O Belo e os Monstros

Mandela

“Mandela não era propriamente um líder político” – opinou o pivô da RTP. Estava dado o tom. As televisões, nos seus noticiários, empenham-se em fazer uma espécie de esterilização da memória de Nelson Mandela. Como se para homenagear o homem fosse necessário negá-lo previamente.

O despudor o a hipocrisia estão, hoje, à solta. Já vi e ouvi os ditirambicos elogios feitos por três ministros de Cavaco Silva – com duas intervenções de Deus Pinheiro, ministro dos negócios estrangeiros da altura! -, o mesmíssimo governo que considerava Mandela terrorista e um dos três que, na ONU, juntamente com os EUA e o RU, votou contra a sua libertação da infindável prisão a que esteve sujeito. Tal como votou em todas as organizações internacionais sempre que se discutiam moções e deliberações, mesmo de carácter humanitário, sobre este tema.

Esta repugnante herança não pode ser esquecida nem apagada e os seus protagonistas só ganham o direito a admirar Mandela se forem capazes de um reconhecimento auto-crítico da sua prática ao tempo. Sejamos claros: Mandela não foi um mártir, nem um santo. Foi um herói, um homem à altura das suas circunstâncias. Foi – e de que maneira – um grande líder político e revolucionário. A sua obra tem as grandezas e imperfeições do que é humano. A África do Sul não foi transformada num paraíso, longe disso; foi libertada. Faz o seu caminho. Esperemos que esteja à altura do caminho de Mandela. Que era um homem de paz, mas não um pacifista; que lutou com todos os meios para que o seu povo tivesse direito a construir uma nação igualitária. Tendo sempre presente: “Se tu queres fazer as pazes com o teu inimigo, tens que trabalhar com o teu inimigo. E então ele torna-se o teu parceiro.”

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. A mais bonita capa de jornal

Leda Letra

O Brasil comemora nesta terça-feira o Dia da Consciência Negra e o escritório da Unesco no país participa das celebrações com a campanha “Ter Consciência Negra é Abrir os Olhos para a Diversidade”.

Um painel digital traz fotos de pessoas com os olhos fechados e também sorrindo. Para montar o painel, a agência da ONU no Brasil convidou pessoas a enviar os dois tipos de foto para sua página no Facebook.

Zumbi

A Unesco no Brasil está divulgando as fotos selecionadas nesta terça-feira, nas redes sociais. Segundo a agência, o idealizador do Dia Nacional da Consciência Negra foi o poeta e pesquisador gaúcho Oliveira Silveira.

A data, criada nos anos 1970, busca celebrar o valor e a contribuição da comunidade negra para o Brasil.

O dia foi escolhido para homenagear Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, em Pernambuco, e símbolo da resistência negra na época do regime escravocata. Zumbi dos Palmares foi assassinado em 20 de novembro de 1695.

Prefiro o nome Zambi:

(NZAMBI) – O Deus supremo na Umbanda. O Criador nos candomblés de Nação Angola, equivalente à Olorun do Candomblé Ketu. Zambi é o princípio e o fim de tudo.
 A palavra Zumbi, ou “Zambi” vem do termo zumbe, do idioma africano quimbundo, e significa, fantasmaespectro, alma de pessoa falecida.

Os negros escravos não acreditavam na morte de Zambi. Assim como os portugueses cultuavam o Sebastianismo, um movimento místico-secular que ocorreu em Portugal na segunda metade do século XVI como consequência da morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Por falta de herdeiros, o trono português terminou nas mãos do rei Filipe II d’Espanha. Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e à cultura nordestina do Brasil. Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre. O povo nunca aceitou a morte do rei, divulgando a lenda de que ele ainda se encontrava vivo, apenas esperando o momento certo para voltar ao trono e afastar o domínio estrangeiro. Vários países possuem lendas idênticas. Leia o poema Zambi

Comissão da Verdade e os cisnes branco e negro. Marinha sempre foi contra a anistia

Por simplória burrice, almirantes de pijama pretendem orquestrar a autoria de crimes de sequestro, tortura e morte, quando a Marinha desempenhou um papel subalterno no golpe de 64.

Nos governos militares, comandados pelos marechais e generais eis a lista de vices:  José Maria Alckmin (Castelo Branco), Pedro Aleixo (Costa e Silva), Augusto Rademaker (Emílio Garrastazu Médici), Aldaberto Pereira dos Santos  (Ernesto Geisel) e  Aureliano Chaves (João Figueiredo).

