Moacir Japiassu fala sobre “Concerto Para Paixão e Desatino”

Moacir Japiassu
Moacir Japiassu

 

1. O livro “Concerto Para Paixão e Desatino – Romance de Uma Revolução Brasileira”, de que forma está estruturado, basicamente?

Moacir Japiassu– Narrado na terceira pessoa, com 45 capítulos, o livro tem 383 páginas. Tremendo calhamaço, né mesmo? Porém, acredito que é de fácil leitura, apesar da linguagem um pouco “trabalhada”, como se diz. Mantive apenas (e aqui discordo do meu Mestre José Américo, que gostava do português com todos os rr e ss, independentemente de classe social), mantive o linguajar do povo. Não o considero como algo desprezível, anti-literário. Pelo contrário, entendo-o como uma espécie de dialeto, riquíssimo em suas epênteses e prosopopéias. No meu livro, creio que existe harmonia entre o português clássico, às vezes arcaico, posto que fui buscar alguma coisa das Cantigas d’Amigo, e o dialeto a que me referi. Convivem “pacificamente”.

Confesso que, em princípio, fui assaltado pela disposição de escrever um roman à clef, mas mudei de idéia ao verificar que não teria o menor sentido dar nomes falsos a alguns personagens reais. Por que eu iria, por exemplo, descrever Zé Américo, expor fases de sua biografia e chamá-lo de Joaquim? Ou dar à Paraíba o nome de Felipéia, governada em 1930 por Baltazar Esteves Mejia? Não, de modo algum; prefiro correr os riscos da intolerância, da incompreensão. E tais riscos são enormes, haja vista a forma como o público encara os atores de telenovelas; alguns são agredidos na rua porque são confundidos com os perversos personagens que interpretam… Você pode argumentar que um livro como o meu, com uma linguagem às vezes rebuscada, não iria interessar ao público das telenovelas; sei não, sei não. Como dizia minha Tia Cota, que o Senhor a tenha, a gente nunca sabe. Principalmente na Paraíba, onde ainda inflamam-se as paixões políticas.

Todavia, como disse, prefiro enfrentar os riscos a me esconder junto com meus personagens, que são muitos, muitíssimos. Gosto de trabalhar com “grande elenco”, como ficou claro no meu romance anterior, “A Santa do Cabaré”, que reúne figuras de minha infância, em João Pessoa e no interior de Pernambuco, terra de minha mãe. Os mais jovens talvez não conheçam a figura, mas os veteranos, os sessentões, sabem muitíssimo bem quem foi Doutor Meira no “folclore sexual” da Paraíba. Pois Doutor Meira é personagem importante de “A Santa do Cabaré”; ele rouba as cenas alheias; chupa-as, melhor dizendo…

Bom, desculpe estar fazendo propaganda da “Santa”, porque o assunto aqui é o “Concerto”. Abundam personagens nessas 383 páginas, mais ou menos agrupados em “núcleos” que se interligam e se confundem no decorrer da narrativa. Não consigo escrever romances que fujam dessa “estratégia”, numa linha que apaixonava escritores como Roger Martin du Gard (Os Thibault) e John Steinbeck (A Leste do Éden), dentre muitos que apreciavam trabalhar pesadamente suas tramas e cenários. As telenovelas costumam usar e abusar dos “núcleos” e por termos esse parentesco é que acredito no interesse do grande público por um romance como o meu. Tudo depende, porém, de divulgação. A divulgação das editoras costuma ser muito ruim, se você não é um autor famoso. Aí, caímos num lamentável círculo vicioso: não se divulga porque o escritor não é famoso; e sem divulgação ele jamais ficará conhecido…

2. “Concerto Para Paixão e Desatino” é um romance que tem como base os episódios que culminaram com a Revolução de 30, inclusive o assassinato de João Pessoa. Como os fatos históricos são transpostos para o terreno da ficção nesta sua obra?

