Dança da morte na boite Kiss. Queimou 242 pessoas vivas. Não existe lei para prender os assassinos das antigas e futuras chacinas

fogo

Boate_Kiss_2013.02.04._24

O pessoal do tráfico sempre investe na noite: bares, restaurantes, motéis (nome sofisticado para prostíbulo), boates. São esses os principais negócios que lavam o dinheiro sujo do tráfico de drogas, de pessoas, de órgãos, de tudo que não presta. Depois a compra de fazendas na fronteira seca. Certo que não estou generalizando. Mas, para esta gente do tráfico a vida humana não vale um tostão furado.

Eis a prova:

Dois anos após tragédia da Kiss, lobby emperra lei sobre segurança em boates

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Projeto determina prisão para quem descumprir as regras e enfrenta resistência de produtores culturais e donos de casas noturnas.

Fachada da boate Kiss foi limpa nesta semana para as homenagens de um ano do incêndio em Santa Maria
Fachada da boate Kiss foi limpa nesta semana para as homenagens de um ano do incêndio em Santa Maria

Dois anos após a tragédia na boate Kiss, em Santa Maria (RS), onde 242 pessoas morreram em janeiro de 2013, o Brasil ainda não tem uma lei unificada que trata especificamente da segurança em casas noturnas. A proposta que trata especificamente sobre esse tema tramita há sete anos no Congresso Nacional e ainda precisar ser aprovada pelo Senado para virar lei. O PLC 33 enfrenta o lobby contrário de produtores culturais, organizadores de festas e donos de casas noturnas em todo o Brasil, que não querem uma lei que estabeleça regras para a segurança. Resumindo: Os assassinos que torraram 242 pessoas no forno da Kiss estão todos soltos. 
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O projeto torna obrigatória a vistoria e a liberação das licenças e alvarás de funcionamento em locais com grande quantidade de pessoas e determina a publicação destes documentos na internet. Além disso, responsabiliza por crime de improbidade administrativa, gestores municipais que deixarem de regulamentar medidas de prevenção e combate à incêndio.
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Um dos pontos mais polêmicos é o que determina pena de seis meses a dois anos de prisão para os donos de casas noturnas que não realizarem obras de combate a incêndio. A proposta também proíbe a utilização das comandas em boates, prática que pode motivar a demora ou a retenção de pessoas nas casas noturnas em casos de emergência.
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No caso da boate Kiss, a demora em liberar os clientes sem o pagamento das comandas e os obstáculos colocados na porta acabaram contribuindo para o grande número de mortos.
Todas as normas da proposta são destinadas a estabelecimentos de diversões cuja frequência média seja superior à 100 pessoas por evento.
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A proposta foi apresentada em 2007 pela deputada federal Elcione Barbalho (PMDB/PA) e tramitou na Câmara durante por sete anos. Somente na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a proposta ficou parada entre maio de 2012 e janeiro de 2013. A comoção provocada pela tragédia fez com que o projeto voltasse a ser discutido e votado.
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Em abril do ano passado foi aprovado na Câmara. No Senado, foi aprovado pela Comissão de Direitos Humanos da Casa, com relatoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que levou a proposta para comissão com o objetivo de driblar a resistência dos proprietários de boates e produtores. “Existe um lobby intenso para que essa lei não vá adiante porque essa proposta não trata apenas das casas noturnas, mas também traz normas mais rígidas para espaços de shows”, revelou o senador Paim. Os maiores promotores de shows são os prefeitos e governadores, nas festas profanas e festas de santo. Vários cantores ladrões esquentam notas frias. 
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“Estou em contato direto com as famílias vítimas de Santa Maria. É um absurdo que essa proposta esteja demorando tanto para ser aprovada. É um desrespeito às famílias. O massacre em Santa Maria ocorreu há quase dois anos e não temos ainda uma legislação nacional que regulamente o funcionamento das casas noturnas”, disse o senador.
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A proposta está pronta para ser apreciada pelo plenário do Senado. A intenção do relator do projeto é que ela seja votada no retorno do processo legislativo. No final do ano passado, Paim chegou a conversar com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para que o projeto fosse apreciado no final do ano. Renan preferiu deixar a pauta para este ano. “Vou brigar para que o Renan coloque isso em pauta o quanto antes”, revelou o petista.
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Por se tratar de uma proposta de lei complementar, o projeto precisa ser aprovado no Senado sem modificações antes de seguir para sanção da presidente Dilma Rousseff (PT). Se houver modificações, precisará passar novamente pela Câmara para que essas modificações sejam apreciadas, antes de retornar para o Senado e seguir para sanção.
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Para a imprensa safada de Santa Maria a noite está segura. O Diário da Santa Maria publica hoje a seguinte manchete mentirosa: “A noite está mais segura e começa mais cedo em Santa Maria”. O jornal não pede cadeia para os assassinos.

