Alex: Duas vezes preso pela ditadura militar

O Papa da Crônica Social

 

por Fernando Machado

 

“Eu não quero realismo. / Eu quero magia. Magia. / É isso o que eu tento dar às pessoas. / Eu transfiguro as coisas. / Eu não digo a verdade. Eu digo o que deveria ser a verdade”. É uma frase de Blanche DuBois do filme Um Bonde Chamado Desejo interpretado por Vivien Leigh que divide a telona com Marlon Brando, era um pensamento que Alex gostava de interpretar para os amigos mais íntimos. Nunca entendi o porque e agora muito menos. Alex pertencia a linhagem eruditos que encarava o jornalismo como uma máquina de emoção.

Alex de black-tie e com sua inseparável máquina de datilografia
Alex de black-tie e com sua inseparável máquina de datilografia

Pois bem, foi encerrada, hoje com a sua morte, uma das mais importantes páginas da história social pernambucana. Alex ajudou a escrever os momentos mais curiosos, mais encantadores e mais corajosos de nossa vida na sociedade. Conquistou leitores de peso como Gilberto Freyre, Nilo Pereira, Mauro Mota, Marcos Vilaça etc. Com o tempo foi relegado a um segundo plano mesmo depois de ter sido alçado como um símbolo do autentico cronista mundano. E os pernambucanos passaram a reverenciá-lo como um símbolo autentico da intelectualidade.

Alex pelo pincel de Walter Vieira
Alex pelo pincel de Walter Vieira

Alex, ou melhor José de Sousa Alencar, com s, nasceu no dia 5 de agosto de 1926, em Água Branca, Alagoas. Estreou no jornalismo no Diário de Pernambuco, no inicio dos anos 50, como critico de cinema e com o pseudônimo de Ralph. Ele era um apaixonado pela sétima arte, tanto que, em 1952, foi assistente do filme O Canto do Mar, dirigido por Alberto Cavalcanti. Em 1958 foi convocado por Esmaragdo Marroquim para o Jornal do Commercio, onde assumiu a coluna social do matutino, marcando época e criando um colunismo social moderno, onde ficou até 1997.

Alex entrevistando o ator e agora padre José Ramos (Foto Clovis Campelo)
Alex entrevistando o ator e agora padre José Ramos (Foto Clovis Campelo)

Algum tempo depois o Jornal do Commercio dispensou e foi a partir dai que aconteceu seu ocaso espiritual. Alex estava para o Jornal do Commercio como João Alberto está para o Diário de Pernambuco. Alex carregou o Jornal do Commercio durante toda crise, exigindo dos amigos que fizessem uma assinatura do jornal. E como ele tinha prestigio e fama se transformou no papa da crônica social de Pernambuco. Foi uma vitima do preconceito, principalmente na época dos trotes das universidades do Recife, era o alvo dos feras.

Nelbe Souza, Zayra Pimentel e Sonia Maria Campos (Fotos da Coluna de Alex no JC)
Nelbe Souza, Zayra Pimentel e Sonia Maria Campos (Fotos da Coluna de Alex no JC)

E num ato de rebeldia transformou, Consuelá, um travesti, num ícone das paginas sociais da região. Muitas socialites não engoliram isso. Foi um grande mestre. Em dezembro de 1972 iniciei no jornalismo com ele por indicação da jornalista Leticia Lins. Trabalhei ao seu lado e Silvio Niceas por 24 anos, com direito a um hiato de três anos quando fui trabalhar no Diário de Pernambuco. Alex foi o primeiro cronista social a entrar na Academia Pernambucana de Letras,. Foi eleito no dia 2 de julho de 1970, e empossado no dia 4 de agosto de 1970, sendo saudado pela Acadêmica Dulce Chacon na cadeira número 10 que pertencia a Cleofas Oliveira.

Fernando Machado, Muciolo Ferreira e Alex no dia que completou 87 anos (Foto Romero )
Fernando Machado, Muciolo Ferreira e Alex no dia que completou 87 anos (Foto Romero )

Escreveu cinco livros e num deles O Tempo não Retorna frisou que a solidão foi uma fera que aprendeu a domesticar. No livro Anotações do Cotidiano refletiu melhor: “Quinze anos depois eu percebo que há um pouco de charme e de pretensa literatura na confissão, mas é falsa”. Também coordenou o Miss Pernambuco de 1956 (Nelbe Souza), 1957 (Zayra Pimentel) e 1958 (Sônia Maria Campos). Foi a primeira pessoa a entrar no ar na TV Jornal do Commercio, onde apresentou por muitos anos o programa Hora do Coquetel, ao lado de uma de suas musas Violeta Botelho.

