O juiz Moro e o caso Banestado, aquele das contas CC5. Diz que os inquéritos “se desdobraram em cerca de 3.600 procedimentos criminais”

Joen Yunus
Joen Yunus
Choque de propósitos

por Janio de Freitas

As posições contrárias do Supremo e da Lava Jato quanto à jurisdição apropriada para os processos não ligados aos desvios na Petrobras azedou com inconveniência para os dois lados.

Desagradados com a decisão do Supremo de encaminhar para outro juízo um inquérito que não inclui Petrobras, mas está na Lava Jato, o juiz Sergio Moro e procuradores fazem afirmações agudas. É da regra judicial brasileira, porém, que os inquéritos e processos corram onde teria havido o fato em questão, deslocando-se os julgamentos em casos de extrema excepcionalidade. O Supremo transferiu, de Curitiba para o judiciário federal em São Paulo, o processo sobre pagamentos da empresa Consist que a Lava Jato supõe retribuírem um contrato de gerenciamento do crédito consignado.

Os comentários mais simbólicos da argumentação e da carga forte da Lava Jato contra o decidido pelo Supremo foram postos por Moro em sua sentença condenatória de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT. Escreveu ele que a “dispersão das ações penais não serve à causa da Justiça, tendo por propósito pulverizar o conjunto probatório e dificultar o julgamento”.

Sendo quem são, no caso, os imaginados portadores de tal propósito, não há como ver sensatez na afirmação do juiz Sergio Moro, descreditada ainda por valer-se do que deveria ser só uma sentença.

Mas, já que se trata da distribuição de inquéritos, pode-se dispor de um outro trecho de texto. É do balanço feito pelo Ministério Público Federal sobre a ação da sua força-tarefa que se ocupou do grande caso Banestado, aquele das contas CC5. Diz que os inquéritos “se desdobraram em cerca de 3.600 procedimentos criminais, que foram distribuídos para as subseções judiciárias do domicílio dos representados, permanecendo cerca de 600 procedimentos criminais na capital paranaense”.

Foi distribuição como a atacada na sentença, e em outras situações, por Sergio Moro, e em diversas ocasiões por procuradores da Lava Jato. Mas os procuradores da Lava Jato estavam na força-tarefa do Banestado. Tanto que o autor do balanço foi Januário Paludo, procurador nas duas forças-tarefas. E quem procedeu à distribuição dos inquéritos para as jurisdições “do domicílio dos representados”, em qualquer parte do Brasil, foi o juiz Sergio Moro.

moro doleiro banestado lava FHC

Senadores tucanos contra CPI dos traficantes de moedas do HSBC no paraíso fiscal do governo Fernando Henrique

genildo hsbc paraíso

 

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) anunciou no plenário, nesta quinta-feira (26), ter protocolado o pedido de criação da comissão parlamentar de inquérito do HSBC. Ele informou ter conseguido 33 assinaturas, 6 a mais que o mínimo necessário para a criação de uma CPI. Pelo requerimento, a comissão terá 11 membros titulares e 6 suplentes. De acordo com Randolfe, o requerimento para a CPI tem interesse suprapartidário e não se dirige a fomentar disputas. A intenção, disse o senador, é “desmantelar pela raiz” um grande esquema criminoso.

— Esse escândalo é de dimensão mundial. De acordo com o Financial Times, trata-se do maior caso de evasão fiscal do mundo. É necessário que o Parlamento brasileiro também se manifeste e instaure um procedimento de investigação — afirmou Randolfe.

O líder do PSB, senador João Capiberibe (AP), disse entender como prudente o fato de os senadores assinarem o pedido. Para ele, os escândalos da Petrobras já estão sendo investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, motivo pelo qual o partido resolveu esperar a conclusão das investigações.

— A do HSBC não tem processo judicial em curso, não tem investigação em curso, não tem nada. Eu acho que talvez seja o caso de o Senado pensar numa CPI — ponderou Capiberibe.

O senador José Pimentel (PT-CE), líder do governo no Congresso, informou ter assinado o requerimento. Segundo o senador, o Brasil está em um momento de combater a sonegação e de aumentar a formalização nos vários setores da economia, motivo pelo qual a CPI é importante. Para ele, a legislação do sistema financeiro já é muito avançada, mas pode passar por aperfeiçoamentos.

— É exatamente por isso que eu assinei essa CPI. Além de identificar aqueles que cometeram erros, o que eu quero, principalmente, é construir uma legislação para superar essas falhas — afirmou o senador.

 

Tucanos fogem para não assinar CPI da sonegação do HSBC 

 

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Nenhum senador do PSDB assinou o requerimento da CPI da sonegação no HSBC suíço.

Nem Álvaro Dias, nem Aécio Neves, nem José Serra, nem Aloysio Nunes, nem Anastasia, nem Cassio Cunha Lima, todos salientes quando trata-se de atacar os outros, estão caladinhos sobre o assunto e não assinaram o requerimento.

O comportamento é suspeito, confirmando que PSDB parece ter muito o que temer se esta lista vier ao conhecimento público.

Até dois senadores do DEM assinaram (não é o José Agripino).

Todo mundo sabe que se tivesse petista na lista, já teria vazado. O jornalista Fernando Rodrigues do UOL (Grupo Folha, amigo dos demotucanos) senta em cima da lista e vaza a conta gotas o que já saiu na imprensa estrangeira há duas semanas.

Isso só faz aumentar as suspeitas de que se a lista for publicada voa pena de tucano para tudo quanto é lado.

O comportamento de blindar os nomes da lista também levanta suspeitas de que pode haver “barões da mídia” no meio.

