Rolezinho. Onde uma criança e um jovem negro devem passar as férias escolares?

Goiânia
Goiânia

Pela oferta de segurança e atrações, as crianças e jovens brancos da classe média – quando os pais não estão em férias no exterior, nas casas de campo ou de praia – vão ao shopping.

No Recife não existe passeio público, e quando um grupo de negrinhos e/ou negrinhas se reúnem na rua que mora, nas periferias da cidade, sofrem batidas policiais, as costumeiras pauladas e bolinagens.

Quanto mais afastado o lugar, mais violenta a abordagem da polícia. Isso o governo chama de patrulha nos bairros.

Que espaço urbano, os prefeitos e governadores oferecem para rolar os rolezinhos dos negros neste Brasil em que nada se faz que preste para o povo?

Rolezinho jovem permitido
Rolezinho jovem permitido

ROSANA PINHEIRO MACHADO (professora de antropologia na Universidade de Oxford)

“De racismo cordial e velado não temos nada”

Roseana Pinheiro Machado
Rosana Pinheiro Machado

O rolezinho é um evento de jovens da periferia que se reúnem para passear nos shoppings das cidades, cantar funk e se divertir. Em grupo, os jovens da periferia sempre foram aos shoppings. Não é um processo novo, a não ser em sua dimensão e intencionalidade. Mas o rolezinho hoje é muito mais do que isso: é um dos mais importantes fenômenos da sociedade brasileira, não pelo evento em si, mas pelo seu poder de reação, entre amor e ódio. Poucas vezes tivemos um momento tão especial para pensar o Brasil como agora por tudo que isso traz à tona.

É muito difícil dizer se são protestos conscientes. De alguma forma todos são. Há uma reinvindicação clara de ocupar espaços urbanos privilegiados, de marcar presença. É um basta na invisibilidade. Toda a marcha, em maior ou menor medida, é uma reivindicação ao “direito à cidade”, como diria o filósofo francês Henri Lefebvre.

É um evento político consciente que tem relação com outras práticas da periferia, como as pichações, que tem por objetivo marcar os espaços e transmitir uma mensagem. Mas o grau da intencionalidade é impossível definir: ele varia de grupo para grupo, de cidade para a cidade.

O resultado político do rolezinho, no entanto, é muito interessante, seja pelo ponto de vista de como ele reflete a sociedade brasileira, seja como esse reflexo volta para os grupos, que se vão dando conta do tremendo papel político que desempenham. É evento vinculado ao culto ao consumo de ostentação. Nesse sentido, é importante evitar romantizações de que se trata de um evento de luta de classes de esquerda. Por outro lado, o resultado disso se assemelha a um processo muito semelhante, em que as camadas populares descem o morro e tomam conta de espaços que lhes foram negados. Ai então a sociedade reage, com raiva e rancor. A periferia sente na pele a exclusão, sente que não é benvinda e assim vai tomando cada vez mais conta de seu papel político.

A programação desses jovens não é nada novo também. Pelo Orkut ou pelo Facebook, jovens da periferia sempre se reuniram para passear, como acontecia no caso dos “bondes” que, pelo Orkut, se encontravam nos shoppings e nas praças. Eles se reúnem porque isso faz parte dos processos de pertencimento peculiares à cultura juvenil de grupos urbanos.

Se levarmos em consideração que o rolezinho é um processo e não algo novo, fica difícil perceber relação direta com os eventos do ano passado. No entanto, é claro que essa atmosfera de um Brasil injusto, que não pode mais se calar, acaba afetando e dando uma nova dimensão ao fenômeno. Ele vem a calhar em um momento em que a sociedade brasileira está se dividindo. De um lado, uma parte da população tem se revelado preconceituosa, racial e socialmente, e vem a pedir maior repressão (infelizmente essa massa vem de todas as classes sociais). Isso não é novo. Apenas isso está ficando evidente para mostrar ao mundo que de racismo cordial e velado não temos nada: temos um sistema cruel e perverso. De outro lado, onde eu acredito que está a grande maioria da população, tem uma parte esperançosa, cansada e sedenta por democracia. Essa parte é a mesma que apanhou da polícia em junho de 2013, que defende as populações indígenas, que é contra as remoções forçadas da Copa e que, finalmente, entende que os jovens da periferia tem o direito de ir e vir. ((Transcrito El País, Espanha)

 

Um shopping ou hipermercado, em bairro residencial, fecha incontáveis pequenos estabalecimentos comerciais

O Brasil vive uma mania (modismo) de construção de shoppings e de multiplicação de hipermercados (os novos templos do capitalismo selvagem) como modelo de um progresso que desumaniza as cidades.

