O amor de outono na flor da idade

Um preconceito exclusivo da classe média: o sexo entre pessoas com grande diferença de idade. Uma antepaixão. Um prejuízo econômico. Uma hostilidade recente, incentivada pela previdência social e companhias de seguro.

Só em 24 de janeiro de 1923, com a Lei Elói Chaves, criou-se um caixa de aposentadorias e pensões para cada uma das empresas ferroviárias. Uma Lei considerada o ponto de partida da previdência social brasileira. Que outras empresas foram autorizadas a construir um fundo de amparo aos trabalhadores.

A pensão por morte foi regulada em 1991. É aí que começa a prevenção. E as campanhas contra o casamento de pessoas velhas.

Antes do golpe de 64, as meninas casavam virgens, porque jovens, com adultos com estabilidade no emprego. Certo que o par ideal era a filha do fazendeiro rico, chefe político, com o bacharel em direito.

A ditadura militar cassou a estabilidade, e adaptou a campanha hippie “faça o amor e não a guerra” (revolução). Não foi nenhuma campanha feminista que  acabou com o tabu da virgindade, mas os Projetos Rondon e Mauá, que retiravam as donzelas da vigilância paterna para cidades distantes. Inclusive com a liberação de drogas como a maconha. E pasmem! a introdução da cocaína, que teve como propaganda a música “Banho de cheiro”.

Dois acontecimentos no mundo ocidental estabeleceram a valorização dos jovens: a campanha eleitoral do casal Kennedy, 1960, que o casal Obama foi a versão negra, em 2009;  e o padrão de beleza feminina – a femme fatale magra e peituda -, com o lançamento do filme “E Deus criou a mulher”, 1957, estrelado por Brigitte Bardot, uma antecipação da Barbie (boneca criada em  1959), pelo seu jeito de ninfeta. Brigitte casou aos 17 anos, depois de dois anos de namoro com  Roger Vadim, 14 anos mais velho.

Estátua de Brigitte Bardot em Búzios, Rio de Janeiro
Estátua de Brigitte Bardot em Búzios, Rio de Janeiro

Estava criado o casal moderno ideal que viria substituir o sonhado amor do príncipe encantado com Cinderela dos contos de fadas dos irmãos Grimm.

Uma cruzada em voga, que considero absurda no Brasil das 250 mil prostitutas infantis, é a da pedofilia, uma perversão sexual que consiste na atração sexual de um indivíduo adulto ou adolescente dirigida, primariamente, para crianças pré-púberes (ou seja, antes da idade em que a criança entra na puberdade) ou no início da puberdade.

In Wikipédia: A pedofilia faz parte de um grupo de preferências sexuais chamado Cronofilia, junto a Nepiofilia, Hebefilia, Efebofilia, Teleiofilia e Gerontofilia. O termo Cronofilia não é muito usado pelos sexologistas e refere-se por atrações sexuais fora da sua faixa de idade.

Segundo o critério da OMS, adolescentes de 16 ou 17 anos também podem ser classificados como pedófilos, se tiverem uma preferência sexual persistente ou predominante por crianças pré-púberes pelo menos cinco anos mais novas do que eles.

Há uma incenti√ação para que o sexo seja realizado entre pessoas da mesma faixa etária, quando as meninas estão engravidando cada vez mais cedo.

Escreve Roberto Carlos C: “No Brasil são cerca de 700 mil meninas sendo mães todos os anos e desse total pelo menos 2% tem entre 10 e 14 anos, sendo que elas não têm nenhuma preparação psicológica e nem financeira para poder dar um bom futuro a essas crianças.

Apesar de o aborto ser uma prática proibida no Brasil – salvo em alguns casos – mais da metade das adolescentes grávidas da classe média alta, fazem uso dessa prática, quando não podem ou não querem essa gestação, muitas vezes fazem isso com o apoio dos próprios pais que acham que não é a hora do filho assumir tal responsabilidade.

Isso não quer dizer que as adolescentes pertencentes a uma classe social mais baixa não praticam o aborto. Praticam sim, e pior, utilizam métodos caseiros que uma ”amiga” disse que dá certo, objetos pontiagudos para atravessarem o canal do útero, remédios sem indicação médica…, pondo em risco muito maior a sua vida, do que se fosse feito por um profissional qualificado num local adequado para tal procedimento.

Já não causa tanto espanto sabermos que meninas de 10, 11, 12 anos tenham vida sexual ativa, assim como aparecem em consultórios portando alguma doença sexualmente transmissível (DSTs) e ou grávida”.

