Em Portugal, juízes têm vergonha de fazer escutas

 

Policiais piores do que ladrões 

 

por Pedro d´Anunciação/ Jornal Sol/ Portugal

Lembro-me sempre de um texto num jornal português de alguém que visitou o Brasil, concluindo que ali os polícias eram piores do que os ladrões. E metiam mais medo às pessoas honestas.

Agora imagine-se a Justiça: um juiz chamado Itagiba Catta Preta Neto (passe o imprevisto grotesco do nome), que dias antes tinha estado numa manifestação contra a Presidenta e que já se tinha atirado ao ex-Presidente no Facebook, impugnou a tomada de posse de Lula no Governo de Dilma. Outro juiz divulgou escutas que parecem comprometedoras para o ex-Presidente. E nós sabemos que quaisquer escutas que nos pudessem fazer, e de que não estivéssemos à espera, também seriam comprometedoras. E depois o extraordinário de se ver um outro juiz, que se acha no direito de escutar Presidenta e ex-Presidente (passe também este detalhe), assumiu sem rebuços a divulgação de escutas, que naturalmente são comprometedoras. Onde é que a Justiça poderia fazer mais isto? Cá em Portugal, dizia-me alguém. Até acredito que juízes portugueses façam escutas indevidas e as divulguem. Mas ao menos disfarçam, têm vergonha de o fazer, e não assumem a autoria da divulgação. O resto, é mesmo Justiça das bananas, que é como quem diz, latino-americana.

Claro que muita gente não perdoará a Lula a criação de uma classe média, no seguimento de uma política económica aparentemente iniciada por Fernando Henrique Cardoso (embora cada um, sendo provavelmente amigo do outro, e representando-o em atos diversos, esteja no seu próprio lado da barricada esquerda/direita, e assim o mostre publicamente).

Agora o extraordinário é ver os maiores corruptos de sempre do Brasil a instigarem manifestações contra Lula, por causa da corrupção. E Lula dar-lhes bastante razão, ao querer ir para ministro, para fugir àquela Justiça. Mas quem não quereria fugir àquela Justiça, olhando para os juízes que perseguem o lulismo?

Ainda vamos ver como no Chile, os militares, armados em puros, contra um caos económico que eles próprios fomentarem (afinal, a greve dos camionistas no Chile, longuíssima, e que tanto ajudou ao fim de Allende, não era promovida pelos motoristas, mas pelos grandes patrões), acabarem a enriquecer-se mais com a corrupção e os gordos ordenados, tudo bem acumulado (porque os ordenados grandes nunca acabaram com as ganâncias desonestas). E o drama é vermos como desde o grito do Ipiranga, e até Lula saber continuar e aproveitar a política de FHC, o Brasil, apesar de imensamente rico e prometedor, nunca distribuiu a riqueza pelos mais necessitados, nem criou uma classe média.

A verdade é que esta semana noticiosa foi dominada pela confusão político-judicial no Brasil, com o sobe-e-desce de Lula da Silva e o movimento para fazer descer Dilma da Presidência. O drama é chegar-se à conclusão que no Brasil não há bons, mas apenas maus. Manipulando de ambos os lados – lulistas e anti-lulistas – as únicas vítimas.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Um comentário em “Em Portugal, juízes têm vergonha de fazer escutas”

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