Poema para Zhang Yimou

Por Cida Pedrosa
cores
a lâmina corta a água
e a cor se faz
.
o vermelho se apresenta
na face a dor
o ódio em si encerra
.
em vestes e passos
a honra anda
tudo é som solidão sentidos
.
o laranja se apresenta
as folhas voam
o outono em si vagueia
.
leve como a tarde
a dor corta a espada
tudo é vale voz veia
.
o azul se apresenta
e começa a redenção
certeza de destino cumprido
.
a lâmina é certa
o saber é náufrago
tudo é leve livre ligeiro
.
o verde se apresenta
em luta e glória
castelo e espadas
mãos mandarim
.
cetins caem sobre facas
som de almas
corte
e em nome do amor
vence o orgulho
.
haraquiri cumprido
qual fio varando a água
qual faca varando veias
e o fim se faz transparente
.
os heróis morrem em um único gume
.
a lágrima se prende à água
a água se prende à lâmina
os olhos respiram chama
.
e a morte
a morte é uma metáfora
e se esvai sem cor
 
—-
Seleta de Pedro J. Bondaczuk

“Estamos num momento de muito desencanto, um dos maiores males que a democracia sofre hoje é o desencanto”

Urariano Mota entrevista a poetisa Cida Pedrosa

UM: Os poetas independentes, que vêm de sua geração, incorporam a poesia escrita à poesia de recitais. A tradição dos poetas de antes era de serem lidos. Mas os independentes sabem de cor os próprios poemas. Que poema seu você recita agora? 


CP: Este:
“Não te direi o simples convite
Pois o meu corpo é dúvida
Cavalga em mim as incertezas
É dessa matéria a minh’alma

Há muitos anos curvas e círculos me habitam
Não te direi poesias de amor
Nem cantarei canções desesperadas
Mas se quiseres trago no peito o cheiro das estações
Na língua a infâmia dos oprimidos
Enfim, eu tenho o colo em chamas
Para fazer morada.”

UM: Por que você parte de uma trajetória de poesia para uma candidatura eleitoral? 
CP: Eu tive muita dificuldade de entender e aceitar essa tarefa. Primeiro eu achava que a minha identidade pública de poeta já era mais do que suficiente, já era muito difícil trabalhar do ponto de vista privado essa identidade pública. Não é simples, porque você é cobrado como uma personagem, você se transforma em personagem da cidade. Isso já era muito complexo pra mim. Eu faço terapia uma vez por semana. E eu sou uma mulher de partido. Eu sou filiada há quase 15 anos ao PC do B. Sempre fui muito chamada pra exercer essa tarefa, mas eu nunca quis, porque eu sempre quis apoiar os companheiros e companheiras. Sempre estive na luta, mas nunca quis estar na frente. E eu vinha tratando isso até há pouco tempo, de entender por que tinha topado (enfrentado). Porque eu tenho que ter missão, não sou missionária, mas eu sempre acho que eu tenho que ter missões. As tarefas, quando eu digo tarefa, é uma palavra marxista. Mas do ponto de vista religioso, e eu sou uma comunista de sacristia, é missão também, aquilo que você pega para tocar como principal na sua vida, ou como para fazer o coletivo. Então, nós estamos num momento de muito desencanto, um dos maiores males que a democracia sofre hoje é o desencanto. É a incapacidade de participar que o ser humano hoje no Brasil tem. Essa impossibilidade que as pessoas têm de ver que a política é importante, que os políticos são importantes, que a gente não pode balizar por baixo, pelos maus políticos. E de que a democracia sempre foi e será feita por políticos. Quando a gente joga numa mesma vala todos os políticos, e diz que político não presta, a gente está jogando na vala a democracia. E só sabe a importância de democracia quem viveu os anos de chumbo. Eu tenho visto um discurso muito reacionário com relação aos políticos, a gente tem que fazer a crítica às práticas, não à instituição, ao congresso nacional, à assembleia legislativa, câmara de vereadores. A gente tem que discutir é a reforma partidária, a reforma política. A gente tem que discutir talvez até a reforma das estruturas, mas não dizer que as estruturas não servem pra nada. A existência independente dessas estruturas é a existência da própria democracia. Então, o meu desafio, que aceitei, é porque eu acho que a minha figura de poeta, de escritora, ela é em volta de um processo de encantamento porque a poesia encanta. Se eu puder levar pra essa discussão política, que nós estamos tendo nessa candidatura, o nível de encantamento para fazer com que pessoas que estejam anestesiadas ou sem querer discutir política, possam refletir um pouco mais, de que a política é feito beber leite de manhã, e de que a política é tão importante quanto ninar o filho à noite, que o nosso filho não vai dormir acalentado e bem, se as questões políticas não estiverem bem, o futuro dele não estará bem, então se eu puder contribuir minimamente possível com a participação, que as pessoas pensem que a participação política é importante, eu já cumpri a missão. Transcrevi trechos

