Na terra de Gilmar Mendes não tem justiça. O caso da estudante Andréa Wonsoski, sequestrada, estuprada e assassinada

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Trecho da matéria de Leandro Fortes, da Carta Capital

A lentidão da polícia e da Justiça na região, inclusive em casos criminais, acaba tendo o efeito de abrir caminho a várias suspeitas e deixar qualquer um na posição de ser acusado – ou de ver o assunto explorado politicamente.

Em 14 de setembro de 2000, na reta final da campanha eleitoral, a estudante Andréa Paula Pedroso Wonsoski foi à delegacia da cidade para fazer um boletim de ocorrência. Ao delegado Aldo Silva da Costa, Andréa contou, assustada, ter sido repreendida pelo então candidato do PPS, Chico Mendes (Irmão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal), sob a acusação de tê-lo traído ao supostamente denunciar uma troca de cestas básicas por votos, ao vivo, em uma emissora de rádio da cidade. A jovem, de apenas 19 anos, trabalhava como cabo eleitoral do candidato, ao lado de uma irmã, Ana Paula Wonsoski, de 24 – esta, sim, responsável pela denúncia.

Ao tentar explicar o mal-entendido a Chico Mendes, em um comício realizado um dia antes, 13 de setembro, conforme o registro policial, alegou ter sido abordada por gente do grupo do candidato e avisada: “Tome cuidado”. Em 17 de outubro do mesmo ano, 32 dias depois de ter feito o BO, Andréa Wonsoski resolveu participar de um protesto político.

Ela e mais um grupo de estudantes foram para a frente do Fórum de Diamantino manifestar contra o abuso de poder econômico nas eleições municipais. A passeata prevista acabou por não ocorrer e Andréa, então, avisou a uma amiga, Silvana de Pino, de 23 anos, que iria tentar pegar uma carona para voltar para casa, por volta das 19 horas. Naquela noite, a estudante desapareceu e nunca mais foi vista. Três anos depois, em outubro de 2003, uma ossada foi encontrada por três trabalhadores rurais, enterrada às margens de uma avenida, a 5 quilômetros do centro da cidade. Era Andréa Wonsoski.

A polícia mato-grossense jamais solucionou o caso, ainda arquivado na Vara Especial Criminal de Diamantino. Mesmo a análise de DNA da ossada, requerida diversas vezes pela mãe de Andréa, Nilza Wonsoski, demorou outros dois anos para ficar pronta, em 1º de agosto de 2005. De acordo com os três peritos que assinam o laudo, a estudante foi executada com um tiro na nuca. Na hora em que foi morta, estava nua (as roupas foram encontradas queimadas, separadas da ossada), provavelmente por ter sido estuprada antes.

Chamado a depor pelo delegado Aldo da Costa, o prefeito Chico Mendes declarou ter sido puxado pelo braço “por uma moça desconhecida”. Segundo ele, ela queria, de fato, se explicar sobre as acusações feitas no rádio, durante o horário eleitoral de outro candidato. Mendes alegou não ter levado o assunto a sério e ter dito a Andréa Wonsoski que deixaria o caso por conta da assessoria jurídica da campanha.

CartaCapital tentou entrar em contato com o ministro Gilmar Mendes, mas o assessor de imprensa, Renato Parente, informou que o presidente do STF estava em viagem oficial à Alemanha. Segundo Parente, apesar de todas as evidências, inclusive fotográficas, a participação de Mendes no processo de implantação do Bertin em Diamantino foi “zero”. Parente informou, ainda, que a participação do ministro nas campanhas do irmão, quando titular da AGU, foram absolutamente legais, haja vista ser Mendes, na ocasião, um “ministro político” do governo FHC. O assessor não comentou sobre os benefícios fiscais concedidos pelo irmão à universidade do ministro.  (Texto integral no blog do Mino) Transcrito do blog de Glauco Cortez 

Escreve Rodrigo Viana: O ministro Joaquim “estou nas ruas” Barbosa deve ser leitor de CartaCapital. É o que conclui Mino Carta, diretor da revista, no editorial desta semana (29 de abril de 2009).

A afirmação de Mino faz todo sentido. No bate-boca com Gilmar “está na mídia” Mendes, Barbosa fez referências aos “capangas de Mato Grosso”. Que capangas são esses? Os mesmos que mataram Andréa Wonsoski? Estou apenas “testando hipóteses”…

Ninguém estranhou a afirmação de Joaquim Barbosa ao falar em capangas? Nenhuma publicação foi atrás do ministro a interpelá-lo: “ministro, que capangas são esses”? Claro que não. O mundo jornalístico havia tomado conhecimento da reportagem de CartaCapital, de novembro/2008. Mas ignorou solenemente.

Agora, diante do “escândalo” no plenário do STF, nenhum jornal ou revista de grande (?) circulação mandou repórter até Diamantino, para entender o que Barbosa quis dizer ao falar em “capangas”? Evidentemente que não. Estão todos preocupados em colher depoimentos de “juristas”, para demonstrar que Joaquim Barbosa “faltou às tradições” de cordialidade do Supremo Tribuna Federal.

A reportagem de CartaCapital, de novembro de 2008, merece ser lida, relida, reproduzida pela internet – http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=2689.

Da chamada “grande imprensa”, podemos esperar apenas o tradicional “silêncio ensurdecedor” – como diz o próprio Mino. Mas ela já não manda no país.

Há um novo “movimento tenentista” (a expressão é de Luís Nassif), furando o cerco da imprensa oligárquica. Dele fazem parte procuradores, delegados (afastados ou não de suas funções), cidadãos comuns, além de centenas de blogueiros que já não dependem dos barões da mídia para fazer a informação circular pelo país.

Capangas matam gente, mas não impedem a verdade de circular.

gilmar

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Importante assinalar que a família Wonsoski anda desaparecida de Diamantino. Deve ter buscado a liberdade noutro lugar. E não existe foto de Andréa.

O estranho e surpreendente é que seu corpo tenha sido enterrado na via principal da cidade que, na época, estava sendo asfaltada pela prefeitura.

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Um comentário sobre “Na terra de Gilmar Mendes não tem justiça. O caso da estudante Andréa Wonsoski, sequestrada, estuprada e assassinada”

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