Visões d’amor (pela internet) 2

 

“Aí você se apaixona sem saber nada sobre a pessoa: o que faz, o que tem, onde mora, de onde veio, do que gosta… Nada explica”

“As nossas conversinhas meio sem sentido são o sentido de tudo pra mim”

“Um conselho para jamais esquecer: não machuque o meu coração, pois é você que está dentro…”

Frases do ex-solteira

 

A INTERNET E O AMOR VISUAL

 

62-1

por Julio Daio Borges

Todo mundo tem uma história de amor pela internet para contar. Mas não conta; tem vergonha. É coisa de nerd: ficar de pijamão, madrugada afora, com a pupila dilatada, em frente ao computador – teclando e se deixando teclar, por pessoas de origem desconhecida, de procedência absolutamente aleatória, de caráter imprevisível, de histórico pouco confiável. Enfim, é uma loucura. Mas os riscos são mínimos e, por isso, não há quem não tenha tentado. [Ah, só uma tentadinha, vai…]

Independentemente dos envolvidos tomarem coragem e se confessarem, Alice Sampaio escreveu um livro a respeito, intitulado Amor na Internet – Quando o virtual cai na real (Record, 2001, 348 páginas). Na verdade, Alice, jornalista, compilou mais de 15 histórias narrando as venturas e desventuras de quem se lançou nesse mar de possibilidades: os chats, os e-mails, os sites de encontro. Claro, ninguém assume nada, todos estão protegidos por pseudônimos – como é praxe na própria internet, aliás.

Antes que o leitor se espante com a naturalidade com que os internautas se lançam nessa loteria do romance às escuras, vale lembrar que o sexo furtivo, a bimbada de ocasião, é coisa mais antiga do que a própria humanidade. Todos os animais têm cio; todos os seres humanos também têm – acontece que não é de bom tom dar crédito a essas vontades, que surgem não se sabe de onde, sem qualquer explicação moral aceitável, de conseqüências quase sempre desastrosas. Então a religião veio para coibir esses impulsos; e a prostituição, para represá-los, se possível longe da sociedade.

Freud se revoltou contra essa práxis acobertada e devolveu o sexo para a sociedade. Foi mais longe: pôs e viu sexo em tudo. No Brasil, Nélson Rodrigues enfiou-o nos lugares mais improváveis: nas casas de família, nos consultórios, nos enterros, nas filas e nos pontos-de-ônibus. Tinham ambos razão: onde o sexo está mais sufocado é onde, justamente, explode com maior intensidade. Vide as intermináveis discussões acerca do celibato e das perversões dos padres, que não são de hoje e que vão durar quanto a Igreja durar.

É, portanto, perfeitamente razoável que cidadãos esmagados pela rotina, pelas pressões, pelas obrigações, pelo cansaço procurem se evadir de alguma forma. O sexo é apenas mais uma entre as tantas possibilidades. Cada um procura o nicho que mais lhe convém e descarrega nele suas frustrações e suas fantasias diárias. As mulheres, é comprovado (inclusive em estudos acadêmicos), escolhem as telenovelas, com suas relações subliminares e seu romantismo de reality show. Os homens, em geral, descarregam no esporte, que é, parafraseando Dave Mustaine, o mais próximo que alguns deles podem chegar do ato sexual. Daí para a internet, é só um passo.

O livro de Alice Sampaio compila alguns casos que podem ser divididos em categorias mais ou menos estanques. Por exemplo: há aquele casal de meia idade, marcado por separações ou pela viuvez precoce, que, por insistência dos filhos (internautas), acaba se cadastrando em sites e se encontrando para toda a vida, como que por encanto. Essas pessoas têm, para com a nova mídia, atitudes extremamente conservadoras: abandonam-na tão logo se sentem seguras para se telefonar e se comunicar de outras formas, “menos impessoais” (segundo suas próprias palavras). Claro que essa categoria não busca satisfação momentânea, e sim ligações duradouras, transferindo para a internet a função do footing, do cinema, do passeio na praça, catalisadores da chamada paquera, em épocas pré-cambrianas.

