O enterro de um torturador abandonado pelos comparsas de 21 anos de ditadura e mais um risível laudo policial

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Tudo que o coronel Paulo Malhães fez em vida terminou acontecendo na hora da morte.  Faleceu sozinho, depois de duas ou oito horas de tortura, e enterrado sem os velhos amigos dos porões do golpe de 64. Apenas 51 pessoas acompanharam o cadáver. A única diferença que o corpo foi entregue aos familiares para o sepultamento. Que o Brasil continua com milhares de desaparecidos ocultados em valas comuns nos cemitérios oficiais e clandestinos. Ou os corpos jogados no alto mar. Ou cremados em fornos de fábricas de empresários que financiaram o CCC – Comando de Caça aos Comunistas.

A imprensa publica hoje o press release da polícia: O coronel reformado do Exército morreu de “causas naturais, vítima de edema pulmonar, isquemia de miocárdio e miocardiopatia hipertrófica”, conforme a Guia de Sepultamento do militar entregue, ontem, em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, onde foi sepultado. Isso apenas contasta o óbvio:  o ancião, quem tem mais de 70 anos, não suportou a tortura.

O documento, que é necessário para que o enterro seja realizado, contraria algumas linhas de investigação da polícia, que apura se houve violência na morte do militar, e avaliação da Comissão da Verdade do Rio, que classificou o óbito como “queima de arquivo”.

Coronel foi enterrado na tarde deste sábado
Coronel foi enterrado na tarde deste sábado

 

O coronel confessor ter participado de assassinatos, torturas e desaparecimentos durante a ditadura. Em depoimento à Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, a mulher dele, Cristina Batista Malhães, e o caseiro deles, Rogério, que não teve divulgado seu sobrenome, afirmaram que chegaram ao sítio em Nova Iguaçu às 14h de quinta-feira e encontraram três homens na casa. Um estava encapuzado – mascarado porque conhecido – e rendeu Cristina, outro imobilizou o caseiro e o terceiro levou Malhães para um quarto. A polícia calcula que Malhães morreu por volta das 16h — duas horas depois da rendição. Considero um escárnio quando a polícia “calcula”.

Segundo os depoimentos, os homens que ficaram com Rogério e Cristina mandavam que eles mantivessem a cabeça abaixada. Foram roubados do sítio um computador, uma impressora e pelo menos três armas antigas — uma de cano longo e duas de cano curto. Na primeira versão da morte, para fortalecer a tese de latrocínio, foi dito que Malhães era um “colecionador de armas”.

Parece piada: O delegado Fábio Salvadoretti disparou que na região há quadrilhas de traficantes que poderiam ter interesse nas armas. Os assassinos buscavam o computador e documentos.

Cristina e Rogério disseram que não ouviram gritos de tortura vindos do quarto, e que foram libertados, gentilmente, pelos próprios invasores quando eles deixavam a casa, depois de oito ou nove horas. O coronel foi amordaçado.

Um mês antes de morrer, Malhães falou sobre o desaparecimento dos restos mortais do deputado federal Rubens Paiva, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade no dia 25 de março. Também informou que agentes do Centro de Informação do Exército (CIE) mutilavam corpos de vítimas da repressão na Casa da Morte (Petrópolis) arrancando arcadas dentárias e pontas dos dedos para impedir identificação.

Ontem, o administrador Joaquim Sarmento Souza, 25, afilhado do coronel, relatou uma conversa que teve com a viúva do militar, logo após o crime, na qual ela afirmou que os criminosos citaram ter ordens para “matar ele”. “A mulher dele (Cristina) contou que os bandidos se falavam o tempo todo por rádio. E recebiam ordens: ‘Ainda não matou ele? Tá demorando muito. A ordem é matar ele’. Perguntavam se o meu padrinho não lembrava da família que ele matou em (Duque de) Caxias e ele respondia que não”, disse Souza. Fica a pergunta: por que demoraram nove horas?

O rapaz diz crer que o crime foi motivado por vingança, de uma das vítimas torturadas no passado ou de algum ex-empregado de Malhães, já que o oficial se desentendia com frequência com eles. “Ele sempre teve muito problema com funcionário, desde o cara que cuidava dos animais ao que capinava o mato no entorno da casa”, lembrou. Um empregado de salário mínimo com equipamento moderno de comunicação e, pelos menos, dois veículos.