Há uma serena e “natural” interação entre os personagens criados e os da vida real. Se estamos em 1930 (embora o romance tenha início em 1920, durante o Governo de Solon de Lucena) e alguém procura uma autoridade, esta pode ser o Presidente do Estado ou o Secretário de Segurança Pública. Surgem, então, João Pessoa ou Zé Américo. Ou Juarez Távora, nos dias que antecedem a Revolução. Entretanto, faço este imperioso, fundamental esclarecimento: meu livro não é, de modo algum, um compêndio de historiografia paraibana; trata-se de um romance. É ficção, ficção que tem como cenário, como “pano de fundo”, os acontecimentos de 1930. João Pessoa, Zé Américo e os demais são tratados como personagens literários. O autor não mente; procura acompanhar de perto as ações da vida real, da História, mas se reserva o direito de criar roteiros diversos para cada uma dessas vidas tão importantes e tão conhecidas. O recurso do flashback permite ao autor reconstruir o passado que interessa à trama e a ele recorro porque sempre achei de profunda beleza imaginar alguém que se chega à janela, observa a paisagem e esta o remete a um passado feliz, ou infeliz, ou trágico. A solidão do personagem está, no meu livro, sempre recheada de passado.

Há uma cena, da qual gosto sobremaneira, que apresenta Zé Américo no papel de Secretário de Segurança, a fazer uma devassa no escritório que João Pessoa mantinha em sua casa da Praça da Independência. Ora, eu vivi ali naquele cenário, a jogar as peladas de minha infância, quando os moleques saíamos do Colégio Pio X para a liberdade das ruas. Passávamos defronte à mansão em que vivera o Presidente. Observávamos as janelas sempre fechadas, a resguardar que mistérios? Pois eu tive a petulância de abrir uma dessas janelas, por onde Zé Américo nos observa com seus olhos míopes e seu rosto severo…

José Américo e Juarez Távora
José Américo e Juarez Távora

3. Na obra você faz uma advertência ao leitor, situando a presença de José Américo de Almeida (então secretário de Segurança do Governo João Pessoa) nas páginas do romance. Por que a necessidade dessa advertência em relação ao autor de “A Bagaceira”, se outros personagens históricos também são inseridos em sua ficção?

R – O político e escritor José Américo de Almeida talvez seja a maior admiração de minha vida. Quando eu era menino, na João Pessoa do final dos anos 40, meu pai me levava para os comícios dele e eu ficava fascinado com aquela oratória que hipnotizava. É claro que eu não entendia nada do que ele falava, porém era impressionante a forma como dominava a multidão, como emocionava meu pai. “Esse Zé Américo é o cão!”, festejava ele.

Quando, na adolescência, li “A Bagaceira”, entendi melhor por que aquele era um homem especial. Eu estava no tempo das descobertas literárias, morava em Belo Horizonte com a família, meu pai fora transferido (era funcionário do DNOCS) e foi ele quem me deu de presente o romance de Zé Américo.

Agora, já sexagenário, quando fazia as pesquisas necessárias à composição do “Concerto Para Paixão e Desatino”, reli mais uma vez “A Bagaceira” e também as memórias do Mestre e, como revelo na “advertência ao leitor”, assaltou-me crudelíssima dúvida: eu deveria reescrever os trechos que gostaria de aproveitar, apropriando-me disfarçadamente do trabalho de Zé Américo, ou seria mais honesto mantê-lo intacto, já que se trata de texto brilhante, a dispensar reparos? Escolhi este caminho; onde foi possível, mantive os trechos entre aspas; e as dispensei, naqueles parágrafos que pediam mudança de tratamento, da primeira para a terceira pessoa. Quem conhece as memórias de Zé Américo identificará claramente os enxertos. Gostei do resultado; o que poderia ser uma apropriação indébita se transformou na homenagem que eu gostaria de prestar.

4. Em determinado trecho desta advertência, o senhor cita José Américo como personagem fundamental da Revolução. O mesmo se aplica em relação ao papel de José Américo em “Concerto Para Paixão e Desatino”?

R – José Américo é, como todos sabem, personagem fundamental da Revolução de 30 e, como personagem do meu romance, mantém tal excelência, como detalhei acima. Aliás, os leitores do Correio das Artes hão de concordar comigo: a figura de José Américo, sua autoridade expressa no olhar de míope, que transmitia certo distanciamento do interlocutor, é muito literário. O cargo de Secretário de Segurança Pública numa época tão conturbada; o papel dele na campanha de Princesa; a amizade tão estreita com João Pessoa, fazem-no perfeito para um desempenho marcante nas páginas do livro.

