O que preocupa os jovens comunicadores

Informa Venício A. de Lima que cerca de seiscentos estudantes de jornalismo, publicidade, relações públicas e cinema, da maioria das unidades da federação, e com idade entre 19 e 23 anos, estiveram reunidos para discutir “A qualidade de formação do comunicador social”, tema geral do 34º Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação Social, Enecom PI 2013, que ocorreu de 20 a 27 de julho, no campus da distante Universidade Federal do Piauí, em Teresina.

Claudius Cecon
Claudius Cecon

 

por Venício A. de Lima

Chamou minha atenção a “metodologia” utilizada. O painel é dividido em “perfis” a serem apresentados por diferentes expositores, não necessariamente professores. Sobre a “Democratização da Comunicação” foram quatro perfis: 1. Por que a democratização da comunicação tem tudo a ver com você?; 2. Novas leis para um novo tempo: marcos regulatórios pelo mundo; 3. Construindo outras vozes; e 4. Das redes às ruas: a internet e a mobilização social da juventude. (…)

1. Diagnósticos e críticas não interessam mais. Precisamos discutir alternativas.

Como viabilizar a construção de alternativas locais de jornais populares? Quem teria mais credibilidade nos assuntos de interesse local, o Jornal Nacional da Globo ou um jornal produzido na comunidade? Quem os financiará? Quais parcerias coletivas são possíveis para viabilizar, por exemplo, a contratação “por serviço”, do maquinário ocioso de grandes jornais ou de gráficas?

2. A internet é importante, mas a maioria dos brasileiros ainda não tem acesso a ela. A banda larga é cara e de má qualidade. Precisamos criar alternativas complementares à internet.

A importância das rádios comunitárias é amplamente reconhecida. É necessário priorizar uma nova legislação que impeça a criminalização e o fechamento de rádios já existentes e amplie o seu alcance.

3. Não basta ser um canal de televisão público ou educativo para uma emissora se constituir em alternativa à mídia comercial dominante.

É preciso exigir dos órgãos fiscalizadores (Ministério das Comunicações) o cumprimento das obrigações dos canais não comerciais e transformá-los em espaços de veiculação de programação alternativa de qualidade.

4. A explicação midiática “pós-moderna” da total fragmentação de interesses e objetivos das manifestações de jovens não deve ser aceita sem discussão.

Por detrás da aparente fragmentação existem insatisfações comuns como, por exemplo, uma demanda por participação na construção de políticas públicas. Surge aqui a necessidade de se instalarem os conselhos de comunicação como espaço de interferência na destinação de recursos públicos nos planos estaduais de comunicação.

Com “os pés no chão”

O indispensável diálogo com os jovens é muitas vezes surpreendente. Os observadores de gabinete, analisamos movimentos de jovens sem conhecer o que de fato pensam esses sujeitos coletivos.

Mesmo levando-se em conta que boa parte de participantes dos Enecoms são jovens diferenciados porque envolvidos em militância estudantil, é gratificante observar que eles não estão – como em geral se acredita – “deslumbrados” com os falaciosos superpoderes das redes sociais virtuais. Na verdade, estão com “os pés no chão” e preocupados em encontrar formas factíveis de exercício profissional em suas respectivas áreas de formação, sem abrir mão de interferir politicamente nas transformações do país.

Ignorados pela grande mídia, no calor estorricado do Piauí, jovens futuros comunicadores sociais brasileiros “fazem” mais um Enecom e mostram saber muito bem o que querem.

Estão no caminho certo.

imprensa nanica jornalismo censura blogue

Nota do redator do blogue: Todas as redes sociais virtuais são censuradas sim, e seu tempo de exibição demasiado curto. Uma vida menor que a dos jornais impressos, que têm a duração de um dia, mas podem ser conservados, adquirindo assim uma permanência que depende das bibliotecas e arquivos.  Todas as mensagens na web desaparecem no ar. Principalmente os blogues, que possuem diferentes e diversificados tipos de censura. Inclusive estão destinados à solução final do apagão eterno.  T. A.

A informação é frágil como o Amazonas

José Afonso Furtado
José Afonso Furtado

José Afonso Furtado, em Uma Cultura da Informação para o Universo Digital, que acaba de ser publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, reflecte sobre o problema da literacia e a chamada “fratura digital”, provocada pelas dificuldades de alguns na interação com as novas tecnologias.

O que me interessava era saber como é que se está a alterar a produção, a dimensão, a distribuição e a salvaguarda dos dados. Perceber que tipo de saberes e habilidades é que as pessoas devem ter para terem um pensamento não proletarizado face ao novo ambiente informacional. E discutir com mais profundidade a noção de literacia de informação.
Para chegar aí, tive de explicar qual era a dimensão do problema e, para isso, tive de fazer a recolha das tentativas de medir a produção, o consumo e a circulação de informação. Todos os relatórios são americanos.

Os jogos de computador, por causa dos gráficos complexos, são agora 95% da informação produzida. E a seguir é o vídeo. Podemos pensar que se produzem um milhão de livros por ano e que isso é uma carga enorme. Mas não. É 0,04% da informação produzida. Não tem significado. Ouvir rádio continua a ter muita importância, mais do que eu pensava. As actividades na Internet são muito menos significativas em termos de quantidade de informação em bytes do que se poderia pensar.

Os dados só por si não servem para nada, só servem se forem transformados em informação. O que não sabemos é se alguns dados podem vir a ser transformados em informação daqui a algum tempo. Há dados que hoje não nos servem, mas não sei se daqui a um ano servem. Pode haver uma pergunta a que esses dados respondem.
O que me preocupa é este progressivo desfasamento entre aquilo que se produz e aquilo que se pode armazenar. Porque aí é que vai estar o grande problema deste século.
Neste momento está tudo a construir silos e centro de dados.

O que é certo é que quem tem dinheiro para construir centro de dados gigantescos são as empresas privadas, que fazem disso negócio. Mas na Holanda, é proibido os dados do Estado serem armazenados em empresas privadas. A UE não tem nenhuma directiva sobre isso, mas aconselha a que não se faça. Não tenho uma teoria da conspiração.

A ética da informação é exactamente tudo o que temos estado a falar. No livro, aplico à infosfera as preocupações que é comum ter-se com a biosfera. Só que a informação não é considerada um objecto tão grave e tão frágil como é o Amazonas ou o aquecimento global. Mas é a mesma coisa, porque a dificuldade vai ser escolher o que se guarda e o que se deita fora, o que deve ficar conservado e como. Há a preocupação de não perder informação ao mudar de suportes e, sobretudo, de saber como é que vamos encontrar o que queremos e como é que o vamos obter.

Se for à Internet, metade dos livros produzidos emself-publishing nos EUA não tem ISBN sequer. E a não ser que confiemos que há um deus bom, isto vai multiplicar-se. Esse desfazamento entre capacidade de produção de bens digitais e a capacidade de armazenamento põe uma série de problemas. O consumidor nunca se preocupou com o armazenamento da informação até entrarmos num paradigma digital. Nunca se preocupou se a Biblioteca Nacional tinha espaço ou não. O desfazamento entre a produção e a capacidade de armazenamento só tem duas soluções: mecanismos tecnológicos e epistemológicos. Mas não podem ser só tecnológicos. Por isso é que digo que as bibliotecas não podem ser dispensadas. Transcrevi trechos