O único lugar onde não se pode falar que o Brasil tem tráfico de órgãos é dentro do próprio Brasil. Por que as balas perdidas preferem as crianças?

Bala perdida
Bala perdida

Não tenho certeza, mas tenho muita desconfiança. Um absurdo o Brasil ser o país das mortes por bala perdida, e das mortes sem justa causa.

Eu nunca vi rico em fila de transplante. Creio que deveria ser proibida a doação de órgãos em determinados casos.

O jornal O Globo noticia hoje:

Polícia confirma terceiro caso de bala perdida em dois dias no Rio.

Foi em Bangu que a menina Larissa de Carvalho, de 4 anos de idade, foi atingida por uma bala perdida na cabeça. Ela saía de um restaurante, na madrugada de sábado (17), acompanhada pela mãe e pelo padrasto, quando foi ferida. A menina teve morte cerebral e a família decidiu doar os órgãos.

Asafe, de 9 anos, segue internado em estado grave

No dia seguinte, domingo (18), outra criança foi vítima de bala perdida na cidade. Asafe William Costa de Ibrahim, de 9 anos, foi atingido quando estava com a mãe na área de lazer do Sesi de Honório Gurgel, no Subúrbio [do Rio de Janeiro]. Ele foi levado para o Hospital Estadual Adão Pereira Nunes. Até o fim da tarde desta segunda-feira (19) o estado de saúde dele era considerado grave.

Manchetes costumeiras da imprensa brasileira
Manchetes costumeiras da imprensa brasileira

Família de menina morta no Rio por bala perdida doa os órgãos da criança

Familiares da menina Larissa de Carvalho, de 4 anos, que teve a morte cerebral após ser atingida por uma bala perdida em Bangu, Zona Oeste do Rio, neste sábado (17), decidiram doar os órgãos da criança. A cirurgia para retirada dos rins e das córneas da menina durou 4 horas, como mostrou o Bom Dia Rio.

O programa de transplante não divulgou o nome dos pacientes que vão receber a doação, segundo eles o sigilo é previsto na legislação. Eles disseram também que há uma parceria com o Hospital Pedro II, onde Larissa estava internada e que por isso a equipe do hospital cedeu o anestesista, para o acompanhamento do procedimento. Leia mais

Por que tanto segredo? Toda pessoa salva por um transplante tem a curiosidade de conhecer a história do doador. É uma dívida de gratidão.

Desconfio de tudo que acontece neste Brasil do segredo eterno. Setembro último a Folha de S. Paulo estampou a seguinte manchete:

Para especialista, tráfico de pessoas para obter órgãos é crime protegido

Tráfico de órgãos 8

Existem várias rede internacionais criminosas de tráfico de órgãos. Leia 

O Papa Francisco, recentemente, denunciou esse horrendo crime: crianças chegam ainda vivas nos hospitais, dopadas, vendidas pelos traficantes à medicina de vanguarda.

Em fevereiro último, a revista Exame, reportagem de Fábio Pereira Ribeiro, denuncia: Tráfico de órgão – uma tragédia silenciosa. Segue trechos:

O Tráfico de Órgãos está relacionado como o novo crime internacional do século XXI. O crime atinge praticamente todos os países (…) mas em alguns, em função de “facilidades” políticas e de baixa fiscalização e investigação, acontece com mais relevância.

No caso brasileiro, parece que o olhar fechado das autoridades gera uma letargia no desenvolvimento de investigações. Segundo a OMS, de todos os transplantes realizados no mundo, 5% estão relacionados diretamente com o tráfico de órgãos.

O tema ainda parece um grande mistério, tanto para autoridades, como também para a mídia internacional. Como a busca do “Santo Graal”, o mundo parece não saber o que acontece. Mas pelos diversos relatórios internacionais de organismos que investigam o crime, como da própria Interpol, a estrutura por trás do tráfico de órgãos é extremamente inteligente e organizado, como uma verdadeira máfia envolta em sigilo, e com “peixes” muito grandes da política, da medicina e de outros grupos criminosos.

Engraçado que em uma pesquisa simples no site da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República do Brasil, o tema “tráfico de órgãos” não aparece em nenhum tópico e pesquisa. Por quê? Mesmo considerando que apareça o tema “tráfico de pessoas”, é de se imaginar que o mesmo tráfico possa alimentar o tráfico de órgãos.

E para piorar o problema, muitas autoridades, inclusive políticos, tratam o tema como uma grande “lenda urbana”, mas a Secretaria Nacional de Justiça, publicou em 2013 um documento referente ao tráfico de seres humanos (Cartilha Tráfico de Pessoas), e no documento consta efetivamente os problemas de tráfico de órgãos e seus impactos no Brasil e no mundo.

