Assassinos passaram nove horas com o coronel Malhães

Nove horas buscando armas é tempo demasiado. Tudo indica que procuravam documentos. Dossiês. Fotografias. Filmes. Arquivos dos porões da ditadura. 

O coronel deve ter sido interrogado antes de morrer. É preciso descobrir sinais de tortura. 

 

Coronel Paulo Malhães no sítio em que foi assassinado
Coronel Paulo Malhães no sítio em que foi assassinado

 

 

O coronel reformado do Exército Paulo Malhães foi encontrado morto na manhã desta sexta-feira, 25, no sítio em que morava em Nova Iguaçu (cidade na Baixada Fluminense). O corpo apresentava marcas de asfixia, segundo a Polícia Civil.

De acordo com o relato da viúva do coronel, Cristina Batista Malhães, três homens invadiram o sítio de Malhães na noite desta quinta-feira, 24, à procura de armas. O coronel seria colecionador de armamentos, disse a mulher aos policiais da Divisão de Homicídios da Baixada que estiveram na propriedade.

Cristina disse que ela e o caseiro foram amarrados e trancados em um cômodo, das 13h às 22h desta quinta-feira pelos invasores.

O coronel da reserva Paulo Malhães, que tomou os noticiários ao revelar como funcionava o centro de tortura clandestino da ditadura em Petrópolis e que revelou o destino do corpo do ex-deputado Rubens Paiva, teve atuação de destaque na repressão política durante a ditadura militar e, no mês passado, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, assumiu ter participado de torturas, mortes e desaparecimentos de presos políticos.

Segundo contou ao GLOBO Carla, a filha de Malhães, três pessoas entraram na casa do coronel reformado na tarde de quinta-feira, prenderam a mulher dele num aposento e mataram ele por sufocamento. Na ação, o grupo levou todas as armas que ele tinha em casa.

Segundo disseram ao jornal “Extra” investigadores da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, que acabam de realizar uma perícia no local, Malhães ficou em poder dos bandidos de 13h às 22h, segundo o relato de testemunhas.

“Eu fiquei amarrada e trancada no quarto, enquanto os bandidos reviravam a casa toda em busca de armas e munição. Não era segredo que ele era colecionador de armas”, disse a viúva Cristina Batista Malhães, enquanto era conduzida para a Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) para prestar depoimento.

De acordo com apuração do jornal, o caseiro também foi conduzido para a delegacia. Ele ficou trancado em outro cômoda da casa, amarrado. Segundo disse o delegado Fábio Salvadoretti, da DHBF, ao “Extra” não havia marcas de tiros no corpo de Paulo Malhães, apenas sinais de asfixia.

A princípio, ele foi morto por asfixia. O corpo estava deitado no chão do quarto, de bruços, com o rosto prensado a um travesseiro. Ao que tudo indica ele foi morto com a obstrução das vias aéreas.

Nadine Borges, integrante da Comissão Estadual da Verdade e responsável por tomar o depoimento de Malhães há poucas semanas, cobrou uma investigação célere do assassinato. Segundo ela, este não pode ser tratado como um crime comum.

 

Os assassinos revistaram a casa, principalmente a papelada existente
Os assassinos revistaram a casa, principalmente a papelada existente

Família está surpresa, diz filha sobre morte de coronel

A médica Karla Malhães, mais velha dos cinco filhos do coronel reformado Paulo Malhães, disse, na tarde desta sexta-feira, que a família “está surpresa e não sabe o que pensar” sobre o crime.

Karla contou que conversou com o pai no domingo, 20, e chegou a perguntar se ele havia sofrido ameaças por conta dos depoimentos prestados às Comissões Nacional e Estadual da Verdade. Malhães negou ter sido ameaçado

“É tudo muito, muito assustador, muito surpreendente, não sabemos o que pensar. Por enquanto é latrocínio, roubo seguido de morte”, afirmou Karla, no sítio do pai.

A médica foi avisada da morte de Malhães na manhã de hoje, ao receber o telefonema de um policial militar que estava na casa do coronel.

Segundo Karla, a viúva, Cristina Malhães, e o caseiro foram amarrados pelos criminosos, que fugiram levando as armas da coleção do coronel, além de eletrodomésticos. Alguns objetos foram deixados no mato pelos assaltantes.

Karla contou que na infância não sabia das atividades do pai. A filha disse só ter tomado conhecimento das prisões e torturas depois dos depoimentos às comissões da verdade.

