Manda-chuvas das prefeituras matam os pobres soterrados na lama e nos escombros dos casebres

Os despejos judiciais criam novas favelas nas regiões metropolitanas

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RECIFE
RECIFE

caos e morte

tragedia morro drama asfalto

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Não se faz nada que preste para o povo que se amontoa em áreas de risco

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Hoje mais um incêndio em favela. A justiça contra os pobres realiza despejo em São Paulo

incêndio

O Tribunal de Justiça de São Paulo mais uma vez realiza um despejo. Contra os moradores pobres de uma das duas mil favelas de São Paulo.

Quando não é a frieza da justiça – São Paulo possui o maior tribunal do Mundo, com 360 desembargadores – é o calor infernal dos incêndios criminosos promovidos pela ganância imobiliária, pelos grileiros, os coronéis do asfalto.

Para realizar despejo não falta polícia. A polícia do governador Geraldo Alckmin não falha, sempre está de prontidão contra o povo. Nem tarda a justiça dos ricos.

incêndio 1

Despejo, a imprensa chama de reintegração de posse de terreno invadido. A justiça e a imprensa escondem a mão que assinou o despejo, e o nome do milionário beneficiado com a evacuação na marra, no prende e arrebenta da polícia militar que continua a mesma da ditadura.

Uma polícia nada social. Uma polícia repressiva e assassina.

Despejo judicial, a imprensa chama de desocupação involuntária, e justiça nada social, não quer saber quantas famílias vão ser separadas, desagregadas.

Despejo separa os filhos dos pais, e condenam jovens a uma vida ainda mais miserável. São os filhos da rua que terminam no crime desorganizado e na prostituição.

Ninguém investiga quantos suicídios provocam um despejo de centenas, de milhares de pessoas.

Elena
Elena

O incêndio nos barracos que passaram por reintegração de posse no Bairro do Limão, na zona norte da capital paulista, foi extinto por volta das 9h de hoje (11). O espaço próximo à Marginal Tietê tem 10 mil metros quadrados e era ocupado por famílias em 114 barracos.

A desocupação da área, na Rua Coronel Euclídes Machado, começou por volta das 7h30, quando houve um incêndio. A Polícia Militar (PM) informou que um adolescente de 17 anos, morador da ocupação, foi apreendido por atear fogo no local.

De acordo com o tenente-coronel da PM Carlos Henrique Martins Navarro, no momento da prisão desse adolescente um grupo de moradores se revoltou e tentou bloquear a Marginal Tietê, mas foram impedidos pelos policiais.Moradores reclamaram da apreensão do jovem.

“Prenderam o rapaz sem nem saber o porquê. Colocaram ele na viatura e não quiseram nem falar o que tinha acontecido para a mãe dele. A mãe dele está passando mal. Isso não acho justo porque nós estamos aqui querendo moradia. Não foi ele quem colocou fogo lá”, disse Milena Américo da Silva, estudante.

O movimento Ocupe Estelita e a “sociedade dos muros”

A sociedade busca romper a cortina de silêncio sobre o modelo político em que ganham as empresas e o cidadão paga a fatura

Meime do Movimento Ocupe Estelita. Página Facebook
Meime do Movimento Ocupe Estelita. Página Facebook

por Maria Eduarda Mota Rocha/ El País/ Espanha

“Prédio, só prédio sobre palafita, o Recife inteiro é um grande Cais José Estelita”. Este é um dos gritos de guerra dos manifestantes do Movimento Ocupe Estelita (MOE) que, desde maio de 2014, ganhou as ruas da cidade para reivindicar uma destinação pública para o terreno às margens do Rio Capibaribe. Naquele momento, com a tentativa de demolição dos antigos armazéns de açúcar, em plena madrugada, iniciava-se uma ocupação que só foi interrompida pela violenta expulsão dos manifestantes pela Polícia Militar, sob o comando do governo do PSB.

A ocupação durou cerca de um mês, mas seu significado na memória política da cidade é profundo. Antes dela, a máfia público-privada que governa Pernambuco e Recife não encontrava uma oposição de fato. Planava em céu de brigadeiro, respaldada em uma visão tacanha de “desenvolvimento” combinada a uma antiga tradição coronelesca. Contra ambas, a ocupação do terreno do Cais José Estelita lembrava que algo como uma sociedade civil ainda poderia subsistir por aqui. Não nos enganemos: desde, pelo menos, a década de 1970, a cidade abriga uma forte tradição de movimentos sociais urbanos, de luta pela moradia e pelo reconhecimento de direitos em face ao Estado. Mas a herança mais perversa do último ciclo político no Brasil parece ter sido justamente uma certa blindagem dos poderes públicos em relação às pressões populares, diante da fusão entre esses poderes e os interesses mais privatistas, o que Raquel Rolnik chamou ironicamente de “democracia direta do capital”. O conjunto assim formado vence eleições mediante investimento pesado em propaganda política e cooptação de lideranças reduzidas a cabos eleitorais. Neste esquema, o dinheiro não encontra muita resistência para ser convertido em votos, o que parecia tornar dispensável o apoio dos movimentos sociais. Nas últimas eleições presidenciais, por exemplo, muitos deles só entraram no jogo de última hora, quando a polarização entre o PT e o PSDB clamou por algum “voto de minerva”.

