Menina de 12 anos, que vivia nas ruas, pergunta ao Papa: – “Por que é que Deus permite estas coisas?”

Perante uma plateia de 30 mil jovens numa universidade de Manila, antes da missa no parque Rizal, Francisco pediu-lhes compaixão pelo sofrimento das crianças da rua, vítimas da prostituição e da droga.

Glyzelle Aries Palomar, 12 anos, que foi salva das ruas por uma associação humanitária desfez-se em lágrimas quando falou com o Papa e lhe perguntou “por que é que Deus permite estas coisas? E por que é que há tão poucas pessoas a ajudar”. A resposta foi dada em forma de um abraço sentido que marcou um dos pontos mais emocionantes da viagem de Francisco. O apelo veio a seguir: “O mundo tem que chorar pelas crianças que se drogam e que que se prostituem. Se nós não aprendermos a chorar, nunca poderemos ser bons cristãos”. Não basta, disse Francisco, a existência de uma “compaixão mundana” que faz com que “muitos se limitem a levar a mão ao bolso para dar uma moedinha”.

O abraço de Francisco à jovem Glyzelle GIUSEPPE CACACE:AFP
O abraço de Francisco à jovem Glyzelle GIUSEPPE CACACE/ AFP
Papa com os jovens em Manila - REUTERS
Papa com os jovens em Manila – REUTERS

Muito animado o encontro com os milhares de jovens, em que o Papa Francisco pôs de lado o discurso que tinha preparado em inglês e improvisou em espanhol, respondendo às perguntas que três deles lhe dirigiram. Antes de mais a jovenzinha Shon que, chorando quis saber “porque é que as crianças sofrem”.

Antes de responder a esta pergunta, o Papa aproveitou para realçar essa pequena representação das mulheres, poucas – disse – chamando a atenção para o machismo que muitas vezes não deixa lugar às mulheres que, no entanto, têm um olhar diferente dos homens sobre a realidade.

“Assim, quando vier o próximo Papa que haja mais mulheres” – disse, suscitando aplausos dos presentes.

O Papa colheu o fato de Shon ter feito essa pergunta chorando para dizer que ao mundo de hoje falta a capacidade de chorar, falta sobretudo aos que levam uma vida folgada. Mas certas realidades da vida só podem ser vistas como olhos lavados pelas lágrimas – disse.

A pergunta de Shon quase que não tem resposta, mas lança um desafio – frisou o Papa – lançando, por sua vez, uma pergunta aos jovens: “Eu aprendi a chorar?” perante os sofrimentos do mundo (fome, droga, crianças abandonadas, abusos, escravatura) “ou o meu pranto é um pranto caprichoso só para ter algo mais?”.

“Aprendamos a chorar” – exortou o Papa aos jovens, recordando que também Jesus chorou em diversas ocasiões. “Se não aprendeis a chorar não sois bons cristãos”.

E à pergunta “porque as crianças sofrem” o Papa convidou a responder com o silêncio.

“Que a nossa resposta seja o silêncio ou a palavra que nasce das lágrimas. Sêde valentes, não tenhais medo de chorar” .

Por sua vez, o jovem Leandro Santos, fazendo notar que vivemos num mundo, onde abunda a informação, perguntou se isto é um mal. “Não” – respondeu o Santo Padre, sublinhando que o importante é saber o que fazer dessa informação e não correr o risco de ser “jovens museus” que só acumulam informação, mas não saber o que fazer dela. É preciso ser, pelo contrário, “jovens sábios” . E como ser sábios? – perguntou o Papa, respondendo que este é outro desafio, o desafio do amor. “Aprender a amar” e “através do amor fazer com que a informação seja fecunda”.

Para isso o Evangelho nos propõe um caminho tranquilo baseado em três elementos, harmoniosamente articulados: a linguagem da mente, do coração e das mãos, ou seja, pensar, sentir, realizar – frisou o Papa convidando os jovens a repetir em voz alta as três linguagens … E depois disse:

“O verdadeiro amor é amar e deixar-se amar. É mais difícil deixar-se amar do que amar.

Podemos amar a Deus, mas o mais importante é deixar-se amar por Ele: “O verdadeiro amor é abrir-se a esse amor primordial e que nos provoca surpresa.”

Se estivermos sempre concentrados no computador que parece ter respostas para tudo, não nos abrimos a essa surpresa, porque isso supõe um diálogo a dois: entre quem ama e quem é amado – afirmou o Papa, exortando:

“Deixemo-nos surpreender por Deus. E não tenhamos a psicologia do computador de querer saber tudo”.