Violeta Botelho Maia a musa de Alex (Fotos Clóvis Campelo)
Violeta Botelho Maia a musa de Alex (Fotos Clóvis Campelo)

Alex teve papel importante nos bailes municipais do Recife. Foi ideia dele usar o primeiro andar do Clube Português do Recife para camarotes. Um gesto muito bonito e digno de registrar, quando Alex foi afastado do Jornal do Commercio, coube a Eduardo Monteiro ao convidá-lo para trabalhar na Folha de Pernambuco. Poderia escrever muito mais, porém a tristeza que estou passando não vai dar para dizer mais nada, apenas ratificar Alex, você foi um dos monstros sagrados no jornalismo pernambucano. E como frisava Ibrahim Sued: Sorry, periferia!

 

Transcrevi trechos do necrológio escrito por Fernando Machado. Que foi republicado no Facebook por vários jornalistas. E com os devidos comentários:

Aldira Alves Porto: Um sábado triste

Helio Garret Vasconcelos: Fez muito pelo jornal escrito

Ricardo Antunes: Morreu triste e magoado com muita gente que lhe paparicava quanto tinha poder e a coluna

Raimundo Carrero: Uma grande pena, de verdade…

Talis Andrade: Alex me confidenciou que foi preso duas vezes pelos militares. Sequestrado para informar os nomes dos jovens oficiais homossexuais, como se fosse possível um cronista social possuir a chave de todos os armários. E como castigo, por ter informado que o viúvo Castelo Branco estava noivo de uma pernambucana, tia de um jornalista que trabalhou na sucursal do JB com Ricardo Noblat, também amigo meu, e que até hoje faz parte da equipe de jornalistas de José de Souza Alencar, membro da Academia Pernambucana de Letras. Pela manhã, na redação vazia do Jornal do Comércio e Diário da Noite, encontrei Alex várias vezes. Ele ia redigir suas críticas de cinema e teatro; eu, para fechar o Diário da Noite, e pela amizade com as revisoras – na época, final dos anos 50, a única presença feminina na imprensa pernambucana, totalmente machista. Alex terminou fazendo apenas crônica social, e escrevendo sobre comportamento e costumes. Foi humilhantemente encostado pela atual direção do Jornal do Comércio. Eu, quando diretor responsável do JC, tive a honra de colocar na Carteira de Trabalho dele a promoção de repórter para redator.

Raimundo Carrero: Muito bom texto, Talis…

Gilvandro Filho: Morre Alex

Alexandra Torres: Que ele tenha um bom regresso à Pátria Maior. Deus o abençoe.

Ana Aragao: O fim de uma era

Liborio Melo: Trabalhei anos com ele, no Jornal do Commercio. Figura humana única.

Sergio Moury Fernandes: Grande figura humana. Descanse em paz

alex foca

Ivan Maurício: O repórter policial José de Souza Alencar, o Alex, no começo de sua carreira, fazendo um “bico” no “Diario de Pernambuco” (foto).

Alex é alagoano de Água Branca e seu primeiro emprego em Pernambuco foi na Prefeitura do Recife nomeado por Miguel Arraes.

Alex também foi crítico de cinema no “Jornal do Commercio”, com o pseudônimo de Ralph, e ganhou notoriedade como cronista social.

Como escritor foi integrante da Academia Pernambucana de Letras.

Foi, arbitraria e injustamente, preso durante o regime militar.

Tenho em meu poder (só não consegui encontrar agora) a entrevista de Alex ao “Jornal da Cidade” onde ele relata em detalhes sua prisão pelo DOI-CODI. Na época, ele pediu para que não publicássemos pois ainda vivia atormentado com a violência que sofreu.

Assim que achar este texto publicarei aqui no Facebook.

Fica a minha homenagem a esse companheiro que muito dignificou a profissão de jornalista. Culto, preparado e íntegro.

Viva Alex!!!