Do pibinho à eleição

por Woden Madruga

 

Duke
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Ouvia a CBN com mais uma manchete negativa para a economia brasileira: “A produção industrial, em abril, cai pelo segundo mês consecutivo”. Fala de uma queda de 0,3% na comparação com o mês de março. Somando os dois meses, o baque chega a 0,8%. Os números são do IBGE. Semana passada o destaque nos cadernos de Economia foi o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (a soma de todos os bens e serviços), o tal PIB. Dizia a notícia: “As previsões para a economia brasileira pioraram. A previsão de alta do PIB baixa para 1.5% para este ano”. Os dados são do Banco Central. Ouvia a CBN quando vi na internet o artigo de Dora Kramer, no Estadão de ontem, no rasto de uma outra pesquisa, agora do Pew Research Center, dos Estados Unidos, de olho na economia brasileira. Dora Kramer coloca na sua análise uns temperos da política brasileira, passando pela Copa e lembrando as intervenções metafóricas de Lula com seus jumentos. Título do artigo: “Oito ou oitenta”. A pedido do mestre Gaspar, transcrevo-o por inteiro:

“A pesquisa do instituto americano Pew Research Center traduz em números e ajuda a organizar um pouco o raciocínio sobre os humores da sociedade brasileira que passou da euforia algo míope – para não dizer abobalhada – para um estado de mau humor à deriva.

É sempre salutar o despertar de consciências, mas, como aponta a responsável pela pesquisa, Juliana Horowitz, chama atenção a mudança tão radical. Segundo ela, nos 82 países pesquisados desde 2010, oscilações semelhantes só foram observadas naqueles abatidos por graves crises ou rupturas institucionais.

“Antes” (dos protestos de junho de 2013 ou do quê?) não havia nada errado, estava tudo na mais santa paz; agora o clima é de véspera de fim de mundo.

Ainda que pipocassem escândalos de corrupção por todos os lados e que a cúpula do partido do governo estivesse denunciada e prestes a ser julgada por comprar a maioria no Congresso, este mesmo governo foi reeleito e ainda ganhou o direito a mais um período dando ao então presidente o cheque em branco pedido por ele para a eleição da sucessora.

Os números sobre o desempenho do governo são impressionantes: 86% desaprovam o combate à corrupção, 85% estão insatisfeitos com a situação de insegurança pública, 84% repudiam o serviço de saúde, 76% desaprovam o sistema de transportes, 71% não concordam com a política externa, 71% acham ruim a educação, 67% estão contra as preparações para a Copa do Mundo, 65% revoltam-se contra a pobreza e 63% estão em desacordo com a situação da economia.

Justamente a economia, o item apontado como o grande vilão da insatisfação, o fator ao qual se atribui o agrado ou desagrado em relação a um governo, é o que tem o índice menos alto. No entanto, é o setor que mais de deteriorou. Os outros já vinham devidamente degradados. Mesmo no tempo da euforia com o consumo desenfreado, do Brasil que dava lições aos Estados Unidos e à União Europeia, do ilusionismo dos sucessivos PACs, cujas obras atrasadas ou não iniciadas não serviram de sinais de alerta para a incapacidade objetiva de fazer acontecer de maneira decente uma Copa e uma Olimpíada.

Era evidente que a farra não duraria sempre. A situação externa não explica tudo, porque países em desenvolvimento como o Brasil saíram-se muito melhor nesse período porque fizeram outras escolhas. As ações aqui foram todas referidas no imediatismo da conquista da unanimidade com fins de obtenção de hegemonia política, social e cultural.

Para ganhar eleições, vende-se otimismo. Mas, para que o poder perdure é preciso entregar o prometido e, da maneira como as coisas foram conduzidas desde o início, era evidente que a conta chegaria.

Não viu quem não quis ou quem achou que a bonança é eterna e não tem preço. Um palpite para o motivo da irritabilidade à deriva? A retirada do palco de Lula como exímio animador de plateias. Levou a maioria na conversa até quando era evidente o vazio, quando não a enganação, da conversa. Saiu de cena o ilusionismo e o país se viu no convívio diário com a realidade.

E o produtor daquela euforia extrema, o homem das metáforas futebolísticas, o líder das massas, a alegria do povo, o presidente que trouxe a Copa para o Brasil onde estará nos jogos do Mundial, inclusive na abertura no estádio de seu Corinthians do coração? Segundo ele, em casa, vendo tudo pela televisão.

A fim de não correr o risco de ser alvo do mau humor à deriva nos estádios aonde o brasileiro ‘vai a pé, descalço e de jumento’.”

 

Emilio Agra
Emilio Agra

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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