E dando o exemplo de São Mateus que se deixou surpreender e convencer pelo amor de Jesus, acabando por segui-Lo, o Papa exclamou: “Deixa-te surpreender por Deus. Não tenhas medo das surpresas que movem o chão debaixo dos teus pés, que te fazem sentir inseguro, mas que nos põem a caminho. O verdadeiro amor leva a queimar a vida, embora com o risco de ficar com as mãos vazias” – disse mencionando São Francisco de Assis que deixou tudo e morreu de mãos vazias, mas de coração cheio.

“De acordo? Não jovens de museu, mas jovens sábios. Para ser sábios usar as três linguagens: pensar bem, sentir bem e fazer bem, e deixar-se surpreender pelo amor de Deus e andar e queimar a vida”.

Finalmente a terceira pergunta colocada pelo jovem Riqui que ilustrou ao Papa as actividades que ele e o seu grupo levam avante.

O Papa apreciou esse serviço aos outros mas desafiou-os imediatamente a pensarem se se deixam que os pobres lhes dêem a riqueza que eles também têm, se se deixam evangelizar pelos pobres

A este respeito evocou a leitura do Evangelho que tinham feito pouco antes e que mostra que o que nos falta muitas vezes é “aprender a mendigar daqueles a quem damos”, “aprender a receber da humildade daqueles a quem ajudamos. As pessoas a quem ajudamos, pobres enfermos, órfãos têm muito para nos dar. Mas me faço mendigo e peço também isto, ou sou suficiente e vou só dar” .

“Vos que viveis dando sempre e pensais que não tendes necessidade de nada, sabeis que sois um pobre tipo, sabeis que tendes muita pobreza e precisais que te (vos) dêem?

E perguntando mais uma vez aos jovens se se deixam amar por aqueles a quem ajudam, o Papa rematou:

“É isto que ajuda a amadurecer jovens comprometidos como Riqui no trabalho de dar, aprender a estender a mão a partir da própria miséria”.

Aprender a amar e a deixar-se amar. E o Papa concluiu referindo, em inglês, a um aspecto que tinha previsto no seu texto escrito: o desafio da integridade. Recordando que os bispos das Filipinas declararam 2015 “Ano do Pobre” convidou ao amor aos pobres, sempre interrogando os jovens se pensam nos pobres, se lhes pedem que lhes transmitam a sua sabedoria, se se deixam evangelizar pelos pobres…e por fim pediu desculpas por não ter lido o discurso que tinha preparado, mas disse sentir-se consolado pelo facto que “a realidade é superior à ideia” e a realidade que vocês apresentaram e a vossas realidade é superior a todas as respostas que eu tinha preparado. Obrigado!”

“Onde está Jesus os irmãos amam-se, as pessoas comprometem-se para salvaguardar a sua vida e a sua saúde, respeitando também o meio ambiente e a natureza”

 Alfredo Sábat
Alfredo Sábat

FRASES DO PAPA FRANCISCO

 

* Quando se vive preso ao dinheiro, ao orgulho ou ao poder, é impossível ser feliz.

* O grande risco do mundo actual é a tristeza individualista, que brota do coração mesquinho.

* Deus ama quem dá com alegria. Aprendamos a dar com generosidade, desapegados dos bens materiais.

* A Igreja é, por sua natureza, missionária: existe para que todo o homem e toda a mulher possa encontrar Jesus.

* Queridos jovens, não vos deixeis cair na mediocridade; a vida cristã está feita para grandes ideais.

 

abc.750 Francisco meio ambiente

Acolher Jesus dentro de nós significa ter a coragem de dizer não a qualquer forma de corrupção, ilegalidade, mal e violência. Eis quanto disse o Papa Francisco aos fiéis de Caserta durante a missa celebrada na tarde de sábado, 26 de Julho, na praça Carlos III.

«Quem se torna amigo de Deus, ama os irmãos, compromete-se para salvaguardar a sua vida e a sua saúde, respeitando o meio ambiente e a natureza – disse o Pontífice. Sei que vós sofreis por causa disto. Hoje, quando cheguei, um de vós aproximou-se e disse-me: Padre, dê-nos a esperança. Mas eu não posso dar-vos a esperança, eu posso dizer-vos que onde está Jesus ali está a esperança; onde está Jesus os irmãos amam-se, as pessoas comprometem-se para salvaguardar a sua vida e a sua saúde, respeitando também o meio ambiente e a natureza. Esta é a esperança que nunca desilude, a que nos dá Jesus! Isto é particularmente importante nesta vossa bonita terra que deve ser tutelada e preservada, exige a coragem de dizer não a qualquer forma de corrupção e de ilegalidade».

