A TRISTE PARTIDA

 
por  Patativa do Assaré
sertaanejo
Meu Deus, meu Deus
Setembro passou…
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, aiA treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, aiRompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois a barra não tem
Ai, ai, ai, ai

Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: “isso é castigo
não chove mais não”
Ai, ai, ai, ai

Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai

Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai

Nós vamos a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Cá e pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai

Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrível
Que tudo devora
Lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai

O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Seu filho choroso
Exclama a dizer
Ai, ai, ai, ai

De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena
Tremendo de medo
“Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?”
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai

E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filho pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai

Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai

Se arguma notícia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade lhe molho
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai

Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
À lama e o paul
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo

Pau de arara, por Aldemir Martins
Pau de arara, por Aldemir Martins
 —-
Seleta de Paulo Peres
—-
Patativa do Assaré na voz de Luiz Gonzaga:

Nordeste. Estiagem afeta cultura da vaquejada

por MAURI KÖNIG

Prova de vaquejada em Cabrobó no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo
Prova de vaquejada em Cabrobó no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo

Seca histórica mata o gado no semiárido e começa a faltar animais para a secular tradição dos sertanejos. Eventos estão sendo cancelados

No final do século 18, o gado passou a ser criado solto nas matas dos sertões do Brasil, dando origem à figura do peão encarregado de recolher o rebanho dos coronéis. Desse ofício derivou a vaquejada, atividade recreativa-competitiva com um século de tradição. Hoje o Nordeste tem 110 parques de vaquejada, fora as raias em propriedades rurais no sertão. É justamente nesses pontos mais remotos que a tradição está por um fio devido ao flagelo da seca que dura três anos. Está faltando boi para a disputa, mortos pela sede e pela fome.

Ronaldo Ramos Reis, o Ronaldo Galo, de 59 anos, organiza vaquejadas há 30 anos em Coração de Jesus, cidade de 26 mil habitantes no Norte de Minas Gerais. Seus últimos sete circuitos tiveram 15 eventos por ano, e a final de 2012 reuniu 40 mil pessoas na vizinha São João da Lagoa. O oitavo circuito foi cancelado. Até estava dando para driblar as exigências dos Bombeiros e as pressões dos protetores dos animais, mas a chuva deixou de comparecer. “A seca atinge todos os segmentos da área rural, e a vaquejada é rural”, explica Ronaldo.

O sertanejo ainda buscou meios para manter a tradição. Reduziu de 10 para 7 metros a raia até o ponto em que o gado tem de ser tombado pelo rabo, extensão proporcional ao tamanho do boi, minguado em tamanho e quantidade. Mas os rebanhos estão cada vez mais sendo vendidos ou abatidos antes do tempo por causa da estiagem. As prefeituras do Norte de Minas, que sustentam a vaquejada, veem seus cofres esvaziarem na mesma proporção dos reservatórios de água. “Por insistência e paixão de alguns que têm mais condições, vão acontecer cinco vaquejadas neste ano, se acontecerem”.

Estratégia onerosa

Em Cabrobó, cidade de 30 mil habitantes na região mais árida de Pernambuco, a 600 km da capital Recife, sedia 12 vaquejadas por ano em pequenas e médias propriedades rurais. Por causa da falta de gado, uma delas deixou de ser realizada ano passado e outra foi suspensa neste ano. Fabrício Barros dos Santos, de 36 anos, que em março organizou sua sétima festa, diz que em 2012 não encontrou boi forte o suficiente para a vaquejada. Neste ano ele teve de recorrer a uma estratégia bastante onerosa para manter a tradição herdada do bisavô.

Antes da seca, pecuaristas da região emprestavam parte do rebanho para a organização do evento. Desta vez, Fabrício teve de recorrer ao rebanho da Ilha de Assunção, uma reserva indígena dentro do Rio São Francisco, em Cabrobó. Os índios trucás estão alugando as terras com pasto para pecuaristas de muitas cidades do Polígono da Seca. A ilha de 3,5 mil habitantes e 5.700 hectares se tornou a UTI do gado que está morrendo de fome e de sede. A vaquejada foi realizada dia 13 de março, mas a experiência não foi muito promissora.

Fabrício e o sócio Paulo Reginaldo alugaram 50 cabeças a R$ 80 cada uma. Entre aluguel de bois, custo de transporte e de pessoal, mais a premiação aos vencedores, a organização gastou R$ 12,8 mil dos R$ 15 mil arrecadados. Um resultado pífio para dois meses de trabalho. Além de desmotivar outro evento, o perfil do gado também compromete a qualidade da vaquejada. O boi da caatinga é mais arisco, o que tornava a prova mais difícil. “Se a gente continuar, só mesmo pra reunir os amigos e pra manter a tradição. Mas é difícil”, diz Fabrício.