Mais velha dos cinco filhos do coronel, Karla Malhães, afirmou que o pai tinha alguns problemas de saúde e inclusive era hipertenso “o que é normal para a idade”, destacou. Na última quinta-feira (24) quando foi encontrado no sítio em que morava com a mulher Cristina Batista Malhães, o corpo de Malhães estava de bruços, com o rosto contra o travesseiro e apresentava sinais de cianose, característicos de sufocamento.

Carla Malhães afirmou que o depoimento do pai, confessando ter participado de crimes durante a ditadura, acabou “expondo ele mesmo e toda a família. “O depoimento dele foi muito contundente. Nós mesmos nos surpreendemos”.

Karla acrescentou que a família não tem acompanhado o andamento das investigações. “Não pensamos em nada disso (investigação). Isso é com a polícia. Estamos nos despedindo de nosso pai”. Ela disse que os filhos não sabiam do papel exercido pelo pai durante a ditadura. “Para nós ele era apenas pai. E um bom pai. Para vocês, era um coronel da ditadura. É tudo muito doloroso”, acrescentou a filha.

Irmão mais novo de Karla, Paulo Malhães Junior afirmou que o pai nunca falou sobre possíveis ameaças. “(Ele) não chegou a comentar nada. Não sabemos de nada. Estamos tão perdidos quanto vocês (sobre as motivações do assassinato)”.

"Nós acabamos de enterrar nosso pai, o marido da Cristina. O coronel, o tirano, fica para vocês", disse Karla Malhães, uma das filhas do coronel
“Nós acabamos de enterrar nosso pai, o marido da Cristina. O coronel, o tirano, fica para vocês”, disse Karla Malhães, uma das filhas do coronel

Escreveu Vania Cunha: “Um homem controverso

Aos 77 anos, completados há uma semana, Paulo Malhães vivia recluso em seu sítio em Nova Iguaçu há quase três décadas. Recebia poucas visitas e morava apenas com a mulher. O homem que chocou o Brasil ao dizer que matou ‘tantas pessoas quanto foram necessárias’ durante a ditadura agora passava os dias cuidando dos cachorros e cultivando uma coleção de orquídeas.

Nos últimos 30 anos, o militar vivia recluso no sítio de Marapicu. Ultimamente, tinha poucos contatos com os filhos e morava só com a mulher. Foto:  Juliana Dal Piva
Nos últimos 30 anos, o militar vivia recluso no sítio de Marapicu. Ultimamente, tinha poucos contatos com os filhos e morava só com a mulher. Foto: Juliana Dal Piva

Nos últimos dois anos, estava com os movimentos limitados devido a uma queda durante uma reforma da casa. Passava os dias sentado nas cadeiras da varanda . A relação com a família era distante. Ele tinha cinco filhos e estava no sexto casamento. Colocado na reserva em 1985, logo após o fim da ditadura, Malhães guardava uma imensa mágoa do Exército, por quem dizia ter sido abandonado. Um dos maiores orgulhos do coronel Malhães era o que dizia ser a sua especialidade: formar infiltrados. ‘Eu adorava meu trabalho’, costumava dizer.

Ex-chefe do DOI-Codi assassinado em 2012

O coronel reformado Paulo Malhães não é o primeiro militar ligado ao desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva a ser assassinado. Em 1º novembro de 2012, o coronel da reserva Júlio Miguel Molina Dias, de 78 anos, ex-chefe do Departamento de Operações de Informação do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) no Rio, foi morto com seis tiros quando chegava de carro a sua casa em Porto Alegre.

Peritos encontraram num arquivo pessoal de Molina documentos comprovando que, levado por uma equipe do Centro de Inteligência da Aeronáutica em 20 de janeiro de 1971, Paiva desapareceu numa estabelecimento do Exército.

O militar gaúcho havia sido chefe do DOI-Codi carioca até início dos anos de 1980. As anotações estavam em uma folha de ofício já amarelada pelo tempo e havia sido retirada do arquivo que as Forças Armadas negam existir.

No ano passado, a Justiça gaúcha condenou dois policiais da Brigada Militar pelo crime. Eles teriam matado Molina para roubar 20 armas que o militar guardava em casa”.