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO AOS PARTICIPANTES NO «DIÁLOGO MÉXICO-SANTA SÉ SOBRE A MOBILIDADE HUMANA E DESENVOLVIMENTO»

emigrante negro indignados

Desejo transmitir a minha saudação aos organizadores, aos relatores e aos participantes no «Diálogo entre o México e a Santa Sé sobre a mobilidade humana e o desenvolvimento».

A globalização é um fenómeno que nos interpela, especialmente numa das suas principais manifestações que é a emigração. Trata-se de um dos «sinais» deste tempo em que vivemos e que nos leva às palavras de Jesus: «Como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente?» ( Lc 12, 56). Não obstante o grande fluxo de migrantes presente em todos os Continentes e em quase todos os países, a migração ainda é vista como emergência, ou como um dado circunstancial e esporádico, enquanto já se tornou um elemento característico e um desafio das nossas sociedades. Trata-se de um fenómeno que acarreta consigo grandes promessas, juntamente com múltiplos desafios. Muitas pessoas obrigadas à emigração sofrem e, com frequência, morrem tragicamente; muitos dos seus direitos são violados, elas são forçadas a separar-se das próprias famílias e infelizmente continuam a ser objecto de atitudes racistas e xenófobas.

Perante esta situação, repito aquilo que tive a oportunidade de afirmar na Mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado no corrente ano: «É preciso que todos mudem a atitude em relação aos migrantes e refugiados; é necessário passar de uma atitude de defesa e de medo, de desinteresse ou de marginalização — que, no final, corresponde precisamente à “cultura do descartável” — para uma atitude que tem como base a “cultura do encontro”, a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor».

Além disso, desejo veementemente chamar a atenção para as dezenas de milhares de crianças que emigram sozinhas, desacompanhadas, para fugir da pobreza e da violência: esta é uma categoria de migrantes que, da América Central e do México, atravessam a fronteira com os Estados Unidos da América em condições extremas, em busca de uma esperança que a maior parte das vezes é vã. O seu número aumenta cada dia mais. Tal emergência humanitária exige, como primeira intervenção urgente, que estes menores sejam recebidos e protegidos. No entanto, tais medidas não serão suficientes, se não forem acompanhadas por políticas de informação a respeito dos perigos de tal viagem e, principalmente, de promoção do desenvolvimento nos seus respectivos países de origem. Enfim, diante deste desafio é necessário voltar a chamar a atenção de toda a Comunidade internacional, a fim de que se possam seguir novas formas de migração legal e segura.

economic.750 emigrante Europa

In Brazil, it is estimated that 500,000 children roam the streets as prostitutes

child prostitue

 

In Brazil, it is estimated that 500,000 children roam the streets as prostitutes, selling their bodies in order to provide for themselves.1 Pressured into this position by physical abuse, economic need, or simply because it is their best option for survival, these children sell themselves to sexual exploitation for only a few dollars. Long viewed for its sexually liberal reputation, Brazil has been a popular a destination for sexual tourism. With the growing anticipation of the upcoming World Cup and Olympic Games, the issue of child prostitution has been put in the spotlight by both the Brazilian government and civil society groups as a pressing issue that cannot be ignored.

In June, Brazil expects to host over 600,000 foreigners with the arrival of the World Cup.2 However, many fear that among these tourists will be some looking for more than the thrill of the game; those seeking the thrill of spending a night with a young Brazilian. As the global gaze turns toward Brazil for this upcoming sporting event, the country has also come under scrutiny for its laws and practices regarding prostitution and the sexual exploitation of children. Although prostitution is legal there, the issue of illegal child prostitution continues to grow. 

Girls kidnapped by drug gangs and sold as sex slaves to cash in on the 2014 FIFA World Cup

 

Poliana, 14, is one of hundreds of children exploited by sex traffickers in the huge construction boom around the 2014 FIFA World Cup in Brazil. Picture: Jota Roxo Source: Supplied
Poliana, 14, is one of hundreds of children exploited by sex traffickers in the huge construction boom around the 2014 FIFA World Cup in Brazil. Picture: Jota Roxo Source: Supplied

(…)Child sex gangs trekked to some of Brazil’s poorest villages where they snatched or bought young girls from their families.
As local anti-child prostitution campaigner Matt Roper first reported in the Sunday Mirror, he has been told a sinister account of traffickers and the Russian mafia bringing in girls from around Brazil and even from Africa to work as sex slaves.
Roper told news.com.au when he travelled to Sao Paulo to personally investigate Sao Paulo’s child prostitutes he learned police had largely ignored the scandal which was going on “in broad daylight”.
Roper runs Meninadanca and the Pink House, a charity and safe house which takes child prostitutes off Brazil’s “highway of hell”, the country’s main roadway where young girls prostitute themselves.
Drug syndicates were reportedly bringing in bus-loads of children to work as prostitutes among the city’s 11.3 million population.

