Veja para onde irá a água do rio São Francisco após a conclusão da transposição

ÓRFÃOS DA SECA

por Mauri König

1 seca

Em Salgueiro (PE), água bombeada do reservatório passará 180 metros acima do leito do São Francisco e dali a força da gravidade vai distribuí-la para 4 estados. Alexandre Mazzo
Em Salgueiro (PE), água bombeada do reservatório passará 180 metros acima do leito do São Francisco e dali a força da gravidade vai distribuí-la para 4 estados. Alexandre Mazzo

A RESPONSABILIDADE DO VELHO CHICO

Metade da transposição do rio São Francisco está pronta, para socorrer os flagelados da seca. Vozes contrárias acham o projeto inócuo

Esvaído em seu leito minguado, ao Velho Chico caberá uma responsabilidade maior do que as riquezas dele subtraídas. A mata ciliar escasseou, os minerais sumiram, os peixes desapareceram, e ainda assim as águas amansadas pelo assoreamento terão a missão de aplacar a sede no sertão nordestino. A transposição do rio São Francisco, que transpôs governos desde d. Pedro II, há século e meio, tem conclusão prevista para 2015. É o grande orgulho do governo brasileiro no combate às secas que assolam o semiárido, mas há quem diga ser uma sangria desnecessária do Velho Chico.

INFOGRÁFICO: Veja para onde irá a água do rio São Francisco após a conclusão da transposição

FOTOS: Confira mais imagens das obras da transposição

Maior obra de infraestrutura em andamento no Brasil, a transposição se arrasta há cinco anos. Deveria ter sido concluída em 2012, mas só 45% estão prontos, em trechos que não se conectam. Em alguns deles as obras estão paradas. O projeto começou orçado em R$ 4,7 bilhões e está em R$ 8,2 bilhões. O Tribunal de Contas da União encontrou R$ 734 milhões em irregularidades. O rio corta o sertão de Minas Gerais a Alagoas, e, concluída a transposição, 600 quilômetros em canais de concreto vão levar a água para quatro estados, passando pelas regiões mais secas do Brasil.

Discrepâncias

Responsável pela transposição, o Ministério da Integração Nacional diz ter havido muita discrepância entre o projeto básico, concluído em 2001, e o projeto executivo realizado em campo. Não houve revisão ou atualização no início das obras, em 2007. Ao mesmo tempo, houve falhas no estudo geológico. Daria para ter desviado pedreiras, que encarecem a obra, ou ter evitado determinadas escavações em terreno macio, como no caso do desabamento de um túnel de 120 metros em abril de 2011. Para o ministério, esses contratempos retardaram e encareceram a obra.

Um dos pontos mais adiantados do projeto fica em Salgueiro, Pernambuco, onde está sendo construído um grande reservatório de onde a água será bombeada para o ponto mais alto da transposição. A água passará 180 metros acima do leito do São Francisco e dali para frente a força da gravidade vai fazê-la percorrer mais de 100 quilômetros, distribuindo-a por canais de concreto em dois grandes eixos (norte e leste) ao longo do território de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Ao longo do caminho, o projeto prevê a construção de nove estações de bombeamento de água.

A polêmica nasceu junto com a ideia da transposição. Para grupos contrários, o desvio das águas põe o rio em perigo, não resolve o problema da seca e só beneficiará o grande capital, em especial os carcinicultores (criadores de camarão), industriais e empreiteiras. O professor de recursos hídricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, João Abner Guimarães Júnior, considera um erro apostar num programa de desenvolvimento regional a partir da transposição do São Francisco. “É um programa inócuo”, avalia Abner, doutor em hidráulica e saneamento pela Universidade de São Paulo.

Primeiro, a transposição terá alcance restrito, a área de influência chega a apenas 5% do semiárido. Segundo, na prática a obra só irá transferir estoques de água do rio para grandes reservatórios já abastecidos. Para o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna, grandes obras não darão cabo do sofrimento imposto pela estiagem. O problema não é a falta de água, mas a má distribuição.

O governo entre obras e ações emergenciais

Além do projeto de transposição do rio São Francisco, que ambiciona levar água para 12 milhões de pessoas em quatro estados do Nordeste, o governo federal, junto com os governos estaduais, financia centenas de empreendimentos que buscam gerar soluções para a falta de água na região do semiárido. Serão R$ 26 bilhões pelo Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC 2. As obras de infraestrutura hídrica para expandir a oferta de água no semiárido incluem barragens, adutoras e canais. A meta até 2015 é ampliar a capacidade de armazenagem de água em 7 bilhões de metros cúbicos com novas barragens.