O Blog EXAME Brasil no Mundo conversou com o brasileiro, residente em Londres, Paulo Pavesi que sofre na “pele” a tragédia do crime de tráfico de órgãos. Seu filho, Paulo Veronesi Pavesi, o Paulinho, na época com 10 anos, sofreu um acidente no playground do prédio que morava. Depois de diversos exames, foi constatado morte encefálica, e a família resolveu doar os órgãos. Mas o Paulo Pavesi desconfiou da conta hospitalar e dos procedimentos realizados, e a partir daí começou, com faro investigativo, uma das maiores batalhas de sua vida. O caso de Paulo Pavesi e de seu filho Paulinho, é mais um entre muitos da tragédia silenciosa que acontece diariamente no mundo e no Brasil. Os médicos envolvidos no caso de Paulinho estão presos. Os mesmos foram condenados pela justiça, mas absolvidos pelo Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, onde o caso ficou conhecido como o caso de “Poços de Caldas”.

Paulo Pavesi escreveu o livro “Tráfico de Órgãos no Brasil – O que a máfia não quer que você saiba”, e também mantém o blog “Tráfico de Órgãos no Brasil” http://ppavesi.blogspot.com.br para contar a história de Paulinho, e de todas as tragédias silenciosas que acontecem sobre o tema, diferente do que as autoridades acham. Na verdade é uma tragédia urbana, e não uma lenda urbana.

O tráfico internacional de órgãos é uma realidade mais do que presente no Brasil. Por que o Brasil pouco fala sobre isso?

Paulo Pavesi: A imprensa é pressionada a não divulgar casos como o do meu filho, com o argumento de que pode atrapalhar a doação de órgãos. No entanto, as pessoas que pressionam a imprensa hoje, são justamente as que estão envolvidas com o comércio ilegal de órgãos há décadas, e nunca são investigadas.

Esta pressão foi confirmada durante a CPI do tráfico de órgãos em 2004, por delegados de policia federal. Órgãos estão sendo removidos de pacientes em coma, para servir à hospitais públicos. Existe todo um processo que estou detalhando no meu segundo livro.

Brasil no Mundo: Você é uma vítima direta do tráfico internacional de órgãos. Seu filho Paulinho, foi vítima desta atrocidade. Conte-nos um pouco de sua história.

Paulo Pavesi: É muito difícil para mim, como pai, resumir estes 13 anos. Até mesmo para escrever o livro foi difícil, pois tive que cortar muitas coisas. Tudo o que apurei é importante. Mas o que posso dizer é que esbarrei em uma máfia que jamais imaginei existir. Não conheço nada tão sofisticado como o funcionamento desta organização. Tudo funciona perfeitamente como um relógio. Há muito dinheiro envolvido.

Brasil no Mundo: De tempos em tempos vemos notícias sobre o tráfico de órgãos no Brasil. Na sua visão, por quê a mídia não noticia de forma mais contundente?

Paulo Pavesi: Quando é trafico internacional, como o caso de Pernambuco, a imprensa fala amplamente. O que a imprensa não fala é sobre o que esta acontecendo dentro do Brasil.

Para você ter uma idéia de como eles estão infiltrados e estabelecidos, a justiça brasileira tem um programa chamado “doar é legal”. Você entra em qualquer site da justiça, de qualquer Estado, e vai encontrar um link para se tornar um doador de órgãos, emitindo um certificado imediatamente. Nestes sites, a justiça explica que o tráfico de órgãos não existe, e que tudo não passa de lenda urbana.

Quando eu ainda morava em São Paulo, as viaturas da polícia militar possuíam um adesivo no vidro traseiro dizendo “doe órgãos”. Em redes sociais, você pode informar ao mundo todo que você é doador de órgãos. As universidades estão recebendo com freqüência, médicos renomados que fazem palestras visando plantar a semente da doação nos jovens. Quando alguém se diz contrário é agressivamente repreendido, chamado de egoísta e ridicularizado. A doação deixou de ser uma ação de bondade, e está se tornando uma obrigação. A mídia tem colaborado muito para isso. O outro lado da história – a verdade sobre os transplantes – está sendo censurada.

Brasil no Mundo: Como está sendo a sua luta contra o tráfico internacional de órgãos?