Eis os 31 senadores que já assinaram:

Gleisi Hoffmann (PT-PR)
Humberto Costa (PT-PE)
Jorge Vianna (PT-AC)
José Pimentel (PT-CE)
Lindbergh Farias (PT-RJ)
Paulo Rocha (PT-PA)
Regina Souza (PT-PI)
Walter Pinheiro (PT-BA)

Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM)

Randolfe Rodrigues (Psol-AP)

Marcelo Crivella (PRB-RJ)

Antonio Carlos Valadares (PSB-SE)
João Capiberibe (PSB-AP)
Lídice da Mata (PSB-BA)
Roberto Rocha (PSB-MA)
Romário (PSB-RJ)

Roberto Requião (PMDB-PR)
Rose de Freitas (PMDB-ES)
Waldemir Moka (PMDB-MS)

Cristovam Buarque (PDT-DF)
Reguffe (PDT-DF)
Telmário Mota (PDT-RR)

Hélio José (PSD-DF)
Omar Aziz (PSD-AM)
Otto Alencar (PSD-BA)
Sérgio Petecão (PSD-AC)

Magno Malta (PR-ES)

Gladson Cameli (PP-AC)

José Medeiros (PPS-MT)

Davi Alcolumbre (DEM-AP)
Wilder Morais (DEM-GO)

 

US$ 7 bilhões desviados do Brasil. Sem contar o dinheiro lavado pelo BanEstado

 

Um escândalo que provoca protestos em vários países, mas o brasileiro não está nem aí
Um escândalo que provoca protestos em vários países, mas o brasileiro não está nem aí

Conforme noticiado pela imprensa internacional, o banco HSBC na Suíça atuou de forma fraudulenta para acobertar recursos de clientes, blindando-os das obrigações fiscais e da comprovação da origem dos recursos — práticas que indicam atividades criminosas. Estão envolvidos ditadores, políticos corruptos, traficantes de drogas, de armas, sonegadores, e sofisticados bandidos.

Não esquecer que o HSBC comprou todos os bancos da família Safra, que junto com o BanEstado e outros serviram de decolagem para os famosos aviões Franco CC-5

O escândalo, conhecido como Swissleaks, tem como fonte original um especialista em informática do HSBC, o franco-italiano Hervé Falciani. Segundo ele, entre os correntistas, estão 8.667 brasileiros, responsáveis por 6.606 contas que movimentam, entre 2006 e 2007, cerca de US$ 7 bilhões.

Na justificativa do pedido de CPI, Randolfe diz se tratar de “um arrojado esquema de acobertamento da instituição financeira, operacionalizado na Suíça, que beneficiou mais de 106 mil correntistas”, de mais de 100 nacionalidades. O total de recursos manejados dentro do esquema, segundo Randolfe, pode superar US$ 100 bilhões, no período de 1998 a 2007.

Para Randolfe, a lista dos titulares das contas certamente guarda estreita relação com outras redes de escândalos do crime organizado do país e do mundo. O senador lamentou que “o escândalo do Suiçalão” venha sendo sistematicamente ignorado pelos grandes veículos de comunicação no Brasil. Segundo Randolfe, essa seletividade denuncia o envolvimento de personagens poderosos, que podem sempre se servir da benevolência de setores da imprensa.

 

 

 

Esquecida Operação Macuco e os aviões Franco CC5 que transportaram dinheiro do Brasil para os paraísos fiscais

O Brasil está à beira de uma guerra

Banestado  Caso das contas dos aviões Franco CC5
O presidente nacional do PMDB Michel Temer considera grave a afirmação do Lula “de ter impedido a divulgação de supostos casos de corrupção no governo Fernando Henrique Cardoso”. Lembrou que o funcionário público não pode, perante a Constituição, “acobertar gestos de corrupção”.

Lula repetiu uma estória velha, por várias vezes publicada pela imprensa, nenhum presidente investiga o antecessor.

Ora, ora, quem está acobertando o maior roubo da história é a Câmara dos Deputados, da qual Temer é um dos principais líderes.

Estava prevista para 9 de dezembro de 2004 a divulgação do relatório da CPI do Banestado pelo deputado José Mentor.

Não deu. A apresentação ficou transferida para este mês de fevereiro.

Hoje é feriado dominical. Amanhã, primeiro de março, ninguém trabalha. Na terça idem, que os deputado estão retornando de suas bases. E, pra completar, ninguém encontra Mentor.

A orquestração do discurso de Lula constitui balão de ensaio. A CPI do Banestado descobriu quadrilhas e mais quadrilhas de sonegadores, de doleiros, de traficantes, de contrabandistas, de políticos corruptos do judiciário, do legislativo, do executivo, e até da imprensa – o chamado quarto poder.

Tem uma penca de bancos envolvidos, e uma cachoeira de provas de que a corrupção foi das grossas. Que a transferência de bilhões e bilhões de dólares para o exterior aconteceu com o franco consentimento do Banco Central.

Kennedy Alencar chuta o balão de ensaio: “Ou (Lula) prova o que disse e arruma uma bela desculpa para não ter revelado tal fato até hoje. Ou se desculpa imediatamente, dizendo ter sido leviano para amenizar a trapalhada. Ou será acusado de ter prevaricado, como disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, dando palco a uma desgastante batalha política e jurídica”.

Deixa de besteira, Kennedy. Só se for mais uma batalha de Itararé. Todo Brasil sabe o que rolou nas privatizações. A imprensa cansou de denunciar, e não deu em nada.

O que a imprensa quer esconder é a lista da CPI do Banestado.

Duvido você escrever sobre o assunto, sem essa de defender o chamado sigilo bancário.

Banestado vaca

A guerra de hoje é outra, e vem sendo travada em toda América Latina. Para golpear primeiramente os presidentes do Brasil, da Argentina, da Bolívia, da Venezuela. Depois, pelo efeito dominó, os presidentes do Equador, Uruguai e Chile.

O texto acima, O Brasil está à beira de uma guerra, escrevi em 27/02/2005 no Aqui e Agora.

A Comissão Parlamentar (Mista) de Inquérito (CPI) de Evasão de Divisas, ou CPI do Banestado foi criada pela Câmara dos Deputados em 26 de Junho de 2003 a fim de investigar as responsabilidades sobre a evasão de divisas do Brasil para paraísos fiscais, entre 1996 e 2002, quando foram retirados indevidamente do país mais de US$ 84 bilhões através de contas CC5 do Banco do Estado do Paraná ou Banestado, segundo estimativas reveladas pela operação Macuco, realizada pela Polícia Federal.

O presidente da CPI foi o senador Antero Paes de Barros (PSDB), o vice-presidente foi o deputado Rodrigo Maia (PFL) e o relator foi o deputado José Mentor (PT).

