O esquecido impeachment de Arraes

 

A propaganda do mito Arraes criou várias lendas.

1 – Uns dizem que Arraes recebeu convite dos militares para permanecer no governo, mas recusou.

2 – Outros, que foi deposto.

A verdade: Era repórter setorista do Diário de Pernambuco no Palácio das Princesas e, inclusive, escrevia a tradicional coluna “Ontem, em Palácio”.

O golpe militar estava previsto para ter início após uma senha que seria anunciada pelo deputado federal Costa Cavalcanti, em discurso na Câmara dos Deputados. Aconteceu do general Mourão Filho antecipar o movimento armado. Que, em Pernambuco, era do conhecimento dos coronéis ligados a Costa Cavalcanti, sendo ainda articuladores, no Nordeste, os generais Muricy e Golbery. Entre os civis, apenas Cid Sampaio. Costa Cavalcanti foi secretário de Segurança Pública no governo de Cid. Arraes sucedeu Cid no governo, e eleito com o apoio não declarado de Cid, de quem era concunhado.

A antecipação de Mourão possibilitou que o golpe não fosse certeiro, permitindo dúvidas sobre quem assumiria a presidência da República, e impossibilitando a conquista dos governos estaduais pelos coronéis do Exército, com ou sem autorização do comando revolucionário.

Sim, o termo certo era revolução. Esperada desde que Jango, via plebiscito, fez retornar o presidencialismo. O improvisado parlamentarismo não passou de uma condição negociada pelos ministros militares, após a renúncia de Jânio, que não puderam evitar a posse de Jango, imposta pelo movimento de Brizola no Rio Grande do Sul.

Era esperada uma revolução, um confronto dos camponeses de Francisco Julião (brigado com Arraes), a Polícia Militar do Rio Grande do Sul, mais o Exército do Sul, inclusive Kruel em São Paulo, e governadores aliados de Jango contra os militares golpistas. Uma revolução que não aconteceu.

No começo da tarde passei no Diário de Pernambuco para pegar um vale, que estava decidido gazetear um cinema com a namorada. Na redação, na caixa de correspondência havia uma telegrama da Meridional. Abri. Informava: “O general Moura Filho deslocou tropas em direção da Região da Mantiqueira, para treinamento…”. Este o primeiro telegrama da Meridional. O jornalista Moacir Japiassu, no célebre romance “Quando Alegre Partiste”, publica o texto de um segundo telegrama. A narrativa demonstra a preocupação dos jornalistas aliados de Jango quanto ao desconhecimento do golpe, pelo povo e autoridades civis. Era a crença de que o povo iria para as ruas combater o golpe.

Fui correndo para o Palácio das Princesas para entrevistar Arraes, mas não consegui.

Quando apareceu o deputado Aderbal Jurema. Mostrei o telegrama. Não entendeu. Tive que argumentar, para conseguir o encontro com Arraes.

– Aderbal, você foi jornalista. Treinamento de tropas não é notícia nacional. E a Meriodional jamais gastaria dinheiro para mandar um telegrama com esta informação sem nenhuma importância: de que Mourão está treinando soldados…

Aderbal levou o telegrama para Arraes. Esperei inquieto, nada de Aberbal descer da ala residencial do Palácio.

Decidi telefonar para a casa do vice-governador Paulo Guerra. Atendeu a esposa, que revelou que o marido estava na fazenda. Recomendei: Mande avisar que a revolução estourou. Pura loucura o recado. Mas quem me conhece sabe que sou capaz de tais riscos. Sempre confiei no meu “faro” de jornalista.

Nada de Aderbal descer. Era a hora do crepúsculo. Paulo Guerra telefonou. Falei do telegrama e da demora de Aderbal.

Cobri para o Diário de Pernambuco, no Rio de Janeiro, a convenção do PSD, e foi manchete minha: Paulo Guerra lançou as candidaduras de Juscelino presidente, e Arraes vice. Nos bastidores da convenção o assunto cochichado era a revolução, que ninguém acreditava. A imprensa estava voltada para as articulações das candidaturas para presidente de Juscelino e Carlos Lacerda, sendo que, sem chances, Brizola e Arraes buscavam o apoio de Jango. E para as marchas golpistas da Tradição, Família e Propriedade, TFP, e as procissões do povo que reza unido permanece unido.

Finalmente apareceu Aderbal, e pressenti que alguma coisa de sério estava acontecendo. Justificou: – Arraes não pode lhe receber. Está com uma forte alergia nos olhos. Demorei porque estávamos tentando falar com Brasília. Só agora conseguimos, pelo rádio amador. Abelardo (Jurema, irmão de Aderbal, ministro da Justiça de Jango) confirmou que havia um quisto revolucionário em Minas Gerais, mas que seria debelado até às 18 horas. E que Arraes telefonou para Justino. O comandante do IV Exército garantiu que desconhecia qualquer movimentação de tropas, e que em Pernambuco tudo estava em paz.

Acredito que, no momento do telefonema de Arraes, Justino estava por fora. Nesta mesma noite, Edmundo Moraes, chefe de reportagem do Diário de Pernambuco, e ex-secretário de Imprensa de Cid, e amigo de Costa Cavalcanti, me confidenciava que os coronéis estiveram no gabinete do comandante do IV Exército, para comunicar  a quartelada, e cobrar um posicionamento.

Falei para Aderbal, que Paulo Guerra se encontrava na casa do deputado estadual Osvaldo Coelho. Quando passamos pelo prédio do comando do IV Exército, perto da Faculdade de Direito, um tanque de guerra posicionado.

Na casa de Osvaldo, além do anfitrião, Paulo, João Roma, ex-secretário de Segurança de Agamenon Magalhães, e Barreto Guimarães, ex-prefeito de Olinda. Foi uma reunião rápida. Paulo acertou com Aderbal ele se esconder. E Roma assegurou que as delegacias de polícia estavam sob o comando dos delegados da confiança de Costa Cavalcanti, adversário político e inimigo de Paulo Guerra.

Paulo Guerra: – Talis, queria um favor seu. Que presenciasse a minha ida ao IV Exército. Caso seja preso você avisa para Osvaldo na Assembléia Legislativa. Não questionei por que na AL.

Nunca vi coisa mais fácil. Na porta, apenas um sentinela. E próximo, outro soldado ou cabo. Paulo Guerra entrou, depois eu. Sem dar a impressão de que estávamos juntos. Ouvi quando Paulo disse andando, e incisivo: – Justino está me esperando. Onde ele está?

Um terceiro praça, talvez um sargento, apontou com um dedo a escada e orientou: – Na primeira sala. Paulo Guerra abriu a porta e estava Justino falando, pelo rádio amador, com Mourão. Junto, a surpresa da presença de Cid Sampaio.

Voz de Mourão: – Quem vai assumir o governo de Pernambuco?

Justino: – Está chegando aqui Paulo Guerra, vice-governador.

Mourão: – Deve ser gente fina. Minha mulher é da família Guerra. Todos os Guerra são boas pessoas.

Ouvindo esta conversa, Paulo solicitou: Diz para João Domingos que decidi pela segunda votação. João, filho primogênito de Paulo Guerra, estava esperando num carro estacionado no Hotel 13 de Maio. Pedi explicação para João Domigos. Primeira votação: o afastamento; segunda era a votação do impeachement de Arraes: 45 votos a favor, 17 contra, e um voto em branco.

Assim entendi o motivo da reunião na casa de Osvaldo, porque desconhecia a convocação extraordinária da Assembleia. E dei o recado porque Paulo Guerra perguntou: você quer que um coronel ou um general assuma o governo de Pernambuco?

Fui para o Diário de Pernambuco escrever o que testemunhei. Beirando a madrugada, Edmundo escalou: – Vai para o Palácio cobrir a posse do governador.

Durante a solenidade, Paulo Guerra fez um sinal que queria falar comigo. Era para um encontro às 7 horas.

Nem todas as minhas reportagens foram publicadas.

Passei o resto da madrugada acordado, e às 7 horas estava esperando Paulo Pessoa Guerra, que chegou com Barreto Guimarães, que seria seu secretário de Governo.

A porta principal do Palácio das Princesas estava fechada, e só havia uma passagem livre, pelo portão da Casa de Guarda, ocupada por soldados do Exército.

Quando Paulo Guerra ia entrando, uns milicos tentaram barrar. Paulo Guerra falou alto: – Sou o governador de Pernambuco, se quiser me prender estou no meu gabinete.

Do gabinete telefonou que estava convocando uma guarda da Polícia Militar. E disse para mim: – Não vou iniciar o governo com tropa do Exército.

Era o começo da articulação de uma política para manter nos cargos todos os governadores nordestinos. Só não teve tempo de evitar o afastamento de Seixas Dória em Sergipe.

Em Pernambuco, os golpistas não cuidaram da política, apenas da estratégia militar de uma guerra interna.  Preferiram, primeiro,  assumir o comando da Secretaria de Segurança e delegacias, o antigo reinado de Costa Cavalcanti, que Paulo Guerra teve que combater.

Arraes negociar com os militares, não aconteceu. Seria confirmar a versão de Samuel Wainer, fundador do Última Hora, de que ele conspirou pela queda de Jango.

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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