Ilha do Rio São Francisco vira a UTI do gado

A Ilha de Assunção, uma das maiores do Rio São Francisco, tinha até recentemente o cultivo de arroz, feijão, cebola, goiaba, coco, maracujá e banana como principal atividade produtiva. Mas a seca que há três anos castiga o semiárido brasileiro mudou o perfil da ilha dos índios trucás, de 3,5 mil habitantes. Essa rara mancha verde no Polígono da Seca, com seus 5.700 hectares cercados por água, tornou-se a UTI do gado que está morrendo de fome e de sede nos arredores de Cabrobó (PE), um dos núcleos de desertificação no Brasil.

Pela ponte estreita que leva à ilha passam os caminhões com boiadas esquálidas vindas de muitas cidades do sertão pernambucano. Os índios passaram a alugar suas terras a pecuaristas desesperados com as perdas de rezes, cujas carcaças se multiplicam em meio à caatinga. Um deles é Joseílson Ramos dos Santos, 45 anos. Dono de 16 hectares em Parnamirim (PE), perdeu 11 das 30 cabeças de gado por inanição.

Joseílson vendeu dois bois pela metade do preço e levou os 17 sobreviventes para a UTI do Rio São Francisco. Alugou dois hectares de pasto por R$ 2 mil e pagou R$ 400 pelo transporte até a ilha, distante 75 quilômetros. Ao desembarcar o gado, mês passado, notou que Carinhosa, a mais velha do rebanho, estava desmantelada na carroceria. A fome cobrava as últimas forças do xodó da família.

Joseílson recorreu então a uma engenhoca muito recorrente no sertão para animais à beira da morte. O equipamento é basicamente o mesmo em todo lugar, feito com estacas de madeira, cordas e saco de nylon. O propósito é ajudar o gado a se manter de pé, pois se ficar prostrado morre logo.

Joseílson fincou as estacas, aprumou as cordas e pediu ajuda para suspender Carinhosa. Um morador da ilha sugeriu inovações. Eles cavaram sob uma árvore um buraco profundo e largo o suficiente para caber as pernas do animal e instalaram as estacas ao redor, de modo a mantê-la suspensa por cordas com os membros inferiores metidos na cavidade. O sobrinho, Éverson, de 11 anos, ajuda a dar água e comida na boca de Carinhosa. Ela passou a responder bem aos cuidados.

A família de Joseílson teve de dar uma cota extra de sacrifício para tentar salvar o parco rebanho, único patrimônio depois de a seca fustigar o plantio de milho, feijão e algodão. Ele foi com os filhos de 18 e 19 anos para cuidar do gado na ilha, enquanto a mulher ficou em Parnamirim com o menino de 16 e a menina de 14 anos. A família teve de se dividir na esperança de saldar as dívidas, cujo valor a vergonha impede Joseílson de revelar.

Sobrevivência
Fustigado pela estiagem, sertanejo se vê entre a doença e a dependência

Salgueiro (PE), a 520 quilômetros de Recife, é o retrato da dependência governamental em decorrência da seca prolongada. O município de 57 mil habitantes, cuja economia está centrada na agricultura, tem três mil produtores rurais mantidos por programas oficiais de transferência de renda. São 1.478 agricultores recebendo o Garantia Safra, no valor de R$ 760 anuais divididos em parcelas, e outros 1.500 auxiliados pelo Bolsa Estiagem, de R$ 80 por mês.

O Bolsa Estiagem começou a ser pago pelo governo federal em junho do ano passado e atendeu 880,6 mil pessoas, em 1.316 municípios, totalizando R$ 569 milhões. O pagamento é feito em parcelas de R$ 80,00 a agricultores de baixa renda que vivem em municípios atingidos pela seca. Já o Garantia Safra repassou R$ 953,5 milhões a 769 mil agricultores de 1.015 municípios desde 2011.

O benefício destina-se a agricultores que contraíram empréstimo do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e tiveram prejuízo com a estiagem. O valor chega a R$ 1,2 mil, em parcelas que variam de R$ 135,00 a R$ 140,00 mensais. O governo de Pernambuco socorre ainda com o Programa Chapéu de Palha. Seis mil agricultores são beneficiados com um valor mínimo de R$ 100, válido para o período da entressafra que vai de abril a agosto.

A família de João José da Costa, de 66 anos, é uma das beneficiadas com os programas oficiais. Ele vive com a mulher, duas filhas, dois genros e três netos em dois terrenos, de 66 e 39 hectares, onde criam gado e cultivam a terra. João tinha 16 cabeças de gado. Vendeu uma e outras sete morreram. As demais ninguém quis, estavam muito magras. Uma tímida chuvinha em janeiro animou, e ele plantou milho e feijão. Perdeu tudo. Teve de se contentar com o Seguro Safra e Chapéu de Palha. Ele e a mulher são aposentados rurais.

