Na mídia, a história dos 450 kg de cocaína no helicóptero dos Perrella virou pó

por Renato Rovai

A imprensa brasileira e o tráfico de drogas, por Carlos Latuff
A imprensa brasileira e o tráfico de drogas, por Carlos Latuff

Ontem os portais destacavam com excessivo cuidado que o helicóptero de um deputado havia sido apreendido com 450 kg de cocaína. Depois informaram que o piloto havia viajado sem autorização dos proprietários. E agora, registram que o piloto nega o fato.

Deputado e 450 quilos de cocaína. Será esse um fato tão comum que não merece tanto destaque? Principalmente se vier a se levar em consideração que este deputado é filho de um senador aliadíssimo de um candidato a presidente da República?

Estamos falando dos Perrellas e do presidente do PSDB, Aécio Neves. Aliados políticos históricos.

Mas vamos lá. Vamos imaginar que um dos filhos de Marta Suplicy fosse deputado. E um helicóptero dele fosse apreendido pela PF com 450 quilos de cocaína. Você acha que este fato teria a mesma cobertura discreta e cuidadosa que o dos Perrellas está tendo? Você acha que o Uol daria apenas registros aqui e ali do caso? Ou acha que a casa da atual ministra teria filas de repórteres tentando pular o muro para falar com ela?

Talvez o exemplo não seja o melhor. Tentemos, pois, outro exercício hipotético. Imagine que ao invés do helicóptero do filho de Marta Suplicy fosse o de um irmão do senador carioca Lindbergh. O que você acha que aconteceria? Quantos minutos isso renderia no Jornal Nacional? Quantas páginas do jornal O Globo?

Mas podemos ir ainda mais longe. Imagine que o helicóptero fosse de alguém que tivesse relação com o ex-presidente Lula. Alguém, por exemplo, que tivesse feito churrasco na casa dele uma ou outra vez. O que será que aconteceria com Lula e com o suposto churrasqueiro de Lula?

Como você acha que seria a cobertura dessa história se o avião fosse do Zeca Dirceu, deputado pelo Paraná e filho de José Dirceu? Ou de um filho do vereador Donato, que ontem voltou à Câmara para enfrentar do legislativo a quadrilha do ISS? Ou se fosse da Miruna, filha de José Genoíno?

Não se deve responsabilizar os Perrellas, Aécio ou quem quer que seja sem que seja realizada uma investigação cuidadosa. E não é disso que se trata aqui. Há, porém, indícios, que ensejam uma cobertura bem mais atenta do que a que foi feita até agora pelos principais veículos da mídia tradicional. São 450 quilos de cocaína. Não são meia dúzia de sacolinhas. É coisa de uma quadrilha extremamente profissional. E essa imensa quantidade de droga era transportada num helicóptero de uma família tradicional da política mineira.

A questão é que a cobertura midiática só tem se interessado por aquilo que leve à criminalização do PT. Independente do mérito. O que importa não é mais o crime, mas a legenda do criminoso. E por isso Demóstenes Torres flanava todo pimpão por aí. Fazendo discursos moralistas e ao mesmo tempo armando falcatruas com Cachoeira.

Aliás, você ouviu falar de Cachoeira e Demóstenes por aí? Você viu a indignação da direção do PSDB com a investigação do escândalo do metrô de SP? Pois é. É disso que se trata. Eles sabem que são midiaticamente impunes.

 

Duke
Duke

OS CRIMES DA NESTLÉ EM SÃO LOURENÇO

por Laerte Braga

água tráfico
São Lourenço é uma bela e aprazível estância hidromineral
localizada no Estado de Minas Gerais. O parque das águas na
cidade é o principal fator de atração turística e é do
turismo que São Lourenço viveu grande parte de sua história.

Desde a privatização das águas e a chegada da multinacional
Nestlé, de origem Suíça, isso mudou.

Como toda grande empresa a Nestlé não tem a menor preocupação
com coisa alguma que não seja lucro e para obter esse lucro
faz e prática toda a sorte de fraudes trapaças, etc, contando
com a conivência de governos, setores do serviço público,
meios de comunicação (os chamados grandes) e hoje de uma
praga que se espalha pelo mundo, contaminando o que era para
ser ação contestatória de luta, restrita a poucas, falo de
ONGs.