Miró, o poeta que não aparece em Febre do Rato

por Urariano Mota

“Eu fiquei bastante triste por Cláudio Assis não o ter colocado no filme Febre do Rato. Eu disse a ele que era uma injustiça”, falou Zizo, citando Miró, poeta marginal, que inspirou o filme  mas não aparece na tela. (Dos jornais de 22 de junho de 2012)

Senhores e senhoras, temos a grata satisfação de falar sobre Miró. Sobre ele é quase inútil procurar informações no Google, porque entre os 47.000.000 resultados no máximo 4  se referem ao particular Miró que lhes apresento agora. De nome de batismo João Flávio Cordeiro da Silva, o poeta Miró nasceu no Recife há 52 anos. Mas nada do seu nome artístico vem do mais conhecido, o grande, um certo criador Joan, da convivência de João Cabral de Melo Neto. Não. Esse Miró, esse nome nobre… – e já sinto no ventre a cutilada do poeta – “todo nome é nobre” – essa denominação vem de outras plagas nobres. Vem de lá dos subúrbios do Recife. João Flávio foi transformado em Miró pelos amigos, porque lembrava ao jogar o bom Mirobaldo, um craque da pelota do Santa Cruz Futebol Clube. No tempo em que o maior talento de João Flávio era o futebol, os seus amigos o apelidaram de Miró, forma reduzida de Mirobaldo, que se pronuncia com a vogal “o” aberta na fala nordestina.  Depois, na fase em que assumiu o jogo mais raro e difícil da poesia, ele achou por bem continuar assim, Miró, para melhor sorrir no íntimo com os dentes claros, diante de quem o confunde com o pintor catalão.

Em um mundo globalizado conforme a ótica WASP, Miró é um acúmulo de surpresas. Pois imaginem as senhoras ladies e os senhores gentlemen que ele é um poeta que jamais entrou na universidade. Pelo menos, para assistir a lições como estudante universitário, nunca. E, continuem a imaginar, isso lhe faz nenhuma falta, devíamos mesmo dizer, para a sua poesia é um bem, porque lê e se educa em obediência a uma ordem que não está no currículo de uma tradição estéril. A quem não o conhece, a sua pessoa, física, guarda uma grata e grada graça: Miró tem a pele escura, e, ladies and gentlemen, não finjam por favor naturalidade. Mesmo em um povo mestiço, Miró é uma exceção: as pessoas sensíveis, até mesmo no Brasil, têm uma estranha gradação na cor da pele da sua sensibilidade. Quanto mais claros, mais poetas. Quanto mais escuros, mais trabalhadores braçais, ou, se forem artistas, mais jogadores de futebol. Daí que faz sentido o poeta Miró vir de Mirobaldo, o craque do Santa Cruz Futebol Clube. Pero a melhor surpresa de Miró vem da sua poesia. Acompanhem-nos, por favor, assim como já o acompanhamos em um auditório de teatro.