Os discursos do Papa na Terra Santa

Raúl Arias
Raúl Arias

 

O Papa pediu hoje “perdão” pelas divisões que existem entre cristãos e pediu um compromisso de todos para chegar à “plena comunhão”, evocando no Vaticano os gestos ecuménicos da sua recente viagem à Terra Santa.

“Mais uma vez, como fizeram os Papas precedentes, eu peço perdão por tudo aquilo que fizemos para favorecer esta divisão”, declarou Francisco, perante dezenas de milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro para a audiência pública semanal.

“Peço ao Espírito Santo que nos ajude a curar as feridas que provocamos nos outros irmãos. Todos somos irmãos em Cristo”, acrescentou, recordando o encontro com o patriarca ecuménico de Constantinopla (Igreja Ortodoxa), Bartolomeu, na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém.

A inédita oração ecuménica, que decorreu no domingo, contou com a presença do patriarca greco-ortodoxo, Teófilo III, e do patriarca arménio apostólico, Nourhan, para além de arcebispos e bispos de outras Igrejas.

“Naquele lugar, onde ressoou o anúncio da ressurreição, sentimos toda a amargura e o sofrimento das divisões que ainda existem entre os discípulos de Cristo”, observou o Papa.

“Isto faz verdadeiramente muito mal, mal ao coração, ainda estamos divididos”, prosseguiu.

Francisco afirmou ainda que na celebração marcada pela “recíproca fraternidade, estima e afeto”, todos sentiram “a voz” de Jesus que “quer fazer de todas as suas ovelhas um só rebanho”.

“Sentimos o desejo de curar as feridas ainda abertas e de prosseguir com tenacidade o caminho para a plena comunhão”, declarou.

O Papa retomou algumas das questões abordadas na declaração conjunta que assinou com o patriarca Bartolomeu e apelou a fazer “tudo o que é possível fazer” para que os cristãos caminhem juntos.

“Rezar juntos, trabalhar em conjunto pelo rebanho de Deus, a paz, cuidar da criação, tantas coisas que temos em comum. Como irmãos, devemos ir em frente”, precisou.

Francisco realçou que a sua peregrinação à Terra Santa, entre sábado e segunda-feira, quis assinalar o 50.º aniversário do “histórico encontro” entre o Papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras, de Constantinopla, que classificou como um “gesto profético”.

“Por isso, o meu encontro com sua santidade Bartolomeu, amado irmão em Cristo, representou o momento culminante da visita”, sustentou.

O Papa disse que esta viagem, com passagens por Amã, Belém, Jerusalém e Telavive, foi um “grande dom para a Igreja”.

 

– Como artesãos pacientes – na missa em Aman o convite do Papa a ser artífices de paz

A paz não se pode comprar, não está à venda. A paz é um dom que se deve buscar pacientemente e construir «artesanalmente» através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária. Consolida-se o caminho da paz, se reconhecermos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do género humano; se não nos esquecermos que temos um único Pai no Céu e que todos nós somos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança.

 

– Por detrás dos mercadores de armas – um novo apelo a favor da Síria durante o encontro com os jovens refugiados e deficientes

Todos queremos a paz! Mas, vendo este drama da guerra, vendo estas feridas, vendo tantas pessoas que deixaram a sua pátria, que foram forçadas a partir, eu pergunto-me: quem vende as armas a esta gente para fazer a guerra? Eis aqui a raiz do mal! O ódio e a avidez do dinheiro, no fabrico e na venda das armas. Isto deve-nos fazer pensar em quem está por detrás, que fornece, a todos aqueles que estão em conflito, as armas para continuar o conflito! Pensamos e, do fundo do nosso coração, dizemos também uma palavra a esta pobre gente criminosa: que se converta.

 

– Chegou a hora da coragem – ao chegar a Belém o Pontífice convidou a gestos generosos e criativos para pôr fim ao conflito

Há decénios que o Médio Oriente vive as consequências dramáticas do prolongamento de um conflito que produziu tantas feridas difíceis de curar e, mesmo quando, felizmente, não se alastra a violência, a incerteza da situação e a falta de entendimento entre as partes produzem insegurança, negação de direitos, isolamento e saída de comunidades inteiras, divisões, carências e sofrimentos de todo o tipo.

