Diário de Pernambuco reconhece o óbvio: Não deu tempo para escrever a grande obra literária da Copa Brasil 2014

O Diário de Pernambuco abrir espaço para escritores, a maioria deles renegados pelos Associados, causa espanto, que a cultura brasileira não participa do cotidiano da imprensa, notadamente dos jornalões, dos monopólios da televisão, e dos grandes portais na internet.

Sempre  ensino: a leitura dos jornais – depois da internet – depende de sua volta às origens. Realizar o jornalismo opinativo, promover debates, lançar romances em capítulos, ter uma redação que valesse este nome. No DP, convivi com Costa Porto, Gilvan Lemos, Paulo Fernando Craveiro, Paulo Azevedo Chaves, César Leal, Edmir Domigues, Mauro Mota, Raimundo Carrero, Waldimir Maia Leite, Selênio Siqueira, Edmundo Moraes, Antonio Camelo, Roberto Benjamin, Jaime Griz, Flávio Guerra, Potyguar Matos. E a redação do DP perdia feio para a do Jornal do Comércio.

Eis que, na sua campanha contra a Copa do Mundo (a finalidade é atingir Dilma Roussef, quando aqui o estádio foi construído na Mata de São Lourenço, por  Eduardo Campos), o DP publica a seguinte enquete, realizada por Fellipe Torres:

“NO CAMPOS LITERÁRIO, SEGUNDA COPA NO BRASIL PERDE FEIO PARA MUNDIAL DE 1950

Quando o país sediou o torneio pela primeira vez, há 64 anos, surgiam grandes obras literárias em todo o mundo. De olho em 2014, escritores, críticos e acadêmicos indicam quais livros podem (ou não) entrar para a história”

A Copa nem terminou, e o Diário de Pernambuco cobra uma grande obra literária. Parece piada. Ou aquela reportagem que se faz com adivinhos no final de cada ano…

Temos 64 anos de literatura desde a última Copa, não há como comparar com obras que ainda serão escritas. Temos mais 64 anos pela frente se queremos ser justos. Mas se apressa Luís Serguilha, poeta e crítico literário:

“Este ano sinceramente não vejo livros assim tão marcantes, nem no ano passado. São nomes marcantes no pensamento atual (literário-científico-filosófico): James Lovelock, Umberto Eco, Jacques Ranciere, Ernst Tugendhat, Noham Chomsky… Instigantíssimos! A literatura jamais poderá se separar deles. É contaminada por eles e muito”. Não citou nenhum brasileiro.

 

Condeno a enquete pelo título enganoso, safado, escandaloso e orquestrado. Quando o próprio Fellipe Torres reconhece:

“Ninguém seria capaz, naquela época, de antecipar a força de tais obras, como é corriqueiro no meio editorial. Agora, quando o país recebe o mundial pela segunda vez, ouvimos escritores, críticos literários e pesquisadores para – irresponsavelmente – ‘brincar’ de futurismo e refletir sobre a força da literatura contemporânea. Quais livros lançados em 2014 são capazes de entrar para a história a ponto de serem lembrados e reverenciados daqui a mais 64 anos? Façam suas apostas”.

Alguns entrevistados aproveitaram para mostrar que o Brasil, cujas livrarias não vendem livros de autores brasileiros, e as bibliotecas públicas são raras. No Brasil da corrupção existem várias bibliotecas fantasmas, como acontece em Jaboatão. Recife tem apenas uma, construída por Aderbal Jurema, salvo engano, no aterro do Parque 13 de Maio, para a realização do Ano Eucarístico em 1950, quando o América do poeta João Cabral de Melo Neto foi campeão de Pernambuco.

LOURIVAL HOLANDA, PESQUISADOR E PROFESSOR DA UFPE
“A RESERVA EM OURO ANTIGO [O QUE FICOU DOS ANOS 50] GARANTE O INVESTIMENTO DE AGORA”.

Lourival

Há distanciamento bastante que facilita ver o que valeu e ficou [em literatura] dos anos 50 — mas: os 5 ou 6 meses, deste 2014, é muito pouco pra apostar no que vai ficar…

Esse recentíssimo Mil rosas roubadas, de Silviano Santiago [já tem idade de clássico…], pode ficar — pelo frescor [ôpa!] da narração renovada, pela maestria da linguagem; O Mia Couto que saiu esse ano, só segue a linha ascendente, é bom também; ou: ainda; é possível que fique esse livro do Luiz Rufatto [Flores artificiais]: é bom; Carola Saavedra acaba de sair com livro novo, assim como o Marcelo Ferroni [Das paredes, meu amor, os escravos nos contemplam] — nada disso me impressionou.

