A maior apreensão de cocaína não é notícia. Isso só acontece no Brasil e no Paraguai

Nenhuma manchete para a maior carga da mais pura coca. Depois da cocaína encontrada no helicóptero dos Perrella, informou um jornal da província:

BRA_DN Ceará cocaíca 300 kg

Escrevi que o helicóptero, possivelmente, transportou, em dois vôos internacionais, uma tonelada de pasta no dia 13 de novembro último, do Paraguai para  Brasil. Meia tonelada levada para o Campo de Marte na capital de São Paulo. E meia, no dia 14, para o Espírito Santo.

Cocaína transportada do Paraguai para Avaré, interior de São Paulo.

Inicialmente, os pilotos, para proteger autoridades e narcotraficantes paraguaios, informaram que a droga vinha da Bolívia.

A tomada do helicóptero dos Perrella foi realizada pela Polícia Militar do Espírito Santo, e o caso repassado para a Polícia Federal, que colocou o inquérito sob o manto protetor do segredo de justiça, por envolver personalidades da sociedade e do poder econômico, e altas autoridades da República.

A polícia do Espírito Santo prendeu o piloto Rogério Almeida Antunes, de 36 anos, natural de Campinas (SP), o copiloto Alexandre José de Oliveira Junior, de 26 anos, natural de São Paulo (SP) e os homens que receberiam a droga, o comerciante Robson Ferreira Dias, de 56 anos, natural do Rio de Janeiro (RJ), e o jardineiro Everaldo Lopes Souza, de 37 anos, natural de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce.

O jardineiro, pobre jardineiro, simplório calunga, carregador braçal. Desnecessário estar preso. Um coitado trabalhador avulso.

Na imprensa, todo proprietário de um pequeno negócio vem sendo chamado de empresário. O “comerciante” Robson Ferreira da Silva estava dando uma de motorista, realizando o mesmo trabalho dos pilotos. Iria transportar a droga do campo improvisado em Afonso Claudio, para um local desconhecido.

Não foi preso ninguém em Campo de Marte. Idem no Campo de Avaré, local de descarga e carregamento de drogas. Nem em Divinópolis, local de abastecimento do helicóptero, e que está na rota internacional do tráfico. E solto permanece o verdadeiro dono do sítio em Afonso Claudio.

Do jeito que carregam o andor, jamais descobrirão os milionários proprietários do pó do helicóptero dos Perrella.

Transcrevo o tijolaço:

charge

PÓ PARÁ, ELIANE

Mario Marona

Eliane Cantanhêde está indignada porque os militantes do PT cantaram musiquinha relacionando a droga do helicóptero de Zezé Perrela aos tucanos. Ficou mais irritada ainda porque Lula, em vez de repreender os filiados, comentou:
– Se for comparar o emprego do Zé Dirceu no hotel com a quantidade de cocaína no helicóptero, pelo menos houve uma desproporcionalidade no assunto.

Eliane ficou tão contrariada que deu o seguinte título ao seu artigo de hoje na Folha: “A cocaína de Lula”.

A colunista afirma que Lula está contribuindo para que o PT traga este assunto a público.

Deve ser porque o artigo dela é muito curto. Se tivesse mais algumas linhas de espaço, Eliane poderia ter lembrado ao leitor que quem inaugurou este tipo de baixaria foi um amigo de Serra, que deu a um artigo no Estadão, dirigido ao então governador Aécio Neves, o título de “Pó pará, governador”.

Foi ali que começou uma guerra de dossiês entre os dois tucanos.

PS: brincadeira de mau gosto com título qualquer um pode fazer.

*

Admito que também fiquei preocupado com essa coisa de baixaria. Em conversa com amigos, cheguei a comentar, com sinceridade, que tinha pena dos Perrela. Só que logo assim que falei isso, eu mesmo comecei a rir histericamente, e todo mundo riu muito, porque a nossa mídia conseguiu blindar os Perrela de tal maneira que se transmitiu a ideia de que a apreensão de um helicóptero com meia tonelada de cocaína é uma coisa “normal”. Um acidente da vida que pode acontecer a qualquer um.