O desempenho do relator da CPI, o deputado José Mentor, foi bastante criticado, sendo ele acusado por alguns parlamentares de ter sabotado a CPI. Mentor foi autor também de um polêmico projeto que se aprovado daria anistia a todas as pessoas que enviaram ilegalmente para o exterior. Segundo o deputado, tal medida teria como objetivo repatriar recursos no exterior. Após um ano e meio de investigações, Mentor concluiu o relatório sugerindo o indiciamento de 91 pessoas pelo envio irregular de dinheiro a paraísos fiscais através de contas CC5, desvios que chegariam na ordem de R$ 150 bilhões. Entre os indiciados, Gustavo Franco (presidente do Banco Central no governo de Fernando Henrique Cardoso), o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o dono das Casas Bahia (maior rede varejista do Brasil), Samuel Klein. 1 2 Por sua vez, o PSDB queria apresentar uma “outra versão da CPI” na qual, por exemplo, as acusações contra Gustavo Franco apareceriam de forma “mais branda”.

Também foram acusados por evasão de divisas: Ariovaldo Carmignani, ex-presidente da Sabesp, e Paulo Domingos Knippel Galletta, ex-diretor financeiro da Sabesp. A Sabesp sempre foi um antro de bandidos.

Escreveu Josias de Souza: Um dos elementos que rendeu ao relatório de Mentor o carimbo de “partidarizado” foi a proposta de indiciamento de executivos da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado) e da Companhia Riograndense de Telefonia, por operações de 1997 nas quais as empresas seriam consideradas “suspeitas” de lançamento de ações no exterior. Ambas eram estatais e sob gestão tucana.

Mentor requer ao Ministério Público que aprofunde a investigação sobre as operações realizadas pelas empresas.

Entre os empresários indiciados, estão Samuel e Michel Klein. Donos das Casas Bahia, eles são acusados de sonegação, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e importação fraudulenta por meio da empresa Parainvest.

O deputado Sérgio Miranda (PC do B-MG) também quer incluir no relatório a responsabilização do sistema financeiro pelos crimes de evasão de divisas.

Folha de S. Paulo: A CPI foi colocada em suspeição, quando começaram a vazar pela imprensa dados sigilosos referentes a documentos em poder da CPI. Devido à atuação da comissão o governo foi acusado pela oposição de “blindar” o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, por meio de uma medida provisória que lhe deu foro privilegiado.

Meirelles foi investigado pela CPI do Banestado por evasão de divisas e sonegação fiscal. O último alvo de vazamento de informações da CPI foi o vice-líder do governo no Senado, Ney Suassuna (PMDB-PB), que também é investigado por evasão de divisas e sonegação.

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BanEstado. Pelos aviões Franco CC-5 foram desviados para o exterior cerca de 250 bilhões de dólares

A imprensa ensina
como engavetar uma CPI

 

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Faltam três dias para a divulgação da CPI do Banestado. E tá todo mundo calado. Decidiram que o maior roubo da história universal (dos bancos) não é notícia.

Essa zoeira sobre a acusação feita pelo presidente Lula que houve corrupção no BNDES durante as privatizações no governo FHC parece despiste, MALANdrice, tiro com bala de festim.

O Estadão foi logo avisando: “FHC emitirá nota para se defender das acusações de Lula“.

Vai ser o maior bate-boca. As notas estão sobrando.

O atual presidente da Fosfertil, Francisco Gros, declarou: “O BNDES é uma instituição com mais de 50 anos de existência e, ao longo dessa história, nunca tive notícias de corrupção, nem quando fui presidente, nem como diretor e nem como cliente do banco”.
Não sabia que Gros era cliente do BNDES.

O PSDB, inclusive, quer processar o presidente por “crime de responsabilidade”.
E José Dirceu, chefe da Casa Civil, rezinga: O PSDB “tem de ver se há a base legal para tal pedido, e se o feitiço não vai virar contra o feiticeiro”.

Acho que tudo não passa de GROSseira, que logo passa, e dura no máximo uns três dias, prazo para José Mentor apresentar o relatório da CPI do Banestado que, conforme o esperado, apontará o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco como um dos principais responsáveis pela evasão de bilhões e bilhões de dólares.

Mentor está convencido que o ex-presidente do BC, além de ter tomado a decisão de permitir que cinco bancos pudessem operar as contas CC 5 em Foz do Iguaçu, não fiscalizou as operações feitas pelo antigo Banco do Estado do Paraná (BanEstado), o privatizado Banco do Estado de Minas Gerais, o Banco Araucária, o Itaú e o Banco do Brasil.

Pelos aviões Franco CC-5 foram desviados para o exterior cerca de 250 bilhões de dólares.

A CPI do Banestado foi aberta a mando da Cia, preocupada com a saída de tantos aviões para o exterior. Foz, conforme denúncia da revista Veja, possuía na época “campos de treinamento de terroristas”, e teve o privilégio da “visita de Bin Laden”.

A imprensa não toca mais no assunto. Engavetou a CPI, em nome do sigilo bancário.

 

Publiquei no Aqui e Agora em 25.02.2005

 

Que mais sujo, mais imundo, mais corrupto, mais podre, mais putrefato, mais sórdido: a origem ou o destino de 250 (duzentos e cinquenta  bilhões de dólares) roubados do pobre povo pobre brasileiro?

E tais ladrões, impunes e blindados, consideram o salário mínimo do mínimo muito alto.

 

 

 

 

Por que a Operação Lava Jato esconde o tráfico de diamantes?

Em entrevista concedida a Pedro Cifuentes, publicada no jornal espanhol El País, o delegado Marcio Adriano Anselmo,  que iniciou a investigação, que resultou na Operação Lava Jato, foi por acaso que se chegou ao esquema de Paulo Roberto Costa.

Significa que a investigação inicial visava outros crimes, que a imprensa escondeu dentro do esquema de vazamento de informações como propaganda política, durante a campanha presidencial (eleições do primeiro e do segundo turno), que visava eleger Aécio Neves.

Derrotado o candidato tucano, por que a imprensa não concede nenhuma linha aos demais doleiros envolvidos, que “transferiam somas elevadas ao estrangeiro, usando uma rede com mais de cem empresas de fachada e centenas de contas bancárias que remetiam milhões de dólares para a China e Hong Kong. As companhias, pura cosmética financeira, simulavam importações e exportações com o único propósito de receber e mandar dinheiro, sem comércio algum de produtos ou serviços reais.