A filha, Neuza, recebe o Bolsa Família. O marido dela, Pedro Expedito da Cruz, de 44 anos, foi diagnosticado com depressão e não pode trabalhar. Vítima da seca, passou a manifestar problemas neurológicos decorrentes das sucessivas perdas agrícolas causadas pela estiagem. Ele, a mulher e os três filhos passaram a ficar dependentes do Seguro Safra e do Chapéu de Palha.

O outro genro de João, Joaquim Josias Gomes, não teve igual sorte. Ele fez o cadastro no Garantia Safra, pagou a taxa de R$ 9,50 há dois meses, mas ainda não teve resposta. Antes, havia feito inscrição no Bolsa Família, mas não pôde receber o benefício porque tinha uma moto em seu nome. A moto, no entanto, não é um luxo. É o único meio de locomoção da família até a cidade, distante 14 quilômetros, a maior parte em estradas de terra.

Socorro
Fundo constitucional garante R$ 2,7 bilhões de ajuda ao semiárido

Por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), o governo federal oferta crédito com juros baixos para agricultores familiares, produtores rurais e pequenas e médias empresas das regiões afetadas pela seca. Desde maio de 2012, foram contratadas 300 mil operações pelas linhas emergenciais de crédito, no valor de R$ 2,4 bilhões. O apoio chegou a produtores de mais de 1,3 mil municípios do semiárido. O Tesouro Nacional fará, ainda, um aporte adicional de R$ 350 milhões de recursos do FNE para as linhas de crédito emergenciais, elevando os valores para R$ 2,75 milhões. A medida vai assegurar a continuidade da assistência de crédito com juros baixos para produtores rurais afetados pela seca.

FOTOS: Veja slideshow da seca no Nordeste

ORFÃOS DA SECA. O Brasil dos sem-água (fotos e vídeos)

por MAURI KÖNIG

Homem rústico, aspecto andrajoso, Domingos José dos Santos leva nas órbitas um olhar profundo e triste. A pátina do tempo deu-lhe as rugas antes do previsto, algumas de tristeza, outras de desamparo e umas quantas de desilusão. Mimetizar-se à árida realidade não foi o bastante. Parecia não haver lugar mais seco e rançoso do que o sertão pernambucano, e assim o produtor rural fugiu há 10 anos buscando a sorte no sertão baiano. Foi no desespero atrás de algo tão prosaico quando essencial: a água. Deu com os burros na falta dela. A seca tem o condão de dissolver sonhos em rigores extremos, e Domingos voltou.

Açude secando no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo
Açude secando no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo
Sr. Ires Pereira Mendonça perdeu 100 cabeças de gado na seca - Pernambuco Alexandre Mazzo
Sr. Ires Pereira Mendonça perdeu 100 cabeças de gado na seca – Pernambuco Alexandre Mazzo

CONTEÚDO EXTRA: Veja mais imagens e vídeo na seca do Nordeste 

O velho sertanejo de 71 anos foi traído pela tal “tirania das contingências”. Vê-se agora em condição pior do que antes da estiagem de três anos a fio no semiárido nordestino. Abandonou no povoado de Lajeto de Pau d’Arco tudo o que tinha: dois terrenos e duas casas de alvenaria – “só uma delas levou 40 sacos de cimento”. Ninguém compra, ninguém tem dinheiro, “tá todo mundo indo embora”. No regresso, há um ano, ergueu uma casa de taipa, feita de ripas e barro, nos costados do terreno que a filha, Maria de Lurdes, 37 anos, ganhou em 2006 num assentamento rural de Serra Talhada (PE).

Domingos e sua família fazem parte de um paradoxo brasileiro, menos pelo fenômeno natural nele subjacente e mais pela incapacidade coletiva de lidar com ele. O sertanejo e a mulher, Maria da Penha, de 69 anos, moram na tapera de barro; a filha, o genro e três netos vivem na residência de alvenaria ao lado. As reuniões familiares se dão na casa de taipa, de frente para a televisão, com sinal da parabólica. A energia elétrica e alguns confortos por ela proporcionados chegaram muito antes do que a água tão procurada por Domingos nos sertões de Pernambuco e da Bahia.

Riqueza sob os pés

Há razões para acreditar em água boa sob os pés, pela abundância no poço artesiano a 300 metros. O vizinho não dá nem vende uma gota, e Domingos não tem dinheiro para uma perfuração. O carro-pipa tarda dois meses para voltar, e abastece só oito dos 16 mil metros cúbicos da cisterna. Se terminar antes, azar. O racionamento priva as crianças de uma brincadeira tão trivial quanto divertida: banho de mangueira. Sentiriam o peso do remorso por se darem o luxo de uma distração quando mal se tem para beber. Entre a sorte de ter uma parabólica e o azar de não ter água, Maria de Lurdes prefere uma inversão. “A água faz mais falta.”