5. No posfácio à obra, José Nêummane Pinto faz uma comparação entre “Concerto Para Paixão e Desatino” e “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Com certeza, são duas obras que remontam a fatos históricos da política brasileira, mas onde o romance de Japiassu se aproxima da narrativa de Euclides da Cunha?

R – Nêumanne, intelectual brilhante, versejador de escol, não encontrou no “Concerto” algum terreno onde pudesse semear licenças poéticas, como, por exemplo, semelhanças com o universo euclidiano. É claro que meu romance, por mais pretensioso que seja, jamais poderia ser comparado a “Os Sertões” nem foi isso o que o posfaciador escreveu; Nêumanne se referiu ao comportamento do sertanejo João Dantas, o qual, nas páginas do livro, planeja com necessária minudência o assassinato de João Pessoa com tiros à queima-roupa, quanto mais não seja porque a arma, um revólver calibre 32 de cano curto, não se prestaria ao tiro à média ou longa distância. Nêumanne “jogou” com a imperícia do autor de “Os Sertões”, improvisado pistoleiro que morreu ao enfrentar de peito aberto o amante de sua mulher, num episódio pra lá de conhecido. Se fosse um sertanejo, como os personagens do sertão que dizia conhecer tão bem, Euclides teria feito o que Dantas fez, 21 anos mais tarde: planejaria o atentado ou então descansaria o rifle na paciência da tocaia pura e simples, porém de eficácia garantida. Se houve “licença poética” Nêumanne a situou entre os exemplos pessoais de Euclides e João Dantas, não entre o “Concerto” e “Os Sertões”. Quem me dera que meu humilde romance pudesse ser comparado a umas duas páginas da obra-prima de Euclides!

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João Dantas assassinado na Casa da Detenção do Recife
João Dantas assassinado na Casa da Detenção do Recife

 

Poetisa Anayde Beiríz, amante de João Dantas, suicidada e enterrada no Recife como indigente
Poetisa Anayde Beiríz, amante de João Dantas, suicidada e enterrada no Recife como indigente

6. Nêumanne destaca, ainda, a “forma musical” utilizada no romance, fato também mencionado pelo senhor na advertência ao leitor. Gostaria de saber um pouco mais sobre essa cadência da prosa de seu romance.

R – Um dos personagens que dão sustentação ao romance é um padre, Argemiro Sabaó, pároco de São Miguel de Taipu (ele e José Américo foram colegas de seminário). Sabaó é um grande estudioso da língua portuguesa, colaborador de filólogos como os mestres José Joaquim Nunes e Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Os estudiosos do idioma conhecem a dupla. Assim, como homenagem à cultura desse homem tão simples e tão sacrificado, achei de bom alvitre e de excelso respeito ornamentar o texto com frases de inspiração camoniana sempre que Sabaó aparece em cena. Ele bem merece um refrigério d’alma nos instantes em que se agrava o isolamento ante tão desditosa liça (esta última frase é um exemplo da linguagem à qual se refere o Nêumanne). E em nenhum momento, creio, me descuidei da musicalidade da língua portuguesa. Não apenas porque sempre fui um cultor dessa musicalidade como também para ser fiel ao próprio romance, entremeado de óperas, sinfonias, concertos, etc. Aliás, o “Concerto” está dividido em três partes, que são chamadas de “movimentos”, como nos concertos musicais: Allegro, Andante e Vivace.

7. Você inclui, no livro, uma bibliografia, onde se misturam textos históricos sobre os episódios de 30 com obras de autores clássicos como Luiz Vaz de Camões e Padre Antônio Vieira. Claro está, que nem todas as obras citadas na bibliografia foram consultadas, mas fica a curiosidade de saber qual a contribuição de Camões e Padre Vieira num livro sobre a Revolução de 30…

R – A contribuição camoniana já está respondida; e a de Vieira explica-se pela grande admiração que o padre Sabaó mantinha por sua obra. Sabia de cor os Sermões e um deles, aquele no qual o Senhor penitencia-se por ter criado o homem, é “declamado” aos fiéis, na missa que o pároco de São Miguel oferece ao Presidente assassinado.

