Comissão da Verdade e os cisnes branco e negro. Marinha sempre foi contra a anistia

Por simplória burrice, almirantes de pijama pretendem orquestrar a autoria de crimes de sequestro, tortura e morte, quando a Marinha desempenhou um papel subalterno no golpe de 64.

Nos governos militares, comandados pelos marechais e generais eis a lista de vices:  José Maria Alckmin (Castelo Branco), Pedro Aleixo (Costa e Silva), Augusto Rademaker (Emílio Garrastazu Médici), Aldaberto Pereira dos Santos  (Ernesto Geisel) e  Aureliano Chaves (João Figueiredo).

O Triunvirato Militar, para impedir a posse do civil Pedro Aleixo, foi formado por Lyra Tavares,  Augusto Rademaker e Márcio Mello.

Assim a presença da marinha ficou retrista a Augusto Hamann Rademaker Grunewald, um militar da linha dura, de descendência alemã.

Augusto Radmaker
Augusto Radmaker

É notícia internacional (da BBC):
A Comissão da Verdade, criada para investigar abusos de direitos humanos cometidos durante a ditadura militar, se reunirá pela primeira vez nesta quarta-feira em meio a críticas de oficiais das Forças Armadas e de parentes de vítimas.

Descontentes com a composição da comissão, oficiais reformados do Clube Naval do Rio de Janeiro anunciaram a formação de uma “comissão paralela” para rebater as eventuais acusações do grupo oficial.

A iniciativa reflete o desconforto provocado nos militares pelo que acreditam ser uma tentativa de vingança de um governo ideologicamente tendencioso.

O regime ditatorial vigorou no Brasil por 21 anos, entre 1964 e 1985. Nesse período, cerca de 400 pessoas foram mortas ou desapareceram e milhares teriam sido torturadas – entre elas a própria presidente, Dilma Rousseff.

“Claro que coisas terríveis aconteceram nesse período, mas vítimas foram feitas dos dois lados e eles só querem contar um lado da história”, afirmou o vice-almirante Ricardo Antônio da Veiga Cabral, presidente do Clube Naval do Rio de Janeiro.

Uma vez que os militares da ativa são proibidos de expressar seu ponto de vista publicamente ou organizar sindicatos, seus clubes – liderados por oficiais generais da reserva – são bons indicadores do clima dentro das Forças Armadas.

Segundo Cabral, o Clube Naval designou “sete oficiais de confiança” para fazer parte da “comissão paralela”.

“A comissão está ainda em estágio embrionário, mas temos claro que nosso objetivo é garantir que o relato contemple os dois lados”, disse Cabral.

O grupo não deve produzir um relatório próprio, mas apenas rebater acusações que sejam feitas pela comissão oficial.

“Os jovens hoje em dia nem conhecem a história narrada pelo outro lado (o lado dos militares) porque a mídia adotou apenas uma versão”, afirmou o militar reformado.

Vítimas

Porém, as vítimas do regime e seus parentes também não estão satisfeitos. Isso porque a comissão terá poderes para investigar violações de direitos humanos, mas não para punir os responsáveis.

As estatísticas variam, mas relatórios oficiais sugerem que entre 400 e 500 militantes e civis tenham sido mortos pelos militares, ou simplesmente desaparecido. Leia mais

Considero o debate bom. Assim vão começar a aparecer os cisnes negros, como aconteceu na repressão da Revolta da Chibata, em 1910, uma das páginas mais vergonhosas, e escondidas, da História do Brasil.

A Revolta do Almirante Negro

Herói libertário da Revolta da Chibata, o Almirante Negro  João Cândido
Herói libertário da Revolta da Chibata, o Almirante Negro João Cândido

A Revolta da Chibata começou no dia 22 de novembro de 1910, quando os marinheiros brasileiros eram punidos com castigos físicos. As faltas graves eram punidas com 25 chibatadas (chicotadas).

O estopim ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega, dentro do encouraçado Minas Gerais. O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro, e a punição exagerada e cruel desencadeou a revolta.

No confronto de oficiais com marinheiros, morreram o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baia da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo.

O líder da revolta, João Cândido, o Almirante Negro, redigiu a carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia.

A mesma anistia hoje tão defendida pelos oficiais que golpearam Jango.

O presidente marechal Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações,  desconsiderou a anistia,  expulsou e prendeu os revoltosos. A insatisfação retornou e, no começo de dezembro, os marinheiros presos fizeram outra revolta. Esta segunda revolta foi fortemente reprimida pelo governo, sendo que vários marinheiros foram torturados e barbaramente assassinados, notadamente em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras. Outros revoltosos presos foram enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha.

O líder da revolta João Cândido também expulso da Marinha, foi internado como louco no Hospital de Alienados.

Reduto de brancos, a Marinha ganhou assim um Almirante Negro, patente dada pelo povo, e um herói para toda a eternidade, glorificado  pela História.

A família de João Cândido quer – nada mais legítimo – os mesmos direitos que os perseguidos pela ditadura militar.