 

Boate Kiss – Programação das homenagens
AVTSM – A Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria divulgou a sua programação religiosa em homenagem aos dois anos da Tragédia de Boate Kiss, que vitimou 242 pessoas em 27 de janeiro de 2013.

Na oportunidade, ocorrerá um Ato Ecumênico na Praça Saldanha Marinho, a partir das 18h, da próxima terça-feira. Dentre as atividades, estão previstas toques de bumbo e tarol, que serão executados 242 vezes após a leitura, em ordem alfabética, do nome de cada vítima da tragédia. Também haverá a participação da Banda de Música da Base Aérea de Santa Maria, um momento de oração e a liberação de balões ao ar simbolizando todos os jovens vitimados na tragédia.

Movimento do Luto à Luta – Já o Movimento do Luto à Luta irá prestar a sua homenagem a partir do dia 26, segunda-feira. A concentração está marcada para as 20h, na Praça Saldanha Marinho, e as homenagens irão se estender até a terça-feira. Durante o período, estão previstos os depoimentos de familiares e amigos das vítimas, e a divulgação de fotos e vídeos. A partir da meia-noite, o grupo seguirá em deslocamento até a boate onde ficará em vigília em frente ao local. A intenção do Movimento, segundo o presidente Flávio Silva, é fazer a repercussão da tragédia tocar as pessoas e não cair no esquecimento.

Roupa branca: O presidente da AVTSM, Adherbal Ferreira, solicita às pessoas que usem roupas brancas na data. A atitude serve para lembrar e prestar solidariedade aos familiares e vítimas da tragédia. Recomenda-se, também, o uso de fitas brancas nos carros e nas motocicletas.

Projeto Ahh… Muleke! realiza festa: No dia 27, a partir das 23h30min ocorre a Festa I Love Funk – White Peace no Muzeo Pub, localizado na Rua Dr. Bozano, 565. A ideia da comemoração é relembrar as 242 vítimas da tragédia. Cinquenta por centro da renda adquirida na festa será revertida para uma instituição de caridade. É obrigatória a entrada com uma peça de roupa branca.

Uma festa macabra 

Fonte: iG

Mário Quintana: Da vez primeira que me assassinaram

morte tempo relógio

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!


Seleta de Gilmar Crestani

NESTE MUNDO DE CADÁVERES

por Talis Andrade

Tiradentes_Esquartejado_(Pedro_Américo,_1893)

 
Religiões cultuam a morte

Para atrair peregrinos
cadáveres são esburgados
os ossos transformados em relíquias
Cadáveres são exibidos
em redomas de vidro
 
Cadáveres são desenterrados
e julgados
São desenterrados
e estaqueados

A multidão entontecida
pelo ódio e o vinho 
arranca os olhos
a língua o pênis
privando o morto
de uma vida idílica
no paraíso 
 



Do livro inédito O Judeu Errante

Ilustração Tiradentes Esquartejado, tela de Pedro Américo (1893) – Acervo Museu Mariano Procópio

Quanto vale um brasileiro? Nas indenizações por morte violenta, alguns trocados

O que mata mais no Brasil violento: morte matada ou morte morrida? A polícia mata, a milícia mata, o assaltante de rua mata, o trânsito mata. É um país de assassinos. Dos desaparecidos. Dos cemitérios clandestinos. Da escravidão. Dos atestados de óbito por causa desconhecida. Das 500 mil crianças prostitutas condenadas a morrer antes da maioridade. Dos filhos da rua e dos f.d.p. nos mais altos cargos dos cinco poderes: o econômico, o judiciário, o executivo, o legislativo, a imprensa.

