Papa Francisco: devemos criar, com a nossa fé, uma ‘cultura do encontro’, uma cultura da amizade, uma cultura onde encontramos irmãos, onde podemos conversar mesmo com aqueles que pensam diversamente de nós

Quando se ouve alguns dizerem que a solidariedade não é um valor, mas uma “atitude primitiva” que deve desaparecer… é errado! Está-se a pensar na eficácia apenas mundana. Quanto as momentos de crise, como este que estamos vivendo… Antes tinhas dito que “estamos num mundo de mentiras”. Atenção! A crise actual não é apenas económica; não é uma crise cultural. É uma crise do homem: o que está em crise é o homem! E o que pode ser destruído é o homem! Mas o homem é a imagem de Deus! Por isso, é uma crise profunda! Neste tempo de crise, não podemos preocupar-nos só com nós mesmos, fecharmo-nos na solidão, no desânimo, numa sensação de impotência face aos problemas. Não se fechem, por favor! Isto é um perigo: fecharmo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles que pensam as mesmas coisas que eu… Sabeis o que sucede? Quando a Igreja se fecha, adoece, fica doente. Imaginai um quarto fechado durante um ano; quando lá entras, cheira a mofo e há muitas coisas que não estão bem. A uma Igreja fechada sucede o mesmo: é uma Igreja doente. A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Para as periferias existenciais, sejam eles quais forem…, mas sair. Jesus diz-nos: “Ide pelo mundo inteiro! Ide! Pregai! Dai testemunho do Evangelho!” (cf. Mc 16, 15). Entretanto que acontece quando alguém sai de si mesmo? Pode suceder aquilo a que estão sujeitos quantos saem de casa e vão pela estrada: um acidente. Mas eu digo-vos: Prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, caída num acidente, que uma Igreja doente por fechamento! Ide para fora, saí! Pensai também nisto que diz o Apocalipse (é uma coisa linda!): Jesus está à porta e chama, chama para entrar no nosso coração (cf. Ap 3, 20). Este é o sentido do Apocalipse. Mas fazei a vós mesmos esta pergunta: Quantas vezes Jesus está dentro e bate à porta para sair, ir para fora, mas não O deixamos sair, por causa das nossas seguranças, por estarmos muitas vezes fechados em estruturas caducas, que servem apenas para nos tornar escravos, e não filhos de Deus que são livres? Nesta “saída”, é importante ir ao encontro de…; esta palavra, para mim, é muito importante: o encontro com os outros. Por quê? Porque a fé é um encontro com Jesus, e nós devemos fazer o mesmo que Jesus: encontrar os outros. Vivemos numa cultura do desencontro, uma cultura da fragmentação, uma cultura na qual o que não me serve deito fora, a cultura das escórias. A propósito, convido-vos a pensar – e é parte da crise – nos idosos, que são a sabedoria de um povo, nas crianças… a cultura das escórias. Nós, pelo contrário, devemos ir ao encontro e devemos criar, com a nossa fé, uma “cultura do encontro”, uma cultura da amizade, uma cultura onde encontramos irmãos, onde podemos conversar mesmo com aqueles que pensam diversamente de nós, mesmo com quantos possuem outra crença, que não têm a mesma fé. Todos têm algo em comum conosco: são imagens de Deus, são filhos de Deus. Ir ao encontro de todos, sem negociar a nossa filiação eclesial. Leia mais

A nova linguagem telegráfica

Na televisão, o anúncio de uma marca de cerveja: “Você veio aqui beber ou conversar?”. Nem precisava o alerta. Que nas boates o som é tão alto que ninguém escuta ninguém. A comunicação se faz por sinais.

 Mohammad Saba'aneh
Mohammad Saba’aneh

 

 

 

A conversa nos sítios de relacionamentos precisa ser telegráfica. As palavras abreviadas. Em c.b. Ou substituídas por emoticons.

 

Quem desconhece o internetês se trumbica.

 

Nos Sertões de Dentro e de Fora reinava o silêncio marcado pelo espaço. O silêncio dos descampados. Os povoados distantes um do outro. O isolamento das fazendas.

 

A juventude vive pendurada em um celular. Escreve com um dedo só no teclado de uma iluminada caixa mágica do tamanho de um maço de cigarro. O cata milho dos jornalistas na máquina de escrever. Que o curso de datilografia era coisa de secretária.

 

Cada edifício das metrópoles cabe a gente de uma cidade inteira. Das pequenas cidades dos municípios criados para comer verbas federais.

 

Os moradores evitam conhecer os vizinhos.

 

Dos apartamentos, intermitentes sons na madrugada: o bater de uma porta, o pisado de algum sapato de salto alto, a descarga do banheiro e, raramente, algum gemido de amor. Jamais alguma fala.

 

Na frente dos arranha-céus, os caminhões de mudança. Nunca se sabe se alguém morreu ou se foi despejado.

 

Todos os dias lançam novidades eletrônicas de comunicação, e “ninguém fala com ninguém”, registra Helio Fernandes.

 

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SILÊNCIO NAS REDAÇÕES E EM OUTROS TRABALHOS

por Helio Fernandes

 Svitalsky Bros
Svitalsky Bros

 

 

 

As sedes dos jornais do Rio, a partir de República, eram centros de cultura, de reuniões diárias, de convergência de personalidades. Essas redações substituíam os grandes salões da Europa. Rui Barbosa, João do Rio, Joaquim Nabuco e muitos outros se encontravam e debatiam nesses locais.

O Jornal do Brasil se dava ao luxo de ter no cabeçalho, como Redator-Chefe (se dizia assim na época) Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. E como eram brigados, tinham salas distantes, onde recebiam personalidades. Tudo isso acabou com a revolução na Comunicação.

Ninguém fala com ninguém, todos “enfiados ou focados” no computador, não olham para o lado, não sabem de ninguém. Observadores dizem: “Estão preocupados com o texto”. E antes, não se redigia nada, não havia preocupação com o texto?

Em Brasília, um ótimo jornalista e notável advogado me diz: “Antigamente, no meu aniversário, o telefone não parava em casa ou no escritório. Não esqueceram de mim, só que recebo dezenas de SMS, não querem conversar”.