Autonomia do Banco Central “é acreditar no ‘deus’ mercado como o grande organizador da sociedade”

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Os papéis do Banco Central e dos bancos públicos têm ocupado lugar de destaque no debate eleitoral, com candidatos à Presidência da República defendendo a independência da autoridade monetária no país e a diminuição da importância das instituições financeiras estatais, como BB, Caixa e BNDES.

Para o presidente da CUT, o bancário Vagner Freitas, tornar o BC independente seria o mesmo que “delegar à raposa o controle sobre o galinheiro”. Ou seja, entregar o BC aos banqueiros privados, justamente os que devem ser controlados pela instituição. “É acreditar no ‘deus’ mercado como o grande organizador da sociedade. Mas estamos falando do mesmo mercado desagregador, incapaz de uma autorregulação mínima, como mostraram as crises econômicas de 1929 e 2008. Eles tiveram liberdade e a usaram para provocar o caos econômico que se alastrou, derrubou mercados e a economia de dezenas de países. Milhares de empresas quebraram e milhões de pessoas ficaram desempregadas na Europa e nos Estados Unidos”, lembra.

Nobel – Prêmio Nobel de Economia em 2001, Joseph Stiglitz também alertou para os perigos da medida: “Na melhor das hipóteses, essa posição é questionável. Na crise, os países com bancos centrais menos independentes como China, Índia e Brasil fizeram muito, mas muito melhor mesmo do que os países com bancos centrais mais independentes, caso da Europa e dos Estados Unidos”, disse em palestra recente na sede do BC da Ìndia.

Bancos públicos – A diminuição do papel dos bancos públicos, defendida por alguns candidatos, é outra preocupação dos movimentos sindical e social. Instituições como Banco do Brasil, Caixa e BNDES tiveram papel importante na evolução da economia brasileira nos últimos anos, principalmente após a crise de 2008: quando os privados retraíram o crédito, foram as instituições estatais que passaram a sustentar sua oferta.

Estudo do Dieese mostra que a participação relativa dos públicos no saldo total das operações de crédito da economia saltou de 36%, em janeiro de 2008, para 51% em dezembro de 2013, enquanto que os privados nacionais reduziram a oferta de 43% para 33% e os estrangeiros de 21% para 16%, no mesmo período.

“Essa atuação foi fundamental para o crescimento na última década. Não se avançaria como nos últimos dez anos sem o crédito disponibilizado pelos bancos públicos”, defende o economista da Unicamp, André Biancarelli. “Haveria crédito de longo prazo no país sem a atuação do BNDES, por exemplo? São questões a se pensar seriamente, até porque apontam para mudanças radicais que, uma vez postas em prática, não serão revertidas com facilidade”, alerta.

Públicos é que garantem ampliação do crédito

banco pobre

por Andréa Ponte Souza
É importante desconfiar de fórmulas que já se mostraram equivocadas, como pregar diminuição do papel de instituições como BB, Caixa e BNDES
São Paulo – Os bancos públicos tiveram papel fundamental na evolução da economia brasileira nos últimos anos, inclusive após a crise mundial. Estudo do Dieese mostra que enquanto as instituições privadas, após 2008, retraíram sua participação no crédito, as estatais passaram a sustentar sua oferta: a participação relativa dos públicos no saldo total das operações de crédito da economia saltou de 36%, em janeiro de 2008, para 51% em dezembro de 2013, enquanto que os privados nacionais reduziram a oferta de 43% para 33% e os estrangeiros de 21% para 16%, no mesmo período.

Os dados servem de reflexão às vésperas da eleição presidencial, quando candidatos defendem a redução do papel dos bancos públicos na economia, com o argumento de que a oferta de crédito pela Caixa, BB e BNDES inibem a atuação dos privados.

“O Sindicato sempre defendeu a importância das instituições financeiras públicas”, lembra a secretária-geral da entidade, Ivone Maria da Silva. Ela destaca a luta histórica dos bancários contra as privatizações promovidas na década de 1990, como a do Banespa. “Nossa atuação sempre se pautou pelo combate a políticas que pregam menor participação do Estado seja na economia, seja em serviços públicos. E esse é um momento importante para o país, em que candidatos defendem projetos que vão em direções opostas. É preciso cautela.”

Crescimento – O economista André Biancarelli, da Unicamp, lembra que foram as intervenções do Estado na economia que permitiram que o país avançasse entre 2009 e 2010, em plena crise mundial. “Foi fundamental para o crescimento na última década. Não se avançaria como nos últimos dez anos sem o crédito disponibilizado pelos bancos públicos.”

E acrescenta: “O Brasil tem um sistema de financiamento público muito importante, que resistiu ao projeto neoliberal da década de 1990”. Mas novos projetos defendem a diminuição dos bancos públicos, sob o argumento de que têm de perder espaço para que os privados possam atuar. “Haveria crédito de longo prazo no país sem a atuação do BNDES? Ou o que teríamos seria financiamento externo e endividamento? São questões a se pensar seriamente, até porque apontam para mudanças radicais que, uma vez postas em prática, não serão revertidas com facilidade.”

 

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Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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