Dou um exemplo desta semana: assassinaram três jornalistas. Que indenização vão receber as famílias dos mortos?

Sei que um brasileiro vale menos que um argentino. Eis a prova:

ar_uno.750 caminhões brasileiros

 

Tragedia en Mendoza: pagarán $700 mil por cada víctima fatal del accidente en San Martín

Se calcula que esa cifra deberán abonar los dueños del camión que protagonizó el choque que provocó 16 muertes. Sólo con los fallecidos, el monto ronda los $11 millones. Podría ser más si los sobrevivientes deciden hacer demandas.

-_accidente_ruta

Ignacio Zavala Tello
zavala.ignacio@diariouno.net.ar

Casi $11 millones deberán pagar las empresas brasileñas propietarias del camión y el semirremolque que protagonizaron la denominada “tragedia de la ruta 7” en San Martín. La cifra se calcula sólo para las víctimas fatales, pero ascendería si quienes sobrevivieron anteponen medidas judiciales.

Mientras continúan las pericias para intentar determinar si el camionero Genesio Mariano (35) realmente estaba bajo los efectos de alcohol y drogas como afirmaron varios testigos, el representante legal de las compañías brasileñas en Mendoza le confirmó a Diario UNO que deberán desembolsar unos $700 mil por víctima. Así, sólo por las 15 víctimas fatales (sin contar al camionero, que fue quien ocasionó el siniestro), la suma ascendería a los $10 millones y medio.

“El monto del pago (de las indemnizaciones), ya sea por un arreglo o por sentencia firme que se determine, a ojo experimentado, en promedio va a rondar los $700 mil por víctima. Podrá ser menos o más, dependiendo de cada caso”, especificó Alejandro Miguel Nacevich, representante legal de ACM Transportes y Toso Limitada. Ese monto incluiría los conceptos de daños moral y psicológico, y lucro cesante.

El abogado precisó que, si bien siempre se mencionó a ACM como la propietaria del camión, tanto el chofer como el tractor pertenecían a Toso. Esta empresa alquilaba el semirremolque de ACM, pero ambas serán las responsables legales en caso de que lo determine la Justicia.

Más aportes a la investigación

Según explicó Nacevich, el martes pasado, los dueños de ambas empresas brasileñas llegaron a Mendoza para ponerse a disposición del fiscal que investiga el tremendo siniestro vial.

“Nos apersonamos en la fiscalía de San Martín, adjuntamos la póliza de seguro de responsabilidad civil que les exigen a las empresas de transporte internacional por daños a terceros y vimos el vehículo siniestrado”, detalló el letrado.

De acuerdo con la versión de Nacevich, entre esos aportes también figura el informe de GPS, que echará luz sobre el recorrido que realizó Mariano entre las 15 y las 17.30, lapso en el que se genera el vacío investigativo.

De acuerdo con la información del sistema satelital, los propietarios de ACM indicaron que el enorme transporte de cargas circulaba a unos 50 kilómetros por hora y no a más de 100 como indicaron fuentes policiales tras el incidente. Nacevich indicó que la velocidad no será determinante, debido a que los efectos son los mismos. “Quedó molido. Evidentemente, despacio no iba. Además, están las imágenes de los testigos presenciales donde uno ve que el camión no iba despacio. Si iba a 50 o a 200 (km/h) lo va a determinar una pericia mecánica. De todas maneras, en la responsabilidad y en la indemnización no hace diferencia”, sentenció el abogado especializado en comercio internacional y transporte.

Respecto de la hipótesis que plantearon los empresarios brasileños de que su chofer había sido asaltado, el abogado mendocino se atajó: “No lo descarto, pero tampoco lo afirmo”.

Identifican los dos últimos cuerpos

Una semana pasó y sólo entonces los 16 fallecidos tras el siniestro vial pudieron ser identificados. Ayer se confirmó que el cadáver masculino, que no podía ser individualizado por no contar con muestras de ADN que cotejar, es del camionero brasileño y que el cuerpo femenino es de una turista norteamericana.