Para mídia europeia, morte de coronel Malhães é queima de arquivo

A morte de Malhães tem repercussão na mídia internacional. O jornal espanhol El Pais afirma que “as feridas da ditadura militar brasileira seguem abertas e ainda há muitas coisas para saber sobre esse período, trinta anos após a redemocratização do país”. O jornal comenta que “as pessoas que mataram Malhães podem ter pretendido mandar um recado a todos os convocados a testemunhar na Comissão da Verdade”. El Pais evoca a frieza com que Malhães relatou à CNV as mutilações que executava nos presos políticos para evitar sua indentificação.

O jornal O Público, de Portugal, diz que “a morte de Paulo Malhães trouxe a lembrança do caso de Júlio Molinas Dias, outro ex-coronel que foi morto em novembro de 2012 na porta de casa”. O diário português reproduz comentários de membros da CNV que atribuem a morte de Malhães a uma queima de arquivo.

Queima de arquivo

Segundo Pedro Dallari, no longo depoimento que o coronel concedeu à CNV no dia 25 de março, “ficou evidente que ele dispunha de mais informações”. Na opinião de Dallari, “o assassinato de Malhães deve ter sido praticado com a finalidade que ele não voltasse a depor e e também para inibir o depoimento de outras testemunhas que poderiam colaborar ou que ainda podem colaborar com os trabalhos da Comissão da Verdade”. Uma clássica queima de arquivo.

 

Assassinos passaram nove horas com o coronel Malhães

Nove horas buscando armas é tempo demasiado. Tudo indica que procuravam documentos. Dossiês. Fotografias. Filmes. Arquivos dos porões da ditadura. 

O coronel deve ter sido interrogado antes de morrer. É preciso descobrir sinais de tortura. 

 

Coronel Paulo Malhães no sítio em que foi assassinado
Coronel Paulo Malhães no sítio em que foi assassinado

 

 

O coronel reformado do Exército Paulo Malhães foi encontrado morto na manhã desta sexta-feira, 25, no sítio em que morava em Nova Iguaçu (cidade na Baixada Fluminense). O corpo apresentava marcas de asfixia, segundo a Polícia Civil.

De acordo com o relato da viúva do coronel, Cristina Batista Malhães, três homens invadiram o sítio de Malhães na noite desta quinta-feira, 24, à procura de armas. O coronel seria colecionador de armamentos, disse a mulher aos policiais da Divisão de Homicídios da Baixada que estiveram na propriedade.

Cristina disse que ela e o caseiro foram amarrados e trancados em um cômodo, das 13h às 22h desta quinta-feira pelos invasores.

O coronel da reserva Paulo Malhães, que tomou os noticiários ao revelar como funcionava o centro de tortura clandestino da ditadura em Petrópolis e que revelou o destino do corpo do ex-deputado Rubens Paiva, teve atuação de destaque na repressão política durante a ditadura militar e, no mês passado, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, assumiu ter participado de torturas, mortes e desaparecimentos de presos políticos.

Segundo contou ao GLOBO Carla, a filha de Malhães, três pessoas entraram na casa do coronel reformado na tarde de quinta-feira, prenderam a mulher dele num aposento e mataram ele por sufocamento. Na ação, o grupo levou todas as armas que ele tinha em casa.

Segundo disseram ao jornal “Extra” investigadores da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, que acabam de realizar uma perícia no local, Malhães ficou em poder dos bandidos de 13h às 22h, segundo o relato de testemunhas.

“Eu fiquei amarrada e trancada no quarto, enquanto os bandidos reviravam a casa toda em busca de armas e munição. Não era segredo que ele era colecionador de armas”, disse a viúva Cristina Batista Malhães, enquanto era conduzida para a Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) para prestar depoimento.

De acordo com apuração do jornal, o caseiro também foi conduzido para a delegacia. Ele ficou trancado em outro cômoda da casa, amarrado. Segundo disse o delegado Fábio Salvadoretti, da DHBF, ao “Extra” não havia marcas de tiros no corpo de Paulo Malhães, apenas sinais de asfixia.

A princípio, ele foi morto por asfixia. O corpo estava deitado no chão do quarto, de bruços, com o rosto prensado a um travesseiro. Ao que tudo indica ele foi morto com a obstrução das vias aéreas.