Todos nós aprendemos, ou fomos como bons estúpidos para isso educados, que o poema realiza a poesia nas suas linhas. Ou, se quiserem, o poema não precisa da pessoa do poeta – a certeza única e exclusiva do seu valor está no que escreve. Certo? Senhores e senhoras, ladies and gentlemen, senõres y señoras: – Errado. Quem não viu Miró declamar os seus poemas não sabe o quanto esse conceito, preconceito, esta burrice ancestral está errada. Aquela justa observação feita por Manuel Bandeira à poesia de Ascenso Ferreira, no trecho

“Não me lembro se antes de me avistar pela primeira vez com Ascenso Ferreira eu já tinha conhecimento dos seus versos. Como quer que fosse, eles foram para mim, na voz do poeta, uma revelação. Pois quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas, não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas, do movimento lírico que lhes imprime o autor” aplica-se também à poesia de Miró. Com alguns câmbios. Mirem. Onde Ascenso Ferreira realizava no recitar um uso extraordinário da voz, da modulação ao acento, do corte da sílaba à ênfase, como dizê-lo?, uma utilização da voz como um ator de rádio, (“Ascenso tinha a voz de Deus”, na lembrança do escritor Talis Andrade), Miró usa a imagem, física, melhor dizendo, ele usa o próprio corpo, ele faz evoluções pelo auditório,  como um cantor de rap, quase diríamos. Mas sem microfone. E não só. Ele acrescenta caretas, esbugalha os olhos, fecha-os, e aponta os seus versos com um dedo contra a assistência. Como um Tio Sam invertido, que em vez de conclamar um alistamento, nos enfiasse a realidade cara a dentro:

– Tomem poesia, seus filhos da puta!

A plateia, divertida, sorri, gargalha, diante de versos que não chegam a ser bem cômicos. Como aqui:

“Tinha lido num livro de autoajuda, de um
desses psicólogos
De araque, que aparecem nesses
programas matinais que dão
Receitas pra tudo, inclusive de bolo,
Que na hora que a vida vira uma merda
O melhor é sair da fossa”.

Ou nestes versos

“Acho que foi a primeira vez que conheci a dor
Um domingo de 1971
Naquele tempo o domingo era o dia mais
feliz,
Minha mãe fazia um macarrão com carne de
lata e Q-suco
Ficávamos brincando de mostrar a língua
vermelha
Pra provar que éramos felizes….
Norma era tão linda com seus cabelos
negros,
Que me deu um branco aos 11 anos
Quando me pediu um biscoito maizena e um
gole de fratele vita ….
Domingo era o dia mais feliz
Antes de Norma beijar um outro na boca”.

A plateia, o distinto público, vai ao delírio. De rir, de gargalhar. Miró fala de um mundo abaixo do nível social do auditório. O primeiro elemento cômico é que a miséria é cômica. A maior comicidade é a desgraça que não sentimos na própria pele. A dor que não é a nossa, a dor pela qual não temos empatia, ah, ladies and gentlemen, como é cômica. Não iremos consultar nada agora, mas em algum lugar deve  estar observado que o riso é manifestação pela desgraça alheia. O riso atesta a nossa superioridade ante o ridículo que não nos alcança. Quem jamais bebeu “sucos” em pacotinhos de pó, de “morango”, de “uva”, com açúcar e gelo, como bebem os que não podem comprar frutas em um país tropical, acha isso irresistivelmente cômico.Quem jamais saboreou carne enlatada no país de maior rebanho bovino do mundo, quem jamais pôde sentir o sabor, o gosto e a maravilha da carne Swift, da carne da Wilson, com macarrão rubro de colorau aos domingos, porra, que piada genial é esse macarrão se transformar no dia da felicidade. E aquela prova de amor, da cumplicidade que tem o amor, quando a musa pede refrigerante, guaraná da frattelli vita, com o biscoito miserável de maisena. Caralho, esse cara é do peru! E Norma beija um outro, mirem o detalhe, na boca! na boca! Menos, por favor, você é demais, cara!

O poeta gira em torno da assistência. A sua arma, a sua graça e cômico é a verdade. Aquelas coisas mínimas, constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo louco, arrebenta de si. Mais do que escrever por vezes transcreve. Com uma sensibilidade que observa o inobservável.