 

– A violência não se vence com a violência – com as crianças no campo prófugos de Dheisheh

Nunca deixeis que o passado vos determine a vida. Olhai sempre para diante. Trabalhai e lutai para conseguir as coisas que vós quereis. Mas estai certos de uma coisa! A violência não se vence com a violência. A violência vence-se com a paz; com a paz, com o trabalho, com a dignidade de fazer progredir a pátria.

 

O sinal da criança – a homilia da missa celebrada na praça da Manjedoura em Belém

Infelizmente, neste mundo que desenvolveu as tecnologias mais sofisticadas, ainda há tantas crianças em condições desumanas, que vivem à margem da sociedade, nas periferias das grandes cidades ou nas zonas rurais. Ainda hoje há tantas crianças exploradas, maltratadas, escravizadas, vítimas de violência e de tráficos ilícitos. Demasiadas são hoje as crianças exiladas, refugiadas, por vezes afundadas nos mares, especialmente nas águas do Mediterrâneo. De tudo isto nos envergonhamos hoje diante de Deus, Deus que Se fez Menino.

Quem somos nós diante das crianças de hoje? Somos como Maria e José que acolhem Jesus e cuidam d’Ele com amor maternal e paternal? Ou somos como Herodes, que quer eliminá-Lo? Somos como os pastores, que se apressam a adorá-Lo prostrando-se diante d’Ele e oferecendo-Lhe os seus presentes humildes? Ou então ficamos indiferentes? Por acaso limitamo-nos à retórica e ao pietismo, sendo pessoas que exploram as imagens das crianças pobres para fins de lucro? Somos capazes de permanecer junto delas, de «perder tempo» com elas? Sabemos ouvi-las, defendê-las, rezar por elas e com elas? Ou negligenciamo-las, preferindo ocupar-nos dos nossos interesses?

 

Na minha casa de paz – o Papa Francisco convidou os presidentes palestinianos e israelianos a um encontro de oração no Vaticano

Todos desejamos a paz; tantas pessoas a constroem dia a dia com pequenos gestos; muitos sofrem e suportam pacientemente a fadiga de tantas tentativas para a construir. E todos – especialmente aqueles que estão colocados ao serviço do seu próprio povo – temos o dever de nos fazer instrumentos e construtores de paz, antes de mais nada na oração.

Construir a paz é difícil, mas viver sem paz é um tormento.

 

Do sonho para a realidade – ao chegar a Israel o Pontífice repropôs o convite a rezar pela paz e relançou a solução dos dois Estados

Venho peregrino à distância de cinquenta anos da histórica viagem do Papa Paulo VI.

Jerusalém significa «cidade da paz». Assim Deus a quer e assim todos os homens de boa vontade desejam que seja. Mas, infelizmente, esta cidade é ainda atormentada pelas consequências de longos conflitos. Todos nós sabemos quão urgente e necessária seja a paz, não só para Israel, mas também para toda a região.

 

A pedra removida do sepulcro – o Papa Francisco na celebração ecuménica em recordação do encontro entre Paulo VI e Atenágoras

Detenhamo-nos em devoto recolhimento junto do sepulcro vazio, para redescobrir a grandeza da nossa vocação cristã: somos homens e mulheres de ressurreição, não de morte. Aprendamos, a partir deste lugar, a viver a nossa vida, as angústias das nossas Igrejas e do mundo inteiro, à luz da manhã de Páscoa. Cada ferida, cada sofrimento, cada tribulação foram carregados sobre os próprios ombros do Bom Pastor, que Se ofereceu a Si mesmo e, com o seu sacrifício, abriu-nos a passagem para a vida eterna. As suas chagas abertas são como que a passagem através da qual se derrama sobre o mundo a torrente da sua misericórdia. Não nos deixemos roubar o fundamento da nossa esperança, que é precisamente este: Christòs anesti! Não privemos o mundo do feliz anúncio da Ressurreição! E não sejamos surdos ao forte apelo à unidade que ressoa, precisamente deste lugar, nas palavras d’Aquele que, já Ressuscitado, chama a todos nós «os meus irmãos» (cf. Mt 28, 10; Jo 20, 17).

Enquanto como peregrinos fazemos uma pausa nestes Lugares santos, a nossa recordação orante vai para a região inteira do Médio Oriente, tantas vezes marcada, infelizmente, por violências e conflitos. E não esquecemos, na nossa oração, muitos outros homens e mulheres que sofrem, em várias partes do mundo, por causa da guerra, da pobreza, da fome; bem como os inúmeros cristãos perseguidos pela sua fé no Senhor Ressuscitado. Quando cristãos de diferentes confissões se encontram a sofrer juntos, uns ao lado dos outros, e a prestar ajuda uns aos outros com caridade fraterna, realiza-se o ecumenismo do sofrimento, realiza-se o ecumenismo do sangue, que possui uma eficácia particular não só para os contextos onde o mesmo tem lugar, mas, em virtude da comunhão dos santos, também para toda a Igreja. Aqueles que matam por ódio à fé, que perseguem os cristãos, não lhes perguntam se são ortodoxos ou se são católicos: são cristãos. O sangue cristão é o mesmo.

