O texto televisivo

por Nei Duclós

Juan Soto
Juan Soto
Foi preciso que um  jornalista veterano, Fernando Gabeira, fizesse a pauta óbvia: qual o impacto da liberação da maconha no Uruguai e quais seus principais aspectos, do ponto de vista das autoridades, dos consumidores e do povo em geral? No seu programa na Globo News, Gabeira faz como no noticiário europeu, sem a obrigatória passagem do repórter, focando o principal, deixando a fonte falar sem interferência, só quando for necessário aparecer a pergunta. Gabeira “some” ao longo do programa e só no final senta-se em frente à sua câmara (ele mesmo produz as imagens) numa espécie de assinatura visual do trabalho. Elegante, preciso, discreto, eficiente, informativo.
O texto televisivo assim ganha credibilidade e não se esgarça na aparição reincidente das mesmas figuras carimbadas seguradoras de microfone. Com os novos recursos digitais, microfone ficou obsoleto. Ainda é usado porque não sabem fazer de outra maneira. O gesto mais artificial que existe e o que sobra em programas de auditório: alguém dirigi o microfone que está em sua mão para a boca gargalhando de maneira cretina. No noticiário, o que temos é a realidade atrás dos ombros dos seguradores, que pontificam sem parar, entre alguém que está no link para outro que está no estúdio.
Certa vez trabalhei em televisão e fiquei impactado com o estrelismo de todos, até do office boy. Todos protagonistas de um ego demolidor, impermeável a qualquer observação ou crítica. O chefe de reportagem mandava cobrir todos os dias o sindicato para o qual fazia a assessoria. O apresentador (que também fazia propaganda no varejão dos eletrodomésticos) se achava o editor chefe, e, apaixonado pela própria voz, entrava na redação para dar ordens. O repórter esportivo fazia merda e se garantia porque ganhava mal e se você pedisse mais qualidade batia na mesa com suas enormes manoplas. O correspondente no Exterior selecionava imagens das TVs estrangeiras e ficava pontificando, jamais fazia uma única reportagem, nunca saía à rua. Quando pautei algumas saídas teve um faniquito.
Fiquei impressionado com a quantidade gigantesca de pessoas numa redação de TV para produzir um noticiário ruim e ridículo. A pauta era feita com recortes de jornal (hoje devem chupar da internet). A matéria era derrubada em dominó: quando passava por um dançava na etapa seguinte. Assim uma pauta boa morria nos pauteiros, ou no chefe de reportagem, ou no repórter , ou no editor de ilha e finalmente no apresentador. Quando furava o bloqueio ficavam impressionados com a repercussão. Esse foi o mundo da televisão que conheci, onde eu era execrado por ser “da escrita”, pecador, portanto.
Eu mandava reescrever “cabeças”, as aberturas de matérias, pois achava uma bosta. Eles diziam que isso não existia em televisão e que eu não entendia nada porque era da escrita. Replicava que eu não entendia, mas tinha que reescrever senão não ia ao ar. Ficaram muito, mas muito putos. Aproveitaram a reengenharia, a eliminação de intermediários para sentarem diretamente no colo dos patrões acusando o diretor de redação. Conseguiram. É preciso intervir nas TVs, desde as concessões até o estrelismo, que é conivente com os sucessivos poderes. O ego substitui a reportagem. A publicidade paga todos os espaços e você paga TV a cabo para ver anúncios.
Gabeira vai para a rua. Mostra o Uruguai da maconha liberada, as apreensões, os ataques, as defesas, as perspectivas. Uma situação que tem tudo a ver com o Brasil, pois é um país da nossa fronteira que agora atrai comércio e consumidores da erva. Ele fez também um excelente programa sobre os andarilhos das estradas brasileiras. Vários programas da Globo News são idênticos. Todos sentados em suas poltronas pontificando. Aprendam com o repórter veterano. Tirem a bunda da cadeira e parem de fazer gestos com as mãos falando abobrinhas.

É lei: Portal virou empresa jornalística e jornalistas do online continuam sem piso

Eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais  de Pernambuco – Sinjope,  vou lutar pela sindicalização dos jornalistas onlines e jornalistas empregados de assessorias de Imprensa, agências de publicidade, de eventos, de marketing, de relações públicas e de pesquisas de opinião pública.

Tem mais: pretendo transformar o Sindicato na casa dos blogueiros e dos estudantes. Dos estudantes, sim.

A sede do Sindicato é a futura casa do estudante.

