Pensamentos de Maria Clara Bubna

Maria Bubna

 

De volta ao Rio. Mais três quilos no mínimo (meio quilo só de bochechas), potes de doce de leite e mel e um saco cheio de ervas frescas na mochila, alma lavada, coração calmo e vontade zero de ficar nessa selva de pedra, fumaça e caos.

Lá em Goianá, no interiorzinho de Minas, eu vi como o ser humano é lindo até nos gestos mais simples. Produções independentes, a comunidade se unindo pra produzir e se proteger, frutas colhidas do pé (do tamanho que aqui no Rio a gente só consegue se pagar o olho da cara!), calma reinando em cada organismo, simpatia gratuita (ou essa simpatia seria um traço natural do ser humano tranquilo e pacífico?)… Paisagens de tirar o fôlego e contato humano de renovar as esperanças.

Copa do Mundo, discussões que não levam a lugar nenhum, doses cavalares de violência e machismo, perseguições insanas, contas hackeadas, esgotamento emocional: tudo isso perde tamanho e valor quando a gente dá de cara com a gratidão e a bondade que o mundo pode oferecer. É só a gente se abrir, respirar fundo, parar de dar valor ao obsoleto e cair nos nossos sonhos e vontades.
O meu sonho é conhecer o máximo de pessoas que eu puder e me sentir parte de cada uma delas assim como muitas já são e outras irão ser parte de mim. Minha vontade é pertencer a todos os lugares do mundo.

A cidade é uma abstração cruel, assim como todas as relações doentias que acabamos nos envolvendo nesse ambiente de pressão e dor. Por isso que eu decidi me zerar e me jogar no mundo. Pé na estrada muito em breve porque só se vive de verdade quando se está em movimento.

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Quão complicado e sintomático é ver homens falando que ao desabafar e narrar sua parte dos fatos você está se colocando no papel da “falsa vítima que perdeu os argumentos”? Direito à voz é vitimismo? Se impor contra uma cultura de opressão (claramente explicitada com ameaças e xingamentos misóginos) é “perder os argumentos”?

A cegueira social que as pessoas, principalmente os homens dentro da sociedade machista, insistem em ter é tão simbólica… Ela representa aquela postura de manutenção dos privilégios, onde é mais fácil fingir que vivemos em uma sociedade igualitária e agredir pessoas que não aceitam silenciamento e essa “falsa realidade” que tentam nos empurrar.

Perder argumentos, pra mim, é atacar covardemente. É negar sua posição de privilégio e destilar ódio. É menosprezar a dor alheia. É fazer tudo do isso ao invés de realizar o simples ato de raciocinar.

 

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Pleno 2014 e eu não acredito que ainda precisamos repetir isso, mas lá vai: feminismo não existe pra agradar homem, nem de direita nem de esquerda.

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Fazer “piada” com classe oprimida não tem a menor graça e representa uma falta de noção da realidade majestosa. É muito fácil rir da luta ou da dor alheia quando se está sentado em um troninho de privilégios. Escarnecer das minorias é mole quando não se tem medo de ser violado ou agredido por simplesmente ser quem você é. Por favor, humor “politicamente incorreto” é a arma dos desfavorecidos intelectualmente (ou dos perversos).

Achar que todas as classes oprimidas/minoritárias estão em pé de igualdade com a “maioria” porque simplesmente existe um artigo na Constituição que declara isso é de uma ingenuidade (pra não dizer maldade) insana. Lutas que buscam o empoderamento, a liberdade e aí então a igualdade entre todxs são mais do que necessárias quando você analisa o contexto social que estamos inseridos. A Constituição vale quando é colocada em prática.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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