 

Ninguém instrumentalize o nome de Deus – o apelo durante a visita ao grã-mufti de Jerusalém

desejei ardentemente vir como peregrino visitar os lugares que viram a presença terrena de Jesus Cristo. Mas esta minha peregrinação não seria completa, se não contemplasse também o encontro com as pessoas e as comunidades que vivem nesta Terra e, por isso, sinto-me particularmente feliz por me encontrar convosco, fiéis muçulmanos, irmãos amados.

Neste momento, o meu pensamento volta-se para a figura de Abraão, que viveu como peregrino nestas terras. Embora cada qual a seu modo, muçulmanos, cristãos e judeus reconhecem em Abraão um pai na fé e um grande exemplo a imitar. Ele fez-se peregrino, deixando o seu povo e a própria casa, para empreender aquela aventura espiritual a que Deus o chamava.

Um peregrino é uma pessoa que se faz pobre, que se põe a caminho, propende para uma grande e suspirada meta, vive da esperança duma promessa recebida (cf. Heb 11, 8-19). Esta foi a condição de Abraão, esta deveria ser também a nossa disposição espiritual. Não podemos jamais considerar-nos auto-suficientes, senhores da nossa vida; não podemos limitar-nos a ficar fechados, seguros nas nossas convicções. Diante do mistério de Deus, somos todos pobres, sentimos que devemos estar sempre prontos para sair de nós mesmos, dóceis à chamada que Deus nos dirige, abertos ao futuro que Ele quer construir para nós.

 

Nunca mais – no Yad Vashem a invocação do Papa

Homem, quem és? Já não te reconheço.
Quem és, ó homem? Quem te tornaste?
De que horrores foste capaz?
Que foi que te fez cair tão baixo?

 

– Juntos contra qualquer discriminação – aos grão-rabinos de Israel

Somos chamados, como cristãos e como judeus, a interrogarmo-nos em profundidade sobre o significado espiritual do vínculo que nos une. É um vínculo que vem do Alto, ultrapassa a nossa vontade e permanece íntegro, não obstante todas as dificuldades de relacionamento vividas, infelizmente, na história.- A paz exige o respeito de todos – ao presidente Peres o Papa renovou o apelo a superar controvérsias e conflitos

 

Papa Francisco: «Quando vemos as crianças sofrer é uma ferida no coração. É o mistério do mal»

Na audiência geral o Papa fala do mistério do sofrimento e da morte dos inocentes

Humildade de uma vitória

«Quando vemos as crianças sofrer é uma ferida no coração. É o mistério do mal». Mas Jesus assume sobre si este mal, este sofrimento e leva-o para a cruz da redenção até à glória da ressurreição. No coração da semana santa o Papa Francisco repropos-nos assim o mistério do sofrimento, sobretudo do sofrimento dos inocentes. E depois explicou-o com a vitória de Jesus sobre a morte.

Jesus, disse, escolheu para si o caminho da humilhação e do despojamento e percorreu-o «até ao fim». E olhando para Jesus na sua paixão, acrescentou o Pontífice, é como se víssemos «num espelho também os sofrimentos de toda a humanidade». Mas é precisamente nesta imagem reflectida que «encontramos a resposta divina ao mistério do sofrimento», um mistério «desconcertante», o mistério «da grande humildade de Deus».

É sobre isto que se deve reflectir nesta semana, sugeriu o bispo de Roma, na certeza de que cada um de nós pode dizer «isto é para mim». Mesmo que tivesse sido a única pessoa no mundo – esclareceu – tê-lo-ia feito», teria assumido todo o sofrimento. Eis por que «nesta semana nos fará bem a todos – sugeriu – olhar para o crucificado, beijar as chagas de Jesus» e dizer «obrigado Jesus por mim». Obrigado porque «quando tudo parece ter acabado, quando já não há ninguém então intervém Deus com o poder da ressurreição».

Mas, focalizou o Santo Padre, a ressurreição de Jesus «não é o final de uma linda fábula, não é o happy end de um filme, mas é a intervenção de Deus». Assim «quando em certos momentos da vida não encontramos nenhuma via de saída para as nossas dificuldades» e caímos na escuridão mais densa, chegou o momento no qual «experimentamos que somos frágeis e pecadores». Naquele momento, disse o Papa Francisco concluindo, «não devemos mascarar a nossa falência» mas abrir-nos confiantes à esperança de Deus».