Até a conclusão das obras estruturais, o governo investe em ações emergenciais. Desde janeiro de 2012, destinou R$ 563 milhões para a Operação Carro-Pipa. Sob a coordenação do Exército, foram contratados 4.649 carros-pipa para levar água a mais de 3,5 milhões de pessoas em 763 municípios. Além disso, para a garantia de abastecimento imediato em regiões comprometidas pela seca, o governo federal autorizou um incremento de R$ 202 milhões para contratar 30% a mais de carros-pipa, totalizando 6.170 veículos. O recurso é liberado mediante solicitação dos estados.

Até dezembro do ano que vem, o governo vai instalar 750 mil cisternas para consumo no semiárido. Serão entregues 130 mil até julho deste ano e 240 mil até dezembro. As demais 750 mil serão entregues até dezembro de 2014. Serão instaladas, ainda, 91 mil cisternas para produção.

O Serviço Geológico do Brasil investirá R$ 40 milhões do Ministério da Integração Nacional na perfuração de 20 novos poços profundos de grande vazão. A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba e o Departamento Nacional de Obras contra as Secas investirão R$ 93,3 milhões na perfuração de 1,1 mil novos poços e na recuperação de 1,4 mil outros. Além disso, o Exército investirá R$ 75 milhões na aquisição de equipamentos para perfuração de 30 poços por mês.

Desigualdade
Água existe, mas falta política de distribuição para quem precisa

O problema não é a falta de água, mas a má distribuição. Não serão grandes obras que darão cabo do sofrimento imposto pela seca, diz o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna. As 70 mil represas existentes no Nordeste acumulam 10 bilhões de metros cúbicos de água, com capacidade para represar 37 bilhões, o maior volume de água represada em regime semiárido do mundo. “Mas não existe uma política para captar essa água e levar para quem precisa”, observa o pesquisador.

Suassuna é contra a transposição do São Francisco porque ela foi “vendida” como a obra que vai resolver o problema da seca no Nordeste. A água chegará aonde já existe em abundância. “A população no entorno dessas represas vai continuar passando sede e sendo abastecida por caminhões-pipa mesmo depois da transposição”, avalia. Somando-se o Norte de Minas Gerais, apenas 2% do território atingido pelas secas são passíveis de irrigação. O problema é o que fazer com os 98% restantes.

Para o pesquisador, o que está claro é que a transposição vai abastecer as represas, vai abastecer o grande capital. Não está claro como a água vai chegar à população, que continuará sendo atendida por caminhões-pipa. “É aí que está a verdadeira ‘indústria da seca’”, pondera Suassuna. Em 1994, durante congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), hidrólogos reunidos em Recife alertavam para a necessidade de uma melhor distribuição da água no semiárido. “Todos os alertas já foram feitos”, diz o agrônomo.

Socorro
Agricultores atingidos pela seca terão suas dívidas renegociadas

A presidente Dilma Rousseff anunciou em abril novas medidas para apoio a produtores rurais afetados pela estiagem no semiárido brasileiro. Os investimentos totalizam R$ 9 bilhões. Somados aos R$ 7,6 bilhões já aplicados em ações estruturantes e emergenciais de enfrentamento à seca, o governo federal está investindo R$ 16,6 bilhões em medidas para mitigar os efeitos da estiagem. Uma das principais ações diz respeito à renegociação da dívida dos agricultores afetados pela seca.

Outra medida anunciada é a manutenção dos programas Garantia-Safra e Bolsa Estiagem enquanto durar o período da seca. Serão incorporados um total de 361.586 novos beneficiários ao Bolsa Estiagem, que beneficia atualmente 880 mil agricultores em 1.311 municípios. Da mesma forma, o Garantia-Safra atende hoje 769 mil agricultores em 1.015 cidades.

Nordeste. Estiagem afeta cultura da vaquejada

por MAURI KÖNIG

Prova de vaquejada em Cabrobó no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo
Prova de vaquejada em Cabrobó no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo

Seca histórica mata o gado no semiárido e começa a faltar animais para a secular tradição dos sertanejos. Eventos estão sendo cancelados

No final do século 18, o gado passou a ser criado solto nas matas dos sertões do Brasil, dando origem à figura do peão encarregado de recolher o rebanho dos coronéis. Desse ofício derivou a vaquejada, atividade recreativa-competitiva com um século de tradição. Hoje o Nordeste tem 110 parques de vaquejada, fora as raias em propriedades rurais no sertão. É justamente nesses pontos mais remotos que a tradição está por um fio devido ao flagelo da seca que dura três anos. Está faltando boi para a disputa, mortos pela sede e pela fome.