Eles não estão sós. A seca avançou sobre outros 280 municípios além dos 1.135 que compõem o semiárido bra­­sileiro, região mais castigada pela pior estiagem em 50 anos, forjando dias instáveis a 22 milhões de pessoas. A Secretaria Nacional de Defesa Civil decretou situação de emer­­gência e estado de calamidade pública em 1.046 cidades. O saldo é aterrador. Pelas contas do Conselho Nacional de Pe­­cuária de Corte, a seca já levou um milhão de cabeças de gado. Metade morreu e a outra metade foi abatida antes da hora ou mandada para outras regiões.

Há um mês o governo brasileiro anunciou R$ 9 bilhões para o combate emergencial à seca e R$ 32 bilhões em barragens, canais, adutoras e estações elevatórias para garantir o permanente abastecimento de água no Nordeste. Porém, os projetos suscitam dúvidas. “Falta colocar foco no sujeito mais desassistido, que está no campo. Muitos têm energia elétrica, têm parabólica, alguns têm telefone, têm acesso à internet. Mas está faltando água”, destaca o professor de recursos hídricos da Uni­­versidade Federal do Rio Grande do Norte, João Abner Guimarães Júnior.

Doutor em hidráulica e saneamento pela Universidade de São Paulo, Abner joga areia na transposição da Bacia do Rio São Francisco, o grande orgulho do governo brasileiro no combate à seca. Para ele, não passa de um programa inócuo (leia mais na edição de quinta-feira). O problema não é a falta de água, mas a má distribuição. Grandes obras não darão cabo do sofrimento imposto pela estiagem, diz o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Na­­buco João Suassuna. As 70 mil represas do Nordeste acumulam mais de 10 bilhões de metros cúbicos de água. “Mas não existe uma política para captar e levar para quem precisa”.

História árida

A chuva tem por hábito de­­saparecer com frequência, às vezes com mais insistência. O Nordeste brasileiro enfrentou 34 significativas secas desde 1583, ano do primeiro registro feito pelo padre Fernão Cardin. Desta vez, no entanto, a situação se presta a dar livre curso à preocupação de uma gente cansada de promessas nunca cumpridas. Quanto mais esperar por soluções que nunca chegam? O que se deve esperar desse canal de transposição que representa a opulência do dinheiro gasto sem restrição? E ninguém pode alegar que foi pego de surpresa.

O Centro Técnico Aeroes­­pacial, de São José dos Campos (SP), fez em 1978 um estudo estatístico a partir das secas dos úl­­timos séculos. Descobriu que as grandes estiagens ocorrem em intervalos de 26 anos, entremeados por outras menores. Nesse estudo prospectivo, a seca que ora castiga o semiárido era previsível. “O triste é que, mesmo sabendo da previsibilidade, não se faz nada de ações estruturadoras para tornar possível a convivência do homem nesse período seco”, diz Suassuna. E a seca vai persistir no sertão até o fim de 2014, segundo pesquisas climáticas.

Essas previsões quase foram desmentidas há uma semana. As chuvas voltaram a cair em parte de Pernambuco, mas concentradas no litoral, na Zona da Mata e no Agreste. No sertão, mais para o interior do estado, as precipitações foram tão esparsas que nem de longe permitiriam uma recuperação dos leitos dos rios secos, dos rebanhos bovinos e das plantações já devastadas. As dezenas de rios efêmeros do Nordeste, transformados em leito de morte do gado, retratam a agonia de uma região órfã da seca.

Levar água é mais barato do que levar luz

Levar água para o sertão custa menos do que levar eletricidade, nas contas do professor de recursos hídricos da Uni­­versidade Federal do Rio Grande do Norte, João Abner Gui­­marães Júnior. O parâmetro é o Programa Luz para Todos, lançado há dez anos pelo governo federal para eliminar a exclusão elétrica no país levando energia gratuita a dez milhões de brasileiros do meio rural. Um programa similar, trocando a luz pela água, poderia evitar a fome, a sede e as perdas agrícolas enfrentadas por 22 milhões de nordestinos no semiárido.

O programa federal Água para Todos tem limitações porque o foco está na construção de cisternas para captar a água das chuvas nos telhados das casas. Em longas estiagens, as famílias voltam a depender do oneroso carro-pipa. No semiárido, sete entre dez pessoas estão nas cidades, 92% delas com sistema público de abastecimento de água. O problema está no meio rural, onde vivem os outros 30%. O sistema de Abner, doutor em hidráulica e saneamento pela Universidade de São Paulo, chegaria a eles e evitaria os impactos com secas mais prolongadas.

“Dizer que falta água é mentira”, diz Abner. Sobra água para consumo hu­­mano e animal mesmo em época de seca, ele assegura. “São 10 bilhões de metros cúbicos armazenados em grandes reservatórios acima do Rio São Francisco.” Só o Ceará tem 80% desse manancial. O problema está na democratização do acesso à água. Nesse ponto entra a proposta de Abner, um sistema adutor com capilaridade suficiente para atender a toda a necessidade do semiárido usando um quinto do volume armazenado nos reservatórios. Parece tão lógico que assusta imaginar porque não está em prática.