O Triunvirato Militar, para impedir a posse do civil Pedro Aleixo, foi formado por Lyra Tavares,  Augusto Rademaker e Márcio Mello.

Assim a presença da marinha ficou retrista a Augusto Hamann Rademaker Grunewald, um militar da linha dura, de descendência alemã.

Augusto Radmaker
Augusto Radmaker

É notícia internacional (da BBC):
A Comissão da Verdade, criada para investigar abusos de direitos humanos cometidos durante a ditadura militar, se reunirá pela primeira vez nesta quarta-feira em meio a críticas de oficiais das Forças Armadas e de parentes de vítimas.

Descontentes com a composição da comissão, oficiais reformados do Clube Naval do Rio de Janeiro anunciaram a formação de uma “comissão paralela” para rebater as eventuais acusações do grupo oficial.

A iniciativa reflete o desconforto provocado nos militares pelo que acreditam ser uma tentativa de vingança de um governo ideologicamente tendencioso.

O regime ditatorial vigorou no Brasil por 21 anos, entre 1964 e 1985. Nesse período, cerca de 400 pessoas foram mortas ou desapareceram e milhares teriam sido torturadas – entre elas a própria presidente, Dilma Rousseff.

“Claro que coisas terríveis aconteceram nesse período, mas vítimas foram feitas dos dois lados e eles só querem contar um lado da história”, afirmou o vice-almirante Ricardo Antônio da Veiga Cabral, presidente do Clube Naval do Rio de Janeiro.

Uma vez que os militares da ativa são proibidos de expressar seu ponto de vista publicamente ou organizar sindicatos, seus clubes – liderados por oficiais generais da reserva – são bons indicadores do clima dentro das Forças Armadas.

Segundo Cabral, o Clube Naval designou “sete oficiais de confiança” para fazer parte da “comissão paralela”.

“A comissão está ainda em estágio embrionário, mas temos claro que nosso objetivo é garantir que o relato contemple os dois lados”, disse Cabral.

O grupo não deve produzir um relatório próprio, mas apenas rebater acusações que sejam feitas pela comissão oficial.

“Os jovens hoje em dia nem conhecem a história narrada pelo outro lado (o lado dos militares) porque a mídia adotou apenas uma versão”, afirmou o militar reformado.

Vítimas

Porém, as vítimas do regime e seus parentes também não estão satisfeitos. Isso porque a comissão terá poderes para investigar violações de direitos humanos, mas não para punir os responsáveis.

As estatísticas variam, mas relatórios oficiais sugerem que entre 400 e 500 militantes e civis tenham sido mortos pelos militares, ou simplesmente desaparecido. Leia mais

Considero o debate bom. Assim vão começar a aparecer os cisnes negros, como aconteceu na repressão da Revolta da Chibata, em 1910, uma das páginas mais vergonhosas, e escondidas, da História do Brasil.

A Revolta do Almirante Negro

Herói libertário da Revolta da Chibata, o Almirante Negro  João Cândido
Herói libertário da Revolta da Chibata, o Almirante Negro João Cândido

A Revolta da Chibata começou no dia 22 de novembro de 1910, quando os marinheiros brasileiros eram punidos com castigos físicos. As faltas graves eram punidas com 25 chibatadas (chicotadas).

O estopim ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega, dentro do encouraçado Minas Gerais. O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro, e a punição exagerada e cruel desencadeou a revolta.

No confronto de oficiais com marinheiros, morreram o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baia da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo.

O líder da revolta, João Cândido, o Almirante Negro, redigiu a carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia.

A mesma anistia hoje tão defendida pelos oficiais que golpearam Jango.

O presidente marechal Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações,  desconsiderou a anistia,  expulsou e prendeu os revoltosos. A insatisfação retornou e, no começo de dezembro, os marinheiros presos fizeram outra revolta. Esta segunda revolta foi fortemente reprimida pelo governo, sendo que vários marinheiros foram torturados e barbaramente assassinados, notadamente em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras. Outros revoltosos presos foram enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha.

O líder da revolta João Cândido também expulso da Marinha, foi internado como louco no Hospital de Alienados.

Reduto de brancos, a Marinha ganhou assim um Almirante Negro, patente dada pelo povo, e um herói para toda a eternidade, glorificado  pela História.

A família de João Cândido quer – nada mais legítimo – os mesmos direitos que os perseguidos pela ditadura militar.