No Recife, o cenário era o mesmo até a eclosão do MOE em maio de 2014. Diferentemente de outros movimentos sociais, o Ocupe Estelita mobiliza uma gama muito variada de competências, inclusive as da comunicação, sob as suas várias formas. Em âmbito global, os movimentos de tipo Ocupe, como os de Nova York, Madri ou Turquia, apontam todos para uma crise aguda da “democracia representativa”. Eles tentam arrombar a porta de instituições que foram se blindando à participação popular, ao longo do tempo, como os poderes judiciário, legislativo e executivo. Muito da força e do significado do Ocupe Estelita e de outros movimentos similares que tem eclodido pelo Brasil afora vem de sua capacidade de romper a cortina de silêncio construída em torno desse modelo político em que ganham os eleitos e os grandes empresários da construção civil, das empresas de ônibus e da coleta de lixo às custas de todos os demais cidadãos chamados a pagar a fatura sob a forma de cidades cada vez mais degradadas.

O fascínio pelos signos de modernidade que tanto marcou a cultura brasileira e que fez de viadutos e hidrelétricas verdadeiros atestados de ingresso no mundo ocidental explica por que governantes e empreiteiros acreditam que seus prédios com muito vidro e aço escovado podem nos demover de um desejo por uma outra cidade, leia-se, por uma outra forma de viver. A ideologia do progresso que está por trás desta crença já havia se desgastado na crise dos anos de 1980, quando a modernização conservadora do período da Ditadura começou a mostrar seus frutos para valer, dentre eles, a crise urbana que agora sentimos ainda mais fortemente. A reedição daquela ideologia no contexto do forte crescimento econômico dos últimos anos conteve a insatisfação, por um tempo. Mas, no reflexo dos vidros espelhados dos prédios “modernos” que se multiplicam pelo Brasil, o que vemos é uma cidade dividida entre o medo e o ódio, na qual todos os que não podem andar de helicóptero tem que desperdiçar todo dia um tempo precioso de suas vidas.

A “cidade dos muros” em que vivemos é expressão direta de um modelo de sociedade sustentada pelo arranjo político já descrito. As tantas lutas que cabem no Cais José Estelita convergem para a reivindicação do direito de ocupar a cidade de modo permanente, transformando seus espaços vazios em lugares plenos de significado, justamente porque compartilhados. Em uma sociedade tão pouco civilizada como a nossa, esse é um exercício fundamental para a construção simultânea da igualdade e do direito às diferenças. O desafio que se coloca para essas novas formas de mobilização social é a articulação com os outros descontentes, a partir da compreensão de que a luta pelo direito à cidade pode colocar todos no mesmo lado, o dos que buscam se fazer ouvir contra a força esmagadora do capital econômico e de seus serviçais. O grau em que tal articulação se fará terá um peso importante na definição dos contornos do novo ciclo político que parece se iniciar no Brasil. Do lado do sistema partidário, quem primeiro responder à crise do modelo político brasileiro deverá largar na frente.


Maria Eduarda Mota Rocha é pesquisadora e professora da Universidade Federal de Pernambuco.

A BATALHA EM IMAGENS
Parte dos armazéns que foram demolidos pelo consórcio em 21 de maio de 2014
Parte dos armazéns que foram demolidos pelo consórcio em 21 de maio de 2014. Foto Marcelo Soares
Parte dos armazéns que foram demolidos pelo consórcio em 21 de maio de 2014. Foto Chico Ludemir
Parte dos armazéns que foram demolidos pelo consórcio em 21 de maio de 2014. Foto Chico Ludemir
No dia 1º de junho, um evento cultural reuniu cerca de 10.000 pessoas no cais. Foto Marcelo Soares
No dia 1º de junho, um evento cultural reuniu cerca de 10.000 pessoas no cais. Foto Marcelo Soares
Apresentação de Karina Buhr no Som da Rural no Ocupe Estelita, no dia 1º de junho. Foto Marcelo Soares
Apresentação de Karina Buhr no Som da Rural no Ocupe Estelita, no dia 1º de junho. Foto Marcelo Soares
Policiais disparam spray pimenta contra ativistas sentados no chão durante a reintegração de posse do terreno, no dia 17 de junho. Foto Eric Gomes
Policiais disparam spray pimenta contra ativistas sentados no chão durante a reintegração de posse do terreno, no dia 17 de junho. Foto Eric Gomes
Após a reintegração de posse, os ativistas montaram um novo acampamento em frente ao terreno do Cais José Estelita, debaixo da alça de acesso ao viaduto Capitão Temudo. Foto Eric Gomes
Após a reintegração de posse, os ativistas montaram um novo acampamento em frente ao terreno do Cais José Estelita, debaixo da alça de acesso ao viaduto Capitão Temudo. Foto Eric Gomes
Vanessa Azevedo e Gabriela Pereira, estudantes de 25 anos, ensinam às crianças das comunidades vizinhas como fabricar 'filtros dos sonos'. A comunidade resolveu organizar atividades e aulas para tentar que os meninos deixem de cheirar cola. Foto Eric Gomes
Vanessa Azevedo e Gabriela Pereira, estudantes de 25 anos, ensinam às crianças das comunidades vizinhas como fabricar ‘filtros dos sonos’. A comunidade resolveu organizar atividades e aulas para tentar que os meninos deixem de cheirar cola. Foto Eric Gomes
As comunidades de Vila Sur I e Vila Sur II se levantam a poucos metros do novo empreendimento e já reúnem 1.200 famílias, segundo a prefeitura. Foto Eric Gomes
As comunidades de Vila Sur I e Vila Sur II se levantam a poucos metros do novo empreendimento e já reúnem 1.200 famílias, segundo a prefeitura.
Foto Eric Gomes
Vista panorâmica da região onde se pretende levantar o projeto Novo Recife. À direita, as torres Gêmeas, os primeiros arranha-céus a serem construidos no bairro histórico de São José. Foto Eric Gomes
Vista panorâmica da região onde se pretende levantar o projeto Novo Recife. À direita, as torres Gêmeas, os primeiros arranha-céus a serem construidos no bairro histórico de São José. Foto Eric Gomes