Papa Francisco denuncia o novo colonialismo que aparece “sob a nobre roupagem da luta contra a corrupção, contra o narcotráfico e o terrorismo”

Chegou a hora de uma mudança de sistema

papa bolívia

O papa Francisco afirmou nesta quinta-feira, diante de integrantes dos movimentos sociais em Santa Cruz, no segundo dia de sua visita à Bolívia, que “chegou o momento de uma mudança em um sistema que já não se sustenta”.

Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estrutura. Este sistema já não se sustenta, não sustenta os camponeses, não sustenta os trabalhadores, não sustenta as comunidades, não sustenta os Povos. E a Terra também não sustenta esse sistema, a irmã ‘Mãe Terra’ como dizia São Francisco“, declarou o papa.

Além disso, Francisco esclareceu que seu discurso era sobre “os problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade”.

“Reconhecemos que as coisas não andam bem em um mundo onde há tantos camponeses sem-terra, tantas famílias sem-teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas com suas dignidades feridas?”, questionou o papa.

Em seguida, o pontífice exclamou: “Vamos dizer sem medo: precisamos e queremos uma mudança!” e indicou que “muitos esperam uma mudança que os liberte dessa tristeza individualista que escraviza”.

No discurso mais longo que pronunciou desde que chegou à América Latina, Francisco pediu que os movimentos não brigassem entre si porque parece que “o tempo está acabando”. Inclusive, o papa argentino brincou sobre seu longo discurso ao dizer: “o padre fala muito”.

“A terra, os povos e as pessoas estão sendo castigadas de um modo quase selvagem. E, por trás de tanta dor, tanta morte e destruição, é possível sentir o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia (330-379) chamava de ‘o esterco do diabo’ (dinheiro)”, assinalou.

O papa criticou a idolatria ao dinheiro, que, afirmou, é responsável por conduzir “as escolhas dos seres humanos”. “Quando a avidez pelo dinheiro tutela todo o sistema socioeconômico, ela arruína a sociedade, condena o homem e o transforma em escravo”, sentenciou.

E, então, Francisco convocou todos os movimentos populares a se mobilizarem porque “podem fazer muito” para mudar o mundo.

“Vocês, os mais humildes, os que são explorados, os pobres e excluídos, podem e fazem muito. Me atrevo a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, em suas mãos”, declarou Francisco.

O papa repetiu a mensagem que já havia pronunciado em outubro, no Vaticano, quando celebrou a primeira reunião dos movimentos sociais, que, assim como hoje, contou com a presença do presidente boliviano, Evo Morales, ao pedir “os três ‘Ts’: trabalho, teto e terra”.

“Não se diminuam!”, disse Francisco aos presentes, para em seguida convidá-los “a construir uma alternativa humana à globalização excludente”.

Apesar de ter afirmado que não tem receitas prontas, Francisco fez recomendações para essa mudança, como “colocar a economia a serviço dos povos” e se opor a “uma economia de exclusão e desigualdade”.

O pontífice também defendeu que se devolvam “aos pobres e aos povos o que lhes pertence” e considerou que “a propriedade, muito especialmente quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas”.

Além disso, o papa afirmou que “nenhum poder fático e constituído tem o direito de privar os países pobres do pleno exercício de sua soberania” e lamentou o fato de que isto alimente “novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e de justiça”.

Aos movimentos sociais, Francisco pediu união, citando o sonho da chamada “Pátria Grande”, para que “a região cresça em paz e justiça”.

O pontífice também alertou sobre o perigo do “novo colonialismo” que chega pelas mãos de “alguns tratados denominados de livre comércio e a imposição de medidas de austeridade, que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres”.

Em outras ocasiões, acrescentou o papa, o colonialismo aparece “sob a nobre roupagem da luta contra a corrupção, contra o narcotráfico e o terrorismo” e que para isso são impostas medidas que “pouco têm a ver com a resolução desses problemas e, muitas vezes, só pioram as coisas”.

Francisco fez críticas a todos os setores e também falou da “concentração monopólica dos meios de comunicação social”. Além disso, lamentou que “o colonialismo, novo e velho, reduz os países pobres a meros fornecedores de matéria-prima e trabalho barato”.