Custo menor

Nesse sistema capilar, adutoras captam água de reservatórios regionais, que por sua vez podem pegar de outros maiores. À média de um reservatório a cada 30 quilômetros, ela teria um custo per capita de R$ 20 por ano, com amortização do investimento em 50 anos. Com menos de mil reais por mês, uma adutora de três polegadas de diâmetro atenderia de 3 a 4 mil pessoas. Abner, ele próprio um sertanejo da região central do Rio Grande do Norte, lembra que quatro entre dez habitantes do seu estado consomem água de adutora. Uma prova, portanto, de que é possível.

Os 70 mil açudes existentes no Nordeste destinam-se hoje para consumo humano, mas 95% da água se perde em evaporação. Para Abner, um sistema integrado que traga água das grandes barragens para o abastecimento humano liberaria os pequenos açudes para a produção de alimento para o gado e outras atividades rurais. O principal insumo para a distribuição da água, a energia elétrica, já está disponível. O custo de R$ 20 per capita por ano com esse sistema capilar representa um terço do valor da transposição da Bacia do Rio São Francisco.

Ela própria, a transposição, é uma prova de que recursos existem. Os governos, de FHC a Lula e Dilma, apostaram num programa de desenvolvimento regional a partir da transposição do São Francisco. Onde está o erro? Abner aponta dois. Primeiro: alcance restrito, a área de influência chega a apenas 5% do semiárido. Segundo: na prática a obra só irá transferir estoques de água do rio para grandes reservatórios já abastecidos. “É chover no molhado”, avalia. “A transposição é um programa inócuo. O governo precisa se libertar dos lobbies das grandes obras”, diz.

Um exemplo de que a adutora funciona está em Serra Talhada (PE). A água que tirou o município de 80 mil habitantes do colapso no abastecimento vem do rio São Francisco, transportada pela adutora do Pajeú nos 112 quilômetros concluídos pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). A água é transportada numa vazão de mais de 100 metros cúbicos por segundo desde a captação no lago Itaparica, no município de Floresta, até a estação da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) em Serra Talhada.

Sertanejo, esse bravo

O homem que maneja o facão na plantação de palma é um tanto gasto em anos, mas mantém a altivez de sertanejo. É sobre gente como ele que recaem os refluxos da seca. No curso de seus 75 anos, Luís Vieira de Souza guarda na memória os vários períodos de estiagem. E ela sempre volta. “Três anos enrabado um no outro, nunca vi na minha vida”, diz com a vivência que não se aprende na escola. Sabe como poucos ler os sinais do tempo, o que o autoriza, por sinestesia, a afirmar com propriedade que a seca de agora supera aquela histórica que perseverou de 1979 a 1984.

Seu Luís e quatro filhos criam 186 cabeças de gado e plantam milho e feijão na propriedade de 600 mil metros quadrados, em Cabrobó, tendo ao fundo as obras do canal de transposição do Rio São Francisco. Tão perto do rio e a plantação resseca. A irrigação esporádica pouco adianta. Gasta R$ 900 por mês em energia elétrica puxando água para o consumo da família depois de tratá-la com cloro, para dar de beber aos animais e irrigar umas poucas plantas. Não rega tudo porque uma conta de R$ 2 mil seria inviável.

Seu Luís se põe a cortar mais palma. A agrura da seca chegou inclusive para essa que é a mais resistente das plantas do sertão, último recurso de alimento para o gado. “Até o mandacaru tá difícil de achar”, diz o velho sertanejo com o desalento que se adquire com sucessivas frustrações. Está ruim até para os cactos. Seu Luís olha para as folhas murchas e experimenta uma sensação de vazio. Mas não pode simplesmente ignorar suas obrigações. Ao fundo, um gado esquálido aguarda a refeição.

Reina o odor de estrume no modesto curral quando o sertanejo retorna. Reserva dois terços de sua atenção ao filho e à nora que acompanham a movimentação dos dois estranhos com câmeras e canetas. Seu Luís se dirige ao cocho tomado pela desolação. O filho, parado à sua frente para ajudar, parece igualmente desolado. O velho empunha o facão e pica a palma em gestos mecânicos dentro do chocho, atraindo a atenção das rezes amarradas ao redor. Ele suspende a cabeça e divisa ao fundo o animal suspenso na UTI improvisada na estrebaria.

A vaca de 5 anos e duas crias está faz dois meses dependurada em cordas para se manter de pé. Se cair não levanta, não se sustenta nas pernas. Morte certa. Efeitos da fome. Seu Luís guarda esperança; há pouco salvara outra vaca no mesmo sistema, depois de um mês no pêndulo, água e comida na boca. Requer paciência. Diante desse homem crispado em sua rusticidade e honra de sertanejo, resta a impressão de que às provações impostas pela seca acrescenta-se uma cota adicional de humanidade. Antes fosse o único, a despeito da nobreza do gesto.