Paulo Pavesi: Trata-se de uma batalha impossível. Você avança um passo e eles te empurram outros três para trás. A luta não se limita a combater e denunciar os médicos envolvidos. Você precisa combater diversas frentes, como por exemplo o Ministério Público. Durante a CPI ficou evidente que TODOS os casos levados ao Ministério Público, e analisados pela comissão, foram arquivados sem nenhuma investigação ou informação aos denunciados. Casos e mais casos comprovados de tráfico de órgãos, simplesmente, são ignorados inexplicavelmente. A máfia foi descoberta na década de 1980 em Taubaté, onde vários doadores tiveram os órgãos retirados quando ainda estavam vivos. O processo de homicídio dos médicos de Taubaté levou 23 anos para ser julgado, e quase foi arquivado antes disso. Em 2011, estes médicos foram condenados a 17 anos de prisão, saíram pela porta da frente do fórum, continuam trabalhando normalmente e foram inocentados pelo conselho regional de medicina. Estão aguardando o julgamento em segunda instância há três anos, e não há prazo para serem julgados. Os médicos envolvidos no caso de Poços de Caldas, já foram condenados duas vezes por tráfico de órgãos, e da mesma forma foram absolvidos pelo conselho regional de medicina. Em ambos os casos, é possível identificar um mesmo núcleo que funciona em São Paulo. Não por coincidência, nos últimos anos duas auditorias do TCU (Tribunal de Contas da União) comprovaram que a fila de espera em São Paulo é sujeita a fraudes. Outro fator que chama a atenção, é que mesmo condenados, os médicos passam a ser protegidos por diversos setores da sociedade, e ignoram as sentenças judiciais, alegando inocência. No caso do meu filho, os médicos insistem em dizer que tudo é uma grande mentira, apesar das inúmeras provas existentes.

Brasil no Mundo: Quais os últimos resultados em relação ao caso do seu filho?

Paulo Pavesi: O processo tem duas vertentes. Na primeira, quatro médicos respondem pelo artigo 121 do código penal, homicídio doloso qualificado por motivo torpe. Este deve ir a júri popular em breve, sem data marcada. Na segunda, três médicos responderam pela retirada ilegal dos órgãos em paciente vivo que resultou em morte (homicídio também), e estão condenados em primeira instância. Como estes mesmos médicos já foram condenados em outro caso, tiveram a prisão decretada e continuam presos até o momento.

Brasil no Mundo: Em um texto seu publicado no seu blog “A verdade. Nada mais que a verdade”, você comenta sobre o modelo nazista. Você acredita que esta filosofia ainda se instala no Brasil?

tráfico órgãos medicina

Paulo Pavesi: Nunca foi tão real. Nos estamos vivendo um círculo vicioso e perigoso na saúde pública. Não temos leitos de UTI suficientes para todos que precisam. Brasileiros estão tendo de recorrer à defensoria publica para conseguir uma vaga. Para que esta vaga apareça, não existe milagre. Alguém precisa desocupar. Com a ordem judicial, sem perceber, a justiça está condenando pacientes em coma à morte. Ao mesmo tempo, existe dezenas de casos que estou acompanhando onde um leito de UTI é negado, a pessoa tem a morte encefálica diagnosticada por não receber o tratamento adequado, e em seguida é levada para a UTI para que os órgãos sejam mantidos para transplantes. Esta matemática é bastante estranha. O mesmo Estado que está dizendo que precisamos salvar vidas doando órgãos, está negligenciando o atendimento de pacientes que poderiam ser salvos, transformando-os em doadores. Uma solução de mau gosto. Em uma única ação eles liberam leitos de UTI e obtêm órgãos para transplantes. Infelizmente, parece que o brasileiro não consegue entender esta situação, e acredita que o que acontece nos hospitais “é assim mesmo”.

Brasil no Mundo: Considerando todo o seu esforço investigativo, como o Brasil é visto no mundo em relação ao tema de tráfico internacional de órgãos?

Paulo Pavesi: O Brasil é citado em várias publicações internacionais como fonte fácil para obtenção de órgãos. Há um hospital em São Paulo, em que você pode encontrar pessoas com problemas renais, e com um certo poder econômico, vindas de países vizinhos como Paraguai, Argentina, Peru e Colômbia, e aguardando um órgão para transplante. O único lugar onde não se pode falar que o Brasil tem tráfico de órgãos é dentro do próprio Brasil. Cito um exemplo muito interessante. Há alguns anos, um filme de ficção chamado “Turistas, Go home!” em que retratava o tráfico de órgãos no Brasil foi amplamente criticado, e quase teve sua exibição suspensa pela Embratur. O Brasil vive de aparências. A realidade é muito diferente.

Brasil no Mundo: Que orientações você daria para as famílias brasileiras?

Paulo Pavesi: Simples. Não doe órgãos. É muito difícil dizer isso, e quero lembrar que eu doei os órgãos espontaneamente, acreditando no sistema. Mas diante do que está acontecendo, não podemos tomar uma decisão séria como esta, sem segurança. Nem mesmo médicos confiam no sistema.

Quando foi implantada a lei de doação presumida, apenas 2% dos médicos brasileiros colocaram a frase “doador de órgãos e tecidos” em seus documentos. Chegamos num ponto em que os conselhos de medicina estão contrariando suas próprias regulamentações para defender condenados por tráfico de órgãos.

O presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), é testemunha de defesa de vários acusados. Aliás, um irmão do principal acusado no caso Paulinho já foi presidente da ABTO. Enquanto o Brasil não enfrentar este problema seriamente, ser doador no Brasil é colocar a vida em risco. Protocolos criados pelo próprio Conselho de Medicina estão sendo ignorados para produzir doadores, com o apoio do próprio conselho.

 

tráfico de órgãos 3

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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