Genesio Mariano, el chofer oriundo de Brasil, fue identificado luego de que su medio hermano Roberto Fernandes de Jezuz (23) aportara muestras de sangre la tarde del jueves en el Cuerpo Médico Forense.

Los peritos también confirmaron que el cuerpo de mujer que faltaba reconocer es de Tyler Mooney Sabrooke, una turista norteamericana que fue reconocida visualmente por familiares que llegaron de Estados Unidos debido a que no estaba calcinada, sino que fue rescatada del micro y falleció en el hospital.

Espanha retira uma prótese de 152 euros de um jovem que não podia pagar. Isso é privatização da medicina

O Brasil marcha para a privatização da saúde, sem nenhum protesto.

Para a medicina privada, a vida depende da conta bancária. Quem tem dinheiro é atendido; quem não tem,  dança. É a dança macabra da Idade Média. A dança das caveiras.

privatizaçao saúde

Un joven de 23 años del municipio valenciano de Llíria, que fue ingresado el pasado lunes para ser intervenido de la rodilla derecha en elhospital Arnau de Vilanova de Valencia, se ha quedado sin la prótesis ortopédica que le habían colocado por no poder hacer frente a su pago, según se ha hecho eco el diario Levante.

Adrián García sufrió una caída practicando montañismo a los 14 años. Con el tiempo, su dolencia aumentó y ya apenas podía hacer ejercicio o caminar con normalidad.

“Era una operación complicada y el doctor solicitó los consejos de un cirujano francés” cuenta la familia al periódico. El martes fue operado con éxito; se despertó en el quirófano con una pieza ortopédica en la rodilla para que la pierna permaneciera recta y no hubiera movimiento que perjudicase su recuperación.Tras la operación el médico les informó que tendrían que abonar120 euros por la pieza colocada, una sorpresa que se hizo efectiva dos días después. El jueves apareció en la habitación una empleada de la empresa ortopédica requerida por el hospital y les reclamó 152 euros, comunicándoles que la Consellería -más adelante- les devolvería 122 euros.

Adrian García, afectado por el copago ortopédico
Adrian García, afectado por el copago ortopédico

Sin embargo, la familia asfixiada económicamente por una hipoteca de mensualidades que rondan los 1.200 euros, no disponía en esos momento de la liquidez para hacer frente al pago. “Le dije que no podía pagarlo. Que no tenía ese dinero porque, en realidad, en estos momentos no tengo ni para comer”, cuenta María Dolores, madre de Adrián. Después de abandonar la habitación y recibir la aprobación del médico que había realizado la operación, le fue retirada la prótesis a Adrián y sustituida por yeso.

abraça hospital 2 dez

DA VIDA E DA MORTE

por José Carreiro

 

Perante o drama da fugacidade da vida e da fatalidade da morte, Epicuro (filósofo grego, 341-270 a.C.) propõe a seguinte arte de viver:

Familiariza-te com a ideia de que a morte não nos diz respeito, pois todo o Bem e todo o Mal residem na sensação; ora a morte é a privação completa desta última. Este conhecimento exacto de que a morte não nos diz respeito tem como consequência apreciarmos melhor as alegrias que nos oferece a vida efémera (que não tem uma duração ilimitada), suprimindo o nosso desejo de imortalidade. Com efeito, deixa de sentir terror quem verdadeiramente compreende que a morte nada tem de atemorizador. (Epicuro, “Carta a Menaceu” in Dicionário Prático de Filosofia, Elisabeth Clément et alii, Ed. Terramar)

Tânatos, por Abecat
Tânatos, por Abecat

 

Não obstante certas filosofias de vida (como o epicurismo, o estoicismo ou o “carpe diemhoraciano) tentarem, talvez em vão e com esforço, construir um ideal ético da tranquilidade, o ser humano, no fundo, continua amargurado com o Tempo.

Existir é ser para a morte. Existir é ser para o nada.

A ideia da morte mantém-se obsessivamente viva. Será que constitui manifestação de masoquismo e antecipação? Será uma maneira de a exorcizarmos ou habituarmo-nos a ela? Ou talvez de tentarmos reaver os entes perdidos? Será maneira de resistir à mudança e a uma forma de existência desconhecida? Medo duma reabsorção no nada?