“… a meio da Semana Santa a liturgia apresenta-nos aquele episódio triste do relato da traição de Judas, que vai ter com os chefes do Sinédrio para mercadar e entregar-lhes o seu Mestre. Quanto me dais se eu o Entrego? E Jesus passa a ter um preço. Este ato dramático marca o início da Paixão de Cristo, um percurso doloroso que Ele escolhe com absoluta liberdade. Di-Lo claramente Ele próprio: “Eu dou a minha vida…”
Nestes dias, vemos Jesus percorrer, de livre vontade, o caminho da humilhação e do despojamento – afirmou o Papa Francisco – o caminho que atinge o ponto mais profundo na morte de cruz: morre como um derrotado, um falido! Mas, aceitando esta falência por amor, supera-a e vence-a.
“A sua paixão não é um incidente; a sua morte – aquela morte – estava escrita. Trata-se de um mistério desconcertante, mas conhecemos o segredo deste mistério, desta extraordinária humildade: “Deus efetivamente amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigénito.”
Se, depois de todo o bem que realizara, não tivesse existido esta morte tão humilhante, Jesus não teria mostrado a medida total do seu amor – observou o Papa. A falência histórica de Jesus e as frustrações de muitas esperanças humanas são a estrada mestra, por onde Deus realiza a nossa salvação. É uma estrada que não coincide com os critérios humanos; pelo contrário, inverte-os, pois pelas suas chagas fomos curados. Quando tudo parece perdido, é então que Deus intervém com a força da ressurreição.
“A ressurreição de Jesus não é o final feliz de uma linda fábula ou de um filme, mas a intervenção de Deus Pai, quando já toda a esperança humana se tinha desmoronado.”
Também nós somos chamados a seguir Jesus por este caminho de humilhação – continuou o Santo Padre. Quando nos sentimos mergulhados na mais densa escuridão e não vemos qualquer via de saída para as nossas dificuldades, então esse é o momento da nossa humilhação e despojamento total, é a hora em que experimentamos como somos frágeis e pecadores. E nesse momento devemos abrir-nos à esperança tal como fez Jesus – advertiu o Papa Francisco que concluiu a sua catequese exortando todos para a contemplação do Mistério da Cruz:
“Esta semana vai-nos fazer bem pegar no crucifixo e beija-lo tantas vezes e dizer obrigado Jesus, obrigado Senhor. Assim seja.”
No final da audiência o Santo Padre saudou também os peregrinos de língua portuguesa:
“De coração saúdo todos os peregrinos de língua portuguesa, com menção particular do Colégio Nossa Senhora da Assunção. Tomai como amiga e modelo de vida a Virgem Maria, que permaneceu ao pé da cruz de Jesus, amando, também Ela, até ao fim. E quem ama passa da morte à vida. É o amor que faz a Páscoa. A todos vós e aos vossos entes queridos, desejo uma serena e santa Páscoa.”

 

 

 

 

Enterrado pela segunda vez o menino Bernardo Boldrine, assassinado pelo pai médico e a madrasta enfermeira

Após ser homenageado em Três Passos, no Noroeste do Rio Grande do Sul, município onde morava, e em Santa Maria, na Região Central do estado, cidade da família materna, o corpo do menino Bernardo Uglione Boldrini, de 11 anos, foi sepultado na manhã desta quarta-feira (16). O enterro ocorreu por volta das 10h30 no Cemitério Municipal de Santa Maria, no mesmo jazigo da mãe, Odelaine, que teria cometido suicídio em fevereiro de 2010, aos 30 anos.

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Nos semblantes dos que acompanhavam o enterro de Bernardo, indignação e incredulidade. “Não tem explicação”, muitos diziam. Uma oração seguida de abraços foi solicitada aos que acompanhavam o enterro. Amigos, professoras e colegas do colégio Ipiranga, de Três Passos, trouxeram faixas e flores para homenagear Bernardo.

Avó de Bernardo no sepultamento do neto. Foto: Deivid Dutra/A Razão
Avó de Bernardo no sepultamento do neto. Foto: Deivid Dutra/A Razão

A avó, Jussara Uglione, pediu que não a deixassem sozinha. Jussara também agradeceu a todos o carinho prestado a ela e a Bernardo. “Isso não pode ficar impune”, reforçou a avó materna. Centenas de pessoas acompanharam o enterro do menino, natural de Santa Maria.