As autoridades judiciais calculam que a quantia desviada chega a 10 bilhões de reais. O dinheiro provinha principalmente do tráfico de drogas, do contrabando de diamantes e do desvio de recursos públicos (nesse caso, como seria posteriormente revelado, em obras encomendadas pela Petrobras a grandes empreiteiras, com orçamentos de bilhões de reais, dos quais eram sistematicamente desviados pelo menos 3% em subornos). Posteriormente, e independentemente da origem do dinheiro lavado, os valores eram reintroduzidos no sistema mediante negócios de postos de gasolina, lavanderias e hotéis”.

Até hoje não foram revelados os nomes dos traficantes de diamantes e de drogas, os principais e poderosos beneficiados pelo tráfico de dinheiro da Operação Lava Jato. Também ficaram encantados os postos de gasolina e hotéis.

O mesmo doleiro, o mesmo juiz, o mesmo advogado da Operação Lava Jato participaram do Caso Banestado, também relacionado com o tráfico de diamantes.

Relata Allan de Abreu:

Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banestado investiga uma suposta ligação do comércio ilegal de diamantes provenientes do garimpo do rio Grande com um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas da história brasileira, responsável pelo envio de pelo menos US$ 30 bilhões (R$ 89,7 bilhões) para o exterior. “Estamos investigando o caso”, confirma a senadora e membro da CPMI Serys Slhessarenko (PT-MT), sem revelar mais detalhes. “No momento oportuno, vamos revelar tudo.” No entanto, o Diário apurou que, por sete anos – de 97 até maio deste ano – o garimpo, localizado entre Frutal (MG) e Guaracia, tornou-se cenário de um mercado negro de diamantes muito bem organizado.

CPI Banestado: Tráfico de diamantes

Tráfico. Conexão Rio Preto

 

por Allan de Abreu

Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banestado investiga uma suposta ligação do comércio ilegal de diamantes provenientes do garimpo do rio Grande com um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas da história brasileira, responsável pelo envio de pelo menos US$ 30 bilhões (R$ 89,7 bilhões) para o exterior. “Estamos investigando o caso”, confirma a senadora e membro da CPMI Serys Slhessarenko (PT-MT), sem revelar mais detalhes. “No momento oportuno, vamos revelar tudo.” No entanto, o Diário apurou que, por sete anos – de 97 até maio deste ano – o garimpo, localizado entre Frutal (MG) e Guaracia, tornou-se cenário de um mercado negro de diamantes muito bem organizado que só parou por causa de sucessivas blitze de órgãos ambientais e da Procuradoria da República.

Neste período, o esquema chegou a movimentar entre US$ 150 milhões (R$ 448,5 milhões) e US$ 200 milhões (R$ 598 milhões) com a compra, venda e remessa ilegal das pedras preciosas para a Europa e Ásia. Tudo feito discretamente, sem a declaração de um centavo do valor movimentado à Receita Federal. Contrabandear pedras preciosas é o mais novo método de atuação do esquema descoberto pela CPI do Banestado. Por meio dele, Frutal, um pequeno município de 46 mil habitantes na divisa com o Estado de São Paulo, pode se unir a uma rede de cidades que já agrega Rio Preto, Campinas e Belo Horizonte, também investigadas pela CPMI. O início de toda irregularidade está bem no meio do rio Grande, nas balsas de onde os mais de 100 garimpeiros retiravam diariamente diamantes de vários tipos e quilates. Pela lei informal do garimpo, estes trabalhadores ficavam com 12% do valor da pedra, e os donos das balsas com 36%. Os 52% restantes eram negociados entre os balseiros e os donos da área: Vicente Paulo do Couto e os sócios João de Deus Braga e Antônio Marques Silva, o Marquinhos.

Abacaxi
Marquinhos chegou a Frutal há cerca de uma década. Nos primeiros anos, plantava abacaxi em uma pequena propriedade rural. Isso até 1997, quando descobriu que o rio Grande possuía muito diamante. Em sociedade com Braga, conseguiu no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), órgão do Ministério das Minas e Energia, uma licença para explorar os diamantes do local para fins de pesquisa científica. A pesquisa, no entanto, limitou-se a comprovar a existência de diamantes no Grande. Depois disso, o que se viu foi o início de um grande esquema de contrabando de pedras preciosas. Em pouco tempo, milhares de garimpeiros das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste aportaram no meio do rio, que se transformou numa espécie de mini Serra Pelada-famoso garimpo do Pará. Nem todos os dias se encontravam pedras valiosas no rio. A maioria delas eram pequenas, apelidadas de “chibiu”, e tinham pouco valor. Mas relatos dos garimpeiros do local dizem que não era nada incomum pegar diamantes cujo valor inicial alcançava US$ 400 mil (R$ 1,196 milhão), US$ 700 mil (R$ 2,093 milhões).

O mais valioso de todos, segundo eles, foi um diamante rosa, vendido por US$ 1,3 milhão (R$ 3,887 milhões). Por serem detentores da área, cabia a Marquinhos e Braga, de um lado, e Couto, de outro (ele também obtivera uma área para “pesquisa” no rio) o papel de primeiros intermediários no tráfico de diamante. Os três davam a chamada “primeira vista” na pedra – os primeiros atravessadores do esquema. Daí em diante é que começavam os lucros assustadores. Couto, Braga e Marquinhos tinham vários compradores de diamantes. O Diário apurou pelo menos sete deles, todos profundos conhecedores do assunto. “Só de olhar uma vez para a pedra eles já dão o valor”, conta uma pessoa conhecedora do esquema.

Pelo menos um deles é belga. Chegou a montar um escritório no Centro de Frutal para facilitar a compra e venda de diamantes ilegais. Mas os mais poderosos do grupo são os irmãos Gilmar Vales Campos e Geraldo Campos, donos da Giacampos Diamond Ltda., empresa mineradora e exportadora de pedras preciosas de Patos de Minas, no Triângulo Mineiro. Ambos já estão na lista de investigados da CPI do Banestado. De acordo com reportagem da revista “IstoÉ”, Gilmar teria assumido o controle do garimpo ilegal chamado Roosevelt, em Rondônia, bem no meio de uma reserva indígena. A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) estimam que US$ 20 milhões (R$ 59,8 milhões) em diamantes tenham sido contrabandeados por mês do garimpo para o exterior.