Quanto à baixaria, Cantanhede deveria lembrar a seus leitores dois fatores importantes:

1) Que o seu marido é marketeiro do PSDB e ela trabalha na Folha, um pasquim controlado e financiado pelos tucanos.

2) Que as baixarias maiores, de longe, vem da Folha. Ou ela não se lembra da ficha falsa da Dilma? Baixaria essa que foi seguida de outra, com o próprio Octavio Frias Filho insultando grosseiramente dois professores que enviaram cartinhas à Folha. Pior ainda: Eliane não se lembra da fofoca macabra do Cesar Benjamin, dizendo na Folha que Lula, na cadeia, tinha estuprado, ou tentado estuprar, um adolescente?

Lula está certo. E a militância também está certa em seu sarcasmo em relação ao caso. A direita e a mídia não fizeram o diabo quando pegaram um aloprado petista com dinheiro na cueca? O que é pior? Dinheiro na cueca ou meia tonelada de pó num helicóptero cinco estrelas?

Além disso, a história da cocaína está muito mal contada. O próprio desinteresse da imprensa, escancarado no texto da Cantanhede, é suspeito.

A estranha história do helicóptero dos Perrella, lotado de cocaína, não fecha quer na narrativa, quer na matemática

por Reinaldo Azevedo

Polícia Federal surpreende helicóptero dos Perrella com quase meia tonelada de cocaína
Polícia Federal surpreende helicóptero dos Perrella com quase meia tonelada de cocaína

De vez em quando, este escriba se interessa por helicópteros de políticos. E acaba descobrindo coisas interessantes. Vamos ver?

Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, é uma espécie de revista Caras do direito penal. Todos os famosos, colunáveis e celebridades o têm como advogado: de mensaleiro a Roberto Carlos, passando por uma penca de políticos graúdos de Brasília, o amigão de José Dirceu não deixa escapar ninguém. Oferece sua retórica e suas gravatas coruscantes a clientes que poderiam estar sempre dentro de uma banheira, com um copo de suco bem amarelo nas mãos, rodeados de maçãs argentinas. Por que as pessoas comem maçãs em banheiras, não tenho a menor ideia. Cada uma com suas fantasias, né? Adiante. Kakay também é um colunável, é bom que fique claro. Não há advogado que apareça na TV com tanta frequência, com seus óculos sempre muito convincentes. Nessa faina diária, acaba, muitas vezes, falando o que lhe dá na telha ou endossando o que dá na telha daqueles que o contratam. E foi assim que a família Perrella, julgando estar se livrando de um problema, acabou se complicando. E com o auxílio de seu advogado.

Qual é o busílis? O helicóptero da Limeira Agropecuária, empresa que pertence ao deputado estadual Gustavo Perrella (Solidariedade-MG), a uma irmã e a um primo, foi flagrado pela Polícia Federal transportando 445 quilos de cocaína. Gustavo é filho do senador Zezé Perrella (PDT-MG). Inicialmente, o Perrellinha afirmou que o piloto pegara o helicóptero sem autorização. Desmentido pelo advogado do rapaz, mudou a história. Teria dado um “ok”, versão endossada por Kakay, para que o outro dissesse um voo fretado — para ganhar uns trocos, vocês sabem…

Este rapaz, Gustavo Perrella, fazia o povo mineiro pagar o salário do seu piloto e o combustível do seu helicóptero
Este rapaz, Gustavo Perrella, fazia o povo mineiro pagar o salário do seu piloto e o combustível do seu helicóptero
 

E foi aí que Gustavo e Kakay pisaram no tomate. Segundo as regras da Anac, aeronaves privadas — de pessoas ou empresas — não podem fazer voos comerciais, serviço privativo de táxi aéreo. Por isso, a agência decidiu abrir uma investigação. Na operação, piloto, copiloto e dois receptadores foram presos. A propósito: Rogério Antunes, o piloto, estava lotado no gabinete de Gustavo; era seu “assessor” e tinha um salário de R$ 1.700 pago pela Assembleia. Não para por aí: o deputado gastou R$ 11,2 mil de sua verba indenizatória para abastecer o helicóptero; Zezé, o pai — também ex-presidente do Cruzeiro —, torrou outros R$ 11,1 mil da verba do Senado. O aparelho, reitere-se, pertence à empresa da família.

