Papa Francisco: não há, não devem haver “vidas descartadas”

Time 1

 

A revista Time elegeu o Papa Francisco Pessoa do Ano 2013, explicando que é raro que “um novo protagonista consiga tanta atenção no palco do mundo”.

“O que torna este Papa tão importante é a rapidez com que cativou milhões que tinham desistido de ter esperança na Igreja. […] Em escassos meses, Francisco elevou a missão de reconfortar da Igreja – a missão de servir e confortar os que mais precisam – acima da doutrina política que fora tão importante para os seus antecessores”, escreve a revista, justificando a escolha.

Lider da Igreja católica desde 13 de Março, o argentino Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, que sucedeu a Bento XVI, é o primeiro não-europeu a cumprir esta função suprema em cerca de 1300 anos.

Com o seu estilo modesto e próximo das pessoas, ele fez soprar ventos de mudança numa Igreja católica em crise, apesar dos seus 1.2 milhões de fieis.

“Em nove meses, ele soube colocar-se no centro das discussões essenciais da nossa época: a riqueza e a pobreza, a equidade e a justiça, a transparência, a modernidade, a globalização, o papel da mulher, a natureza do casamento, as tentações do poder”, resumiu a directora da Time, Nancy Gibbs.

pope-time 2

O fogo da misericórdia

por Giovanni Maria Vian

A publicação da mensagem do bispo de Roma para o dia mundial da paz logo depois da decisão da revista “Time” de declarar o Papa Francisco “homem do ano” é sem dúvida uma coincidência casual. Contudo, precisamente o texto pontifício que indica de novo a fraternidade como fundamento e caminho da paz explica o porquê da escolha da revista norte-americana, tão difundida quanto influente.
De facto, num ano marcado por um acontecimento sem precedentes como a renúncia de Bento XVI, o seu sucessor que veio “quase do fim do mundo”, soube impor-se em pouquíssimo tempo à atenção mundial sendo simplesmente, e portanto revelando, ele mesmo: um homem, um cristão, um bispo da Igreja preocupado unicamente testemunhar e anunciar o Evangelho. Com gestos e palavras que fazem admirar todos pela sua autenticidade.
Os exemplos já são muitíssimos, da atenção a cada pessoa encontrada a intervenções diversas, mas como invadidos por um fogo interior – o testemunho pessoal do Papa Francisco – do qual cada um sente imediatamente a credibilidade. Assim na Evangelii gaudium, verdadeira suma programática de um pontificado que quer a Igreja em estado permanente de missão, como na mensagem para o dia mundial da paz, e como no discurso a um grande número de embaixadores.
O texto sobre a paz começa desejando a indivíduos e povos “uma existência cheia de alegria e de esperança” porque reconhece em todos uma aspiração à fraternidade. Não é optimismo ingénuo porque na mensagem se segue a forte denúncia das contínuas violações dos direitos humanos, “sobretudo do direito à vida e à liberdade de religião”, das guerras visíveis e das “menos visíveis, mas não menos cruéis, que se combatem em âmbito económico” destruindo vidas e empresas.
Se é clara a indicação dos males que marcam o actual momento histórico, de igual modo clara é o seu diagnóstico. “As éticas contemporâneas mostram-se incapazes de produzir vínculos autênticos de fraternidade” porque “a raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus” ressalta de facto sem meios-termos a mensagem, que repete com clareza uma expressão muitas vezes reafirmada pelo Papa Francisco: não há, não devem haver “vidas descartadas”.
Iniciado por Paulo VI há quase meio século, o dia mundial da paz é desde então uma ocasião para que a Igreja recorde a todo o mundo palavras muitas vezes ouvidas, mas não por isso menos verdadeiras, sobre a necessidade de restabelecer relações fraternas nas famílias e nas comunidades humanas. Através de estilos de vida sóbrios, com a reconsideração dos modelos de desenvolvimento e o contraste de crimes vergonhosos como o tráfico de seres humanos, que o Papa Francisco denuncia incansavelmente.
Por estas denúncias claras, fruto de um testemunho em primeira pessoa, o bispo de Roma suscita interesse. Mas admira talvez mais ainda o anúncio da misericórdia de Deus porque o homem pode converter-se sempre, e portanto “nunca deve desesperar da possibilidade de mudar de vida”. E há provavelmente também este desejo escondido e contradito na base do reconhecimento do Papa como “homem do ano”.

Vídeo

 

timepapacapa 3

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Um comentário sobre “Papa Francisco: não há, não devem haver “vidas descartadas””

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s