Ronaldo Ramos Reis, o Ronaldo Galo, de 59 anos, organiza vaquejadas há 30 anos em Coração de Jesus, cidade de 26 mil habitantes no Norte de Minas Gerais. Seus últimos sete circuitos tiveram 15 eventos por ano, e a final de 2012 reuniu 40 mil pessoas na vizinha São João da Lagoa. O oitavo circuito foi cancelado. Até estava dando para driblar as exigências dos Bombeiros e as pressões dos protetores dos animais, mas a chuva deixou de comparecer. “A seca atinge todos os segmentos da área rural, e a vaquejada é rural”, explica Ronaldo.

O sertanejo ainda buscou meios para manter a tradição. Reduziu de 10 para 7 metros a raia até o ponto em que o gado tem de ser tombado pelo rabo, extensão proporcional ao tamanho do boi, minguado em tamanho e quantidade. Mas os rebanhos estão cada vez mais sendo vendidos ou abatidos antes do tempo por causa da estiagem. As prefeituras do Norte de Minas, que sustentam a vaquejada, veem seus cofres esvaziarem na mesma proporção dos reservatórios de água. “Por insistência e paixão de alguns que têm mais condições, vão acontecer cinco vaquejadas neste ano, se acontecerem”.

Estratégia onerosa

Em Cabrobó, cidade de 30 mil habitantes na região mais árida de Pernambuco, a 600 km da capital Recife, sedia 12 vaquejadas por ano em pequenas e médias propriedades rurais. Por causa da falta de gado, uma delas deixou de ser realizada ano passado e outra foi suspensa neste ano. Fabrício Barros dos Santos, de 36 anos, que em março organizou sua sétima festa, diz que em 2012 não encontrou boi forte o suficiente para a vaquejada. Neste ano ele teve de recorrer a uma estratégia bastante onerosa para manter a tradição herdada do bisavô.

Antes da seca, pecuaristas da região emprestavam parte do rebanho para a organização do evento. Desta vez, Fabrício teve de recorrer ao rebanho da Ilha de Assunção, uma reserva indígena dentro do Rio São Francisco, em Cabrobó. Os índios trucás estão alugando as terras com pasto para pecuaristas de muitas cidades do Polígono da Seca. A ilha de 3,5 mil habitantes e 5.700 hectares se tornou a UTI do gado que está morrendo de fome e de sede. A vaquejada foi realizada dia 13 de março, mas a experiência não foi muito promissora.

Fabrício e o sócio Paulo Reginaldo alugaram 50 cabeças a R$ 80 cada uma. Entre aluguel de bois, custo de transporte e de pessoal, mais a premiação aos vencedores, a organização gastou R$ 12,8 mil dos R$ 15 mil arrecadados. Um resultado pífio para dois meses de trabalho. Além de desmotivar outro evento, o perfil do gado também compromete a qualidade da vaquejada. O boi da caatinga é mais arisco, o que tornava a prova mais difícil. “Se a gente continuar, só mesmo pra reunir os amigos e pra manter a tradição. Mas é difícil”, diz Fabrício.

Ilha do Rio São Francisco vira a UTI do gado

A Ilha de Assunção, uma das maiores do Rio São Francisco, tinha até recentemente o cultivo de arroz, feijão, cebola, goiaba, coco, maracujá e banana como principal atividade produtiva. Mas a seca que há três anos castiga o semiárido brasileiro mudou o perfil da ilha dos índios trucás, de 3,5 mil habitantes. Essa rara mancha verde no Polígono da Seca, com seus 5.700 hectares cercados por água, tornou-se a UTI do gado que está morrendo de fome e de sede nos arredores de Cabrobó (PE), um dos núcleos de desertificação no Brasil.

Pela ponte estreita que leva à ilha passam os caminhões com boiadas esquálidas vindas de muitas cidades do sertão pernambucano. Os índios passaram a alugar suas terras a pecuaristas desesperados com as perdas de rezes, cujas carcaças se multiplicam em meio à caatinga. Um deles é Joseílson Ramos dos Santos, 45 anos. Dono de 16 hectares em Parnamirim (PE), perdeu 11 das 30 cabeças de gado por inanição.