Marcar diamante
Aos irmãos se juntam, segundo relato do próprio Couto, Luís Honorato e Fernando Romaria, de Belo Horizonte (MG), Douglas Faria Miguel, de Ituiutaba (MG), Lúcio Cornélio e Isalto Donizette Ferreira, de Franca (SP) e Alcione Máximo Queiroz, de Frutal. Estes dois últimos confirmam, em entrevista gravada por telefone, que compraram “alguma coisinha”. Formam um grupo coeso e fechado, regido por uma lei que eles próprios denominam “marcar diamante”. Funciona assim: o dono da balsa oferece o diamante a Braga, Couto ou Marquinhos. Estes sempre dão um preço abaixo daquele pedido pelo balseiro. Na primeira oportunidade telefonam para algum membro do grupo e avisam do diamante. O comprador vem então a Frutal e oferece um preço intermediário entre o que os donos da área ofereceram e o garimpeiro pediu. Negócio fechado, a diferença entre o preço inicial de Braga, Couto ou Marquinhos e o do garimpeiro é rateada por igual entre estes e o negociante.

O passo seguinte é passar a pedra para outro membro do grupo. Na terceira negociação, o trio de Frutal também lucra utilizando a mesma estratégia: “anunciando” a pedra. Sempre no mesmo esquema, a um lucro que chega a 100% para cada atravessador. Neste caminho, suspeita-se que o diamante sirva de instrumento para a lavagem de dinheiro. As negociações continuam, até que surja a oportunidade de levar a pedra ilegalmente para o exterior e ficar com o maior dos lucros – os compradores estrangeiros costumam oferecer muito dinheiro por um diamante. Um exemplo de negócio bem sucedido é o de Gilmar. Segundo pessoas ligadas ao garimpo do rio Grande, foi ele quem comprou o diamante rosa de US$ 1,3 milhão (R$ 3,887 milhões) saído do rio Grande, e vendeu para o exterior por US$ 10 milhões (29,9 milhões) – um lucro de fantásticos 670%.

O traslado é feito por meio de aviões particulares do grupo, em pistas de Belo Horizonte, Uberlândia, Goiânia e São Paulo. Tudo às escondidas. Se a polícia flagrar o embarque, há uma estratégia pré-montada: o comprador estrangeiro apresenta a nota fiscal de compra do país destinatário. E legaliza, do estrangeiro, o mercado negro de diamantes. O destino das pedras é quase sempre os mercados especializados no comércio de pedras preciosas em Antuérpia, na Bélgica, Tel Aviv, em Israel, e Hong Kong, na China. Nestes locais, empresas do mundo todo comercializam diamantes. Pedras legalizadas se misturam às clandestinas, dificultando ainda mais a descoberta do esquema. A reação imediata do governo brasileiro para coibir este mercado clandestino foi promulgar a lei 10.743, em outubro deste ano. Ela determina a implantação do Sistema de Certificação do Processo de Kimberly (SCPK), documento de registro obrigatório para todos os diamantes brutos localizados no Brasil. Mas a lei não é garantia de que o mercado negro de diamantes vá acabar no País, segundo pessoas do ramo.

Desde o início deste ano, quando os órgãos de fiscalização intensificaram as blitze no rio Grande, os traficantes de diamantes pararam de freqüentar Frutal. Atualmente, somente algumas balsas ainda se arriscam, barulhentas, a retirar cascalho do rio Grande dia e noite. Mas Braga, Couto e Marquinhos não têm do que reclamar. Chegaram a comprar carros importados do ano, casas luxuosas em Frutal e fazendas na região. Agora, a Receita apura uma suposta incompatibilidade de bens do trio com as declarações anuais de Imposto de Renda. Em breve, a CPI do Banestado pretende ouvir todos os envolvidos. “Vamos colher o depoimento dessas pessoas, em data oportuna”, diz a senadora petista.

Os tentáculos do crime:
1 – No garimpo

– O valor dos diamantes encontrados no rio Grande era rateado da seguinte forma
:: 12% ficava com o garimpeiro
:: 36% ficava com o dono da balsa, ou balseiro
:: 52% era negociado entre o dono da balsa e o dono da área: Vicente Paulo do Couto, João de Deus Braga ou Antônio Marques Silva, o Marquinhos

2 – Marcar diamante

:: Nesta última negociação, o balseiro dava um preço e os donos da área outro, sempre muito menor. Falhado o acordo, o dono da área convidava um negociador de diamantes para ir até Frutal. O atravessador oferecia então um preço intermediário entre o oferecido pelo balseiro e o do dono da área. A diferença então era rateada por igual entre o atravessador e o dono da área

3 – A negociação continua

:: O primeiro atravessador logo revendia a pedra para um terceiro. Os nomes são sempre os mesmos, em um total de seis pessoas, a fim de não levantar suspeitas. Quando o diamante chegava ao terceiro atravessador, o dono da área volta a entrar no negócio, anunciando para ele o interesse de um quarto comprador. O lucro da negociação, mais uma vez, era rateado entre as partes. Os lucros em cada negociação podiam alcançar 100%

4 – O envio para o Exterior

:: O maior negócio, no entanto, ocorria quando surgia a oportunidade de levar o diamante ilegamente para o Exterior. Utilizando aviões particulares, o grupo embarcava as pedras em pistas de São Paulo, Belo Horizonte, Uberlândia e Goiânia. Se o embarque fosse descoberto pela Polícia Federal, a saída já estava garantida: o comprador vinha do estrangeiro com uma nota fiscal de compra da mercadoria e levava as pedras

5 – A diluição das pedras clandestinas no mundo

:: Quase sempre o destino das pedras eram os mercados de diaman tes de Antuérpia (Bélgica), Tel Aviv (Israel) e Hong Kong (China), os maiores do mundo. Lá, os diamantes de origem ilegal eram misturados aos legalizados, e vendidos para joalherias de várias partes do mundo

Os números da fraude:
US$ 150 milhões é o valor movimentado entre 1997, quando o garimpo no rio Grande foi criado, e o início deste ano, segundo pessoas conhecedoras do esquema

US$ 1,3 milhão é o valor avaliado na primeira negociação (entre balseiro e dono da área) para o maior diamante encontrado no garimpo, do tipo rosa

Mais de US$ 10 milhões é por quanto estima-se que esse mesmo diamante tenha sido vendido, na ponta