O corpo da criança foi encontrado na segunda-feira (14) enterrado em uma cova feita em um matagal da cidade de Frederico Westphalen, no Norte do Rio Grande do Sul. Segundo o atestado de óbito, a morte ocorreu no dia 4 de abril, de “forma violenta”.

Desde que ficou órfão da mãe, Bernardo morava com o pai, o médico cirurgião Leandro Boldrini, e a madrasta, Graciele Ugolini Boldrini. O casal, que tem uma filha de 1 ano, foi preso preventivamente junto com a amiga Edelvania Wirganovicz, que também teve participação no crime. Os três estão detidos em local não revelado pela polícia, por medida de segurança. Segundo a polícia, a mãe do menino cometeu suicídio com um tiro na cabeça no consultório onde o ex-marido, pai do garoto, trabalhava na época. (Fonte G1)

Zero Hora – A sua filha cometeu suicídio em 2010?
Jussara – Não, não acredito que ela tenha feito isso. Até hoje tenho suspeitas de que ela foi assassinada.

Logo após a morte da única filha, em 2010, a aposentada Jussara Uglione, 73 anos, moradora de Santa Maria, entrou com uma ação na Justiça para ter o direito de visitar o único neto. Segundo ela, o pai do garoto e marido de sua filha, não só negava o contato como a ofendia.

Zero Hora – A senhora tinha contatos com o seu neto frequentemente?
Jussara – Tentei várias vezes me aproximar dele, os meus advogados têm comprovantes de que fui impedida disso desde a morte da minha filha (em 2010).

Jussara e o neto
Jussara e o neto

Fui impedida de vê-lo por 4 anos, me chamavam de velha doente, falavam que eu tinha problemas e que não teria condições de cuidá-lo. Eu tenho uma ótima situação financeira, tenho o nome limpo. Temos 73 anos de firma (revenda de veículos Uglione, em Santa Maria), somos honrados e honestos.

Jussara afirma que enquanto Leandro estava casado com sua filha, ele tinha Graciele Ugulini, 32 anos, como amante. “Tenho certeza que eles estavam juntos antes”, desabafa.

Graciele Ugulini, a madrasta
Graciele Ugulini, a madrasta

Sobre Bernardo, a avó aponta casos de maus-tratos contra o garoto, o que soube pelo próprio neto e por outras pessoas. “Ele não tinha chave de casa e precisava esperar sentado na calçada até que o pai chegasse. Ficava lá, com fome. Isso não se faz”, conta. Jussara relata ainda que Bernardo procurou auxílio jurídico pelo tratamento que recebia em casa. Em informações para a imprensa, a promotora da Infância e Juventude de Três Passos, Dinamárcia Maciel de Oliveira, cuidou do caso de suposta negligência entre novembro de 2013 e janeiro deste ano. (Fonte A Razão)

Relatos de vizinhos e amigos dão conta que Bernardo se dizia carente de atenção. Ele mesmo chegou a procurar a Justiça para relatar o caso. No início do ano, o juiz Fernando Vieira dos Santos, da Vara da Infância e Juventude de Três Passos, autorizou que o garoto continuasse morando com o pai, após o Ministério Público (MP) instaurar uma investigação contra o homem por negligência afetiva e abandono familiar.

 

O pai
O pai

De acordo com o MP, desde novembro do ano passado, o pai de Bernardo era investigado. Entretanto, nunca houve indícios de agressão física. Em janeiro, o menino foi ouvido pelo órgão e chegou a pedir para morar com outra família.
Ainda no início do ano, o médico pediu uma segunda chance, com a promessa de que buscaria reatar os laços familiares com o filho, e assim convenceu a Justiça a autorizar uma nova experiência.

b - envolvidos

Flagrantes poéticos de Nina Rizzi: Vida e morte nas favelas

 

 

 

1

a morte do favelado
– motivo para aidan
os buracos vazios de vez
trinta e uma mil balas para pacificação
esturricam no chão

 

2

um dia de manhã sentei naquele chão

tão preto
tão morto

fechei os olhos garrada em seu sangue seco
e pensei em quem seria
quem foi
ele os invisíveis

abri
como uma refugiada de guerra
uma vaca magra na fila do abate

 

3

ouço as sirenes indo embora
chegando
como uma marcha de chopin

os pássaros
o que é vivente
estão lá – longe
desse silêncio de mármore

outro carro
mais uma nota na marcha
insinuação de morte

 

4 réquiem

perene os vinte um sabores
picolé pipoca algodão doce tapioca
que os meninos se indo
saberão ainda – ausentes

bombas pás
rastros de névoa
aqui acolá
dissipam na floresta de ossos

 

 

 

Nina Rizzi
Nina Rizzi