Casos de crianças grávidas e aidéticas precisam ser investigados. Podem ter origem na prostituição infantil ou no bulismo na escola, com estupro praticado por um adolescente pedófilo.

O estupro no Brasil vem sendo um crime comum e impune. Não entendo o que realmente pretende transmitir as manchetes de hoje. Que os casos de estupro superam o de assassinato.

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Na internet, consideram como taras sexuais mais comuns: exibicionismo, sadismo, masoquismo, voyeurismo,  fetichismo, zoofilia, necrofilia, pedofilia. Mas minha classificação não é científica. Acrescento lesbofobia, homofobia, estupro, assédio sexual, adultização, gueto sexual, tortura, misandria, misoginia, peep-swow.

No meu universo infantil, as meninas eram criadas distantes dos meninos. A iniciação sexual era de menino com menino, a masturbação, a zoofilia. Para os meninos que tinham dinheiro, o pai encaminhava cedo para a zona de meretrício. Toda cidade do interior tinha uma rua para as “mulheres da vida”.

Não tão distante ficava o jardim feminino, que as crianças brincavam no terreiro da casa, na rua, no jardim, nas varandas, e eram possíveis certos toques, flerte e namoro – o necking.

Hoje as crianças não brincam mais.  De esconde-esconde, de médico, de casamento oculto. Nem dançam nas ruas.

As meninas sendo criadas para casar, instintivamente romantizavam parceiros mais velhos. Esta tendência passou a ser mais uma psychopatia  sexualis: a erotomania.

Para os idosos consideram a cópula um desvio: paradoxismo sexual, sexualidade exarcebada fora do tempo. Como se o amor tivesse idade.

Assim vejo como exemplar e educativo, para a mudança de um comportamento absurdo da fodida classe médias, os relacionamentos dos artistas e políticos e empresários.

Francisco Cuoco, 79, e Thaís Almeida, 26 anos
Francisco Cuoco, 79, e Thaís Almeida, 26 anos
Chico Buarque e Thais Gulin: diferença de idade, 37 anos
Chico Buarque e Thais Gulin: diferença de idade, 37 anos

Biografias: o zero e o cifrão

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No “Saia justa”, convidada para falar sobre a questão das biografias não autorizadas, Paula Lavigne discutiu com Barbara Gancia.

A jornalista, que na semana passada chamou Paula de “oportunista” e “gananciosa” em sua coluna, na “Folha de S. Paulo”, teve sua opção sexual lembrada pela empresária.

Tudo começou quando veio à tona o assunto “invasão de privacidade”.

“Barbara, você é gay assumida, né?”, pergunta Paula. Barbara diz que sim. E ela: “Qual o nome da sua namorada?”. Assim que ouve a resposta (“Marcela”), Paula diz: “Ela não vai se sentir bem vendo eu perguntar isso, é disso que estou falando, você não está entendendo na teoria e agora viu na prática como é ruim ter a privacidade invadida!”.

Paula Gancia devia ter devolvido a resposta.

Escreve Luciano Martins: “O movimento Procure Saber tem à frente a empresária e produtora Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano e apontada publicamente como personagem mais versada em finanças que em arte. Lavigne lidera uma campanha contra a comercialização de biografias não autorizadas, o que, na prática, significa eliminar a biografia da relação de gêneros literários praticados no Brasil.

Sensatamente, biógrafos e outros autores e jornalistas ponderam que uma biografia autorizada não passaria de um press-release em formato de livro, e que para tal o biografado deveria contratar uma assessoria de relações públicas.

O artigo de Chico Buarque encaminha a discussão para outra questão, bem mais complexa: o equilíbrio entre liberdade de expressão e responsabilidade, o que envolve diretamente a imprensa no imbroglio.

O gênero biografia nunca foi muito popular no Brasil, mas vem ganhando terreno com as transformações da indústria cultural. O culto às celebridades estimula não apenas as produções de filmes e vídeos sobre pessoas famosas, mas acaba chegando ao mercado editorial. Até pouco mais de duas décadas, esse gênero se limitava a meia dúzia de especialistas com carreiras consolidadas como biógrafos, entre eles Fernando Morais, Moacir Werneck de Castro, Ruy Castro e Francisco de Assis Ângelo.

No meio da barafunda em que se transformou o debate, que alcançou elevada temperatura nas redes sociais, cabe aqui ao observador pontuar o que concerne à imprensa nesse litígio“.

