis Andrade

Tiradentes_Esquartejado_(Pedro_Américo,_1893)

 
Religiões cultuam a morte

Para atrair peregrinos
cadáveres são esburgados
os ossos transformados em relíquias
Cadáveres são exibidos
em redomas de vidro
 
Cadáveres são desenterrados
e julgados
São desenterrados
e estaqueados

A multidão entontecida
pelo ódio e o vinho 
arranca os olhos
a língua o pênis
privando o morto
de uma vida idílica
no paraíso 
 



Do livro inédito O Judeu Errante

Ilustração Tiradentes Esquartejado, tela de Pedro Américo (1893) – Acervo Museu Mariano Procópio

Segunda Visão de Tiradentes

por Talis Andrade
in O Enforcado da Rainha

Tiradentes

Aposto que me enforcam
na árvore ao vento
e na árvore balanço noite após noite
até que a liberdade venha
mesmo que tarde

Pelos povoados e vilas
uma mão de finados
exibirá pedaços do meu corpo
esquartejado
Um dia serei justiçado
Um dia serei venerado
por inteiro
Nas ruas e nas praças
o meu corpo ressuscitado
em pedra
em mármore
em bronze
oferenda que sou
a mim mesmo

 

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Ilustração Pedro Américo de Figueiredo e Melo,
Estudo de anatomia para Tiradentes Esquartejado,1893

Seleta de Moacir Japiassu

Libertas… quae?

Esquartejado (Pedro Américo,1893)
Esquartejado (Pedro Américo,1893)

por Christiana Nóvoa

Mártir dos inconfidentes,
Faze aqui uma confidência:
Se tivesses consciência
dos Judas, Joaquins falsos,

Da forca e da ruína,
Teu corpo exposto aos pedaços,
Uma perna em cada poste,
Aceitavas tua sina?

Cumprias, herói, teu fado
Só pra virar feriado
Todo vinte um de abril?

Dize lá, ó Tiradentes,
Quantos dentes arrancaste
À pátria que te traiu?