“Não sabíamos de nada e ficamos surpresos. Dissemos a ele que não devia ter falado, tanto tempo depois, ainda mais sem nos preparar. Nunca entendemos por que ele decidiu falar. Sempre foi uma pessoa muito reservada, muito difícil. Não era de conversar”, afirmou Karla.

Segundo a filha, Malhães se isolou ainda mais da família depois dos depoimentos. O coronel completou 77 anos no dia 17 de abril, sem qualquer comemoração, disse Karla. A Divisão de Homicídios da Baixada investiga o caso. As Comissões Estadual e Nacional da Verdade pedem que a Polícia Federal participe da apuração da morte do coronel. A família ainda não decidiu sobre o enterro.

 

Malhães acusa coronel de assassinar jornalista em 1982
Antes de morrer, Alexandre Von Baumgarten deixou com amigos um dossiê em que responsabilizava o então ministro-chefe do SNI, general Octávio Medeiros, e o chefe da Agência Central do órgão, general Newton Cruz

O coronel da reserva do Exército Paulo Malhães, que afirmou à Comissão Estadual da Verdade do Rio ter participado de operações para fazer desaparecer corpos de presos políticos assassinados sob tortura na ditadura militar, disse a investigadores da CEV que o coronel do Exército Freddie Perdigão – que era conhecido como Dr. Nagib no DOI-Codi, órgão de repressão política ligado ao I Exército – assassinou o jornalista Alexandre Von Baumgarten em 1982.

Ligado ao Serviço Nacional de Informações (SNI), Baumgarten foi encontrado morto a tiros na praia da Barra da Tijuca, em 25 de outubro daquele ano, dias depois sair para pescar na traineira Mirimi. A embarcação e os corpos da mulher de Baumgarten, Jeanette Hansen, e do barqueiro Manoel Valente Pires, desapareceram. Antes de morrer, Baumgarten deixou com amigos um dossiê em que responsabilizava o então ministro-chefe do SNI, general Octávio Medeiros, e o chefe da Agência Central do órgão, general Newton Cruz, caso morresse. O texto foi revelado depois que o corpo apareceu. Cruz foi denunciado à Justiça, mas foi absolvido por falta de provas.

De acordo com Malhães, Perdigão – que morreria nos anos 90 – seguiu a Mirimi com outro barco, a interceptou e matou o jornalista a tiros. O corpo foi jogado no mar. A traineira foi afundada. Não há, no depoimento, informações sobre o que aconteceu com Jeanete e com Pires. A eliminação do jornalista envolveria a “Operação O Cruzeiro”, uma tentativa do “serviço” de usar um título da revista do mesmo nome para criar uma corrente de opinião pública favorável à ditadura, então cada vez mais impopular. Baumgarten adquiriu os direitos do título em 1979 e atuava à frente da revista a mando do SNI, que se encarregava de extorquir publicidade para a publicação e lhe dar dinheiro diretamente. O novo “O Cruzeiro” não resistiu ao fracasso editorial, e Baumgarten, sob ameaça, foi obrigado pelo SNI a vendê-lo.

O nome de Perdigão surgiu depois de três horas de conversa, quando a equipe da CNV, interessada no destino dos restos mortais do ex-deputado Rubens Paiva, insistia em saber onde eram jogados os corpos dos presos mortos pela repressão. Malhães explicou que não era possível enterrar, porque, segundo disse, sempre acabam achando cadáveres enterrados nessas circunstâncias. Quando lhe perguntaram se as vítimas eram jogadas no mar, respondeu que apenas a Aeronáutica agia assim. “O único corpo que jogaram no mar foi o Perdigão, foi uma cagada”, disse. Quando lhe perguntaram o que o oficial fizera, ele afirmou: “Foi aquela do cara que escrevia no ‘Cruzeiro'”. “Von Baumgarten?”, insistiram os pesquisadores. “Von Baumgarten” confirmou Malhães.

Segundo o coronel da reserva, Perdigão e seus comparsas, após o que chamou de “combate de caravelas”, chegaram a pensar em simular um afogamento para encobrir o homicídio, o que não foi possível, devido aos ferimentos a bala. Depois, já no Instituto Médico-Legal, agentes do SNI tentaram, segundo ele, trocar o corpo do jornalista por outro, remanejando a etiqueta de identificação, mas isso também não teria funcionado. Perdigão/Nagib é citado no Projeto Brasil Nunca Mais como torturador. (Do noticiário de várias agências publicados pela Gazeta do Povo, Paraná)

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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