A mortandade se espraia de forma a fazer das carcaças parte integrante da paisagem da caatinga. A proporção é aterradora. Só o estado de Seu Luís, Pernambuco, perdeu 800 mil animais – 150 mil morreram, o restante abatidos precocemente. A bacia leiteira pernambucana também perdeu sete dos dez litros que produzia antes da estiagem.

Os novilhos definham diante dos olhos e as últimas vacas leiteiras não se aguentam mais em pé. O gado que dá a sorte de tombar perto da sede do sítio tem alguma chance. UTIs iguais às de Seu Luís se tornaram comuns no Polígono das Secas, uma área que abrange o norte de Minas Gerais e oito estados nordestinos: Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Sergipe e Rio Grande do Norte. Mas esses arranjos não adiantam quando não se tem o que dar de comer para o gado.

Uma vizinha de Seu Luís acaba de vender 83 bois por R$ 16 mil. Ou, R$ 192 a cabeça, o equivalente a um churrasco de fim de semana para 10 pessoas em qualquer outra região do país não castigada pela seca. O estoque de ração acabou e o preço do milho subiu. Ela vendeu mais para não vê-los morrer do que para evitar prejuízo maior. Em condições normais, receberia pela boiada 10 vezes esse valor. Não quis repetir a história de tantos outros sertanejos que acreditaram na proximidade da chuva.

Até os mais afortunados, os que têm água no subsolo na propriedade, veem o rebanho definhar. Ires Pereira de Mendonça, 59 anos, extrai água de dois poços artesianos para vender para consumo humano. Ele perdeu 100 cabeças de gado desde o fim de 2012. Os animais morreram de inanição. A água mata a sede, não a fome. Mesmo com tanto recursos hídricos disponíveis, Ires não soube e não teve orientação de forma a aproveitá-los para irrigar a plantação que poderia salvar seu rebanho. Por ironia, o leito de morte do gado foi o leito seco do Rio do Imbé, no distrito de Mimoso, no município pernambucano de Pesqueira.

Polígono das Secas

O semiárido brasileiro estende-se por oito estados do Nordeste (Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe), além do Norte de Minas Gerais, totalizando uma extensão territorial de mais de 980 mil quilômetros quadrados. As principais causas da seca são naturais.

A região recebe pouca influência de massas de ar úmidas e frias vindas do Sul. Logo, permanece durante muito tempo no sertão nordestino uma massa de ar quente e seca. Também contribuiu para agravar o quadro os quase cinco séculos de queimadas e corte intensivo da floresta, além da exploração da monocultura da cana-de-açúcar.

Clique aqui e confira o infográfico

“La unión de todos los argentinos frente a esta amenaza que es el crecimiento de los desiertos’’

Argentina. Un informe pesimista del clima

Advierten que aún quedan 15 años más de sequía y habrá poca agua por la disminución de nieve y lluvia en San Juan

Ullum, sin agua: el bajo caudal de agua del río San Juan dejó al descubierto después de 30 años las ruinas de la vieja bodega Graffigna que había quedado sepultada en el embalse de Ullum. Hoy la gente puede recorrerlas a pie
Ullum, sin agua: el bajo caudal de agua del río San Juan dejó al descubierto después de 30 años las ruinas de la vieja bodega Graffigna que había quedado sepultada en el embalse de Ullum. Hoy la gente puede recorrerlas a pie

 

por Elizabeth Pérez/ Diario de Cuyo

Las precipitaciones invernales de lluvia y nieve -que son clave en San Juan, porque de ellas depende el agua que tenga todo el año la provincia- van a seguir siendo pobres como ocurre desde el año 2003 y por los próximos 15 años, debido a que están siendo afectadas por un periodo ’seco’ de intensificación de los desiertos, producto del proceso de calentamiento global. ’’Y este problema los va a afectar en la generación hidroeléctrica y en el manejo del agua’’, dijo a DIARIO DE CUYO Juan Leonidas Minetti, prestigioso climatólogo argentino y director del Laboratorio Climatológico Sudamericano que el pasado 19 de abril dio una conferencia a productores de todo el país en el Plenario Nacional de Economías Regionales que organizó la CAME, con estas conclusiones y otras sobre otras zonas del país.

