Jornalista diz que Élcio Alvares mentiu ao afirmar que não perseguiu Miriam Leitão

A perseguição implacável do governador da ditadura a jornalistas

 

Durante a sessão dessa terça-feira (26) na Assembleia Legislativa o deputado estadual Élcio Álvares (DEM) leu uma nota tentando esclarecer as declarações da jornalista Míriam Leitão ao jornal A Gazeta desta terça-feira (26). Em entrevista, Míriam relatou que Élcio fez uma perseguição implacável contra os presos políticos.

A jornalista relatou que o Élcio era o governador do Estado depois que ela foi libertada, e que ele exerceu perseguição contra aqueles que haviam sido presos. Míriam afirmou que acabou saindo do Estado porque onde ia trabalhar o governador biónico exigia sua demissão.

O jornalista Rubinho Gomes, que acompanhou os fatos, faz um resgate histórico das relações entre os veículos de comunicação do Estado e os governos durante o período da ditadura militar (entre 1964 e 1985) e afirma que o deputado Élcio Álvares mentiu ao tentar contestar as declarações da jornalista Míriam Leitão.

Acompanhe o artigo de Rubinho Gomes sobre o episódio
 

 Eyad Shtaiwe
Eyad Shtaiwe

 

 

Quem acompanha a política do Espírito Santo desde os anos 1960 sabe muito bem que o deputado estadual Élcio Alvares (DEM) foi suplente de deputado federal na eleição de 1966, a primeira em que recebeu apoio financeiro do empresário João Santos Filho, que poucos anos depois adquiriu do ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, o jornal A Tribuna, e contratou o jornalista Plínio Martins Marchini para diretor-geral. Em 1969, Plínio me contratou de O Diário para ser o secretário de redação do jornal, onde trabalhei ao lado de Vinicius Paulo de Seixas, os irmãos Pedro e Paulo Maia, Luis Malta, Cláudio Bueno Rocha (CBR), dentre outros colegas, alguns já falecidos.

O jornal A Gazeta lançou sua versão off-set a cores em 1970, mesmo ano em que Élcio Álvares se elegeu deputado federal mais votado pela Aliança Renovadora Nacional (a famigerada Arena), partido criado para defender a ditadura militar que havia deposto o presidente constitucional Jango Goulart em 1964, sempre com apoio financeiro do grupo industrial João Santos, que tinha como superintendente nacional o Marechal Cordeiro de Farias, um dos ideólogos do golpe militar que colocou o Brasil nas trevas até a eleição indireta de Tancredo Neves/José Sarney em 1985.

Em 1971, Plínio Marchini e Alvino Gatti convencem João Santos Filho a também adquirir maquinário e implantar o sistema de impressão off-set que fazia tanto sucesso no jornal do grupo Lindenberg, suspendendo a publicação de A Tribuna pelo antigo sistema tipográfico por cerca de um ano e meio. Enquanto Plínio foi fazer um curso de Comunicação na Costa Rica, Gatti começou a estruturar uma gráfica, adquirir equipamentos e preparar A Tribuna para concorrer diretamente com A Gazeta. Enquanto isto, o outro jornal de Vitória, O Diário, começava a definhar, uma vez que não tinha o mesmo suporte empresarial.

A Tribuna retornou em outubro de 1973, tendo como editor-chefe o jornalista Paulo Torre e eu fui convidado e assumi novamente a secretaria de redação. O editor de Geral (hoje Cidades nos dois jornais diários capixabas) era o hoje médico psicanalista Paulo Bonates e em cada editoria havia dois copidesques. No caso da Geral de Bonates, as redatoras eram Miriam Leitão e Sandra Medeiros. Com a proximidade da eleição de 1974, quando afinal pela primeira vez o candidato do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), único partido de oposição consentido pelo ditador Garrastazu Médici, que era o ex-pessedista Dirceu Cardoso, derrota fragorosamente o candidatado da Arena, que era o então deputado federal José Carlos da Fonseca.