Tudo muito estranho

Este que escreve não entraria num helicóptero nem debaixo de porrete. Se é pra voar, nada menos do que um jato — um amigo piloto lamenta a minha ignorância e a minha descrença nas leis da física; essa descrença só existe a alguns mil metros do solo, deixo claro… Muito bem! A história despertou a minha curiosidade.

O helicóptero da Família Perrella é um Robinson 66 (R-66). Não que eu esteja a fim de comprar um, mas fiz a lição de casa para vocês. É dos mais baratinhos. Por US$ 970 mil, vocês podem comprar um. Quem entende da área diz ser uma aeronave ideal para transportar pequenas cargas. Entendo.

Em seu depoimento, o piloto afirmou que o aparelho já saiu de Avaré, em São Paulo, carregando a droga. Fez uma viagem relativamente curta até o Campo de Marte. Dali seguiu para Divinópolis, em Minas, região onde fica a sede da empresa dos Perrella. Da cidade mineira, rumou para a fazenda no Espírito Santo, onde foi surpreendido pela Polícia Federal. Vejam o mapinha (do Jornal Nacional).

trajetória-de-helicóptero
O peso máximo para um R-66 sair do chão é 1.225 quilos — ocorre que só a aeronave pesa 581 quilos. Sobram 644. Desse total, devem-se descontar 224 kg do combustível. Sobraram 420. Notem: só a carga de cocaína (445 kg) já ultrapassou esse limite. Há ainda os dois pilotos — calculemos 140 quilos. A conta não fecha. Restaria uma possibilidade: o helicóptero não estar com a carga completa de combustível. Quanto teria de ser? Vamos pensar:
peso da aeronave – 581 kg
peso dos pilotos – 140 kg
peso da cocaína – 445 kg
soma – 1.166

Sobraram apenas 59 quilos para o combustível. Com 224 kg, segundo pesquisei, a autonomia do R-66 é de três horas, voando a 220 km/h. Assim, pode-se percorrer, chegando ao limite da pane seca (os prudentes não ousam tanto) 666 km. Huuummm… Regra de três: se, com 225 kg de combustível, pode-se voar 660 km, com 59 kg, voa-se, no máximo, 173,8 km.

Pois é… Vejam lá a rota do helicóptero. Entre Avaré e o Campo de Marte (também fui pesquisar), em linha reta, já são 265,8 km. Entre o Campo de Marte e Divinópolis, há 513 km — chega-se bem perto da autonomia do aparelho se tivesse saído com o tanque cheio. De Divinópolis até a fazenda no Espírito Santo, sempre em linha resta, há 393 km. Nada nessa conta fecha.

A minha hipótese é que o piloto pode não estar contando toda a verdade. O mais provável é que esse aparelho tenha sido abastecido em vários pontos ao longo da trajetória. E intuo que a droga entrou no helicóptero foi em Divinópolis mesmo, não em Avaré.

Encerro


Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, se negou a afastar Gustavo Perrella do partido. Em nota, disse que que evitar prejulgamento e coisa e tal. Pois é… Num país normal, o uso de dinheiro público para abastecer o helicóptero que pertence a uma empresa e a contratação de um piloto como assessor parlamentar já liquidariam uma carreira política — especialmente quando o tal helicóptero é adaptado para carregar cargas, como é o dos Perrella. A propósito: qual é a carga habitual?

Essa história não fecha, quer nos seus aspectos, digamos, narrativos, quer na matemática.