O estudante de Jornalismo precisa aprender o endereço. E o Sindicato, para ser forte nas campanhas que realiza, tem que contar com  o apoio de todos os que trabalham nas empresas de comunicação. E com a tribuna dos blogueiros. Que as notícias dos sindicatos de Jornalismo são censuradas pelos proprietários de jornais, rádios e televisões.

A sede do Sinjope não pode continuar sendo um depósito de lixo. Isso tem que mudar:

 

 

Por que não existe piso para os jornalistas do online?

por Renata Cardarelli

Sindicatos espalhados pelo Brasil definem o valor mínimo a ser pago aos jornalistas de TV, rádio, impresso e assessoria. E os profissionais que atuam na web? Nesse caso, o problema é que esse tipo de contratação reflete diretamente no salário e na carga horária trabalhada. O Comunique-se conversou com representantes de entidades para saber por que em nenhum sindicato consta o piso salarial ou a carga horária de colaboradores de veículos do meio online.

Leia Mais:
Congresso aprova lei que classifica portal como empresa jornalística

 

Jornalistas devem se beneficiar com projeto que aguarda sanção presidencial Foto: Nathália Carvalho
Jornalistas devem se beneficiar com projeto que aguarda sanção presidencial Foto: Nathália Carvalho

Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schröder explica que a função é relativamente nova e que “boa parte das empresas que se enquadra como online não se cadastrou como jornalística. Elas burlam a lei contratando pessoas que exercem a função de jornalista”. O que acontece é que grandes empresas da comunicação digital se classificam como companhias de tecnologia.

A situação é crítica em corporações que não são atreladas a outros veículos de plataformas tradicionais, conforme expõe o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP), José Augusto Camargo. “Algumas empresas que são diretamente ligadas a jornais – por exemplo, Estadão e Folha- seguem o acordo da empresa-mãe. O R7 e o G1 seguem a convenção de rádio e TV. O problema são companhias que nasceram como internet, como Terra e IG”.

Diferença de valores
De acordo com números estabelecidos pelo Sindicato de Empresas de Internet do Estado de São Paulo, funcionários de companhias do segmento tecnológico devem ter jornada de 44 horas semanais. Os salários para a área administrativa ficam em torno de R$ 886 para a capital paulista e região metropolitana. Pessoas que exercem atividades técnicas, como help desk, recebem R$ 1.056.

Os valores são bem abaixo dos estabelecidos pelo SJSP. Os jornalistas podem firmar contrato de trabalho de 25 ou 35 horas por semana. Colaboradores de rádio e televisão têm salário de R$ 3.192, enquanto os de veículos impressos ficam na faixa de R$ 3.504. Para a web, porém, não há o estabelecimento do piso, que deveria ser negociado com os sindicatos patronais e com os próprios veículos de comunicação. “O sindicato patronal da internet não negocia com a gente. Eles dizem que não são empresas jornalísticas”, explica o presidente do SJSP. Desde o ano passado, circula no Ministério Público ação que investiga a irregularidade.

Luz no fim do túnel
A perspectiva é positiva, já que o Projeto de Lei de Conversão 17/2013 enquadra portais de notícias na definição de empresa jornalística. Aprovado pelo Congresso, agora está nas mãos da presidente Dilma Rousseff sancioná-lo. Com isso, a situação tende a melhorar para profissionais da área. “Do ponto de vista da concorrência empresarial, isso parece saudável. Do ponto de vista do jornalista, é fundamental. A lei vai beneficiar, principalmente, a sociedade, porque vai qualificar o jornalismo online, por meio das técnicas e dos compromissos éticos inerentes de um profissional”, aposta o presidente da Fenaj.

Piso nacional
Em alguns estados, a exemplo de São Paulo, existe diferenciação entre salários de audiovisuais e impressos. Em outros, como no Rio Grande do Sul, a única distinção existente é entre capital e cidades do interior.

Tramita no Congresso o Projeto de Lei 2.960/2011, de autoria do deputado André Moura (PSC-SE), que propõe a criação do piso salarial nacional para jornalistas, “visando legalizar e reconhecer o direito desta categoria que presta à nação e ao mundo serviços relevantes de informação”. De acordo com a proposta, o piso dos profissionais passaria a ser de R$ 3.270, com jornada de trabalho de 30 horas semanais.


A estratégia do Sinjope, em nossa presidência, é lutar pelo maior piso possível para os empregados em assessorias de Imprensa do governo, do legislativo, do judiciário e das empresas estatais e agências. Idem para os jornalistas onlines. E depois, e depois solicitar a equiparação para os jornalistas dos jornais impressos, televisões e rádios.