Minetti agregó que la disminución también impactará en las lluvias estivales sanjuaninas, lo que afectará a los poblados como Valle Fértil cuya agua para producción y consumo dependen de ellas. Los datos de que la provincia no está exenta de las amenazas del clima provocaron una interesante respuesta de las autoridades locales. El titular de Hidráulica, Jorge Millón, dijo que la provincia ’’está bien encaminada’’ destinando buena cantidad de recursos a construir diques de agua. ’’No conozco el informe, pero sí a Minetti y el laboratorio que son prestigiosos. Y ante la clara convicción de que los glaciares van a disminuir por el calentamiento global y que habrá menos nieve, la forma de reemplazarlos es con un embalse artificial de agua, que es lo que la provincia está haciendo desde el 2003 a la fecha’’. Millón agregó que ’’la provincia está bien encaminada, de todas formas esa transformación requiere de una importante inyección de recursos económicos y la provincia no los tiene ya, pero por lo menos está apostando a las obra de infraestructura de embalse y a la energía solar. La provincia no está apostando a una generación hidroeléctrica, sino a hacer embalses para reemplazar disminuciones de reservas naturales’’. En ese sentido, en el 2009 se terminó el dique Caracoles y ahora, el dique Punta Negra, el tercero sobre el Río San Juan está en un 52% de avance (ver página 7). Millón agregó que aún queda mucho que hacer en eficiencia de recursos, al referirse a la tecnificación de riego para la agricultura.

POCA AGUA

’’Como derivado del proceso de calentamiento global están empezando a crecer fuertemente los desiertos y el impacto de esto es bastante visible en los datos que analizamos desde la década del ’80’’, explicó Minetti a DIARIO DE CUYO. Respecto a San Juan y la zona cuyana agregó que las consecuencias negativas serán dos. ’’Por un lado, las precipitaciones invernales de lluvia y nieve en la cordillera van a ser afectadas con una mayor disminución de la que han tenido hasta ahora. Fíjese que el año pasado cuando estaba funcionando el fenómeno del Niño y todos nuestros modelos estaban dando un año nival bueno, todos los pronósticos salieron mal. Es que este proceso de gran escala del calentamiento global se está sobreimponiendo a los fenómenos de más corta escala como el Niño o la Niña’’. Agregó que la otra consecuencia es ’’que también se verán cada año disminuidas las lluvias veraniegas, lo cual es bueno para los cultivos de frutas que no sufrirán ataques de fungosas (hongos), pero la zona de Valle Fértil que sí se alimenta su sistema productivo con las lluvias de verano va a ser fuertemente afectado por la sequía. Y en esto para nada va a mejorar el clima con La Niña, el problema es bastante complicado, y requiere la unión de todos los argentinos frente a esta amenaza que es el crecimiento de los desiertos’’. Agregó que el periodo ’seco’ se inició en el año 2003 y se trata de una oscilación de 50 años, que tiene 25 años de seca y 25 años más lluviosos. ’’Esa oscilación empezó su fase negativa en el 2003, en la inundación de Santa Fe, llevamos 10 años, y nos estarían faltando 15 más, si fuese ese solamente el factor principal. Pero como solapadamente tenemos el efecto del calentamiento global que está dando desde 1980 para adelante una profundización de la sequía en los desiertos, es posible que nos encontremos con periodos de sequías más graves que los del siglo pasado’’, concluyó.

OS INDUSTRIAIS DA SECA PEDEM UMA CHUVA DE DINHEIRO

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Dinheiro para construir açudes, ninguém pede.
Dinheiro para construir barragens nos rios que secam, ninguém pede.
Dinheiro para explorar os aqüíferos, ninguém pede.
Eles rezam pelo dinheiro que se evapora, pega sumiço, que se dissipa com carro-pipa. O dinheiro volátil. O dinheiro fácil do enriquecimento rápido dos coronéis.
Cadê a transposição do Rio São Francisco?
Cadê?

Água do Rio São Francisco e de novos açudes para acabar com a indústria da seca

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Verba para Pernambuco
Verba para Pernambuco

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Custo da transposição do São Francisco aumenta 71% e vai superar R$ 8 bilhões

Esta denúncia é do Estadão.

A transposição é necessária. E deve ser apressada. É a solução mais compensadora.

Escreve hoje Carlos Chagas:

OMISSÃO DA CIÊNCIA

A presidente Dilma passou o dia de ontem no Ceará, anunciando iniciativas para minorar os efeitos da seca. Recursos públicos serão outra vez distribuídos pelas regiões assoladas pela falta de chuva, espera-se que sem ser desviados como sempre tem sido.

Há, no entanto, uma questão maior e ainda inconclusa. A ciência avançou como nunca, desde que o mundo é mundo. Na Medicina, nem se fala. Mas também na Física, na Química, na Astronomia, com lugar de destaque para as indústrias bélicas, nucleares e tudo o mais. Por que diabo, então, não se investe num setor que beneficiaria a Humanidade mais do que todos? Fala-se da possibilidade de fazer chover onde não chove. Senão de contestar, ao menos de colaborar com a natureza para combater a seca. Impossível não será.