Nadine Borges, integrante da Comissão Estadual da Verdade e responsável por tomar o depoimento de Malhães há poucas semanas, cobrou uma investigação célere do assassinato. Segundo ela, este não pode ser tratado como um crime comum.

 

Os assassinos revistaram a casa, principalmente a papelada existente
Os assassinos revistaram a casa, principalmente a papelada existente

Família está surpresa, diz filha sobre morte de coronel

A médica Karla Malhães, mais velha dos cinco filhos do coronel reformado Paulo Malhães, disse, na tarde desta sexta-feira, que a família “está surpresa e não sabe o que pensar” sobre o crime.

Karla contou que conversou com o pai no domingo, 20, e chegou a perguntar se ele havia sofrido ameaças por conta dos depoimentos prestados às Comissões Nacional e Estadual da Verdade. Malhães negou ter sido ameaçado

“É tudo muito, muito assustador, muito surpreendente, não sabemos o que pensar. Por enquanto é latrocínio, roubo seguido de morte”, afirmou Karla, no sítio do pai.

A médica foi avisada da morte de Malhães na manhã de hoje, ao receber o telefonema de um policial militar que estava na casa do coronel.

Segundo Karla, a viúva, Cristina Malhães, e o caseiro foram amarrados pelos criminosos, que fugiram levando as armas da coleção do coronel, além de eletrodomésticos. Alguns objetos foram deixados no mato pelos assaltantes.

Karla contou que na infância não sabia das atividades do pai. A filha disse só ter tomado conhecimento das prisões e torturas depois dos depoimentos às comissões da verdade.

“Não sabíamos de nada e ficamos surpresos. Dissemos a ele que não devia ter falado, tanto tempo depois, ainda mais sem nos preparar. Nunca entendemos por que ele decidiu falar. Sempre foi uma pessoa muito reservada, muito difícil. Não era de conversar”, afirmou Karla.

Segundo a filha, Malhães se isolou ainda mais da família depois dos depoimentos. O coronel completou 77 anos no dia 17 de abril, sem qualquer comemoração, disse Karla. A Divisão de Homicídios da Baixada investiga o caso. As Comissões Estadual e Nacional da Verdade pedem que a Polícia Federal participe da apuração da morte do coronel. A família ainda não decidiu sobre o enterro.

 

Malhães acusa coronel de assassinar jornalista em 1982
Antes de morrer, Alexandre Von Baumgarten deixou com amigos um dossiê em que responsabilizava o então ministro-chefe do SNI, general Octávio Medeiros, e o chefe da Agência Central do órgão, general Newton Cruz

O coronel da reserva do Exército Paulo Malhães, que afirmou à Comissão Estadual da Verdade do Rio ter participado de operações para fazer desaparecer corpos de presos políticos assassinados sob tortura na ditadura militar, disse a investigadores da CEV que o coronel do Exército Freddie Perdigão – que era conhecido como Dr. Nagib no DOI-Codi, órgão de repressão política ligado ao I Exército – assassinou o jornalista Alexandre Von Baumgarten em 1982.

Ligado ao Serviço Nacional de Informações (SNI), Baumgarten foi encontrado morto a tiros na praia da Barra da Tijuca, em 25 de outubro daquele ano, dias depois sair para pescar na traineira Mirimi. A embarcação e os corpos da mulher de Baumgarten, Jeanette Hansen, e do barqueiro Manoel Valente Pires, desapareceram. Antes de morrer, Baumgarten deixou com amigos um dossiê em que responsabilizava o então ministro-chefe do SNI, general Octávio Medeiros, e o chefe da Agência Central do órgão, general Newton Cruz, caso morresse. O texto foi revelado depois que o corpo apareceu. Cruz foi denunciado à Justiça, mas foi absolvido por falta de provas.

De acordo com Malhães, Perdigão – que morreria nos anos 90 – seguiu a Mirimi com outro barco, a interceptou e matou o jornalista a tiros. O corpo foi jogado no mar. A traineira foi afundada. Não há, no depoimento, informações sobre o que aconteceu com Jeanete e com Pires. A eliminação do jornalista envolveria a “Operação O Cruzeiro”, uma tentativa do “serviço” de usar um título da revista do mesmo nome para criar uma corrente de opinião pública favorável à ditadura, então cada vez mais impopular. Baumgarten adquiriu os direitos do título em 1979 e atuava à frente da revista a mando do SNI, que se encarregava de extorquir publicidade para a publicação e lhe dar dinheiro diretamente. O novo “O Cruzeiro” não resistiu ao fracasso editorial, e Baumgarten, sob ameaça, foi obrigado pelo SNI a vendê-lo.