 Vários músicos que não merecem uma biografia estão entrando no debate. Comentam Juliana Gragnani e Paulo Werneck: “Tudo o que se usa, paga’, diz o sambista Wilson das Neves. ‘É até bom um dinheiro que entra na conta. Só estou esperando a minha vez.’O compositor Pedro Luís defende a iniciativa: ‘Todo mundo que é ingrediente do sucesso deve ser remunerado. Quem faz a revisão, a capa, não é remunerado? E o assunto do produto, não?’.’É justa a reivindicação‘, diz o roqueiro Nasi, que recebe 10% do preço de capa de sua biografia, ‘A Ira de Nasi’ (Belas Letras), de Mauro Beting. ‘Você está explorando a história e a imagem de alguém. É como se eu deixasse de receber por uma música minha gravada por outro.”

Carlos Albuquerque e Leonardo Lichote mostram que nem todos artistas defendem esta ‘caixinha, obrigado!: “O compositor Alceu Valença escreveu um texto, em sua página no Facebook, em que defende a liberdade da expressão como valor ‘que deveria estar na frente de qualquer questão’. Antonio Cicero, Aldir Blanc e Nana Caymmi também se colocaram a favor de que biografias não autorizadas sejam produzidas livremente.

– Isso é um absurdo – ataca Nana Caymmi. – Sempre fui a favor da liberdade, desde o episódio da biografia de Garrincha, do Roberto Carlos. Se você quer ser artista, sua vida se torna pública. Proibir biografias é falta do que fazer, vem da invenção da máquina de lavar. (Os artistas que são contra biografias não autorizadas) Estão todos velhos, deveriam se sentir honrados por ter gente interessada na vida delas. É uma ignorância proibir quando nossa juventude precisa conhecer seus ídolos. Não tem porque esconder nada, a não ser que estejam envolvidos com tráfico de drogas, de mulheres, de órgãos, de crianças, e a gente não saiba.

Nana é crítica também com relação à sugestão de que artistas ganhem algum tipo de remuneração por terem suas vidas como tema de um livro (o cantor Djavan justificou em artigo que ‘editores e biógrafos ganham fortunas enquanto aos biografados resta o ônus do sofrimento e da indignação’):

– Quem enriquece com livro no Brasil? O negócio é que, onde tem dinheiro envolvido, essa turma está atrás. Tenho amigos como Sérgio Cabral, Ruy Castro que vivem disso, não é assim.

O compositor Aldir Blanc também se manifesta sobre o tema:

– Sou inteiramente a favor da liberdade de biografias, e contra todo e qualquer tipo de censura – diz. – Quem se sentir caluniado que processe o biógrafo. A liberdade de expressão vem em primeiro lugar.

(…) O debate gerou também uma iniciativa irreverente e inusitada. No Facebook, um grupo criou uma página que se propõe a fazer  ‘a mais pirata e coletiva biografia não autorizada de Caetano Veloso’. O espaço, que já tem mais de 1,3 mil curtidas, recebe colaborações de usuários. Eles enviam links de matérias, fotos e outros conteúdos que, um por um, costuram a vida do célebre cantor e compositor baiano.

– Não criamos a página para tirar sarro do Caetano. Queremos reconstruir a vida dele e lançar uma biografia não autorizada em forma de e-book gratuito – explica Ricardo Giassetti, que criou o espaço com Danilo Corci, seu sócio na editora MojoBooks. – Estamos recebendo centenas de mensagens de colaboração e fazendo a curadoria do que entra na timeline”.

Morte e Vida Severina

(Auto de Natal Pernambucano)

por João Cabral de Melo Neto

(Trechos)

ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

—  Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

— Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
— Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
— Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
— Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
— Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
— Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
— Será de terra tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
— Será de terra e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
— Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
— Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
— Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
— Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.

— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo).
— Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
— Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
— Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos).
— Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).

— Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
— Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
— Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
— Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
— Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
— Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.

— Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
— Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
— Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
— Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.

— Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
— Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
— Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha.
— Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.

— Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
— De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito a viração.
— Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
— E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
— Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
— Se abre o chão e te envolve,
como mulher com quem se dorme.

—–

Funeral de um lavrador. Morte e Vida Severina por Chico Buarque de Holanda. Vídeo

Chico Buarque proibido de namorar

Vi vários tipos de patrulhas sexuais.

Tinha uma vida imoral ou suspeita, uma condição social idêntica à da prostituta, toda adolescente solteira que perdesse a virgindade, e toda mulher descasada. Idem as primeiras desquitadas e, depois, as divorciadas.

Eram estigmatizadas a menina namoradeira e a ex-noiva, apesar de virgens; e, em alguns casos, a viúva.

Aos 30 anos, a mulher se tornava um encalhe. E chamada de solteirona, titia,  donzelona, moça velha.

Não existiam lésbicas. Costumeiro as meninas andar de mãos dadas, dormir na mesma cama, dançar coladinhas ou ser par constante.