Dos anos 50 houve/há ainda/sempre Hilda Hilst, Mário Faustino, a crônica de Paulo Mendes Campo; tudo isso ainda se lê bem. Nos próximos 50, será que Reprodução, de Bernardo Carvalho, fica? É um livro forte, sim; O drible, de Sérgio Rodrigues, muito surpreendente; e o Almir Bettega [Barreira]; esse, queria que ele ficasse, tempos a fora.

Enfim, essas são as apostas; incertas, claro, mas a reserva em ouro antigo [o que ficou dos anos 50] garante o investimento de agora.

URARIANO MOTA, ESCRITOR
“O QUE ESCREVEMOS E PUBLICAMOS AGORA SOMENTE VERÁ RECONHECIDO O SEU VALOR MUITOS ANOS OU DÉCADAS ADIANTE DESTE 2014”

Urariano

Do ponto de vista literário, a comparação entre os anos de 1950 e 2014 é impossível ou desvantajosa para o presente. Digo impossível porque olhamos para aquele 1950 com olhos que são filtros seguros, ou crisóis, que depuram e salvaram apenas o que se tornou obra permanente. E no entanto, não podemos fazer o mesmo com os lançamentos deste novo ano da Copa no Brasil.

Quero dizer, o que escrevemos e publicamos agora somente verá reconhecido o seu valor muitos anos ou décadas adiante deste 2014. A literatura é arte que subjuga o tempo. Mas o tempo dela se vinga escolhendo sem pressa o que será verdadeira literatura.

Digo também que a comparação entre a literatura dos anos de 1950 e de 2014 é desvantajosa porque não vemos, hoje, nada que se compare à revolução de Eu, robô, de Isaac Asimov, ou de Crônicas marcianas, de Ray Bradbury, ou à fecundação do Canto geral, de Pablo Neruda, ou de O cão sem plumas, de João Cabral, todas obras vindas à luz em 1950.

É até covardia a comparação. E covardia não tanto pela impossibilidade de construirmos grande literatura hoje, mas covardia porque iríamos medir com o metro da tradição os livros mais recentes, que não podem ser avaliados por nossos olhos viciados pelo já visto.

Mas não tenhamos dúvida: ainda superaremos 1950, no futebol e na arte. A literatura que será grande já se publica neste 2014. Quem e o quê sobreviverá? Amanhã saberemos. Lei mais 

[O Brasil tem excelentes romancistas. Começa pelos pernambucanos Urariano Mota, Fernando Carrero, Angelo Monteiro. E poetas que deveriam ter merecido o Prêmio Nobel: os “João, Joaquim e Manoel” de Carlos Pena Filho, poetas maiores que os direitistas Fernando Pessoa, Rainer Maria Rilke, influenciados pela Ordem Hermética da Aurora Dourada.

Não vou cobrar de Ivan Maurício, temos vários jornalistas – fora do batente – que deveriam ser musicados, para exaltação merecida da Poesia, e para combater a degeneração da MPB, e para tirar do esquecimento os ritmos pernambucanos.

Não vou cobrar de Ivan, exemplo do bom jornalismo, porque tem apenas mais cinco meses de secretariado.

Mas considero que a Secretaria de Imprensa, além de informar os atos e fatos do governo, deveria influenciar na dignificação dos jornalistas.

Outro grande jornalista, o potiguar Woden Madruga recomenda que o texto (crônica) de Ruy Castro, “”Cultura reduzida””, publicado na edição do dia 30, na Folha de S. Paulo, “deveria ser lido em todas as escolas deste vasto país. Lido e comentado. Lido, inclusive, pelas pessoas que dizem cuidar da cultura de sua terra, do gestor público ao artista de pose e de nariz arrebitado, “moderníssimo””. Certo Woden, gente que prefere citar autores estrangeiros, por conta do complexo vira-lata.

Diz Ruy Castro: “Há 50 ou 60 anos, os jovens ouviam toda espécie de ritmos – sambas, baiões, foxes, mambos, fados, boleros, tangos, canções francesas e napolitanas, valsas vienenses, jazz, calipso, rock’n’roll. Sabiam identificar qualquer instrumento que vissem ou ouvissem – distinguiam entre um trompete e um trombone, sabiam escalar a família inteira dos saxes, citavam pelo menos dez variedades de cordas e conheciam a maioria dos instrumentos de uma sinfônica. Aprendíamos com o cinema, o rádio ou nossos pais.

A partir dos anos 70, a vida reduziu a guitarras, teclados e percussão. Os outros instrumentos deixaram de existir. Os ritmos nacionais se evaporam e a música popular ficou igual em toda parte. A educação musical dos garotos empobreceu. E os pais não podem ajudar, porque, já nascidos nesta realidade, seu conhecimento não é muito maior que o dos filhos”.

Eis o que acontece quando jornalistas pernambucanos são musicados: