Deus pôs na Cruz de Jesus o peso de todas «as injustiças – disse o Papa Francisco – perpetradas por cada Caim contra o seu irmão, de toda a amargura da traição de Judas e de Pedro, de toda a vaidade dos prepotentes e de toda a arrogância dos falsos amigos»

02 - ICONE BIZANTINO

Esperança, ressurreição e amor de Deus. São estas três palavras que resumem o dia no qual a Igreja faz memória da Paixão de Jesus. É o Papa Francisco quem as confia ao mundo inteiro, no encerramento da Via-Sacra presidida no Coliseu, no início da noite de Sexta-Feira Santa, 18 de Abril.

Deus pôs na Cruz de Jesus o peso de todas «as injustiças – disse o Pontífice – perpetradas por cada Caim contra o seu irmão, de toda a amargura da traição de Judas e de Pedro, de toda a vaidade dos prepotentes e de toda a arrogância dos falsos amigos».

Precisamente por isso, «era uma Cruz pesada, como a noite das pessoas abandonadas, pesada como a morte das pessoas queridas, pesada porque sintetiza toda a fealdade do mal». Todavia, é também «uma Cruz gloriosa, como a aurora de uma longa noite – acrescentou o Santo Padre – porque em tudo representa o amor de Deus, que é maior do que as nossas iniquidades e traições».

Portanto a Cruz – explicou o bispo de Roma – sinal da «monstruosidade do homem quando se deixa guiar pelo mal», torna-se o símbolo da «imensidão da misericórdia de Deus», porque Ele «não nos trata segundo os nossos pecados, mas em conformidade com a sua misericórdia». E assim, diante daquela Cruz, sentimos que somos «filhos e não coisas nem objectos», ressaltou o Papa, recitando uma oração de são Gregório de Nazianzo.

O Papa Francisco evocou nesta Sexta-Feira Santa os sofrimentos provocados pela doença e pelo abandono, ao concluir a Via-Sacra no Coliseu de Roma, e condenou as injustiças cometidas por “cada Caim contra o seu irmão”.
“Todos juntos, recordemos os doentes, lembremos todas as pessoas abandonadas sob o peso da cruz, a fim de que encontrem na provação da cruz a força da esperança, da esperança da ressurreição e do amor de Deus”, disse o Santo Padre.

Após as 14 estações, que evocam o julgamento e execução de Jesus, o Papa Francisco disse que Deus colocou na Cruz de Cristo o peso dos pecados da humanidade, “a amargura” da traição, a “vaidade” dos prepotentes, a “arrogância dos falsos amigos”.

“Era uma cruz pesada, como a noite das pessoas abandonadas, como a morte dos entes queridos” – referiu num texto lido antes da bênção final – mas era também “uma cruz gloriosa”, porque simboliza o amor de Deus.
“Na cruz vemos a monstruosidade do homem, quando se deixa guiar pelo mal, mas também vemos a imensidão da misericórdia de Deus, que não nos trata segundo os nossos pecados” – afirmou o Papa Francisco.

“O mal – declarou – não terá a última palavra”, mas sim “o amor, a misericórdia, o perdão”.

Uma forte crítica às chagas da sociedade atual foi o mote das reflexões da Via-Sacra propostas por D. Giancarlo Bregantini, Arcebispo de Campobasso em Itália. Este refere que no madeiro da Cruz levado por Jesus até ao calvário estão “o peso de todas as injustiças que produziram a crise económica, com as suas graves consequências sociais: precariedade, desemprego, demissões, dinheiro que governa em vez de servir, especulação financeira, suicídios de empresários, corrupção e usura, juntamente com empresas que deixam os países”.

Nas reflexões feitas pelo arcebispo italiano para as 14 estações da Paixão, o sofrimento das mulheres também ocupou o seu lugar. Neste contexto, D. Bregantini pediu que se chore “pelas mulheres escravizadas pelo medo e a exploração”, mas recordou que “não basta bater no peito e sentir comiseração”. As mulheres devem “ser tranquilizadas como Ele fez, devem ser amadas como um dom inviolável para toda a humanidade”, acentuou o prelado.

O texto da Via-Sacra teve como tema “Rosto de Cristo, Rosto do Homem” e numa das estações o arcebispo Bregantini criticou também as condenações e “acusações fáceis, os juízos superficiais entre o povo, as insinuações e os preconceitos que fecham o coração e se tornam cultura racista, de exclusão e de descarte”. D. Bregantini, no texto da Via Sacra, questionou ainda se os homens e as mulheres de hoje sabem “ter uma consciência reta e responsável, transparente, que nunca volte as costas ao inocente, mas se posicione, com coragem, em defesa dos fracos, resistindo à injustiça e defendendo em todo o lado a verdade violada?”

De referir que a Cruz foi transportada nesta noite de sexta-feira, no Coliseu de Roma por um operário, um empresário, dois sem-abrigo, crianças, idosos, doentes e presos.

Segundo D. Giancarlo Bregantini, Cristo é o rosto que ilumina o Homem – como referiu à Rádio Vaticano em entrevista à Tiziana Campisi:

“…Cristo é o rosto que ilumina o Homem é o homem e o rosto que encarna. Este é o título: ‘Rosto de Cristo, Rosto do Homem’. Por isso é muito belo poder dizer: ‘Eu sofro com o meu Senhor. O sofrimento é o seu beijo, a aliança que eu crio com Ele leva-me a tornar-me seu aliado. E outra mensagem é aquela muito sublinhada pela ‘Evangelii Gaudium’: ‘o sofrimento do outro é redentor do meu sofrimento’. Eu não encontro sentido olhando para mim e acariciando as minhas feridas, mas eu encontro esperança olhando os sofrimentos do outro’.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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