Envolvidos confirmam esquema em MG

Vicente Paulo do Couto, um dos donos da área de garimpo no rio Grande, em Frutal, confirma a participação no esquema de contrabando de diamantes. “Eu dava a primeira vista”, diz. Mas nega que tenha tido qualquer lucro na história. “Não participava do negócio em si, não levei nada. Só indicava para os compradores”, diz. Couto cita, um a um, os compradores de diamantes do rio Grande. “Conheço todos eles”, diz. Ele confirma que o grupo contrabandeava as pedras para o exterior. “Se (o garimpo) estiver produzindo, dá muito lucro. Já ouvi falar em um giro entre US$ 2 milhões (R$ 5,98 milhões) e US$ 3 milhões (R$ 8,97 milhões) por mês”, afirma. Couto sabe que o comércio era ilegal. “Não poderia vender nada daquilo. O certo era apresentar a mercadoria ao DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), mas isso nunca foi feito”, diz.

Os maiores compradores de diamantes do Grande, segundo ele, eram os irmãos Gilmar e Geraldo Campos, “dos maiores do País”. Os dois são de Patos de Minas (MG). Na última quarta-feira, Gilmar não quis falar por telefone com a reportagem do Diário. “Só trato deste assunto pessoalmente”, disse. Em carta publicada pela revista “IstoÉ” a respeito da sua suposta participação no garimpo ilegal do Roosevelt, em Rondônia, Gilmar afirma ser pecuarista e agricultor em Minas Gerais e sócio da Giacampos Diamond Ltda., “empresa mineradora e exportadora de pedras preciosas, que realiza todas as suas operações rigorosamente de acordo com a legislação vigente”. “Nunca liderei qualquer quadrilha de contrabandistas de diamantes”, afirma, na revista. Antônio Marques Silva, o Marquinhos, dono de outra área do garimpo no Grande, também diz que exerceu o papel de “primeira vista” nos diamantes. Mas, assim como Couto, nega participação direta no negócio. “Apenas avaliávamos o valor das pedras (para os donos das balsas)”, diz.

Marquinhos contradiz Couto ao afirmar que “todo o comércio de diamantes do rio Grande era declarado à Receita Federal”. “O Gilmar, o Fernando (Romaria) eram compradores legais. Nunca existiu nada escondido”, diz. Alcione Máximo Queiroz, um dos atravessadores, confirma que já comprou diamantes do Grande, “coisa pequena”. O mesmo é dito por Isalto Donizette Ferreira. “Comprei alguma coisinha, mas logo parei”, afirma. João de Deus Braga, sócio de Marquinhos e também detentor de uma área de garimpo no rio Grande, não foi localizado na semana passada. A reportagem deixou vários recados na sua residência e no celular, mas não houve retorno até a tarde de ontem. Fernando Romaria e Luís Honorato não foram localizados em Belo Horizonte. O mesmo ocorreu com Douglas Faria Miguel em Ituiutaba e Lúcio Cornélio em Franca.

CPI investiga empresas de Rio Preto

Além do garimpo no rio Grande, a CPMI do Banestado investiga uma suposta conexão rio-pretense no esquema de evasão de divisas e lavagem de dinheiro que teria movimentado US$ 30 milhões (R$ 89,7 milhões), mas que poderia incluir ainda remessa de gemas e jóias para o exterior. Durante as quebras de sigilo bancário obtidas pela CPI, diversas contas do esquema foram identificadas. Ao menos uma delas, a Almatos, teria sido supostamente usada pela conexão de Rio Preto nas remessas ilegais. A identificação da conta ocorreu após denúncia de Hilário Sestini Júnior, ex-diretor da empresa Atlas Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, investigada pela CPI do Banestado. Os membros da CPI estiveram em Rio Preto entre os dias 20 e 21 de outubro e entre os dias 17 e 18 de novembro. Ouviram 12 pessoas, entre elas pedreiros e motoristas, que serviram como laranjas do suposto esquema. Segundo o senador Antero Paes de Barros (PMDB-MT), a CPI vai recomendar ao Ministério Público o indiciamento dos empresários investigados.

Deputado tem pai garimpeiro

A luta para a regularização do garimpo no rio Grande conta com uma força poderosa em Brasília. O deputado federal Nárcio Rodrigues (PSDB-MG) esteve ao menos duas vezes em 2002 com o então presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Rômulo José Fernandes Barreto Mello. “Na época, os donos da área de garimpo procuraram o Nárcio, porque tinha acabado de ocorrer uma blitz da polícia”, diz a chefe de gabinete do deputado, Mônica Rocco. Segundo ela, Rodrigues pediu mais agilidade na concessão do licenciamento ambiental pelo Ibama, condição necessária para a regularização da atividade. Depois desta reunião, no início de 2002, houve mais um encontro entre o deputado e Mello.

De acordo com Mônica, o que motivou a atitude de Rodrigues foram “os 500 empregos em jogo no local”. Mas as razões que motivaram o lobby do deputado podem ser outras. O pai de Nárcio, Sebastião Rodrigues, é dono de uma balsa de extração de diamantes no local. “A balsa funcionou por dois anos”, diz Sebastião. “Mas nunca dei sorte. O diamante maior que eu peguei valia R$ 14 mil (R$ 41,8 mil)”, diz. Desde 2002, quando começaram as blitze no local, o equipamento está parado nas margens do rio. Mônica nega, porém, que isso tenha motivado o deputado a tentar legalizar o garimpo em Brasília. “O deputado é absolutamente blindado neste ponto”, diz.

Pedras estão entre as melhores do País

Os diamantes encontrados no rio Grande estão entre os melhores do País, segundo o geólogo da Companhia Vale do Rio Doce Fernando Latorraca. “As pedras não são muito grandes, mas são muito limpas e coloridas, o que valoriza o diamante”, explica. O geólogo fez pesquisas no solo da microrregião de Frutal entre 2000 e 2002 para a empresa Intergemas Mineração, de Brasília. Há vários tipos de diamantes no rio Grande: rosa (o mais raro e valioso), azul, negro, vermelho e branco (em tonalidades que variam entre transparente, leitoso e fumê). “São as impurezas que dão estas diferentes colorações à pedra”, diz Latorraca. Pedras de até dois quilates (cada grama equivale a cinco quilates) são denominadas “chibiu”, e têm pouco valor mercadológico – de US$ 100 (R$ 299) a US$ 150 (R$ 448,5) o quilate. A valorização é gradativa até o diamante rosa, cujo quilate chega a valer entre US$ 10 mil e US$ 20 mil. Segundo os garimpeiros, a maior pedra encontrada no rio Grande tinha 80 quilates. O valor estimado é de R$ 4,8 milhões.