Joseílson vendeu dois bois pela metade do preço e levou os 17 sobreviventes para a UTI do Rio São Francisco. Alugou dois hectares de pasto por R$ 2 mil e pagou R$ 400 pelo transporte até a ilha, distante 75 quilômetros. Ao desembarcar o gado, mês passado, notou que Carinhosa, a mais velha do rebanho, estava desmantelada na carroceria. A fome cobrava as últimas forças do xodó da família.

Joseílson recorreu então a uma engenhoca muito recorrente no sertão para animais à beira da morte. O equipamento é basicamente o mesmo em todo lugar, feito com estacas de madeira, cordas e saco de nylon. O propósito é ajudar o gado a se manter de pé, pois se ficar prostrado morre logo.

Joseílson fincou as estacas, aprumou as cordas e pediu ajuda para suspender Carinhosa. Um morador da ilha sugeriu inovações. Eles cavaram sob uma árvore um buraco profundo e largo o suficiente para caber as pernas do animal e instalaram as estacas ao redor, de modo a mantê-la suspensa por cordas com os membros inferiores metidos na cavidade. O sobrinho, Éverson, de 11 anos, ajuda a dar água e comida na boca de Carinhosa. Ela passou a responder bem aos cuidados.

A família de Joseílson teve de dar uma cota extra de sacrifício para tentar salvar o parco rebanho, único patrimônio depois de a seca fustigar o plantio de milho, feijão e algodão. Ele foi com os filhos de 18 e 19 anos para cuidar do gado na ilha, enquanto a mulher ficou em Parnamirim com o menino de 16 e a menina de 14 anos. A família teve de se dividir na esperança de saldar as dívidas, cujo valor a vergonha impede Joseílson de revelar.

Sobrevivência
Fustigado pela estiagem, sertanejo se vê entre a doença e a dependência

Salgueiro (PE), a 520 quilômetros de Recife, é o retrato da dependência governamental em decorrência da seca prolongada. O município de 57 mil habitantes, cuja economia está centrada na agricultura, tem três mil produtores rurais mantidos por programas oficiais de transferência de renda. São 1.478 agricultores recebendo o Garantia Safra, no valor de R$ 760 anuais divididos em parcelas, e outros 1.500 auxiliados pelo Bolsa Estiagem, de R$ 80 por mês.

O Bolsa Estiagem começou a ser pago pelo governo federal em junho do ano passado e atendeu 880,6 mil pessoas, em 1.316 municípios, totalizando R$ 569 milhões. O pagamento é feito em parcelas de R$ 80,00 a agricultores de baixa renda que vivem em municípios atingidos pela seca. Já o Garantia Safra repassou R$ 953,5 milhões a 769 mil agricultores de 1.015 municípios desde 2011.

O benefício destina-se a agricultores que contraíram empréstimo do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e tiveram prejuízo com a estiagem. O valor chega a R$ 1,2 mil, em parcelas que variam de R$ 135,00 a R$ 140,00 mensais. O governo de Pernambuco socorre ainda com o Programa Chapéu de Palha. Seis mil agricultores são beneficiados com um valor mínimo de R$ 100, válido para o período da entressafra que vai de abril a agosto.

A família de João José da Costa, de 66 anos, é uma das beneficiadas com os programas oficiais. Ele vive com a mulher, duas filhas, dois genros e três netos em dois terrenos, de 66 e 39 hectares, onde criam gado e cultivam a terra. João tinha 16 cabeças de gado. Vendeu uma e outras sete morreram. As demais ninguém quis, estavam muito magras. Uma tímida chuvinha em janeiro animou, e ele plantou milho e feijão. Perdeu tudo. Teve de se contentar com o Seguro Safra e Chapéu de Palha. Ele e a mulher são aposentados rurais.

A filha, Neuza, recebe o Bolsa Família. O marido dela, Pedro Expedito da Cruz, de 44 anos, foi diagnosticado com depressão e não pode trabalhar. Vítima da seca, passou a manifestar problemas neurológicos decorrentes das sucessivas perdas agrícolas causadas pela estiagem. Ele, a mulher e os três filhos passaram a ficar dependentes do Seguro Safra e do Chapéu de Palha.

O outro genro de João, Joaquim Josias Gomes, não teve igual sorte. Ele fez o cadastro no Garantia Safra, pagou a taxa de R$ 9,50 há dois meses, mas ainda não teve resposta. Antes, havia feito inscrição no Bolsa Família, mas não pôde receber o benefício porque tinha uma moto em seu nome. A moto, no entanto, não é um luxo. É o único meio de locomoção da família até a cidade, distante 14 quilômetros, a maior parte em estradas de terra.

