A imprensa e o maior caso de tráfico de cocaína transportada pelo helicóptero do pó

Meia tonelada de cocaína não é notícia, porque envolve milionários ou bilionários traficantes. Prender um pobre jovem negro, com uma grama,  é um espanto para a TV Globo. Quantos negros a polícia matou, quando conquista os morros, as favelas, para sequestrar e torturar pequenos ‘aviões do tráfico’, quando os lá de cima pedem pressa no inquérito e liberação já do helicóptero do pó?

O senador Aécio Neves também quer pressa. Diz ele: O deputado Augusto Perrella, dono do helicóptero, tem que se explicar rapidamente sobre o ocorrido. “Ele tem que explicar. Até hoje não vi nada que o vinculasse a essa questão”.

Ainda de acordo com Aécio, o deputado deve ter a oportunidade de defesa. “Temos que dar a ele o direito de defesa, mas é preciso que isso seja rapidamente esclarecido”, analisou.

Escreve um tal de “jornalista” Wando, sem sobrenome:

Quem é o dono desta meia tonelada de cocaína pura?
Quem é o dono desta meia tonelada de cocaína pura?

A imprensa está sendo acusada de minimizar um suposto caso de tráfico internacional que supostamente envolveria parlamentares oposicionistas supostamente ligados a Aécio Neves. Até o insuspeito Zé Simão entrou na onda acusatória:

“Se o helicóptero fosse de alguém do PT, seria abertura do Jornal Nacional”. Rarará!”

Pesquisei o assunto com cuidado e posso garantir aos meus leitores que trata-se do mais absoluto trololó. Vamos aos fatos: Gustavo Perrella, deputado estadual mineiro pelo Solidariedade e filho do senador Zezé Perrella, foi traído por um de seus melhores funcionários. Infelizmente, o empregado abusou da confiança – e vocês sabem como está complicada essa gente hoje em dia! – e foi flagrado usando o helicóptero particular de Perrella para transportar quase meia tonelada de pasta de cocaína.

A confiança que o deputado depositava no piloto era tanta que chegou a lhe empregar numa das empresas da família, além de indicá-lo para um cargo na Assembleia Legislativa de Minas. Lá ele ganhava um salário e uma ajuda de custo pra encher o tanque do possante voador de Perrelinha.

O deputado mineiro foi tão surpreendido com a barbaridade que estava sendo cometida em sua aeronave, que imediatamente acusou o piloto de outro crime: o roubo do helicóptero. Diante do desmentido do funcionário, Perrela subitamente lembrou que havia autorizado aquela viagem através de duas mensagens de celular, e então mudou sua versão. Admitiu que a aeronave não tinha sido roubada e confirmou a liberação do transporte de “insumos agrícolas”.

Bom, por que a acusação dirigida a nós da grande imprensa é injusta? Ora, com Dirceu, Delúbio e Genoíno presos, estádios da Copa desabando, e todo o caos político, econômico e social que vivemos, um caso desses automaticamente ganha menor importância. Um simples piloto que trafica drogas escondido do patrão não é e não deve ser um assunto do interesse público.

Eu e outros colegas da imprensa, por exemplo, mal estávamos “acompanhando esse caso”:

wandvogel
Entenderam por que não damos tanto destaque ao assunto? Isso é papo de piloto, uma pauta no máximo para o jornalismo especializado em aviação civil, não para quem cobre os acontecimentos políticos do dia a dia.

Perguntam também o que nos levou a abafar um suposto escândalo de 2011 envolvendo a família de Aécio Neves, apenas porque esta é intimamente ligada à família Perrella. Conto-lhes mais este trololó: Tancredo Aladin Rocha Tolentino, primo de Aécio, carinhosamente conhecido como “Quêdo”, foi preso por chefiar uma quadrilha acusada de vender absolvições para traficantes de drogas, além de ter sido condenado em 97 por crime contra o patrimônio e contra a economia popular. Quase na mesma época, outro primo de Aécio, Rogério Lanza Tolentino, havia sido condenado a 7 anos e 4 meses de prisão por lavagem de dinheiro. Todos esses assuntos não tiveram destaque no Jornal Nacional, não tocaram na CBN e não foram analisadas na A2 da Folha. Claro! As provas contra eles são escassas. Isso fica claro quando constatamos que Quêdo conseguiu um habeas corpus e, logo em seguida, tentou sair candidato à prefeitura de Claudio (MG) pelo PV, quando foi barrado pelo Ficha Limpa.

Poucos sabem, mas Quêdo é uma pessoa muito família, um cara do bem. Organiza as cavalgadas com familiares seus (e dos Perrella) em sua fazenda, comanda a cachaçaria da família Neves em Cláudio (MG) e sempre foi muito querido por todos da região. Quando Aécio caiu do cavalo quebrando 5 costelas, quem estava lá oferecendo o ombro amigo? Ele, o dono da fazenda, o primão Quêdo.

Mas o que o helicóptero de Perrellinha fazendo tráfico internacional* tem a ver com Aécio Neves, que indicou Zezé Perrella para o Senado e cujo primo vendia absolvição para traficantes de drogas? Absolutamente nada. Mas, claro, os patrulhadores da pauta alheia insistem em enxergar nuvens nesse céu de brigadeiro. Tudo isso para tirar foco do que realmente interessa: a prisão dos mensaleiros e os escândalos que a envolve. A gente sabe muito bem como se comporta essa gente chicaneira. #AcordaBrazil
* (Atualização via @rei_lux) “Faltou informar que o helipóptero fez uma parada em Divinópolis, onde o primo Tancredinho (Quêdo) liberava traficantes.”

 

 

Publicado por

Talis Andrade

Jornalista, professor universitário, poeta (13 livros publicados)

Um comentário sobre “A imprensa e o maior caso de tráfico de cocaína transportada pelo helicóptero do pó”

  1. Estamos em um Estado falido no qual a governação é ineficaz e não mantém de fato o controle sobre o território, em função de altas taxas de criminalidade, corrupção, um extenso mercado informal e judiciário ineficaz.
    Só por aqui a gente já descobre o que quer dizer ‘país desenvolvido’ e ‘país subdesenvolvido’.
    Neste país, comparar a esquerda com a direita é como trocar seis por meia dúzia.
    Corrupção burocrática ou burocracia corrupta?
    Querer combater a corrupção com uma máquina excessivamente burocrática significa estender cada vez mais os tentáculos corruptivos externos para dentro da própria máquina!
    Os altos impostos, um infraestrutura despedaçada, o excesso de uma paralisante burocracia, uma saúde e uma educação paupérrimas são os maiores inimigos do crescimento nos mais variados setores econômicos deste Brasil.

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