Só que falta empenho às forças científicas, certamente pela falta de lucro explicito e imediato numa atividade dessas. Os laboratórios produzem remédios fantásticos, ganhando muito dinheiro com sua comercialização. Os reatores nucleares preparam cada dia mais mortíferos artefatos atômicos, forma de manutenção da segurança das nações para, pelo menos, intimidar o adversário.

De fazer chover, porém, através de pesquisas profundas na atmosfera e investimentos maciços no setor, não cogitam. Realizações desse tipo só ajudariam países e regiões assoladas pela seca, geralmente pobres. Sem retorno financeiro imediato.

Houve tempo, já se vão quase cem anos, que apareceu no Brasil um certo professor Janot Pacheco, apregoando uma solução hoje considerada primária, de bombardear as nuvens com cobalto ou coisa que o valha. Virou objeto de curiosidade e de chacota na imprensa, sequer conseguiu ser recebido pelos políticos capazes de apóia-lo.

Seu espírito bem que poderia iluminar universidades, pesquisadores, empresas e governos. Agora, lucro, mesmo, no caso de sucesso na arte de fazer chover, só para os pobres camponeses do agreste nordestino. Melhor destinar-lhes verbas que raramente verão…

Chuva: bênção que os governantes transformam em tragédia: mais de 50 mortes em Petrópolis

por Marcelo Gomes

Mais de 50 assassinatos previstos por falta de serviço públicos
Mais de 50 assassinatos previstos por falta de serviço públicos

Por dois dias, Davi e José Ventura Fernandes foram incansáveis. Ignoraram os alertas de perigo dos bombeiros e procuraram a família do irmão deles, Pedro, de 45. Ele desapareceu na noite de domingo, com a mulher Cristina, de 42 anos, e os filhos, Nicolas, de 9, e Letícia, de 6, quando a casa em que viviam, na Vila São Joaquim, em Petrópolis (RJ), veio abaixo. No início da tarde desta terça-feira, José encontrou os sobrinhos. As crianças estavam presas a galhos num rio que fica a um quilômetro da residência da família. Ao longo do dia, outros nove corpos foram localizados – desde domingo, são 27 mortos.

Davi, de 48 anos, e José, de 42, usaram enxadas para revirar a lama que recobria as casas, numa área pobre do bairro Quitandinha. No fim da manhã, José e outros moradores decidiram procurar na parte baixa, do outro lado da rodovia. Ele entrou no córrego e avistou o corpo de três crianças – um menino de cerca de 13 anos, Nicolas e Letícia. Usou a enxada para liberá-los dos galhos de árvore. Emocionado, pediu para que não fizessem fotos dos sobrinhos.

“Meu irmão sofreu muito para construir a casinha dele. Carregou na mão as pedras e os tijolos, morro acima. Ele se preocupou em fazer a contenção de uma encosta próxima e fez os pilares da casa direitinho, mas não adiantou. Somos nascidos em Santa Maria Madalena (no interior do Estado) e viemos para Petrópolis há mais de 20 anos para conseguir uma vida melhor”, contou Davi, de 48 anos.

Durante todo o dia, 250 bombeiros, além de moradores e voluntários procuraram vítimas dos deslizamentos. O terreno enlameado dificultava o trabalho. “Até cães farejadores afundam na lama”, contou o secretário estadual de Defesa Civil, coronel Sérgio Simões. A estimativa era de que entre 10 e 15 pessoas estivessem soterradas pela avalanche de lama que destruiu pelo menos três casas na Vila São Joaquim. Dessas, sete eram crianças da mesma família, com idades entre 2 e 8 anos.

Portugal. Desertificação avança 317 campos de futebol por dia

O Alentejo é uma das regiões de Portugal mais ameaçadas pelo problema da seca e desertificação
O Alentejo é uma das regiões de Portugal mais ameaçadas pelo problema da seca e desertificação

Já não é uma previsão. Nos últimos 20 anos, mais de 23 mil quilômetros quadrados de terra, à razão de 317 campos de futebol por dia, ficaram suscetíveis à desertificação (“ermamento”) que já atinge 62% de Portugal.

Até no Norte, que no nosso imaginário está longe de ser um Sul “ameaçado pelo deserto do Norte de África”, a área suscetível à desertificação já representa quase 30% da superfície. No Alentejo, o problema atinge praticamente 100% do território,  e está a agravar-se com o aumento da frequência das secas.

“Por isso andamos a chamar a atenção para o que está a acontecer, porque já está a acontecer com as alterações climáticas”, exclama o presidente da Comissão Nacional de Coordenação de Combate à Desertificação, Lúcio do Rosário.

Portugal é hoje o terceiro país mais desertificado da Europa, atrás apenas da Itália e da Turquia.

Asa Branca

por Humberto Teixeira

e Luiz Gonzaga 

Quando “oiei” a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de “prantação”
Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
“Intonce” eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

“Intonce” eu disse, adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão

Quando o verde dos teus “óio”
Se “espaiar” na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

 Música vídeo legendado
Verbete Asa Branca