SALMO DA CANA

 

por Luiz Alberto Machado

Canavial, Portinari
Canavial, Portinari

 

Trabalhar a cana sempre nos olhos do amanhã
Trabalhar a cana sempre no breu da barriga
Havendo luz ou sol sempre e o adubo perfeito
Cogitando nas mãos para a cana florescer
A cana e a febre se confundem nas docas
Como canção de cambiteiros que cantam solar
O suor e a cana atravessada no peito
Como tortura de sangue na terra de ninguém
A casa e a cana divisam seu sonho
Transformam a fome em nó de espingarda
O trabalho perfeito justinho nas sementes
Que floram no verde de sangue escondido
Trabalhar a cana sempre nos olhos do amanhã
Enquanto a roupa já se esqueceu de viver
O cangaço a carcaça o trabuco já se faz ofegante
Não suja a cabeça nem trai coração
Sem horizonte sem festa sem ninar
Trabalhar a cana sempre no breu da barriga
Fazendo crescer a desdita risonha
De quem nem na cana pega pra chupar
Trabalhar a cana esmolando um sorriso
À beira da penúria de quem já se foi
Enterrado entre a cana e o bocejo
Trabalhar a cana sempre nos olhos do amanhã
Ilhando a cidade o ventre e o coração
O lacre dos sinos de ventos felizes
São campos de ares senis
A cana. E o ventre já não se refaz
A cara a mesma a cana a mesma
O sol o mesmo a luz e o luar
Somente a cana não pode mudar.

 

 PORTINARI, Menino e Canavial - do livro Menino de Engenho
PORTINARI, Menino e Canavial – do livro Menino de Engenho

De Luiz Alberto Machado

Talis Andrade é pernambucano de Limoeiro, reside no Recife e foi direitor de diversos jornais pernambucano, foi professor dos cursos de Jornalismo e Relaçoes Publicas da Universidade Catolica de Pernambuco. Além disso é autor dos livros Esquife Encarnado (1957), Poemas (1975), Cantiga para um Icone Dourado (1977), O Tocador de Realejo (1979), O Sonhador Adormecido, Vinho Encantado (2004), Os Herdeiros da Rosa, Os Sertoes de Dentro e de Fora, Romance do Emparedado (2007), Os Cavalos da Miragem, A Partilha do Corpo (2008) e O Enforcado da Rainha (2011). O verbete

 

Talis Anadrade
Talis Anadrade

ANÁTEMA

por Luiz Alberto Machado

Pelo meio do mundo afora
pelo jeito que for e será
pelos ermos caminhos embora
e nos abismos me extasiar
ver o dia vir nascer das mãos
ver o sol se deitar nos olhos
é o meu destino de qualquer pagão
no sereno da noite me molho
e enxugo a pele
não me dera a vida uma escolha
e por sentir amada
na paixão minada, viver
pelo equívoco de quem desama
repudiando deus e todo mundo
vociferando o verso que a veia inflama
num anátema jamais profundo
pelo de dentro e o que vem de fora
pelo embuste que segreda a farsa
procuro pelo que evadiu agora
e no frigir já não vale mais nada
e a pancada insólita
se alastra na culatra
e não foi feita só de mera viva cortesia,
viver
não me resta aqui dizer mais nada
isso é página virada
precisa só viver