Mas vistas como aberrações a mulher de aspecto e atitudes masculinizadas (inclusive exercer certas profissões típicas do homem). Os nomes pra lá de feios: fanchona, machona, machoa, homaça, marimacho, mulher-homem, mulher-macho, virago.

Atualmente o macho não segue o ritual de cortejo, de pretendente, de paquera, de namoro, de noivado (o pedido de casamento feito aos pais, com a permissão de usar aliança – o anel como símbolo tradicional do ilimitado (eterno).

O movimento feminista considerou tais costumes machistas.  Alguns, sim. Moça que procurava atrair homem era chamada de sirigaita, assanhada, exibida, galinha, lambisgóia, oferecida, perereca, piririca, sapeca, semostradeira.

Moça recatada,  um elogio máximo. Ou, ainda, moça prendada.

Nenhum movimento feminista realizou mudanças.  Novos costumes foram impostos pela revolução de 64, assim digo, com os programas Mauá e Rondon. Faziam partes do Projeto Camelot da CIA. Com a introdução do movimento hipee de butique. E das drogas. Notadamente nas universidades. Com a onda da mãe solteira.

Na ditadura de Vargas a ordem era caminhar, não juntar gente; na de 64, não pensar, e faça amor, não a guerra. Wilhelm Reich, que morreu em 1957, foi apresentado como novidade nas faculdades de Psicologia, com sua teoria de amor livre deturpada. Proclamaram o liberou geral, embora o homossexualismo masculino continuasse perseguido pela igreja e a polícia.

Certos crimes agora comuns eram severamente punidos: o estupro e o assédio sexual.

Cometi este nariz-de-cera para criticar o espalhafato que a imprensa promove com o namoro de Chico Buarque de Holanda. Pelas manchetes pensei que Thaís Gulin fosse uma adolescente. Não é não. Nos anos de universidade de Chico seria considerada uma balsaquiana. Tem 31 anos.

Hoje é assim: menina de 12 anos faz sexo com um coleguinha de 12. Garota de 16 com rapaz de 16. Essa obrigação cria uma avalanche de abortos.

Quando as adolescemtes e mulheres de vinte fogem de sua faixa etária passaram a ser vítimas de tarados. Coisa de pedofilia, crime de sedução e outras anomalias contra a natureza.

Antigamente os meninos procuravam sair de casa o mais cedo possível. Hojemente são as mulheres. Os varões alargam uma conveniente adolescência. No meu tempo, o homem que não casava antes dos trinta boa coisa não era.

A sociedade nunca será livre de tabus e preconceitos. Diziam que as mulheres quando chegavam a menopausa perdiam o desejo sexual.

O idoso  passou a ser pedófilo, sodomita, devasso, um nojo. Que procure as prostitutas. De rua. Que amor de outono não existe. Nem romantismo. Lugar de velho é no asilo.

Assim se explica o sensacionalismo com o namoro de Chico. Inclusive passaram a perseguir a moça. “Não é uma boa cantora”, como se isso fosse preciso. A inveja se torna maior, que Thaís, além de linda, é poetisa e compositora.

Escreve Ricardo Setti, na revista Veja:

Thaís Gulin. Você a aprova como cantora?

Amigos, eis a cantora Thaís Gulin, 31 anos, namorada de Chico Buarque, a curitibana que faz carreira no Rio de Janeiro desde 2007 e que inspirou o compositor em uma das canções de seu mais recente CD, “Chico”.

A canção de Chico, “Minha Pequena”, fala claramente da relação entre os dois e menciona delicadamente a diferença de idade  (ele tem 67 anos):”Meu tempo é curto, o tempo dela sobra. Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora. Temo que não dure muito a nossa novela, mas eu sou tão feliz com ela”.

Thaís acaba de lançar seu segundo CD, ôÔÔôôÔôÔ

Ainda bem que Rosiska Darcy de Oliveira (O Globo, 21/01/12) escreveu:

Um tempo sem nome

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida .

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho“, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes — obras na casa demolida — a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem é mais quando era antes. Os dois ritos de pasanunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade.sagem que a  Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor. Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez sobre o desfecho.

”Meu tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura , ora música, cantando um novo amor, é a quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

Essa Pequena

Chico Buarque

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora
Temo que não dure muito a nossa novela, mas
Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda
Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas
Não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos
Cada segundo que se esvai
Cuidando dela, que anda noutro mundo
Ela que esbanja suas horas ao vento, ai

Às vezes ela pinta a boca e sai
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas
O blues já valeu a pena

Veja o vídeo Essa Pequena
Chico e Thaís cantam juntos . Formam um dueto que en-canta