Socorro
Fundo constitucional garante R$ 2,7 bilhões de ajuda ao semiárido

Por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), o governo federal oferta crédito com juros baixos para agricultores familiares, produtores rurais e pequenas e médias empresas das regiões afetadas pela seca. Desde maio de 2012, foram contratadas 300 mil operações pelas linhas emergenciais de crédito, no valor de R$ 2,4 bilhões. O apoio chegou a produtores de mais de 1,3 mil municípios do semiárido. O Tesouro Nacional fará, ainda, um aporte adicional de R$ 350 milhões de recursos do FNE para as linhas de crédito emergenciais, elevando os valores para R$ 2,75 milhões. A medida vai assegurar a continuidade da assistência de crédito com juros baixos para produtores rurais afetados pela seca.

FOTOS: Veja slideshow da seca no Nordeste

Diáspora da seca redesenha o Brasil

por MAURI KÖNIG

Abandono do Semiárido começou há dois séculos, na época do Império. Nordestinos fugiam para o Sudeste ou eram levados para desbravar outras regiões do país. Foto Alexandre Mazzo
Abandono do Semiárido começou há dois séculos, na época do Império. Nordestinos fugiam para o Sudeste ou eram levados para desbravar outras regiões do país. Foto Alexandre Mazzo

A seca, realidade sempre presente no Semiárido brasileiro, tem como consequên­cias diretas a fome, a desnutrição, a miséria, a morte, o êxodo rural. Toda essa tragédia, em boa medida, forjou uma nova geopolítica nacional com base em uma diáspora imposta pela intolerância da seca. A despeito das glórias do passado, do seu papel na construção do país, o Nordeste de hoje se tornou um bode expiatório para aqueles que discursam sobre o desperdício do dinheiro público na sua recuperação. Mas é preciso pôr na balança o que o Nordeste já fez.

FOTOS: Veja slideshow da seca no Nordeste

O Nordeste foi a região mais rica e povoada do território brasileiro nos três séculos seguintes ao Descobrimento. Centro da produção açucareira até o fim do século 19, a queda dos preços do açúcar e do algodão fez a economia estagnar. Embora a água fosse escassa, antes a terra vasta e plana fez do sertão grande produtor de gado, levando carne e couro para toda a Colônia no século 17. A seca, sempre presente, foi agravada pela ocupação irregular do solo e a devastação da natureza. Desde o Brasil Colônia nunca houve políticas públicas para a região.

A seca de 1791 a 1793 tornou a vida mais difícil. A vegetação não se recuperou. A seca de 1877 a 1880 piorou o cenário, e se criou o conceito de retirante, o sertanejo que deixa sua terra para escapar dos efeitos da estiagem. Pela primeira vez o governo tentou uma política de salvação para o sertão: dom Pedro II importou camelos do Saara. Porém, as raízes do problema eram mais profundas. Em número quase quatro vezes maior do que a população de Fortaleza, os proscritos da seca ocuparam a capital do Ceará. O resultado foram epidemias, fome, saques e crimes.

Evasão em massa

À época começaram os primeiros movimentos migratórios significativos. O Ceará tinha 800 mil habitantes, dos quais 120 mil emigraram para a Amazônia e 68 mil se dirigiram a outros estados. Outra grande seca assolou a região em 1915. Para evitar nova invasão a Fortaleza, os governos estadual e federal criaram campos de concentração na periferia das grandes cidades para recolher os flagelados. Nova seca catastrófica em 1932, e outra vez foram sete os campos de concentração no Ceará, encarcerando 105 mil retirantes, recrutados para trabalhar de forma compulsória nas obras públicas.

Nas secas seguintes, os governos desistiram dos campos de concentração e começaram a estimular o sertanejo a abandonar suas terras. Passaram a planejar a migração maciça para o Oeste, de forma a povoar os sertões do Mato Grosso, num movimento migratório conhecido como Marcha para o Oeste.

Até o século 19, cinco entre dez brasileiros viviam no Nordeste, proporção que caiu para quatro entre dez no início da década de 1990, embora ali a taxa de natalidade seja maior do que no restante do país. O Censo de 1950 verificou que mais de 2 milhões de nordestinos haviam migrado para outras regiões do país. Entre 1950 e 1980, as grandes metrópoles do Sudeste tornaram-se o destino da maioria dos retirantes. Hoje, 12% da população da cidade de São Paulo é composta por migrantes nordestinos.