Foi nesta eleição que o então deputado federal arenista Élcio Alvares mostrou sua face fascista ao invadir a redação de A Tribuna (claro que isto foi consentido pelos diretores de então) para reescrever pessoalmente numa máquina Olivetti a reportagem que o repórter Pedro Maia havia feito em Linhares relatando o fracasso do comício de Fonseca por lá, mesmo ao lado de Álvares, Arthur Gerhardt, Eurico Rezende e outras lideranças da Arena. Élcio mentiu descaradamente dizendo que o comício mesmo debaixo de chuva havia sido um sucesso sem precedentes.

É bom recordar que, na tribuna da Câmara dos Deputados, em Brasília, Élcio Alvares tecia loas quase diárias para o regime militar em discursos na Câmara em Brasília, e o ditador cujo governo foi marcado por torturas e assassinatos de adversários do regime o premiou pouco depois. Isto chegou ao ponto de Élcio ter sido relator da instituição da pena de morte no Brasil, dentre outras posturas que até hoje tentam esconder aos capixabas. O fato é que ele acabou escolhido para ser o sucessor do então governador biônico número dois no ES, o engenheiro Arthur Carlos Gerhardt Santos.

Tão logo foi escolhido, com suas íntimas relações com seu financiador político João Santos Filho, Élcio passou a interferir diretamente na redação de A Tribuna. Foi quando ele exigiu da direção do jornal a demissão da jornalista Miriam Leitão (que havia sido presa em 1972) e outros que ele considerava “subversivos”, como o estudante de Medicina Gustavo do Vale, o jornalista Jô Amado, o catarinense Nei Duclós, dentre outros. É bom lembrar que Miriam e Gustavo haviam sido presos naquele grupo acusado de integrar uma célula do PCdoB e que foi vítima de bárbaras torturas no quartel de Vila Velha do 38º Batalhão de Infantaria, fato que acaba de ganhar repercussão nacional, após anos de silêncio.

Miriam foi então para A Gazeta trabalhar com o então editor-chefe Rogério Medeiros, que permaneceu alguns meses no comando da redação que funcionava na Rua General Osório. Depois, Miriam acabou seguindo para Brasília, com o filho Vladimir Netto e o então marido, jornalista Marcelo Netto que, após ser jubilado pela Ufes pelo Decreto Lei 477, foi aprender jornalismo com Medeiros em A Gazeta.

Depois que se tornou governador, Élcio não parou de interferir nas redações. Em A Gazeta, através de seu dileto amigo Eugênio Pacheco de Queiroz, e em A Tribuna através do velho financiador João Santos Filho (com quem passou a viver uma relação difícil, sobretudo depois que Élcio apoiou o grupo Gazeta na escolha da empresa de comunicação que assumiria como afiliada da programação da Rede Globo, em 1975, vencida pelo grupo Gazeta). Isto levou Cariê a contratar de A Tribuna o então superintendente Plínio Marchini que foi ser o diretor comercial da nova emissora de TV. E Paulo Torre foi ser o editor-chefe do jornal A Gazeta. Foi quando eu assumi a direção de A Tribuna, até ser demitido juntamente com meu secretário de redação Luzimar Nogueira Dias, também a pedido de Élcio Álvares.

A gota d’água para nossa saída foi a manchete feita por Luzimar para o cumprimento de uma ordem do então governador do Estado para expulsarem um grupo de posseiros de uma área na Serra conhecida como Concheiras. A foto aberta na primeira página de A Tribuna com a PM derrubando barracos e expulsando homens, mulheres e crianças de suas casas, que foram derrubadas, irritou tanto o governador Élcio Alvares que ele chegou a discursar na Barra do Jucu inaugurando trecho da Rodovia do Sol dizendo que não aceitava “a insinuação malévola da legenda”.

É mais fácil pegar um mentiroso do que um manco. Até porque ele, anos depois, foi demitido pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso do Ministério da Defesa por posturas incompatíveis com a moral, a ética e os bons costumes políticos. Da mesma forma que há poucos meses deixou melancolicamente a liderança do governo Casagrande na Assembleia.

Élcio iniciou sua carreira de radialista e teleasta no início dos anos 60 com um programa chamado “Quem Sou EU?”. Demorou, mas agora todo mundo já sabe quem ele é e como se formou seu caráter político.(Século Diário)