8. Em um dos capítulos do livro (o 11), você narra com riqueza de detalhes os preparativos para o assassinato de João Pessoa. Na narrativa, é mencionado o affair entre João Pessoa e a cantora lírica Carina Malfitani, assunto ainda tabu na Paraíba. Você não teme reações da família do ex-presidente paraibano ao tocar no assunto?

R – Bom, já disse e repito que meu livro é um romance, é ficção, e assim deve ser visto. Troquei o nome da cantora, para não causar nenhum tipo de constrangimento a parentes próximos e distantes. Afinal, há, em flashback, cenas de sexo entre ela e o Presidente da Paraíba, cenas revividas pela “diva” após o assassinato do amante. São, todavia, momentos que escrevi com muito cuidado, escolhendo e sopesando as palavras. É sexo “quente”, porém digno, respeitoso. Não há vulgaridade no meu romance, isso eu posso garantir. No romance anterior, “A Santa do Cabaré”, há lesbianismo e incesto e eu tenho absoluta certeza de que não chocaram nem o mais pudico leitor. Não é possível que, aos 60 anos e depois de uma vida inteira em contato com as palavras, eu não saiba tratar de sexo com um mínimo de respeito ao leitor, não é mesmo? Todavia, se depois de todos os meus cuidados, houver alguma reclamação, poderei responder como Carlos Drummond de Andrade, quando saiu publicado o seu poema “O Sátiro”, em Lição de Coisas. É assim: Hildebrando insaciável comedor de galinha./Não as comia propriamente — à mesa./Possuía-as como se possuem e se matam mulheres./Era mansueto e escrevente de cartório. Dizem que em Itabira existia realmente um Hildebrando, funcionário de cartório e dado àquele feio hábito. Pois o homem procurou os jornais e meteu a boca no mundo; o poeta respondeu-lhe: “retire-se do meu poema!”. É claro que eu não faria isso com a surpreendente veemência do poeta, meu estilo é mais sossegado; eu pediria, encarecidamente, que o(a) atingido(a) deixasse as páginas do meu “Concerto”. Ora, poemas são poemas, romances são romances. É tudo ficção – ou quase tudo. A intimidade do Presidente João Pessoa no meu livro é, obviamente, peça de ficção. Não creio que amigos da família, ou mesmo parentes, reclamem de algo. Não há motivo para tanto.

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João Pessoa assassinado por João Dantas
João Pessoa assassinado por João Dantas

9. A propósito, apesar de ser um romance, seu livro toca fogo num vespeiro, já que até hoje a simples menção ao episódio traz de volta os radicalismos de perrepistas e liberais da política paraibana. Qual a sua expectativa para a leitura que possa se fazer da obra, principalmente na Paraíba?

R – Como me estendi um pouco na resposta acima, creio que esta já está respondida; posso adiantar que o romance também apresenta uma versão, bastante possível, embora improvável, de que João Pessoa talvez tenha sido assassinado a mando de um amigo, um correligionário, companheiro de campanha política, insatisfeito porque o Presidente mostrou-se (e esse fato é verdadeiro, está nas memórias de Zé Américo) contrário à revolução. Se é verdade que toco fogo num vespeiro, não me surpreenderia que fosse nesse trecho do romance. Porém, seria até bom uma polêmica a respeito; as polêmicas acendem o espírito, alumiam a alma…
10. Recentemente, o jornalista paraibano Fernando Melo lançou um livro resgatando a história de João Dantas, o assassino de João Pessoa. No seu livro há alguma tentativa de redimir João Dantas, transformando-o de algoz em vítima?

R – Não, de modo algum. O meu João Dantas, se posso falar assim do personagem do romance, aparece como uma pessoa capaz de ser influenciada por um jornalista, seu amigo dos tempos de Liceu, figura sórdida que deseja a morte do Presidente para aproveitar-se do caos e disseminar a corrução pela Paraíba e o Nordeste. Todas as versões são válidas quando a realidade se perde na obscuridade.
11. A licença poética foi fundamental para transpor personagens históricos como João Pessoa, João Dantas, Ademar Vidal e José Américo de Almeida para as páginas de um texto de ficção?