 

Leia mais 

Charles Baudelaire

DANÇA MACABRA

Christophe_1

a Ernest Christophe.

Vaidosa, como um vivo, da nobre estatura,

Com as luvas e o lenço e o seu bouquet tão grande,

Tem a descontracção e a desenvoltura

De uma coquette magra com ar extravagante.

Alguém já viu no baile cintura mais fina?

O esplêndido vestido, amplo e majestoso,

Cai abundantemente sobre os pés esguios

E os pompons dos sapatos, lindos como flores.

O folhinho a brincar-lhe junto às clavículas

Qual regato lascivo a esfregar-se a um rochedo,

Protege com pudor dos gracejos ridículos

Os fúnebres engodos que teima em esconder.

Os seus olhos são feitos do nada e de trevas

E o seu crânio florido, com arte penteado,

Vai oscilando inerte sobre as frágeis vértebras.

Ó charme do vazio loucamente enfeitado.

Alguns irão chamar-te uma caricatura,

Não percebendo, amantes bêbados de carne,

A elegância sem nome da humana armadura.

Esqueleto, correspondes ao meu gosto caro!

Virás tu perturbar com essa forte careta

Os festejos da Vida? ou um desejo antigo,

Que saiba esporear essa carcaça viva,

Ainda irá levar-te ao festim do Prazer?

Com a chama das velas e o som dos violinos

Queres expulsar o teu pesadelo gozão

E ainda vens pedir ao caudal das orgias

Pra refrescar o inferno do teu coração?

Inesgotável poço de erros e de asneiras!

Da mais antiga dor o eterno alambique!

Através das costelas, dessa curva grelha,

Eu vejo, errando ainda, a insaciável víbora.

A bem dizer, receio que a coqueteria

Não ache um prémio digno de tantos esforços;

Quem, das almas mortais, entende a zombaria?

Os encantos do horror só extasiam os fortes!

O abismo desse olhar, com pensamentos trágicos,

Exala uma vertigem; os foliões prudentes

Não irão contemplar sem náuseas bem amargas

O eterno sorriso dos trinta e dois dentes.

Porém, quem não estreitou nos braços um esqueleto

E nunca se nutriu dessas coisas funéreas?

O que importa o perfume, a roupa, a toilette?

Quem se mostra enojado é porque se crê belo.

Bailando sem nariz, pécora irresistível,

Diz a estes convivas com ar tão chocado:

«Apesar de empoados, vaidosos e finos,

Vocês cheiram à morte! Ó esqueletos muscados,

«Antínoos ressequidos, dandies de pele glabra,

Grisalhos sedutores, cadáveres de verniz,

O universal vaivém desta dança macabra

Puxa-vos pra lugares ainda não conhecidos!

«Dos frios cais do Sena à ardente orla do Ganges

A manada mortal pula alegre, sem ver

Num buraco do tecto a trombeta do Anjo,

Essa bênção sinistra como um arcabuz negro.

«Sob os diversos climas, sóis, a Morte admira

As tuas contorções, cómica Humanidade,

E às vezes como tu, perfumada de mirra,

Mescla a sua ironia à tua insanidade!»

 

Leia no original este poema de Baudelaire inspirado numa estatueta de Ernest Christophe.

 

AMANHÃ É OUTRO DIA

por Talis Andrade

dança da morte

Do jornalista
o trabalho cotidiano
da colheita
De tarde a notícia
De noite o trevo

O jornalista vive
como em tempo de peste
Beber divertir-se
na dança macabra
da madrugada
a dança de São Vito
É tudo aqui-e-agora
que no meio da vida
seremos surpreendidos
pela morte

O jornalista vive
o presente finito
Tudo que escreve
tem a louvação
de um dia

O jornalista vive
o instante
a emoção
do amor
de uma noite

O jornalista vive
o pressentimento
Amanhã pode ser dia de desemprego
Amanhã pode ser dia de enterro

Dança Macabra, por Frantisek Kupka
Dança Macabra, por Frantisek Kupka