Latorraca explica que o diamante é formado em rochas chamadas de kimberlitos, constituídas de minerais como ferro e magnésio. As rochas de kimberlito foram formadas por restos de erupções vulcânicas, muito comuns na região oeste de Minas Gerais há 60 milhões de anos, no período Cretáceo, segundo Luiz Antônio Chieregati, geólogo da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), órgão do Ministério das Minas e Energia. “Essa região era uma verdadeira chaminé, por onde penetravam vários kimberlitos, principalmente na Serra da Canastra”, explica Chieregati. No manto da Terra, num espaço a 150 quilômetros de profundidade, as altas temperaturas e a pressão fizeram com que os átomos de carbono do kimberlito se cristalizassem em pedaços de diamantes.

Quando chegava à superfície, o kimberlito esfriava e endurecia rapidamente. Muitos deles foram parar no leito do rio Grande, que nasce no sul de Minas e passa muito próximo à Serra da Canastra. Levados pelas águas, os kimberlitos se transformavam em aluviões, como são chamados os cascalhos de onde os garimpeiros extraem o diamante. O atual garimpo no rio Grande surgiu em 1997. Mas, segundo Latorraca, não é a primeira vez que garimpeiros se aventuram a encontrar diamantes no meio do rio. Antes da construção da barragem de Marimbondo por Furnas, há cerca de 30 anos, os garimpeiros ficavam nos locais de correnteza do rio, onde o cascalho ficava retido. “Estes são os melhores locais para a extração de diamante. Tanto que, ainda hoje, com o rio represado, as balsas costumam se posicionar nestes locais”, explica o geólogo da Vale. O primeiro garimpo na região, porém, foi na terra, em um povoado de Frutal denominado Vila do Bandeira. Em 1946, Geraldo Catarino teria iniciado a lavra no local. Cinco anos depois, o então presidente da República, Getúlio Vargas, teria dado permissão de lavra para o garimpo artesanal na área.

Como surgem os diamantes:

1- Um dos materiais mais duros da natureza, o diamante é constituído de carbono puro cristalizado. A pedra se forma em rochas chamadas kimberlitos (a palavra deriva do Vale de Kimberley, região da África do Sul rica em diamantes), que surgem no manto da Terra a partir de minerais como o ferro e o magnésio. As altas temperaturas e a forte pressão fazem com que os átomos de carbono se cristalizem em pedaços de diamantes

2 – Há cerca de 60 milhões de anos, esses kimberlitos afloraram à superfície terrestre na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais, por meio de pequenas erupções vulcânicas

3 – Muitos destes kimberlitos foram, então, levados pelas águas do rio Grande, cujo curso passa muito próximo da Serra da Canastra, e viraram aluviões – o cascalho que os garimpeiros tiram diariamente do rio na tentativa de encontrar no meio deles algum diamante

4 – Encontrar diamantes no meio dos kimberlitos, porém, não é tarefa das mais fáceis. Em geral, uma dessas rochas pode conter um cristal de diamante para cada 40 milhões de partes de kimberlito

Operação Lava Jato. Dez bilhões de reais desviados. O dinheiro provinha principalmente do tráfico de drogas, do contrabando de diamantes

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Interessante! ninguém fala os nomes dos bilionários traficantes de drogas e diamantes. Que a Operação Lava Jato envolve outros doleiros, além de Alberto Youssef, e todos atuando no tráfico de moedas, apesar de velhos conhecidos da Polícia Federal e do juiz Sergio Moro. Porque foram presos na Operação Banestado.

O esquema da Operação Lava Jato é o mesmo da Operação Banestado, assim como o Mensalão do PT foi a continuação do Mensalão Mineiro do PSDB.

Parece que prevaleceu o interesse de apenas vazar informações eleitoreiras, para beneficiar a candidatura presidencial de Aécio Neves.

Latuff
Latuff

 

Um duro golpe no establishment empresarial, político (e possivelmente bancário) do Brasil

 

por Pedro Cifuentes/ El País/ Madri

Na sede regional da Polícia Federal em Curitiba, onde trabalham os agentes que deram início à Operação Lava Jato, o ambiente é de prudente satisfação. “Jamais imaginamos um caso tão grande… Nem em sonho”, admite Marcio Adriano Anselmo, o delegado que iniciou a maior investigação por corrupção na história brasileira. Anselmo tampouco imaginaria que uma modesta investigação contra três especialistas em lavagem de dinheiro, em Brasília e São Paulo, acabaria por conduzi-lo a Londrina (sua cidade natal, a 400 quilômetros de Curitiba), feudo do contrabandista Alberto Youssef, um velho conhecido da PF, cujas confissões acabariam detonando um escândalo de ressonância mundial.

Há 16 meses, em julho de 2013, Anselmo havia voltado seu foco para Carlos Habib Chater, um doleiro que havia anos operava em Brasília. Chater havia sido recentemente vinculado a um polêmico ex-deputado de Londrina, José Janene (PP-PR), morto em 2010. Mantinha uma rede de lavagem de dinheiro criada por seu pai (preso, como ele, há dois meses), e a PF sabia que fazia contatos em São Paulo com outro doleiro, Raúl Henrique Srour, que havia sido condenado em 2005 na chamada Operação Banestado, mas já terminara de cumprir pena. A partir de agosto, quando a Justiça autorizou escutas telefônicas, descobriu-se também que Chater trocava continuamente mensagens telefônicas sobre suas atividades com um desconhecido. “Era uma operação de pequena para média”, diz Anselmo. “Não tínhamos nem ideia do que iríamos encontrar.”