R – Já me referi a licenças poéticas e disse acima que todas as versões são válidas quando a realidade se perde na obscuridade. Isto é rigorosamente verdadeiro. O que não se pode, em hipótese alguma, é mentir descaradamente sobre um personagem da vida real que se transpôs para a ficção. Eu não poderia dizer, por exemplo, que Zé Américo traiu João Pessoa. Eu teria que provar isso – ou então, deveria mudar o nome do personagem, o que seria um absurdo, conforme já disse.

12. Foi o que você fêz com Ernâni Satyro, que no seu romance aparece com o nome de Libânio?

R – O Libânio do romance é um importador de gado indiano, que percorre inúmeros estados, conhece Deus e o mundo e é um leva-e-traz, um mexeriqueiro, boateiro. O personagem não tem nada de Ernâni Satyro, que era um intelectual, um escritor talentoso, um político de primeiríssimo time. Eu o conheci bem, nos encontramos na Paraíba, quando eu era repórter da revista IstoÉ, e também, por diversas vezes, em Brasília. Certa vez, em Brasília, eu contei a ele a história de um sertanejo dado ao onanismo, autor de uma frase engraçadíssima que não posso, infelizmente, repetir aqui, por respeito às famílias que lêem o Correio das Artes. Ernâni escutou a frase e riu a noite inteira; quanto mais goles de uísque bebíamos, mais ele me pedia para contar a história. E caía na gargalhada. A frase é realmente muito engraçada. Bem. Quando resolvi “rabiscar” o personagem Libânio, o qual, no romance, assume a frase como sua, eu ria e me lembrava de Ernâni. E Libânio acabou ficando, fisicamente – repito: fi-si-ca-men-te – parecido com Ernâni: baixo, “torado no grosso”, óculos de fundo de garrafa de cerveja Teutônia (a Brahma da época), voz tonitruante. Foi por isso que Nêumanne e outros leitores especiais do romance disseram: mas você retratou o Ernâni Satyro! Respondi: fisicamente, sim; o resto, não. Ernâni era, por acaso, vendedor de gado em 1930?!?!?!?!?

13. O Presidente Solon de Lucena também virou seu personagem e, segundo consta, é muito maltratado no romance.
R – Isso é boato de quem não leu o “Concerto”; Solon de Lucena aparece pouco, no início do livro, com os problemas do seu governo, a crise do café, principalmente. Outro personagem, o Senhor-de-Engenho Deba Coutinho, perrepista histórico, tem um entrevero com Solon, porém não é um entrevero político e sim sentimental; Deba “acha” que o Presidente lhe tomou a amante. Todas as dores do corno são atribuídas ao Presidente, porém o narrador em nenhum momento concorda com o personagem. Deba é um neurótico e nada mais.

 

Velório de João Pessoa (em João Pessoa ou Rio de Janeiro) foi a propaganda fúnebre da revolução de Trinta
Velório de João Pessoa (em João Pessoa ou Rio de Janeiro) foi a propaganda fúnebre da revolução de Trinta
Funeral de João Pessoa na Paraíba
Funeral de João Pessoa na Paraíba

14. Apesar de tantos personagens históricos circulando pelas páginas do livro, o personagem principal chama-se Isaías. Quem é esse Isaías e qual o seu papel na trama?