Conviver com a seca, a palavra de ordem

Não se pode combater a seca porque, como fenômeno natural, ela sempre se repete. O que se pode fazer é conviver com as condições climáticas. “Essa é a palavra, convivência”, diz o agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco João Suassuna. Tecnologia existe, mas nada aproveitada. Suassuna indica duas alter­­nativas mais prudentes como alternativa econômica para o Semiárido.

A primeira, criar gado adap­­tado à condição de seca. A Paraíba está tendo bons resultados com bois das raças guzerá e sindi, oriundas dos desertos da Índia e do Paquistão. Em grande escala, pode-se repetir o sucesso dos caprinos e ovinos, que se adaptaram bem ao clima do Nordeste desde sua chegada à época da colonização. O alimento para os rebanhos pode vir da segunda alternativa: plantas adaptadas ao meio para servir de forragem.

Há uma tecnologia de plantio adensado de palma, com alto ganho de produtividade. O bioma caatinga tem plantas que ao longo das eras se adaptaram à aridez, desenvolvendo meios de reserva de água para os períodos secos. Na caatinga há plantas produtoras de látex, mel, fibra, energia (para queimar como lenha) e alimento para o gado.

“Temos de fazer um extrativismo sustentável das plantas que existentes no bioma”, diz Suassuna. Mas ele observa com pesar o desperdício desse potencial. “A tristeza é que sabemos que conhecemos pouco esse bioma e o estão destruindo”. No extremo de Pernambuco fica a maior mina de gipsita do mundo. Para extrair o gesso é preciso calfinar o mineral, queimá-lo em fornalhas. Para isso, estão usando a caatinga. “Está virando carvão, estão acabando com um bioma que pouco se conhece.”

A família de Josafá Pereira dos Santos, 47 anos, tenta se adaptar ao meio. Ao todo, 15 pessoas viajam de carroça três quilômetros todos os dias de Mirandiba até Angico Verde (PE) para trabalhar. Carregam água em baldes para irrigar os pés de feijão e macaxeira.

Josafá Pereira dos Santos e sua família voltando depois de um dia de trabalho Mirandiba-Pernambuco Foto Alexandre Mazzo
Josafá Pereira dos Santos e sua família voltando depois de um dia de trabalho Mirandiba-Pernambuco. Foto Alexandre Mazzo

 

Tragédia brasileira
Intermitências da seca provocaram a morte de 3 milhões de nordestinos

A morte ronda diuturnamente o sertanejo no Semiárido, no lastro das secas que forjam a mais triste e previsível tragédia brasileira. Fustigado pelo desejo de quantificar as perdas humanas, o pesquisador Marco Antônio Villa contou os mortos nas principais estiagens ocorridas no Nordeste entre 1825 e 1985. Chegou a 3 milhões de vítimas, conforme narra em Vida e Morte no Sertão (Ática, 2000). Só a seca de 1877-1879, a mais terrível, dizimou 4% da população nordestina à época.

O saldo de mortos se deu, em grande medida, ao imobilismo das autoridades públicas, numa demonstração de negligência, violência, corrupção, manipulação e clientelismo. Villa reconstituiu o contexto e conjunturas para retratar os efeitos das secas sobre a economia regional, o fenômeno das migrações orientadas pelos governos, a indústria da seca, os saques perpetrados por retirantes desesperados, as epidemias, frentes de trabalho de caráter puramente assistencialistas.

Realidade ou ficção?
Vida do sertanejo em meio à aridez abasteceu a literatura nacional

Há realidades que, de tão inverossímeis, só a ficção para melhor explicá-las. A seca no Semiárido brasileiro, por exemplo, abasteceu a literatura mundial de grandes escritores. À literatura se incorporou a fase do ciclo das secas, tamanho o volume de romances que tinham como tema central a estiagem e a vida no sertão. José de Alencar (1876) inaugurou a série com a publicação O sertanejo, e o período se estendeu até a primeira década do século 20.

São três os personagens principais da literatura do ciclo das secas: o cangaceiro, o beato e o retirante. Nenhum livro desse período teve tanta influência quanto Os sertões, uma obra que mistura sociologia, literatura e reportagem de guerra, escrita por Euclides da Cunha. Numa clara admiração pelo sertanejo, o escritor buscou retratar sua resiliência com os rigores da natureza e carregou nas críticas ao governo federal pelo desprezo no tratamento dispensado a essa gente.

Outros escritores consagrados dedicaram seu talento literário a retratar a vida do sertanejo.