“Digamos não às velhas e às novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Felizes são aqueles que trabalham pela paz”, concluiu Francisco em seu discurso. Terra

Terra, casa e trabalho. Papa Francisco: o amor pelos pobres está “no centro do Evangelho”

Francisco eleito

 

“A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história e isso é o que fazem os movimentos populares”, disse o papa Francisco, na manhã do dia 28, durante encontro com os participantes do Encontro Mundial dos Movimentos Populares.

Ao falar sobre solidariedade, Francisco sugeriu pensamentos e atos em favor da comunidade e da prioridade de vida a todos. “Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a violência, a negação dos direitos sociais e trabalhistas”, enumerou. Para ele, a solidariedade se traduz no enfrentamento aos “efeitos destruidores do ‘Império do dinheiro’, como os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência. “Todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar. A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história e isso é o que fazem os movimentos populares”, disse.

A transformação da realidade dos que sofrem com a pobreza conduziu o papa a três elementos que para ele são uma resposta a algo que deveria estar ao alcance de todos, mas que está cada vez mais longe da maioria: “terra, casa e trabalho”. A abordagem em relação ao escândalo da pobreza não deve promover “estratégias de contenção que somente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos”. Esta estratégia de contenção se desenvolve no Brasil na criminalização dos movimentos populares. Na matança dos seus líderes. No combate da mídia, da justiça, das bancadas ruralistas, um combate representado pela repressão dos soldados estaduais aos sem terra, aos sem teto, aos sem nada.

O papa Francisco alertou, ainda, ao tratar dos elementos “terra, casa e trabalho”, que fala do amor pelos pobres, que está “no centro do Evangelho”. “É estranho, mas quando falo sobre estas coisas, para alguns parece que o papa é comunista”, comentou.

Francisco também falou sobre a “cultura do descartável”, na qual aqueles que não podem se integrar no fenômeno da exportação e da opressão, são excluídos como resíduos, sobras. Ele explicou que isso acontece quando no centro de um sistema econômico está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. “Ao centro de todo sistema social ou econômico deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que fosse o dominador do universo. Quando a pessoa é desprezada e vem o deus dinheiro, acontece esta troca de valores”, alertou.

Falando sobre trabalho, o papa destacou direitos a uma remuneração digna, à seguridade social e à cobertura previdenciária aos catadores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, construtores, mineiros, todo tipo de cooperativistas e trabalhadores de ofícios populares, que, segundo Francisco, estão excluídos dos direitos trabalhistas e têm negada a possibilidade de sindicalizar-se e de ter uma renda adequada e estável. “Hoje quero unir minha voz à sua e acompanha-los em sua luta”, afirmou.

O papa ainda falou sobre paz e ecologia no contexto dos três elementos apresentados em seu pronunciamento. “Não se pode haver terra, não pode haver casa, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruirmos o planeta”, disse. Ele exorta que a criação não é uma propriedade da qual se pode dispor a esmo gosto, nem que pertence a uns poucos. “A criação é um dom, é um presente, um dom maravilhoso que Deus nos deu para que cuidemos dele e utilizemos em benefício de todos, sempre com respeito e gratuidade”, acrescentou.

Em relação à “globalização da indiferença”, presente no mundo, foi apresentado um “guia de ação, um programa” considerado “revolucionário”: as bem-aventuranças, presentes no Evangelho de Mateus.

Ao final, Francisco afirmou que os movimentos populares expressam “as necessidades urgentes de revitalizar as democracias”. Ele considera “impossível imaginar um futuro para a sociedade sem a participação como protagonista das grandes maiorias”.

Encontro

O Encontro Mundial dos Movimentos Populares aconteceu de 27 a 29 de outubro, com organização do Pontifício Conselho Justiça e Paz do Vaticano, em colaboração da Pontifícia Academia de Ciências Sociais e líderes de vários movimentos. São 100 leigos, líderes de grupos sociais, 30 bispos engajados com as realidades e os movimentos sociais em seus países, e cerca de 50 agentes pastorais, além de alguns membros da Cúria romana presentes no evento. Representou a CNBB o bispo auxiliar de Brasília (DF) e secretário geral da instituição, dom Leonardo Steiner.

O evento buscou fortalecer a rede de organizações populares, favorecer o conhecimento recíproco e promover a colaboração entre eles e suas Igrejas locais, representadas por bispos e agentes pastorais provenientes de vários países do mundo. O Pontifício Conselho Justiça e Paz do Vaticano ressalta o compromisso na promoção e tutela da dignidade e dos direitos da pessoa humana, assumido pelos movimentos.