R – Isaías é um menino pobre, morador de um dos engenhos da várzea do Paraíba. Aquele também é cenário de minha infância, ali passei temporadas, no engenho Oiteiro e no Taipu; meu pai foi concebido e criado nos engenhos. Eu sou Moacir Japiassu Lins; quer dizer, tenho raízes fincadas nos bangüês; sou, para minha honra, aparentado com José Lins do Rego. Meu pai, Severino Lins Falcão, era, segundo a memória de todos, “filho natural” de um Senhor-de-Engenho daquele baixo curso do Paraíba. Esse Senhor-de-Engenho, “Seu Lôla”, como era chamado, e também meu pai, são personagens do romance. Volto a Isaías. Este foi criado por Sabaó; diziam que era, na verdade, filho do padre. Quando aparece no livro, logo no início, Isaías tem oito anos de idade, aparenta muito mais, porque é grandalhão, e acaba de perder o pai – o homem que vivia com a mãe dele. Diante da penúria da família, Sabaó aceita criar o menino, que se transforma em seu braço direito, desde as missas, que ajudava a rezar como coroinha e assobiador das músicas sacras, até pesquisador de seu anunciado livro em parceria com o filólogo português José Joaquim Nunes. Isaías, que é também balconista da farmácia, faz o serviço militar no Tiro de Guerra de Itabaiana, utiliza seu tamanho para prestar serviços a um Exército que desconhecia, é óbvio, os direitos humanos fundamentais e, em pleno fulgor da revolução de 30, conhece José Américo por vias transversas. É, modéstia à parte, um bom personagem; um personagem de ficção por excelência e eu me orgulho bastante de o ter concebido.

15. Saindo um pouco do romance, como jornalista e paraibano, qual a sua visão da Revolução de 30 e do assassinato de João Pessoa? Os livros lançados até hoje sobre o assunto conseguiram dar a dimensão correta do episódio, como ocorreu com Canudos através das páginas de Euclides da Cunha?

R – É muito difícil, quase impossível, ter-se a “dimensão correta” da Revolução de 30 na Paraíba; há muitas testemunhas, inúmeros textos apaixonados, e sabe-se que a paixão não é a melhor conselheira de um historiador. Há, sobre os acontecimentos, muitos “desabafos”, assim os podemos chamar; personagens glorificados numa obra são impiedosamente execrados noutra. Entretanto, é exatamente esse espetacular desencontro de opiniões e idéias que transformam aqueles dias num excepcional cenário de romance. Em Canudos, que rendeu uma das maiores obras da literatura brasileira, a única testemunha ocular (e com olhos de escritor) foi Euclides da Cunha. Quando escreveu A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa confessou ter-se baseado n’Os Sertões. Tudo o que se fez e venha a ser feito sobre Canudos terá como ponto de partida a obra de Euclides. E olhe que os historiadores têm apontado inúmeras falhas em Os Sertões, falhas que devem existir realmente, pois Euclides não era um historiador e sim o enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo. E, definitivamente, não se pode exigir de um escritor e jornalista a precisão metodológica do historiador. Eu embarco nessa canoa e esclareço que também sou jornalista e escritor, mereço tanta indulgência quanto Euclides, e talvez mais, porque não sou testemunha ocular de coisa alguma e as pessoas que assim se apresentam são, como disse, movidas pelo envolvimento pessoal, a emoção.

16. E a Revolta de Princesa? Não é um tema pouco explorado por historiadores, pesquisadores e até ficcionistas?

R – Em meu romance há inúmeras cenas da Revolta de Princesa, através dos depoimentos de Zé Américo, aos quais me refiro na tal “Advertência ao Leitor”. Preferi caminhar pela mão do Mestre porque o texto literário me oferecia beleza e facilidades. Poderia ter bebido doutras cacimbas, como os trabalhos de Inês Caminha Lopes Rodrigues, Ademar Naziazene, José Gastão Cardoso, José Leal, dentre outros, mas me convenci de que acabaria me confundindo, sem nenhum refrigério; afinal, eu não estava escrevendo História, simplesmente utilizava acontecimentos históricos como cenário de ficção. Sinto falta, como jornalista e, principalmente, como leitor, de uma obra que esgotasse o assunto. Isso é tarefa para um historiador com o nível do José Octávio de Arruda Melo, por exemplo. O livro dele A Revolução Estatizada – Um Estudo Sobre a Formação do Centralismo em 30, brilhantíssimo estudo acadêmico (tese de Mestrado na Universidade Federal de Pernambuco), é base natural de uma obra maior que está pedindo para ser escrita. José Octávio é o profissional talhado para desempenhar tal missão; tem todos os recursos do moderno historiador e ainda escreve muito bem.

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

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