É incrível o número de ONGs subvencionadas ou mesmo criadas
por grandes corporações, todas voltadas para o meio ambiente
e que se dispõem a trocar o silêncio diante dos crimes
ambientais por praças bem cuidadas.

No caso específico de São Lourenço, a Nestlé, detentora dos
direitos de exploração das águas minerais, supostamente
dentro de regras definidas em lei, contratos, etc, faz o que
bem entende e quando a coisa aperta lá estão Aécio Neves,
como estiveram outros, para garantir os “direitos criminosos”
da empresa, ou vozes do governo Lula para mandar um vereador
que denuncia os crimes “calar a boca”.

A Nestlé produz a água mineral Pure Life, obtida através de
um tipo de água, a ferruginosa. Desmineraliza a água,
alterando os poços, os lençóis, atingindo e contaminando todo
o aqüífero da região e a ela acrescenta seus minerais,
tornando-o comercializável e se lhe atribuindo poderes que
não tem.

A água ferruginosa era usada por médicos da cidade e de
outras estâncias como São Lourenço para o tratamento da
anemia em crianças de famílias pobres, com resultados
surpreendentes.

Não pode mais, está se transformando em água comum,
artificial, podre por obra e graça de Nestlé e da
cumplicidade dos governos federal e estadual.

A ação é objeto de luta de vários setores de São Lourenço.
Denúncias, protestos, provas incontestáveis do crime
ambiental, mas nada. Aécio Neves e Lula são cúmplices ou por
omissão, ao aceitarem as regras da multinacional, ou por ação
direta, no caso do governo de Minas. Ao perceber que faltava
uma determinada licença e que essa falta poderia trazer
problemas à multinacional, Aécio mandou que se concedesse.

É bem o seu feitio. Olha para um lado e atira para outro. Não
tem um pingo e compromisso com coisa alguma que não sejam
seus interesses, até porque, embora seja mineiro, veio morar
em Minas depois de eleito governador.

Representa interesses de grupos como a Nestlé.

Um dos brasileiros atuantes no movimento de defesa das águas
de São Lourenço, Franklin Frederick, após anos de tentativas
frustradas junto ao governo e imprensa para combater o
problema, conseguiu apoio, na Suiça, para interpelar a
empresa criminosa. A Igreja Reformista, a Igreja Católica,
Grupos Socialistas e a ONG verde ATTAC uniram esforços contra
a Nestlé, que já havia tentado a mesma prática na Suíça.

A desmineralização de águas é proibida pela Constituição do
Brasil e praticada luz do dia pela Nestlé. Outras
organizações criminosas como a Coca Cola já estão comprando
grandes áreas com reserva de água. Querem ampliar nos
negócios no propósito de tratar o Brasil como entreposto do
grande capital estrangeiro.

Contam com os governos.

No caso específico do Brasil, a Nestlé treina agentes do
programa FOME ZERO, gera recursos para o programa, apóia o
programa com publicidade farta e com isso compra o silêncio
do governo Lula.

No caso de Aécio é diferente. O governador é empregado desse
tipo de empresa, uma espécie de gerente desses grupos no
governo estadual e cumpre apenas o que se lhe é determinado.
Não é nada além disso. Um gerente da quadrilha.

Já São Lourenço, as águas, o povo de São Lourenço, os
mineiros e brasileiros de um modo geral, são embasbacados
pela Globo, pelo Sílvio Santos, que ressaltam as excelências
dos produtos Nestlé, tudo regado a muito dinheiro e em nome
da farsa democrática, da conversa fiada do investimento
estrangeiro, da ilusão do desenvolvimento sustentável.

O crime no Brasil é um grande negócio e as grandes
quadrilhas, as verdadeiras quadrilhas (Beira-mar é pinto
perto da Nestlé, da Coca Cola) já descobriram isso e
descobriram mais: podem contar com os governos, é só regar um
pouquinho que floresce o caminho.