A equipe de Anselmo era formada por mais dois agentes. A investigação prosseguiu de forma discreta durante várias semanas. Depois de analisar milhares de operações bancárias, os três policiais vislumbraram um esquema com empresas fantasmas e transferências injustificadas. Avançaram lentamente, até que no começo de outubro o caso teve seu primeiro ponto de inflexão: a pessoa que tantas mensagens trocava com Charter via smartphone era Alberto Youssef, o mesmo especialista em lavagem de dinheiro que, num acordo de colaboração em 2004, havia se livrado de uma pena muito mais longa na Operação Banestado – por coincidência, o primeiro caso financeiro importante julgado pelo jovem juiz Sergio Moro, da 13ª. Vara Criminal Federal de Curitiba.

“Não podíamos acreditar que fosse Youssef”, conta Anselmo. “Foi um momento inesquecível.” Além de levar o caso para Curitiba, a descoberta significava que o doleiro e contrabandista havia violado seu acordo de delação premiada; estava novamente na ativa. Continuaria em operação o esquema supostamente desbaratado anos antes? A palavra Petrobras, até então, não aparecia nem remotamente no caso. Mas o reaparecimento de Youssef aproximava os policiais de outro foco importante da investigação: a escorregadia figura de Nelma Kodama, “a Dama do Mercado”, influente doleira paulista que, além do mais, era amante de Youssef. Kodama havia se safado do caso Banestado porque “foi a única pessoa a quem Youssef não delatou”, segundo os policiais, “seja por amor ou para que continuasse o negócio”. “Ela sempre havia movimentado grandes quantias de dinheiro, somas muito elevadas vinculadas a grandes comerciantes do setor de importação e exportação. Mas até aquele momento havia conseguido se livrar. […] Era uma pessoa muito complicada, considerava-se inalcançável, mostrava muita confiança em si mesma.”

“Continuávamos sendo uma equipe muito pequena, mas mesmo assim continuamos puxando o fio”, recorda outro agente. Mas faltavam as provas… “Era possível que se tornasse um caso maior do que o esperado, mas nem isso.” A palavra ‘Petrobras’ só apareceu pela primeira vez nos autos da Operação Lava-Jato em janeiro deste ano. Foi, como tantas vezes, por um descuido: especificamente um presente. Os agentes comprovaram que Youssef acabava de comprar um carro de luxo (300.000 reais) em nome de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da empresa petroleira de capital misto. “Achamos isso muito estranho”, afirma um agente. “O salário de um diretor da Petrobras pode superar os 100.000 reais (40.000 dólares) mensais.” Com um meio-sorriso, Anselmo relembra que “foi aí que a temperatura começou a subir de verdade”. Os policiais se lembraram de que o falecido ex-deputado Janene, sócio de Chater, havia sido o responsável por colocar Paulo Roberto Costa à frente da Diretoria de Abastecimento da empresa, em 2004. E ampliaram o campo de atuação: “Começamos a investigar outras pessoas e, pela primeira vez, compreendemos que podia se tratar de um caso histórico”.

O carro dado por Youssef a Costa era justificado como sendo o pagamento por supostos “serviços de consultoria”. Havia milhares de notas fiscais por “serviços de consultoria”. Poucas semanas depois, veio à tona uma gigantesca máquina de lavagem de dinheiro. Os suspeitos transferiam somas elevadas ao estrangeiro, usando uma rede com mais de cem empresas de fachada e centenas de contas bancárias que remetiam milhões de dólares para a China e Hong Kong. As companhias, pura cosmética financeira, simulavam importações e exportações com o único propósito de receber e mandar dinheiro, sem comércio algum de produtos ou serviços reais.

As autoridades judiciais calculam que a quantia desviada chega a 10 bilhões de reais. O dinheiro provinha principalmente do tráfico de drogas, do contrabando de diamantes e do desvio de recursos públicos (nesse caso, como seria posteriormente revelado, em obras encomendadas pela Petrobras a grandes empreiteiras, com orçamentos de bilhões de reais, dos quais eram sistematicamente desviados pelo menos 3% em subornos). Posteriormente, e independentemente da origem do dinheiro lavado, os valores eram reintroduzidos no sistema mediante negócios de postos de gasolina, lavanderias e hotéis.

O chamado Petrolão veio a público em 17 de março, quando a Polícia Federal deteve 24 pessoas (entre eles os doleiros mencionados nesta reportagem) por evasão de divisas em seis Estados. A imprensa brasileira ainda não citava o nome da Petrobras no noticiário. Ele só apareceria três dias depois, quando Paulo Roberto Costa foi detido, após a comprovação de que estava destruindo documentos relativos à sua longa relação com Youssef. Ambos chegaram a um acordo de colaboração com a Justiça e se tornaram delatores em troca de uma redução da pena. “Aí é que o caso explodiu”, admite Anselmo. Os três policiais passaram a ser quinze (cinco delegados e dez agentes). A investigação ganhou proporções gigantescas, com suspeitas crescentes sobre a implicação de altos executivos de empresas e políticos que eram citados nos depoimentos dos arrependidos.

Youssef, Costa e um diretor da empresa de engenharia Toyo-Setal, Julio Camargo, revelaram a existência de um clube de 13 empreiteiras que dividiam entre si os contratos com a Petrobras. As revelações indicavam que parte do dinheiro pago em subornos durante 10 ou 15 anos se destinava aos cofres de vários partidos políticos. Um duro golpe no establishment empresarial, político (e possivelmente bancário) do Brasil: as construtoras investigadas são responsáveis por oito das dez maiores obras do país. O presidente do Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes, afirmou com preocupação que o caso tem potencial para parar o Brasil, caso as nove maiores empresas sob suspeita sejam finalmente declaradas inidôneas para assinar contratos com o setor público.

Há pouco mais de duas semanas ocorreu o segundo momento que o delegado Anselmo e sua equipe (e também muitos brasileiros) jamais irão esquecer: a detenção, na sexta-feira, dia 14, de 21 diretores de nove grandes empresas que juntas somavam contratos no valor de 59 bilhões de reais com a maior empresa da América Latina. Batizaram a operação de Juízo Final. O sábado, dia 15, como lembraram com orgulho na sede da PF em Curitiba, era o Dia da República. E no domingo, dia 16, o aniversário da Polícia Federal. Nesse mesmo dia, 16 meses depois de o delegado Anselmo voltar seu foco para a casa de câmbio que Carlos Chater mantinha num posto de gasolina em Brasília, a presidenta Dilma Rousseff declarou, na Austrália, que a Operação Lava-Jato “poderia mudar o Brasil para sempre”.