“Já perceberam como tem pontas de
cigarro em pontos de ônibus?
Tem uma tese de um amigo que diz:
Que as empresas de ônibus são
responsáveis por 5% dos cânceres de
pulmão.
Curioso perguntei, como assim?
É que os ônibus demoram”.

Ou mesmo, vejam que engraçado:

“O amor passou na tarde
Com a mão direita sobre o ombro de um
filho com síndrome de Down  …
Aldeota, um jumento espera inquieto a
volta do seu dono que foi tomar uma
sopinha com pão, com o dinheiro das
migalhas que catou.
E eu fiquei tão emocionado,
Que não consegui escrever mais nada”.

A recepção da plateia a essas coisas é vê-las apenas como o lado sujo, trash, de uma estética suja e trash, de um maluco que escreve e não tem nenhuma vergonha de escrever sobre essa miséria como um bárbaro sem educação. (Nós, os cultos. Nós, os que, se algum dia fomos dessa desgraça, bem que a superamos. Nós, os de outro mundo. Nós, os limpos, cleans e educados.)  O poeta gira, e deixa a aparência, como um bom gira, de fazer também uma rotação. Então ele declama, recita, pula, contorce-se, cospe e pragueja uns versos que a expectativa do distinto e cultíssimo público não percebe. O clima em torno da sua performance não permite a degustação, a permanência que tem a beleza, a que sempre por necessidade voltamos. Então ele fala, enquanto o público espera dar mais uma risada, então ele faz uma prece, um poema que somente hoje pela manhã pude sentir, ao ler e mastigar e ruminar como as cabras mastigam e ruminam uma erva muito amarga. Este poema não precisa do poeta. Da sua pessoa. Basta uma sensibilidade.

“Deus, Tu que agora carregas um homem,
Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns
sacos de cimento
De cada lado um sol insuportável …
Deus,
Choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas
E fazer justiça com as próprias mãos.”

Esses versos preencheram toda esta manhã de hoje. Dormiram e não saíram do peito todo este dia. Talvez porque nos tenham recordado de outro João, de Os corações futuristas, que pleno de álcool em 1973 também se sentiu impotente e louco por justiça.

Deus, choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas

Senhoras e senhores, assim é Miró, o poeta que não apareceu no filme Febre do Rato.

Olhem (vídeo) 
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O livro de Urariano Mota publicado pela Boitempo, Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa e do Blog da Boitempo. Carta Capital, Fórum e Continente & outras revistas, de vários países, também já veicularam seus textos.  Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997).

Soledad no Recife, já está à venda em versão eletrônica (ebook), agora com novo preço: R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui. É uma obra prima. Leitura obrigátoria, principalmente para brasileiros e paraguaios. Soledad foi uma revolucionária que enfrentou as ditaduras do Cone Sul. Foi assassinada no Recife, e principal vítima de seu companheiro, o traidor cabo Anselmo.

Urariano desnuda a beleza de Soledad, e disseca a alma ambígua, sedutora e obscura de um Judas – o livro se torna, além do querer do autor, a principal biografia existente de cabo Anselmo, agente da CIA e da ditadura militar, infiltrado em diferentes movimentos de esquerda.

Soledad no Recife, um Livro. De História de um Brasil ainda desconhecido. Um ensaio psico-social da traição. Um romance de amor (o de Soledad). Uma reportagem – o melhor do jornalismo investigativo – sobre espionagem, repressão policial, tortura. A previsão do atual golpe parlamentar no Paraguai. Na página final, entendemos porque no Brasil não teve “robo de bebés”, um crime contínuo, que condenou ontem o general Videla a 50 anos de  cárcere.

 

  1. cida pedrosa |

    miró é o poema. sempre acreditei nisso. já escrevi isso em um livro dele. se há uma pessoa com capacidade de me emocionar nessa cidade é ele. dignidade – ternura – fraternidade em um único homem. quando ele chega na nossa casa é uma festa. todos lá o amam. mas, quem não ama miró?
    parabéns urá por seu belo e justo artigo. cida pedrosa