Podemos classificar os bairros em residenciais, aqueles nos quais prevalecem as residências; com pequenos comércios para facilitar a vida das pessoas, como padarias, açougues, quitandas e frutarias, lojas de presentes, etc. Nos comerciais prevalecem as lojas, são movimentados em razão do grande número de lojas que possuem, sendo que essas variam muito em todos os artigos, como lojas de sapatos, roupas, tecidos, brinquedos, materiais de construção, bancos, etc. Já os bairros industriais ficam mais afastados dos centros das cidades. Neles são encontradas as indústrias de alimentos, indústrias têxteis, de materiais de construção, produtos farmacêuticos, etc. (Jussara de Barros, pedagoga)

No novo Plano Diretor são criados espaços para comércios e serviços no pavimento térreo dos edifícios a serem construídos no centro da cidade e nos núcleos centrais de todos os bairros. O comércio e os serviços são dois dos principais fatores da humanização das cidades, atenuando as distâncias entre os espaços públicos e privados. Nas áreas em que o comércio é estimulado, portas, janelas e vitrines substituem as paredes cegas – que configuram verdadeiros “muros” para os transeuntes, transformando ruas e calçadas em locais de vivência e não apenas de passagens. O reconhecimento do papel dos pequenos estabelecimentos na qualidade dos espaços urbanos é um dos principais ganhos do novo plano diretor em relação ao regramento atual, que ignora completamente a necessidade dessa valorização.

Como e onde

As Áreas Mistas Centrais, AMCs, previstas para todos os bairros da cidade, priorizam a relação das áreas construídas com as ruas, estimulando o comércio e os serviços e estão presentes no conjunto dos mapas propostos pelo Plano Diretor. No artigo 30, define-se que os pequenos comércios e serviços devem integrar as áreas residenciais, permitindo legalizar centenas de estabelecimentos hoje colocados na marginalidade pela generalização das áreas exclusivas. (Plano Diretor de Florianópolis)

Leis de proteção

Precisamos criar leis para proteger os pequenos comerciantes. A exemplo da França:

Pour protéger le commerce de proximité, les lois de 1973 (loi Royer), de 1993 et de 1996 ont institué un régime d’autorisation pour les projets de création ou d’extension de magasins dépassant 300 m².

“Paris oeuvre depuis longtemps pour la sauvegarde du commerce de proximité“.

Un groupe de parlementaires a déposé une proposition de loi sur l’urbanisme commercial pour protéger le paysage urbain et les petits commerçants.

Entrées de ville défigurées par des centres commerciaux à ciel ouvert et centres-villes désertés par les commerces et condamnés à mourir à petit feu…

Nos shoppings brasileiros a permanência de apenas um hipermercado de alimentos, que monopoliza preços, produtos, inclusive a venda de bens culturais estrangeiros como livros, dvs, cds etc. Funciona, inclusive, uma farmácia, proibida por lei, mas estabelecida como uma empresa laranja. Nem preciso dizer que nem o nome é brasileiro.

Santa Maria, que viveu o fogo do crematório da boite Kisse, festeja um novo inferno

BRA_DSM hipermercado

Brasília. O PIB dos marajás, Marias Candelária, empreteiros, comedores de toco e lobistas

Juscelino desapropriou as terras profetizadas por Dom Bosco para construir Brasília. Terras que viraram concessões de grileiros e outras almas sebosas.

Realmente o PIB de 1% de Brasília é de dar inveja a qualquer rico do primeiro mundo. Com seus palácios e cortes. Casas à beira do lago (os bilionários pagam o imposto terreno de marinha? O recifense sim, morando à beira de canais esgotos). Desconforme PIB de luxuosos condomínios fechados. De granjas do Torto, do esquerdo & de todos os pecados capitais. Coisa da capital da República. Dos que vivem no luxo e na luxúria.

Essa gente do alto PIB convive com os moradores pendurados no bolsa família, com os trabalhadores que recebem 545 reais, o segundo pior salário mínimo da América do Sul. Idem pensões e aposentadrias de igual valor. A igualdade nivelada por baixo. Na miséria. No atraso. Veja os escondidos retratos de Brasília

Recanto das Emas
Recanto das Emas
Samambaia
Samambaia
Sobradinho
Sobradinho
Taguatinga
Taguatinga
Brasília mostra tua cara
Brasília mostra tua cara