Ameaças a André Caramante: Diretor do Estadão conta que Folha tem motivos para ficar em silêncio. O caso Ricardo Antunes

Como acontece nos tempos da ditadura militar: André Camarante, exilado para não morrer
Como acontecia nos tempos da ditadura militar: André Camarante, exilado para não morrer

Por que a imprensa apenas noticiou o press release da prisão do jornalista Ricardo Antunes, nos dias 5 e 6 de outubro último?

André Caramante está exilado. O silêncio da imprensa motivou a morte de vários jornalistas durante a ditadura militar.

Escreve Nathália Carvalho

O caso do repórter da Folha de S. Paulo, André Caramante, e a questão da segurança dos jornalistas no Brasil foi tema de discussão durante o seminário de comemoração dos 10 anos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Presente na ocasião, o diretor do Grupo Estado no Rio de Janeiro, Marcelo Beraba, disse que a Folha provavelmente tem motivos para não tornar ainda mais público o caso.Caramante virou assunto no final do evento quando Sérgio Gomes, diretor da Oboré, questionou os profissionais sobre a situação do jornalista que está fora do país por sofrer ameaças após fazer uma reportagem sobre o recém eleito vereador da capital paulista, Coronel Telhada (PSDB). Em resposta, Beraba, que já foi ombudsman da Folha, explicou que o veículo não deixaria de noticiar um fato como este se não houvesse motivo.”Entre todos os jornais, a Folha é a que mais tem postura de tornar público assuntos como este porque ela entende que essa é a melhor forma de agir. Mas, neste caso específico, eles têm tido atitude de se reservar e não é sem motivo”, argumentou o executivo do Grupo Estado.Da Universidade do Texas, Rosental Calmon Alves, que veio especialmente para o evento, compartilhou da mesma opinião e explicou que cada caso é um caso. “Às vezes vemos a situação de fora e achamos que não está sendo feito nada. Mas é muito importante ter cuidado ao criticar, porque às vezes faz parte da peculiaridade do caso”, disse. Ele explica que tornar público nem sempre é o melhor a se fazer. É exatamente assim que Fernando Rodrigues, jornalista da Folha de S. Paulo, pensa. “O ganho em ficar chamando a atenção para este episódio pode ser menos positivo para a segurança específica do profissional”, disse.

O evento, que foi realizado na manhã desta segunda-feira, 10, na Escola de Comunicação e Arte  da Universidade de São Paulo (ECA-USP), reuniu diversos estudantes e profissionais. Entre eles, o professor da USP Claudio Tognolli, Angelina Nunes (O Globo), Marcelo Moreira (TV Globo), e José Roberto Toledo (vice-presidente da Abraji).

Caso André Caramante

A história de André Camarante, que desenrola desde julho, ficou conhecida quando diversas pessoas começaram a ameaçar o jornalista pela publicação da matéria “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência no Facebook”, que denunciava Telhada. Depois disso, todos os textos assinados por Caramante passaram a ser bombardeados por comentários ameaçadores.

Com 34 anos, sendo 13 dedicados à cobertura de pautas nas áreas de segurança pública, Caramante conversou com a jornalista da revista Época, Eliane Brum, e deu detalhes sobre a situação. ” [Estou escondido] desde o início de setembro. Os advogados do jornal encaminharam às autoridades uma solicitação de investigação sobre as ameaças. Alterei completamente minha rotina e minha localização”, explicou.

Embora não esteja na redação, Caramante segue com o trabalho normalmente. “Não estar fisicamente na redação me causa impedimentos que são irrisórios frente à necessidade atual de garantia da integridade, minha e da minha família”, disse ele à Época.

 

Coronel Telhada, depois de estimular que seus seguidores ameaçassem André Caramante, o militar foi eleito em São Paulo
Coronel Telhada, depois de estimular que seus seguidores ameaçassem André Caramante, o militar foi eleito vereador em São Paulo. Conheça a bancada da bala 

São Paulo. Tucano Telhada, candidato a vereador, ameaça jornalista

 

Um artigo publicado na edição de 14 de julho de 2012 nas colunas do diário Folha de São Paulo denunciava as declarações brutais e de apologia da violência publicados na conta de Facebook do ex-comandante da polícia militar de São Paulo (a chamada Rota), Adriano Lopes Lucinda Telhada, atualmente candidato a vereador nas eleições municipais de 7 e 28 do próximo mês de outubro. Desde esse dia, o autor do artigo, André Caramante, passou a ser também ele alvo das ameaças do antigo policial e de seus seguidores. Contatado pelos familiares do jornalista, Repórteres sem Fronteiras reclama a abertura de uma investigação.

“Tendo em consideração os comentários tecidos no Facebook contra André Caramante, o candidato Adriano Lopes Lucinda Telhada deverá prestar contas perante a justiça por suas declarações. As mensagens publicadas pelo ex-policial não só maculam a reputação do jornalista, como também incitam ao ódio contra ele e colocam em risco sua integridade física. Tais comportamentos, contrários ao Estado de Direito, justificariam que a justiça examinasse a elegibilidade do coronel Adriano Telhada”, considerou Repórteres sem Fronteiras.

Comandante da Rota até novembro de 2011, Adriano Lopes Telhada concorre ao cargo de vereador da prefeitura de São Paulo pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB, centro-direita). Centrando toda sua campanha na repressão daqueles que ele trata de “vagabundos” e “bandidos”, o ex-policial publicara na sua conta Facebook, no passado dia 22 de junho, a fotografia de dois jovens negros “suspeitos”, segundo ele e sem provas, de serem os responsáveis de um ataque a uma base da polícia militar. O post já foi partilhado quase mil vezes no Facebook.

Especialista da Rota, da qual por vezes critica os abusos, André Caramante não parou de receber ameaças desde seu artigo de 14 de julho. “Quem defende bandido é bandido também! Bala nesses safados!” foi uma das invetivas dirigidas contra o jornalista e visível na conta do ex-comandante, que apelida André Caramante de “notório defensor de bandidos”. Noutra mensagem colocada no Facebook, um policial militar ch atesta todo seu apoio ao seu antigo superior com essas palavras: “Esse Caramante é mais um vagabundo. Coronel, de olho nele.”

“Esse caso é ainda mais escandaloso por coincidir com a medida de censura prévia ordenada pela justiça do estado do Espírito Santo contra o jornal digital Século Diário, obrigado a retirar três reportagens e dois editoriais críticos para com um funcionário da administração judicial. Por quê censurar publicações que assumem seu papel de contra-poder e deixar passar incólumes mensagens de ódio difundidas na internet?”, se interrogou Repórteres sem Fronteiras.