Há também os adolescentes de primeira água, que praticamente nasceram conectados e plugados. Para eles, igualmente, a internet é ferramenta: uma maneira de exorcizar a timidez e a insegurança típicas da idade. Entregam-se a ela num misto de excitação e curiosidade, não descarregando ali suas perturbações e seus fracassos (como os adultos), mas apenas desenvolvendo a auto-estima e a auto-afirmação, de um jeito novo e inusitado. Claro, há os problemas evidentes do excesso de uso e da fuga em que a internet pode se transformar, quando o jovenzinho ou a jovenzinha prefere refugiar-se nela a enfrentar a dura realidade. Mas não é regra, nem patologia catalogada.

Uma das mais divertidas histórias do livro é, approposito, a de uma garota que troca freneticamente de namorado, como troca de roupa ou sapato, num dia de festa em que não se entende com o armário. Com uma facilidade e uma desenvoltura invejáveis; até um pouco estranhas numa mulher (por definição e por convenção, sempre atrás de segurança, estabilidade, futuro garantido, essas coisas). Numa de suas andanças, a conquistadora topa com um sujeito cheio de negócios escusos que – diz o livro – é pago para apagar contraventores ou “procurados”. A garota não se abala; afasta-se dele por precaução (mais do que por vontade) e sente sua falta até o fim do relato. Depois se envolve com outro rapaz, esse de sua idade, que quer insistentemente namorar; ela não quer e invertem-se mais uma vez os papéis (homem-volúvel, mulher-centrada). São, portanto, jogos lúdicos, num estágio de total imaturidade afetiva; mas que, mesmo assim, horrorizaram o profissional que – a pedido de Alice – se põe a analisar o caso.

Tirando os de meia-idade e os adolescentes ocasionais, sobram aqueles tipos supracitados: para quem o sexo é uma aventura e uma válvula de escape. Compõem uma “classe média”; a mesma que não ganhou computador na infância, mas que também não se indispôs com as tecnologias de agora (até porque tem de usá-las no trabalho). Atravessou e experimentou as duas eras do relacionamento humano, a antiga e a nova. A antiga: dos bailinhos, das matinês, dos portões de escola, nos primeiros contatos físicos com o sexo oposto. E a nova: dos chats por idade, dos sites de classificados, das webcams e dos e-mails derramados como se fossem cartas. Esses certamente estão na situação mais interessante, embora não tão documentados na obra de Alice Sampaio.

Se a abordagem não contempla todas as possibilidades (ainda que inclua o amor homossexual), é aceitável e elogiável mesmo em suas falhas. Já frágeis mesmo são as conclusões e análises. As conclusões porque feitas por uma mulher de meia idade (a autora), que, a partir de experiências pessoais frustradas com a internet, condena o meio sem apelação, quando ele é tão culpado quanto o são bares, boates, restaurantes e locais onde todos os dias milhares de pessoas vão para se relacionar. A internet não é um mal em si; é um instrumento como qualquer outro. Já as análises pecam pela incompreensão de psiquiatras, psicanalistas e psicólogos, viciados no velho jogo do amor: olhares, sinais, aproximações, palavras, toques e encontrões. Como a internet inverte o roteiro (colocando as palavras em primeiro lugar), eles se perdem e condenam 99% dos casais à fogueira da inquisição, como se a World Wide Web fosse produto feito e acabado.

O fato é que, independentemente do balanço negativo, as pessoas vão continuar se lançando em blind dates, com o primeiro desconhecido simpático que for hábil no uso do vernáculo. Vão continuar se entregando sofregamente nos primeiros encontros. E vão continuar errando, se arrependendo e – quem sabe -, com sorte, acertando, porque é inevitavelmente a lógica do sexo e do amor. Se, de repente, contamos com uma “porta”, que se abre da nossa casa (ou da nossa estação de trabalho), na qual podemos anonimamente penetrar (sem riscos, portanto), encontrando um monte de gente interessante (ou nem tanto), por que vamos nos negar essa possibilidade?

 

Este artigo tem 68 mil e 660 acessos. Muito já se escreveu sobre amor na internet Leia mais 

Vitória
Vitória

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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