O nome de Perdigão surgiu depois de três horas de conversa, quando a equipe da CNV, interessada no destino dos restos mortais do ex-deputado Rubens Paiva, insistia em saber onde eram jogados os corpos dos presos mortos pela repressão. Malhães explicou que não era possível enterrar, porque, segundo disse, sempre acabam achando cadáveres enterrados nessas circunstâncias. Quando lhe perguntaram se as vítimas eram jogadas no mar, respondeu que apenas a Aeronáutica agia assim. “O único corpo que jogaram no mar foi o Perdigão, foi uma cagada”, disse. Quando lhe perguntaram o que o oficial fizera, ele afirmou: “Foi aquela do cara que escrevia no ‘Cruzeiro'”. “Von Baumgarten?”, insistiram os pesquisadores. “Von Baumgarten” confirmou Malhães.

Segundo o coronel da reserva, Perdigão e seus comparsas, após o que chamou de “combate de caravelas”, chegaram a pensar em simular um afogamento para encobrir o homicídio, o que não foi possível, devido aos ferimentos a bala. Depois, já no Instituto Médico-Legal, agentes do SNI tentaram, segundo ele, trocar o corpo do jornalista por outro, remanejando a etiqueta de identificação, mas isso também não teria funcionado. Perdigão/Nagib é citado no Projeto Brasil Nunca Mais como torturador. (Do noticiário de várias agências publicados pela Gazeta do Povo, Paraná)

Faltam os nomes dos comandantes do torturador coronel Malhães

ditadura golpista

 

Escreve Clóvis Rossi: “Mesmo para quem lidou durante muitos anos com a questão dos direitos humanos, no Brasil e na América Latina, é chocante ler o depoimento do coronel reformado Paulo Malhães à Comissão Nacional da Verdade (folha.com/no1430795).

Mas choca apenas pelo sadismo revelado pelo oficial e pela frieza com que confessa crimes bárbaros. O fato de que havia torturas e assassinatos já era arquiconhecido e, portanto, não pode provocar surpresa, a não ser em distraídos, desavisados ou viúvas da ditadura, como os que promoveram a fracassada reedição da Marcha da Família.

De todo modo, creio que seja uma das primeiras vezes, talvez até mesmo a primeira, em que um torturador –e não um torturado– admite os fatos como os fatos se passaram. Com o adicional de que era um oficial cuja função lhe permitia ter pleno conhecimento de tais fatos.

José Carlos Dias, o advogado que o interrogou na CNV, chamou o coronel reformado de ‘sádico e exibicionista”. Leia mais no blogue Ficha Corrida.

Todo torturador é um sádico. Não vejo exibicionismo no depoimento do coronel Malhães. Ele tem várias motivações para confessar. Já era conhecido como torturador. Ele quebrou o pacto do silêncio para não ser boi de piranha. Houve tortura nas delegacias das polícias estaduais e federal, e nos quartéis das polícias militares e das forças armadas em todo o Brasil. E quantos nomes de torturadores foram revelados?

Malhães apresenta alguns, para indicar que oficiais superiores torturaram. Escreve Bernardo Mello Franco: “Confrontado com nomes e fotos de vítimas, Malhães alegou que não conseguia reconhecê-los. Também se recusou a indicar colegas da repressão, com raras exceções.

Numa delas, disse ter recebido ordem do coronel Coelho Neto, então subchefe do CIE (Centro de Informações do Exército), para ocultar a ossada do ex-deputado Rubens Paiva, morto em 1971. Mas afirmou não ter executado a tarefa, contrariando o que disse recentemente aos jornais ‘O Dia e ‘O Globo’.

Ele também apontou o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, chefe de contrainformações do CIE, como comandante da Casa da Morte”.

Todos os nazistas no Tribunal Militar Internacional, no Palácio da Justiça em Nuremberg, alegaram que receberam ordens.

Malhães foi covarde quando torturava, e continuou covarde nas confissões parciais: “recusou a indicar” os chefes dele e dos colegas da repressão. Os intocáveis comandos superiores.