Publicado in

Gazeta do Povo

Jornal de Londrina

Gazeta Maringá

Enquanto o Nordeste enfrenta a pior seca em 50 anos, tem gente ganhando dinheiro com a venda da água retirada do subsolo no semiárido (fotos e vídeo)

Os bons negócios da estiagem

por| MAURI KÖNIG

 

Abastecimento de cisterna com caminhão pipa em Serra Talhada, Pernambuco Abastecimento de cisterna com caminhão pipa em Serra Talhada, Pernambuco Alexandre Mazzo
Abastecimento de cisterna com caminhão pipa em Serra Talhada, Pernambuco Abastecimento de cisterna com caminhão pipa em Serra Talhada, Pernambuco Alexandre Mazzo

No remoto sertão pernambucano, o sertanejo Ires Pereira de Mendonça, de 59 anos, vem fazendo há anos o que o presidente da multinacional Nestlé, Peter Brabeck-Letmathe, defende num vídeo que corre a internet. O austríaco propõe privatizar o fornecimento da água, dando a ela valor de mercado. Os governos, diz ele, devem garantir o suficiente para beber e para a higiene pessoal. O resto seria gerido segundo critérios empresariais. Para o empresário, a percepção de que a água é gratuita leva à desvalorização e ao desperdício.

Brabeck sabe do métier. Líder mundial na venda de água engarrafada, a Nestlé deve ao setor 8% do faturamento anual de US$ 110 bilhões. As cifras do sertanejo são bem mais modestas, mas é um dos afortunados que vêm ganhando dinheiro com a seca de três anos no semiárido brasileiro. Ires extrai até 100 mil litros de água por dia em dois poços artesianos, no distrito de Mimoso, em Pesqueira (PE). A água não segue o processo industrial da Nestlé. É extraída dos poços, colocadas em tonéis de 250 litros e distribuída em caminhões na casa do consumidor, e ali armazenada em baldes ou cisternas.

Ires conhece bem o instável perfil climático do sertão. Nasceu em Pesqueira. Ainda assim, há 15 anos largou a profissão de eletricista em construção civil para comprar 35 hectares no distrito de Mimoso, margeando a BR-232. Começou com gado e uma rocinha básica. “Ganhava um ano, perdia dois, três”, recorda. Não tardou a minguar o poço aberto em 1962 pelo pai, Ermínio Alexandre Mendonça, às margens do Rio do Imbé. Ires perfurou outros dois mais perto da energia elétrica, trocando o balde pela bomba de sucção. A água era tanta que ele começou a vender. Nascia um grande negócio.

“Fui um herói”

Outros quatro vizinhos fizeram o mesmo. O preço, cartelizado, é de R$ 1,00 a cada mil litros. Esses mil litros vão render R$ 20 nas mãos de atravessadores como Aridevaldo Pedro Soares, de 63 anos. Ao consumidor, ele entrega em casa um tonel de 250 litros a R$ 5. Os dois poços de Ires têm nove metros de profundidade. Dali sai água que mata a sede em várias cidades próximas. A que preço? “Eu só cobro a energia”, esquiva-se. “Acho que fui um herói pra população. Tinha gente passando sede e ninguém sabia que tinha água aqui embaixo até eu abrir os poços.”

Há dois meses, Ires foi surpreendido por uma blitz da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). Vinte 20 pessoas desceram de cinco carros, policiais inclusive. Havia denúncia de que ele estava esgotando os recursos hídricos. Ires exibiu um documento da própria CPRH autorizando a atividade. “Diminuiu [a quantidade de água], mas nunca secou”, diz. A papelada e os estudos geológicos custaram R$ 7,5 mil, diz ele, mas não há nenhum controle sobre o volume retirado nem sobre a qualidade da água dos poços de Ires e seus vizinhos. Tira-se o quanto quiser e vende-se a quanto quiser. Aridevaldo é um dos muitos distribuidores dessa água privatizada; aposentada rural Maria Lúcia Pereira, 66 anos, uma das tantas consumidoras. A luz elétrica chegou para ela há 25 anos, mas a água encanada não faz mais de cinco. Ela pagou R$ 130 pelo encanamento de casa até um poço da Compesa, a empresa de água e esgoto de Pernambuco. Agora, paga R$ 35 mensais por dois dias de água por mês.

