Reintegração de posse acaba em guerra no centro de São Paulo

* Policiais da Tropa de Choque entraram em confronto com sem-teto que ocupavam o prédio há seis meses

Ônibus incendiado no Viaduto do Chá.
Ônibus incendiado no Viaduto do Chá.

por Beatriz Borges/ Talita Bedinelli
El País/ Espanha


A esquina mais icônica de São Paulo se transformou num cenário de guerra nesta terça-feira. Uma reintegração de posse em um antigo hotel na avenida São João, próximo à avenida Ipiranga, deixou ao menos três pessoas feridas, entre elas uma criança, uma grávida e dois policiais militares, além de ruas bloqueadas, um ônibus queimado, orelhões destruídos e várias lojas invadidas. Cerca de 70 pessoas foram encaminhadas para a delegacia, onde foram fichadas e liberadas, e outras três foram presas e responderão por suspeita de roubo, furto e depredação.

O imóvel abandonado há dez anos estava ocupado por 205 famílias havia pelo menos seis meses, de acordo com a Frente de Luta pela Moradia, movimento que coordenou a ocupação. Por volta de 6h, a tropa de Choque chegou ao local para dar prosseguimento a uma reintegração de posse dada pela Justiça e entrou em confronto com os moradores, que reagiram atirando móveis e objetos pela janela.Os policiais atiraram balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo para dentro do edifício, onde havia muitas crianças, que estavam reunidas no segundo dos 21 andares do hotel. Por volta das 16h, o confronto recomeçou e diversas lojas da região voltaram a fechar suas portas.

Uma das crianças desmaiou por conta do cheiro da bomba de gás jogada pela polícia. Outras choravam e tapavam o rosto para tentar evitar os efeitos da fumaça. Um homem também desmaiou em plena rua e foi carregado por fotógrafos para longe da confusão. Outro foi atingido na perna e sangrava. Dois policiais foram levados para o hospital, assim como uma gestante, de acordo com informações do comandante da operação Glauco de Carvalho, que disse discordar que tenha havido abusos por parte da polícia. Ainda não há informações sobre o estado de saúde dos feridos.

As ruas no entorno da avenida Ipiranga com a São João foram tomadas por barricadas formadas por móveis e objetos incendiados, o que bloqueou completamente o trânsito. Ao menos nove ruas foram afetadas, além de avenidas como a São João, São Luís e Rio Branco, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego. Após quatro horas e meia de confronto, um ônibus foi incendiado no Viaduto do Chá, ao lado do gabinete da prefeitura. Trinta linhas de ônibus acabaram sendo desviadas, afirmou a SPTrans.

No meio da confusão, homens apareceram quebrando as calçadas para conseguir pedras e atirar em direção aos policiais. Manifestantes que não eram moradores do prédio haviam se juntado ao grupo. As câmeras da rede de TV Globonews flagrou pessoas forçando as portas de uma loja. Uma loja da Claro e uma do McDonald’s foram arrombadas, mas as pessoas fugiram após a chegada de policiais.

Nilvário César e Estivo, coronel da Tropa de Choque, disse que três pessoas foram detidas por furto de computadores e eletrônicos. “O Choque foi chamado para controlar o tumulto da população flutuante do centro da cidade, que não necessariamente são pessoas ligadas ao movimento, já que houve muito aproveitamento da situação”, disse.

“Saí do prédio e larguei todas as minhas coisas para trás. Tenho medo que estejam usando meus móveis para fazer barricadas”, dizia o entregador de pizza Ronaldo Ferreira, 26 anos, com o rosto vermelho e os olhos inchados por conta do gás.

Fotogaleria Imagens da batalha campal

São Paulo: Coronel da PM dá aula na USP amanhã

USP demonstra quem dá as cartas no campus. Exatamente um ano após a Tropa de Choque invadir a universidade, oferecerá a um coronel da PM o espaço privilegiado de uma sala de aula para que ele possa ensinar aos estudantes os motivos pelos quais eles devem se submeter a uma vida vigiada. Imperdível!
Os magníficos
Os magníficos

Sob o pretexto de discutir o tema “Segurança e Privacidade”, a Comissão de Ética da USP e o Instituto de Estudos Avançados (IEA) realizarão amanhã, às 15 horas, na sala de eventos do IEA, a primeira mesa-redonda do ciclo Ética e Universidade, que contará com a exposição do coronel Glauco Carvalho, da Polícia Militar.

Credenciais do Coronel

Glauco dirige desde junho o Comando de Policiamento de Área Metropolitana-7, responsável pela “polícia ostensiva e pela preservação da ordem pública” nos municípios de Guarulhos, Arujá, Santa Isabel, Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Cajamar e Mairiporã [região que entre junho e setembro registrou mais de 75 homicídios].

Mas as credenciais da figura são mais graúdas. O coronel atuou por cinco anos no comando geral da PM e Casa Militar, responsável pela segurança direta do palácio do governo do estado, nas gestões Claudio Lembo e Geraldo Alckmin.

Cabe lembrar que foi durante o governo de Claudio Lembo, em 2006, que ocorreram os extensos conflitos e assassinatos em série entre o PCC e a polícia, conflitos que agora voltam à tona. Ao final de 2006, o dedicado ajudante de ordens do governador teceu elogios ao chefe pelo apoio dado à corporação: “queremos agradecer em nome da sociedade paulista a forma com que o senhor conduziu o Estado e pelas virtudes demonstradas neste tempo todo”.

Glauco Carvalho foi também assessor do núcleo de estudos políticos da Fecomercio, presidido pelo ex-governador.Além dele, a mesa terá como debatedores o recém-eleito diretor da FFLCH, Sérgio Adorno, que apoia a divisão da faculdade e a presença da PM no campus, e Leandro Carneiro, do Instituto de Relações Internacionais da USP, defensor da política de segurança do governo do estado de São Paulo e adepto da política do punir mais é punir melhor.

Essa é a ética que nos quer ensinar João Grandino Rodas!

É a mesma ética das câmeras escondidas no bandejão, a mesma do código de ética que serviu para dar verniz democrático às expulsões de estudantes não apenas baseadas no regimento ditatorial de 1972, e que agora a burocracia nos quer empurrar garganta abaixo.Precisamos dizer não a essas regras de conduta que nada mais querem do que naturalizar a presença da PM no campus, não apenas reprimindo e vigiando, mas ditando os rumos da universidade.

Não aos coronéis nas salas de aula!

Fora com os milicos da USP!

O túnel das muitas rodas do tráfico

Eles descobriram por acaso o túnel de venda de drogas na USP.

O lugar foi descoberto ontem, sem querer, por policiais que cumpriam sete mandados de prisão contra suspeitos de matarem um policial militar da Rota em setembro.

Uma das extremidades do túnel fica a cerca de 50 metros de um muro que divide a favela da Cidade Universitária. Nesse muro, havia um buraco por onde era possível vender drogas para estudantes e frequentadores da USP.

“A pessoa não precisava nem entrar na favela. Só chegava no muro, dava o dinheiro para o ‘aviãozinho’ e ele voltava com a droga que ela quisesse”, afirmou o coronel César Augusto Morelli, comandante do Policiamento de Choque de São Paulo.

Além de servir para transportar a droga até o usuário, o túnel era utilizado como rota de fuga pelos criminosos.

Buraco de entrada na favela São Remo via muro da USP

A favela da USP
A favela da USP: convivência pacífica