Explicação
Entrevista está fora de contexto, alega Nestlé

Devido à repercussão das declarações de Peter Brabeck-Letmathe nas redes sociais, a Nestlé emitiu nota em seu site alegando que o vídeo que circula na internet é um excerto retirado de contexto de um documentário de 2005, deturpando a visão do presidente da multinacional. Segundo a companhia, ele tem dito repetidamente que todas as pessoas têm o direito à água potável para atender às suas necessidades básicas de higiene e de hidratação. A nota diz que em 2010 a Nestlé incorporou o reconhecimento e o respeito pelo direito humano à água nos seus princípios corporativos e empresariais. “Utilizamos como referência a medida de 50 a 100 litros de água por pessoa, por dia, definida pela Organização Mundial de Saúde”, informa a empresa.

Recurso hídrico segue o curso da privatização

Uma em cada três pessoas no mundo não terá nenhuma água até 2030, ou, quando muito, terá acesso a pouca água. A previsão – um alerta para se mudar o padrão de consumo – é da Organização das Nações Unidas (ONU), que declarou 2013 o Ano Internacional da Cooperação pela Água. Mas ela deixa cada vez mais de ser um direito universal para se tornar um bem acessível a quem pode pagar. E a privatização segue em franca expansão. Há 30 anos, 12 milhões de domicílios recebiam água privatizada na Inglaterra, na França e no Chile. Hoje são 600 milhões no mundo todo.

A privatização avança. O que se vê é uma luta desigual do capital contra o bom senso. Hoje, 1,2 bilhão de pessoas, sobretudo na América Latina, na África e na Ásia, sofrem com a escassez de água e 2,5 bilhões não têm qualquer tipo de saneamento. O resultado é que 8 milhões de pessoas morrem por ano por causa de doenças relacionadas à falta de água, metade delas crianças.

Cresce também a resistência à privatização. Paris remunicipalizou os serviços e os italianos derrotaram em referendo a proposta de privatização. Em Portugal, a população se mobiliza para fazer o mesmo. No Chile, organizações populares entregaram em abril ao presidente Sebastián Piñera carta contra o código de águas, decretado em 1981 pelo ditador Augusto Pinochet. O código tornou os recursos hídricos do país em propriedade privada conferindo ao Estado a faculdade de conceder a grupos privados o direito de explorar a água de forma gratuita e permanente.

Destinação

No Brasil, a Federação Nacional dos Urbanitários e a Frente Nacional pelo Saneamento Ambiental lançaram campanha contra as Parcerias Público Privadas. Hoje, companhias estaduais e municipais atendem 80% da população. Estudo da Agência Nacional de Águas mostra que 69% dos recursos hídricos brasileiros são usados para a irrigação de cultivos e pastagens, e 90% vão para o setor privado. Na agropecuária o consumo de água por animais chega a 12%, enquanto a demanda de cidades é de 10% e da indústria, 7%.

A ONU aprovou em 2010 uma resolução que garante a água e o saneamento como direitos humanos fundamentais. Contudo, a declaração final do Fórum Mundial da Água, realizado em março, na França, contesta a resolução. Organizado pelas grandes multinacionais e pelo Banco Mundial, o encontro teve como objetivo ampliar a apropriação privada dos recursos hídricos do planeta. Movimentos sociais de todo o mundo iniciam agora uma batalha contra a intenção de países da União Europeia de alterar a resolução da ONU.

Indústria da seca

O termo “indústria da seca” foi usado pela primeira vez na década de 1960 pelo escritor Antônio Callado. A prática, contudo, já era bem antiga. Em 1902, o escritor Euclides da Cunha relatava, em Os sertões, os métodos de quem tirava proveito da tragédia dos sertanejos. Citou, em particular, o Açude do Cedro, em Quixadá (CE), construído em pedra talhada à mão, com esculturas e barras de ferro importadas. Embora hoje seja patrimônio histórico e cultural, o açude chegou a secar na seca de 1930 a 1932, quando mais se precisava dele. A “indústria da seca” nunca deixou de existir. Grupos ocultos por interesses escusos tiram proveito da ajuda governamental destinada à população castigada pela estiagem. Fazendeiros e políticos manipulam a distribuição do dinheiro, dirigindo-a para parentes ou afilhados políticos nos redutos eleitorais onde podem obter vantagens.

BENDITO DA ESPERANÇA

por Talis Andrade

 

Açude secando no sertão do estado de Pernambuco Alexandre Mazzo
 Alexandre Mazzo

A seca

tudo cerca

tudo seca.

A seca

quando chega

no Sertão

come

o gado

a plantação.

Nossa Senhora

Mãe de Deus

doce e clemente

escute a oração

dos penitentes

escute o choro

dos retirantes

dando a água

que nos molhe

dando o pão

que nos alimente

 

 

In Sertões de Dentro e de Fora, Talis Andrade, p.85